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Comissão de frente da Colorado do Brás chama atenção em desfile seguro

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Por Will Ferreira e fotos de Fábio Martins

Quinta escola a desfilar no Grupo de Acesso I de São Paulo, realizado neste domingo, a Colorado do Brás chegou à passarela para defender o enredo “Os Encantos da Raiz do Mandacaru”, que utilizava a conhecidíssima e característica planta de ambientes secos para fazer uma grande homenagem à região Nordeste do Brasil. Com uma coreografia toda especial que misturava personagens com temáticas quase circenses com outros tipicamente cangaceiros, a comissão de frente chamou atenção de todos no Anhembi. O samba, que não era dos mais aclamados no pré-carnaval, também teve bom rendimento, com boa atuação do intérprete Léo do Cavaco e da bateria da agremiação, sob a batuta de mestre Acerola de Angola. A exibição durou, ao todo, 57 minutos.

Comissão de Frente 

Com o nome de “Raízes Nordestinas: Luta, Força e Alegria”, o segmento foi um dos destaques da apresentação, sem dúvida alguma. Surpreendendo desde quando ela foi apresentada, na época dos ensaios técnicos, o quesito comandado por Paula Gasparini recebia todos os olhares quando ganhava mais alguns metros na Evolução. Para o público, o ápice acontecia no momento em que a personagem de destaque feminina saía de uma mala e era apresentada com o corpo todo molenga, causando surpresa e arrancando aplausos de todos. O pequeno tripé, com a representação de cactos, fitas e um calango; e diversos componentes fantasiados de cangaceiros deixavam explícita a relação com o tema nordestino – algo primordial para que a mensagem fosse passada.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O que mais impressionou em Brunno Mathias e Jéssica Veríssimo foi a vitalidade e a velocidade com que executavam cada movimento – sobretudo os giros. Com ótima sincronia entre si, mestre-sala e porta-bandeira deslizavam com muita celeridade ao longo de todo o Anhembi – e, em alguns momentos, impressionavam com rodopios cada vez mais rápidos. Tal ousadia, é bem verdade, quase custou à dupla, já que, ao voltar de um giro, o pavilhão da escola quase enrolou no quarto módulo – e a rapidez de raciocínio de Jéssica impediu qualquer transtorno. No mais, apenas elogios ao Casal, que cumpriu todos os balizamentos obrigatórios e, ainda por cima, em determinados momentos, até mesmo pulava e dançava ritmos nordestinos para mostrar disposição.

Enredo

Para falar da temática nordestina, a agremiação escolheu um ponto de partida comum a boa parte da região: o mandacaru, cacto bastante conhecido pelos locais que tem características bastante específicas e que tornam o surgimento da planta ideal em locais com climas desafiadores – “firme, forte, casca grossa, capaz de se adaptar em qualquer situação e raiz cravada no solo”. O fio condutor leva o desfile e o samba-enredo por uma série de características marcantes ao Nordeste e ao povo do local, como a resiliência, a religiosidade e a alegria. Para encerrar a exibição, a completa comunhão da região com a escola dão o tom bastante positivo para o desfecho do desfile.

Alegorias

Um desfile sobre a temática nordestina costuma ter certa repetição nas cores utilizadas – muitos tons terrosos (como marrom e bege), vermelho, amarelo, laranja. Nesse aspecto, o desfile da Colorado do Brás surpreendeu muito positivamente. O abre-alas, “O Mar E Seus Mistérios”, como o próprio nome diz, era majoritariamente azul; já o segundo, “Resistência vem da Fé: o Sincretismo”, mostrava uma entidade de religião africana, com muitos detalhes em branco. Por fim, o último carro, “‘Arraiá’ do Brás – Bem-Vindos ao Nordeste”, aí sim, trazia uma cromática mais em comunhão com o que se pensa sobre o enredo. Como tudo estava dentro da temática, ficam apenas os elogios na agradável variação de cromia ao longo da exibição.

Fantasias

Seguindo a lógica estética das alegorias, as fantasias também tinham ótima mescla de cores. A ala 01, “A Ambição Aportou”, por exemplo, fazia referência aos invasores portugueses – logo, com muito rubro-verde. Já a Ala das Baianas, a 08, “A Lavagem do Bonfim”, era majoritariamente branca. O mesmo elogio feito no quesito “Fantasias” deve ser repetido aqui. Também é importante pontuar que acabamento, concepção e execução também foram muito bem pensados por toda a agremiação. Em sua maioria, os costeiros tinham envergadura média, tornando o desfile do componente ligeiramente mais leve – e sem atrapalhar o companheiro próximo.

Harmonia

A agremiação, é bem verdade, cantou o samba de maneira uniforme ao longo de todo o desfile, sem grandes destaques positivos e negativos a se apontar. Há, entretanto, uma observação a fazer: o volume dos componentes não era dos mais altos. Não é o suficiente para causar problemas para a instituição do Centro no dia da apuração, mas chamou atenção o fato dos Harmonias, em sua maioria, estarem preocupados com o alinhamento dos componentes em cada ala, e não em pedir mais voz de cada um deles.

Samba-enredo

Descrevendo de maneira bastante satisfatória o enredo apresentado, os compositores Lico Monteiro, Richard Valença, Leandro Thomaz, João Perigo, Lucas Macedo, Jefferson Oliveira, Telmo Augusto, Felipe Zizou e Mingauzinho aproveitaram todas as deixas possíveis que estão presentes no fio condutor do desfile e incluíram algumas expressões bastante marcantes do Nordeste – como “arraiá”, “avexe” e “fulô”. Vale destacar que, além dos refrões, o último verso da canção (“Puxa o fole sanfoneiro no forró da Colorado”) foi cantado com mais animação pelos componentes – sobretudo nos momentos nos quais a Ritmo Responsa faz uma bossa marcando tal passagem. A bateria, por sinal, foi comandada pela primeira vez por Mestre Acerola de Angola e, de cara, já foi visto um ritmo ligeiramente mais célere em relação aos ritmistas de anos anteriores. Outro grande destaque ligado ao quesito é Léo do Cavaco: “apenas” no segundo ano na instituição, ele já está perfeitamente adequado ao espírito da escola, tornando-se um líder em tudo que envolve o conjunto musical.

Evolução

Logo no começo do desfile, pouco antes do casal se apresentar no primeiro módulo, foi perceptível que a ala à frente do primeiro Casal, a primeira de toda a agremiação, “A Ambição Aportou”, o grupamento acelerou o passo enquanto a dupla se preparava para defender a pontuação – em questão de segundos, após rápida conversa entre alguns integrantes do staff da Colorado, a situação foi resolvida. Depois de tal momento, toda a agremiação evoluiu de maneira uniforme, sem sobressaltos. Como coroação do bom trabalho no quesito, vale destacar o recuo da bateria: com um movimento simples; na metade do caminho, os ritmistas pararam por alguns instantes, voltaram e ocuparam totalmente o box – toda essa dinâmica durou cerca de 90 segundos.

Outros Destaques

A Ritmo Responsa, comandada por Mestre Acerola de Angola, teve três destaques na corte: a rainha Camila Prins, a princesa Cami Mattos e a madrinha Daniele Sansone.

Nenê de Vila Matilde cria conto de fadas para homenagear Lia de Itamaracá em desfile marcado pela plástica impecável

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Por Lucas Sampaio e fotos de Fábio Martins

A Nenê de Vila Matilde realizou na noite de domingo seu desfile no Sambódromo do Anhembi no carnaval de 2024. O conjunto da obra do desfile da Nenê foi de alto nível, especialmente na parte plástica com seu belo conjunto de fantasias e alegorias. A Águia da Zona Leste foi a terceira escola a se apresentar pelo Grupo de Acesso 1, fechando os portões aos 58 minutos.

Comissão de Frente

A comissão de frente intitulada “A Profecia das Águas” se apresentou em dois atos marcados por passagens do samba e contou com um elemento cenográfico na forma de um grande tapete, que foi arrastado ao longo da Avenida por alguns dos atores. Uma menina protagoniza a comissão representando Lia na infância ao lado do cachorro Peri na beira da praia de Itamaracá em forma de tapete, onde bailam homens-peixe e sereias e é puxado por pescadores que vivem no mar após serem seduzidos com o canto de Iemanjá.

No primeiro ato, Lia brinca com Peri, mas em dado momento algo a aborrece. Enquanto o cachorro tenta chamar sua atenção, os pescadores e os seres marinhos saem do mar e chamam a atenção da criança, a conduzindo ao mar para receber a profecia de que um dia será rainha.

Certamente uma das comissões de frente mais simpáticas da temporada de 2024. O grupo cênico interage muito bem em todos os momentos, conduzindo a narrativa da trama com graça e chamando a atenção do público. A atuação da menina Lia e do cachorro Peri e a caracterização da maquiagem dos seres do mar impressionam a todo o momento, e a revelação no ato final da profecia da rainha Lia, na forma do desfraldar de uma camada do tapete com a imagem da homenageada estampada, fazem do conjunto da apresentação um excelente começo de desfile para a Águia da Zona Leste.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal da Nenê, formado por Cley Ferreira e Thayla Trentin, desfilou com fantasias representando os “Seres Marinhos”. A dupla teve boa atuação nos dois primeiros módulos cumprindo os requisitos exigidos pela dança com exatidão. Uma pequena falha de sincronia nos giros do casal foi notada ao final da passagem pelo terceiro módulo, que pode não comprometer a nota final do quesito no todo do desfile.

Enredo

O enredo da Nenê de Vila Matilde em 2024 foi “Cirandando a Vida pra lá e pra cá. Sou Lia, Sou Nenê, Sou de Itamaracá”, assinado pelo carnavalesco Fábio Gouveia. A proposta da Águia foi contar a história da cantora e compositora Lia de Itamaracá de maneira lúdica, desenvolvendo um conto de fadas no qual a artista, ainda na infância, recebe a profecia de que um dia será rainha. A partir da revelação da profecia, a jornada de Lia é retratada passando pelo Reino da Rainha do Mar, passando pelos desafios enfrentados pela artista ao longo da vida e finalizando com a festa de coroação da Rainha Lia de Itamaracá.

A escola conseguiu com honras escapar de fazer uma homenagem linear ao desenvolver um conto de fadas para ilustrar a trajetória de vida de Lia de Itamaracá. Todos os elementos foram costurados com clareza, e o samba ajudou a leitura de todo o segmento visual. Uma apresentação exemplar, digna de uma escola com 11 títulos da elite paulistana.

Alegoria

A Águia da Zona Leste se apresentou com três carros alegóricos. O Abre-alas foi intitulado “O Palácio da Rainha do Mar, Odoyá mãe sereia”, enquanto a segunda alegoria se chamou “Cirandando a Vida” e a terceira recebeu o nome de “Festa de Coroação”.

O conjunto alegórico da Vila Matilde foi impecável na beleza e nos acabamentos. Conseguiu retratar todas as propostas do enredo e costurar com as alas de forma a transformar o desfile da Nenê em uma apresentação didática e agradável. O Abre-alas chamou atenção especialmente pela escultura da sereia, da qual saíam lágrimas dos olhos que caiam em um chafariz. Lia de Itamaracá desfilou no último carro da escola e recebeu sua coroação de maneira digna e nos braços do povo.

Fantasias

As fantasias da Nenê retrataram nas alas as diferentes passagens história de vida de Lia de Itamaracá de acordo com a proposta imaginativa da escola. O primeiro setor trouxe o mar, seres marinhos e sereias. Já o segundo setor apresentou diferentes danças populares. O último setor trouxe as glórias da carreira de Lia.

As fantasias da Nenê se destacaram pela riqueza de detalhes e leveza que permitiu aos desfiles brincarem o carnaval despreocupados. Destaque especial para a ala “Ilha de Itamaracá – A Pedra que Canta”, formada por duas vestimentas distintas que combinaram perfeitamente.

Harmonia

A comunidade da Vila Matilde clamou o samba da escola ao longo da Avenida muito bem. Havia uma preocupação ao longo da temporada quanto a como os componentes lidaram com determinados versos do samba, mas a Nenê aplicou um andamento ao samba que permitiu o cantar sem grandes dificuldades, contribuindo positivamente para o desempenho do quesito no desfile.

Samba-Enredo

O samba da Nenê de Vila Matilde foi composto por Kaska, Léo do Cavaco, Silas Augusto, Luís Mancha, Dr. Élio, Vitão e Bruno Giannelli, e foi defendido na Avenida pela ala musical liderada pelo intérprete Agnaldo Amaral. O samba conta a trajetória de Lia desde a infância até a consagração da sua carreira dentro da proposta lúdica do enredo. Alguns versos principalmente da primeira parte do samba são longos, o que ao longo da temporada de ensaios gerou a preocupação quanto ao desempenho da obra na Avenida, mas a escola conseguiu lidar bem com esse detalhe e fez uma apresentação de alto nível com a ala musical liderada pelo consagrado intérprete Agnaldo Amaral, que esteve em grande noite.

Evolução

Irretocável. Durante todo o desfile, o cortejo da Nenê de Vila Matilde fluiu com muita tranquilidade, parando apenas para a manobra de recuo da bateria. Os componentes puderam brincar o carnaval despreocupados com o tempo de 58 minutos.

Outros Destaques

A “Bateria de Bamba” comandada por mestre Matheus Machado teve grande desempenho, aplicando bossas descontraídas que ajudaram a enriquecer o desempenho do samba da Nenê de Vila Matilde. A Rainha Gabriela Ribeiro chamou atenção com uma colorida fantasia. Mas o destaque especial fica mesmo para a presença ilustre da homenageada, Lia de Itamaracá, que desfilou no último carro recebendo assim sua merecida coroação.

Torcida Jovem vai bem nos quesitos musicais ao exaltar a cultura bantu em seu retorno ao Acesso I

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Por Eduardo Frois e fotos de Fábio Martins

Retornando ao Grupo de Acesso I do carnaval paulistano, a Torcida Jovem foi a segunda agremiação a desfilar nesta noite de domingo no sambódromo do Anhembi. Com o enredo “Raíz Afro Mãe, Meu Brasil Bantu”, a escola se destacou nos quesitos musicais como samba-enredo, bateria e harmonia. A alvinegra da Zona Leste de São Paulo encerrou sua passagem com 58 minutos de desfile.

Comissão de Frente

A fantasia da comissão de frente da Torcida Jovem veio representando a Realeza Africana. Os componentes estavam divididos dois grupos distintos. O primeiro deles, era composto por cinco mulheres guerreiras, usando roupas mais leves em preto e marrom, além do adereço de cabeça cinza e laranja. Já o segundo grupo possuía nove integrantes (cinco mulheres e quatro homens), com fantasias mais volumosas, com costeiros em tons de laranja e preto, e uma coroa na cabeça.

A coreografia foi idealizada por Ricardo Dias e também estava dividida entre os dois grupos. Enquanto as mulheres guerreiras da comissão executavam uma dança mais intensa, expressiva e dinâmica, movimentando bastante o corpo; o outro grupo veio com a proposta de uma apresentação mais contida, mas que em determinados trechos do samba ambos grupos faziam passos iguais. Em outro momento, ainda, os integrantes formavam um circulo na pista do Anhembi. A apresentação ocorreu sem contratempos.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Kawê Lacorte e Nathália Bete, representava “Mwata Kazembe e Mwatisope”, do Reino de Cazembe, um dos maiores e mais organizados dos reinos Lunda, na região da África Central. A fantasia do casal seguiu as mesmas tonalidades das roupas comissão de frente, das baianas e da estética do abre-alas; com o diferencial de uma estampa preta e branca que remetia a pele de uma zebra.

A luxuosa indumentária do primeiro casal causou impacto à primeira vista. Muitas penas alaranjadas faziam parte da fantasia, na saia da porta-bandeira e no costeiro do meste-sala, proporcionando um efeito visual muito interessante durante o bailado. A dupla esbanjou simpatia e desenvoltura durante a apresentação na avenida.

No entanto, em frente à terceira cabine de jurados, as penas do costeiro do mestre sala chegaram a tocar o pavilhão da escola durante um giro executado por ambos, muito provavelmente por causa de uma rajada de vento. Como o regulamento passou por mudanças neste carnaval, não se pode afirmar se o acontecido será passível de desconto. Além de que haverá o descarte da menor nota entre os quatro jurados.

Enredo

O enredo “Raíz Afro Mãe, Meu Brasil Bantu” é fruto da pesquisa de Marcelo Caverna, que tambem é o mestre de bateria da escola. A Torcida Jovem se propôs a contar a história do povo banto, que é originário do continente africano e foi escravizado no Brasil.

A abertura da alvinegra da Zona Leste paulistana relembrou os navios negreiros que transportavam o povo banto da África para servirem de mão-de-obra escrava em terras brasileiras. A cabeça da escola veio predominantemente em cor de abóbora e marrom.

Em seguida, a Jovem passou a exaltar toda a herança cultural bantu, que hoje em dia está presente em nossa cultura. A música, a culinária e a religiosidade estiveram presente no setor final da escola, que encerrou seu desfile com a bateria representando a tradição guerreira africana, ressaltando a importância histórica do tambor como instrumento de batalha.

Alegorias

O conjunto de alegorias apresentado pela Torcida Jovem foi bastante rico e grandioso em altura. O carro abre-alas era um verdadeiro mar em chamas e fazia alusão à jornada transoceânica da diáspora africana. A parte frontal era a proa de um enorme navio negreiro que flutuava em labaredas de fogo que tinham um efeito de luz led laranja. A parte traseira da alegoria trazia diversas esculturas com traços africanos e um belo acabamento nas laterais.

O segundo carro da alvinegra da Zona Leste exaltou a rica herança afro-brasileira que hoje é tão importante para a cultura nacional. Duas esculturas de luxuosos elefantes, símbolo do maracatu, compunham o “avancé” da alegoria. Uma escultura de um rosto de uma mulher negra e uma grande coroa dourada compunham a parte central da alegoria. Nas laterais, referências às diversas manifestações culturais oriundas da cultura africana. Um grupo de componentes veio no carro representando o maculelê.

A terceira e última alegiria da Jovem foi batizada de “Inkissi – Raízes sagradas” e trazia na parte central do carro enormes esculturas negras, vestidas de azul e branco, e que carregavam seus adereços. Velas, também nas cores azul e branco, complementavam o aspecto sagrado da alegoria que encerrou o desfile da escola.

Fantasias

A Torcida Jovem apresentou um conjunto de fantasias de belo efeito visual na pista. A alas das baianas veio logo no início da escola simbolizando os conhecimentos transmitidos de geração pra geração. A fantasia das senhoras eram quase que totalmente em laranja, com detalhes em marrom.

As quatro alas seguintes representavam os povos do Congo, da Guiné, de Moçambique e de Angola, respectivamente. Eram fantasias multicoloridas, de efeito interessante e que possuiam informações na frente e no verso da indumentária.

As alas do segundo setor da Jovem trouxeram a herança cultural bantu na realidade brasileira, como a congada, a culinária, o artesanato e a musicalidade. Destaque para a ala “Congada – Poderosa Manifestação da Cultura Bantu”, que apresentou a fantasia mais requintada da escola.

Harmonia

A harmonia da Torcida Jovem foi sem dúvidas um dos principais pontos do desfile alvinegro. Pode-se notar um bom entrosamento do samba com o carro de som e a bateria Firmeza Total. O canto foi uniforme durante toda a passagem da Jovem ao longo da passarela do samba.

Durante o trecho do refrão do meio os componentes aumentavam a intensidade do canto. As alas: ‘5 – Povo de Angola’ e a ala dos passistas ‘6 – Rainha Nzimba, inspiração para a resistência’ foram as que apresentaram o canto mais vigoroso.

Samba-enredo

A trilha sonora do desfile da Jovem para este carnaval proporcionou um dos melhores momentos da passagem da escola alvinegra. O trecho: “Ôoo, Maracatu, Maculelê/ Ôoo, Tem capoeira e fuzuê” impulsionou o cantar da comunidade da zona leste, que se divertia na avenida a cada passada do samba-enredo.

A obra da Torcida Jovem tem a “pegada afro”, tanto em letra quanto em melodia, que o enredo pede. O samba é de autoria de Turko, Imperial, Fabio Souza, PH, Minuettos, Portuga, S. morais, Reinaldo Marques, Ricardo Mandu e Cleyton Reis.

Evolução

A Torcida Jovem evoluiu de forma contínua e coesa, sem apresentar clarões ou buracos que pudessem comprometer a uniformidade do desfile da escola. As alas da TJ, que ao todo reuniram cerca de mil componentes, concluíram a passagem pelo Anhembi dentro do tempo, aos 58 minutos, mantendo o mesmo ritmo do início ao fim.

Outros Destaques

A bateria Firmeza Total de mestre Marcelo Caverna foi outro segmento da Jovem que pode ser considerado um dos ápices do desfile. Uma bossa com alto grau de dificuldade na retomada foi bem executada pelos ritmistas alvinegros, que vieram com uma fantasia preta e branca batizada de “Tradição Guerreira”.

A ala da velha guarda desfilou na parte frontal do último carro, e trouxe nas mãos de seus componentes lenços com o rosto e o nome de Cosme, o fundador da Torcida Jovem, que faleceu no ano de 2023.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Imperatriz no desfile

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Um excelente desfile da bateria da Imperatriz Leopoldinense, comandada por mestre Lolo. Uma conjunção sonora impecável foi exibida. Graças ao equilíbrio e a equalização de timbres de destaque da “Swing da Leopoldina” (SL). Bossas dançantes foram apresentadas com precisão, garantindo empolgação da plateia e componentes sendo impulsionados pelo ritmo exemplar da atual campeã do Carnaval.

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Uma bateria da Imperatriz com uma afinação de surdos extremamente privilegiada foi percebida. Surdos de primeira e de segunda foram precisos e firmes por toda a pista. Já o balanço profundamente envolvente das terceiras foi notado tanto em ritmo, quanto em bossas. Uma ala de repiques ressonantes tocou conectada a um naipe de caixas de guerra bastante sólido.

Na parte da frente da SL, um naipe de cuícas seguro mostrou desenvoltura rítmica. O ponto alto das peças leves foi o casamento sonoro sublime entre uma ala de chocalhos primorosa e um naipe de tamborins esplêndido, que mesmo com um desenho rítmico simples, comprovou sua invariável qualidade com uma execução caprichada.

Bossas intimamente ligadas ao animado samba-enredo da Rainha de Ramos foram exibidas. Se aproveitando das variações melódicas para consolidar o ritmo, o leque de paradinhas refinado era de inegável bom gosto. Destaque para a paradinha com solo dos tamborins, como se batessem palmas. Chamou o público para junto do ritmo da “Swing da Leopoldina”, se revelando um acerto tanto musical, quanto principalmente energético. Paradinhas que se aproveitavam das diferenças entre os timbres mostraram versatilidade rítmica.

Na primeira cabine (módulo duplo) uma apresentação impecável foi realizada, sendo aplaudida pelos julgadores. Na segunda cabine (terceiro módulo) outra grande apresentação garantiu, inclusive, boa recepção popular. No último módulo de julgamento, um verdadeiro show foi dado pela bateria da Imperatriz Leopoldinense. Mestre Lolo, seus diretores e ritmistas têm motivos de sobra para voltarem para Ramos felizes e confiantes na pontuação máxima, diante de apresentações potentes para jurados e um ritmo de imensa qualidade.

Com plástica impecável e samba na boca do povo, Imperatriz se credencia fortemente na luta por um bi campeonato

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Por Lucas Santos e fotos de Nelson Malfacini

Motivada desde logo depois do título de 2023 por um bicampeonato que não aparece na Sapucaí desde 2008, a Imperatriz mostrou com o dia já quase clareando o porque de apostar nos profissionais que chegaram à escola no carnaval passado e de outros que já tem mais de alguns carnavais na Verde e Branca. Com trabalho primoroso e repleto de bom gosto e criatividade de Leandro Vieira, que promoveu soluções até diferentes dos últimos anos, a Rainha de Ramos ainda teve na dobradinha Pittty de Menezes e Mestre Lolo mais uma avassaladora apresentação que confirmou que o antes “Frankesnteis” samba da Imperatriz, criado a partir de uma junção de duas obras, se transformou em um belíssimo príncipe cigano, cantado, até nos momentos da bossa de seresta da Swing da Leopoldina pela comunidade e pelo público que esperou até de manhãzinha para cantar o “Vai clarear” a plenos pulmões. A ex-certinha de Ramos, apelidada por seu carnavalesco mais uma vez, foi quente na pista, mas também certinha, não cometendo erros e se colocando forte na briga. Com o enredo “Com a sorte virada para a lua, segundo o testamento da cigana Esmeralda”, a Imperatriz encerrou seu desfile com 1h09.

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Comissão de Frente

Marcelo Misailidis realmente conseguiu deixar bem escondida a proposta da comissão. Em meses de ensaio na rua Professor Lacê com os bailarinos vestidos todos de cigano ninguém poderia imaginar que a proposta para o quesito foi a apresentada esta noite. Em “A cigana e o fogaréu”, o coreógrafo trouxe o fogo, elemento central para o povo cigano. Com o elemento cenográfico se constituindo em uma enorme fogueira, com iluminação especial, os bailarinos se revelam como salamandras em estado de lúdica incandescência. Junto deles, Esmeralda, apresenta-se como uma divindade que, em torno das chamas (e tingida por sua coloração avermelhada) tentava conduzir o espectador a adentrar no universo místico que se descortinou ao longo de um desfile que se nutre do imaginário cigano.

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Na apresentação para o júri, os bailarinos subiam no elemento cenográfico e produziam com panos em estampas bastante fiéis a coloração das chamas, o movimento do fogo se consumindo. Enquanto isso, Esmeralda dançava e logo era içada por uma corda, no movimento de como que levitasse pelo ar, ao mesmo tempo que controlava uma bola de cristal (um drone) que subia ao controle da cigana. No final da apresentação, já no chão da alegoria, a cigana dançava e era consumida pelo fogo no movimento dos bailarinos. Foi uma apresentação criativa que procurou trazer o imaginário do tom misterioso dos ciganos, ainda que não tenha superado a apresentação da comissão de 2023. Mas, foi perfeita dentro da sua proposta, apenas em um dos módulos de jurados, que a bola caiu e a escola deve ser levemente penalizada.

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Mestre-sala e Porta-bandeira

Com uma fantasia simplesmente deslumbrante, abusando dos tons do dourado e das jóias próprias da cultura cigana e do bom gosto, a vestimenta “a cigana Esmeralda e o príncipe da França”, representava a porta-bandeira Rafaela Theodoro representava a cigana fictícia a quem é atribuído o testamento do enredo, tido como um tesouro por conter os ensinamentos e os métodos para ler a sina de um indivíduo, bailando com o pavilhão Leopoldinense enquanto seu figurino revela a tonalidade da pedra verde que ela carrega em seu nome. Ao verde é acrescentado o ouro tão apreciado pelo povo cigano, que prevaleceu sobre o figurino do mestre-sala Phelipe Lemos, coroado, ele é o príncipe da França. O nobre europeu com quem, segundo a narrativa fantasiosa da obra que inspira o desfile, a personagem foi casada.

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Na dança, a dupla mostrou o entrosamento de sempre, além de muita segurança e tranquilidade nos movimentos. Havia grande sincronismo, o pavilhão sempre bem desfraldado nas apresentações para os jurados. Um dos pontos altos foi no “O que é meu é da cigana..” em que os dois giravam de forma muito graciosa, bem casado com a bossa das palmas. A dupla ainda mesclou passos mais tradicionais com algumas pontuações do samba em movimentos. Apresentação irretocável.

Harmonia

Como pedido pelo diretor executivo da escola, João Drumond, em seu discurso antes do desfile, a comunidade desfilou como se estivesse fazendo um ensaio na Rua Professor Lacê em Ramos. E o que se vê lá? Muito canto, muita alegria e muita espontaneidade. Ajudados por uma Sapucaí que veio junto do samba, os componentes cantaram do início ao fim a obra da Imperatriz, de forma orgânica, natural, e felizes ao amanhecer, podendo justificar finalmente o “Vai clarear, olha o povo cantando no meio da rua…”. Com uma vestimenta que em sua maioria facilitou a evolução dos componentes, a comunidade de Ramos manteve o nível de canto até o final mostrando garra na briga pelo título.

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Já Pitty de Menezes, mostrou que já é um dos grandes intérpretes do carnaval do Rio de Janeiro, tranquilo, sereno, levou a obra com maestria, o samba que ele mesmo fez crescer nos ensaios de rua, de quadra em outras atividades da Imperatriz. Com muito vigor e chamando os foliões a todo momento para vir junto com a escola, o cantor também mostrou ter um time bem afinado de vozes que o acompanharam no samba, deixando ele à vontade para os cacos, terças e vocalizações.

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Enredo

Dividido cinco setores, o primeiro “a caravana, a festa e um manual delirante” a Imperatriz Leopoldinense esteve mergulhada em atmosfera cigana, já na comissão de frente iniciando o ritual da luz sobre o fogo introduzindo testamento de uma cigana chamada Esmeralda, que foi encontrado por um grupo de ciganos que se encarrega de trazer o artigo para terras brasileiras. Depois em “sonhando a vida feito carnaval” a escola recorreu ao conteúdo do testamento da cigana que prevê a interpretação de um sonho como uma das formas de se ler a sina de uma pessoa. No terceiro setor “destimo traçado: um calendário e a leitura da mão”trazendo a ideia de que o destino é algo pré-estabelecido como uma sina a ser cumprida que pode ser antecipada por um conhecimento adivinhatório.

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No penúltimo setor “os astros na imensidão” mergulhou nos ensinamentos atribuídos à cigana no campo astrológico. Por fim, o desfile se encerra em “O zodíaco e o prenúncio da sina da minha escola” fazendo lúdicos paralelos que se valem da permissividade carnavalesca e reivindicando a ficção e o delírio como premissas de atividades artísticas ligadas ao carnaval, entrecruzam as premonições zodiacais atribuídas à cigana em seu testamento ao mapa astrológico da escola de Ramos. Em geral, a ideia de mais uma ficção carnavalesca se mostrou extremamente criativa, arrojada e que dialogou facilmente com o público. A leitura estava bastante facilitada também nas fantasias e alegorias.

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Evolução

A Imperatriz, mais uma vez, contrariou quem achava que o fato de ela ser uma escola mais quente na pista como quer o seu carnavalesco, poderia acarretar em uma escola que não desse atenção aos quesitos de chão e mais técnicos. A Verde e Branca de Ramos ensaia muito e é bastante crítica com o seu trabalho. Por isso, mais uma vez a evolução foi bastante correta, sem buracos, sem correria, sem pausas acentuadas, mas ainda assim muito espontânea, quente, com os foliões felizes, dançando, sem muitas alas coreografadas. A caravana cigana do início, além de ser destaque no campo visual, dava toda a alegria do enredo. Eram ciganos legítimos na festa que faziam e contagiaram a Sapucaí. Desfile irretocável neste aspecto, perfeito.

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Samba-enredo

Com a fusão o samba ficou de autoria de Me leva, Gabriel Coelho, Luiz Brinquinho, Miguel da Imperatriz, Antonio Crescente e Renne Barbosa, com participações especiais de Daniel Paixão e Lucas Macedo; com a de Jeferson Lima, Rômulo Meirelles, Jorge Goulart, Sílvio Mesquita, Carlinhos Niterói e Bello, com a participação especial de Gigi da Estiva. O ex “frankeinstein” passou muito bem na Sapucaí como havia passado nos ensaios, e com uma ressonância muito grande no público.

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Como pontos altos mais uma vez, os refrões “Vai Clarear..” e “O destino é traçado na palma da mão”, além do “o que é meu é da cigana..” com seu jeito mais malandreado, inspirado nas batidas de umbanda, no ponto que é de mesma letra, e o “prenúncio da sina …” que vem logo antes e é um primazia em termos de melodia. A introdução da obra com todos os componentes batendo palmas, mestre Lolo subindo a bateria até o ” verde-esmeralda é vitória que virá” para entrar no “Vai Clarear…” foi surreal, melhor ainda do que já havia sido em todos os ensaios.

Fantasias

Leandro Vieira mostrou mais uma vez que domina muito bem a parte estética e que sabe fazer fantasia para carnaval. A paleta de cores dialogava muito com a temática de cada setor, desde o segundo que versava sobre as adivinhações de sonhos, em que espectro privava por tons mais claros, branco, como a névoa do mundo dos sonhos presentes nas fantasias como “Morfeu, sonho, devaneio e magia”, “sonhar com rosa” que traziam estes tons. Até no último setor que apresentava uma Imperatriz pisciana, pela sua data de fundação, presente nas águas, e com o azul como cor que predominava, como na ala de compositores “a certeza da minha” e na logo em seguida “o zodíaco e o prenúncio da sina”, com os astros celestes jogando energia para a escola.

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A ala “netuno, o planeta azul” evidencia Netuno, o senhor dos mares. E a criatividade do carnavalesco também se fez presente na ala seguinte “sol em peixes”, com uma fantasia maravilhosa tendo uma cabeça de um peixe bem criativa. Ótimas soluções estéticas, ótimo uso de material, de qualidade além de fácil leitura. Um primor.

Alegorias e adereços

Sempre prezando pelo bom acabamento, pela estética e pelas informações contidas do que o tamanho, Leandro Vieira trouxe carros um pouco mais diferentes do que costuma trazer, ainda que o traço bem conhecido na assinatura do artista. Antes mesmo do abre-alas, o elemento cenográfico “A Imperatriz desfila com a sorte virada para a lua” representava alguns caminhões que traziam a caravana cigana e era recoberto por uma lua em zepelin.

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No abre-alas “Imagens poéticas para um testamento vertido em manual” o mundo real é deixado de lado e o delírio é o ponto de partida da escola para uma atmosfera esotérica forma por esculturas que representavam símbolos do zodíaco, todo em azul e com roldanas em movimento, mãos, etc. Infelizmente, durantes alguns momentos, a alegoria não tinha iluminação e o carrossel não girava. É esperar para ver o posicionamento dos julgadores. No último carro, “uma pisciana com a sorte virada para a lua” um lúdico paralelo entres as premonições e o mapa astrológico a partir da data de fundação da Imperatriz, apresentando Netuno, o senhor das águas, que é o elemento que rege o signo, além, de peixes, pois a Rainha de Ramos é pisciana. A alegoria fecho com chave de ouro um ótimo conjunto da Imperatriz, com bom acabamento, e muito bom gosto.

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Outros destaques

A rainha de bateria Maria Mariá estava deslumbrante com a fantasia “um trevo de quatro folhas”, toda trabalhada no verde da escola, que representava o famoso artifício da sorte. No esquenta, Pitty puxou “Podes chorar” que é cantado pelo Cacique de Ramos, além da música Barracão Velha que é da umbanda. O diretor de carnaval João Drummond em seu discurso convocou a escola a desfilar como se estivesse em Ramos. A musa Rafa Kalimann veio de “asas para sonhar” poeticamente oferecendo asas em direção ao mundo dos sonhos.

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Freddy Ferreira analisa a bateria da Tijuca no desfile

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Um desfile sublime da bateria da Unidos da Tijuca, comandada por mestre Casagrande. Uma conjunção sonora equilibrada foi produzida, permitida graças a excelente equalização de timbres da “Pura Cadência”. Incrível como a postura tradicional de mestre Casão de não “gastar bossa a toa”, somente em cabines de jurados produz um ritmo em que há um nítido respeito musical pela canção. A bateria da Tijuca brilhou enquanto acompanhava o samba de modo exemplar, além de realizar bossas intuitivas, que deram a obra exatamente o que ela pedia.

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Na parte de trás do ritmo da “Pura Cadência”, uma afinação privilegiada de surdos foi notada. Marcadores de primeira e de segunda foram precisos durante todo o cortejo. Surdos de terceira contribuíram com um balanço acima da média, complementando com categoria a sonoridade dos médios. Repiques sólidos e coesos tocaram integrados a um naipe de caixas de guerra de imensa técnica musical. É possível dizer que o trabalho estupendo das caixas tijucanas serviu de base e plataforma sólida, amparando os demais naipes da bateria.

Na cabeça da bateria da Tijuca, uma ala de cuícas potente se exibiu com segurança. Um naipe de chocalhos profundamente técnico tocou entrelaçado com uma ala de tamborins de qualidade musical. Tamborins e Chocalhos tijucanos foram, juntos, o ponto alto das peças leves.

Bossas simples e funcionais, mas plenamente integradas ao samba-enredo da escola do morro do Borel foram exibidas com precisão. O ritmo nos arranjos era consolidado se aproveitando das nuances melódicas da obra do Pavão e contribuindo com impacto sonoro das marcações.
Destaque para a paradinha dançante do refrão do meio, que ajudou a impulsionar tanto o samba, quanto auxiliou na evolução dos componentes.

Na primeira cabine (módulo duplo) uma apresentação simplesmente exuberante foi realizada. Com todas as bossas bem encaixadas e uma boa fluência entre os naipes, arrancou aplausos dos julgadores. Na segunda cabine (terceiro módulo) mais uma apresentação extremamente potente e consistente foi produzida. Já na última cabine, uma apresentação com contornos apoteóticos encerrou com chave de ouro o grande sacode dado pela “Pura Cadência” da Tijuca, regida por mestre Casagrande.

Unidos da Tijuca levou as lendas de Portugal para a avenida em desfile com destaque para a bateria ‘Pura cadência’

Por Luan Costa e fotos de Nelson Malfacini

A Unidos da Tijuca foi a quinta escola a pisar na avenida na primeira noite de desfiles do Grupo Especial. A passagem da bateria pura cadência de mestre Casagrande foi o grande destaque do desfile, com ritmo equilibrado e paradinha dançante no refrão do meio. Porém, evolução e harmonia inconstantes fizeram com que a escola passasse pela avenida de forma burocrática. Em sua estreia pela Tijuca, o carnavalesco Alexandre Louzada entregou um bom conjunto de fantasias.

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Apresentando o enredo “O conto de fados”, desenvolvido pelo carnavalesco Alexandre Louzada, a azul e amarela do Borel viajou pelo misticismo e contou a história de Portugal através das lendas portugueses. A agremiação terminou sua apresentação com 68 minutos.

Comissão de Frente

A comissão de frente da Tijuca foi coreografada por Sérgio Lobato, intitulada “Offiusa”, ela contou com 17 componentes no total, sendo 15 deles aparentes. A comissão passeou pelas terras de Offiusa, um tempo mítico da história de Portugal, a ideia foi retratar o nascimento do herói, Ulisses queria ter uma cidade com seu nome, seduziu uma rainha metade rainha e metade serpente. A apresentação mostrou toda história contada por Orfeu da Conceição, ele com um cavaquinho na mão, toda cena aconteceu em cima de um grande tripé, porém, a leitura não foi de fácil compreensão, os efeitos propostos também não causaram impacto, ao final da apresentação os componentes formaram a cauda do pavão, símbolo da escola, posteriormente as palavras “Samba” e “Fado” surgiram.

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Mestre-sala e Porta-bandeira

De volta à escola onde foi protagonista por tantos anos, a porta-bandeira Lucinha Nobre fez par com o jovem Matheus André. A fantasia da dupla representou o ouro de Offir e a dupla brilhou na avenida, a dança de ambos foi tradicional, porém, em alguns momentos eles realizaram uma espécie de coreografia, principalmente no refrão do meio. Matheus demonstrou muito vigor em sua dança, e Lucinha, mesmo tendo um bailado mais clássico conseguiu acompanhar o parceiro. O único senão fica por conta de pequenos detalhes durante apresentação do casal no setor seis, no início a porta-bandeira teve dificuldade para manter o pavilhão esticado e por pouco o mestre-sala não deixou escapar de suas mãos. Como destaque vale o elogio a bandeirada realizada por Lucinha.

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Enredo

O carnavalesco multicampeão Alexandre Louzada foi o responsável pelo enredo “O conto de fados”, nele, a escola do Borel fez uma viagem a Portugal mostrando diversos aspectos da história do país como fábulas, mistérios e lendas populares. O desfile foi dividido em seis setores definidos por Louzada como seis fados, nestes, o carnavalesco também considerou a abertura como um setor. Forem eles, “Fados Mitológicos”, “Fados de Magia”, “Fados Invasores”, “Fados Marítimos”, “Fados das lendas em Romaria” e “Fado d ‘alma portuguesa com certeza”.

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Em sua justificativa, o enredo teve o cuidado de revisitar o passado e trouxe a possibilidade de se reescrever um futuro diferente, de não repetir os erros e de ampliar as lições. Porém, o que se viu na avenida foi uma grande ode a Portugal, o carro que representou as invasões foi lúdico e não trouxe o impacto necessário.

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Alegorias e Adereços

A unidos da Tijuca levou para avenida cinco carros e um tripé, o conjunto alegórico foi bem apresentado, porém, houve discrepância entre as primeiras alegorias e as últimas, apesar do bom acabamento visto em sua maioria. O abre-alas foi o grande destaque da noite, intitulado “A arca de uma nova aliança: guardiã das lendas e dos segredos de Offir”, ele trouxe o pavão da escola no primeiro chassi, o acabamento e a iluminação foram primorosos. A segunda alegoria, “Os segredos dos povos pré-romanos: um balaio de magia – a conexão mística entre a natureza e o homem”, entrou na avenida apagada, mas acendeu antes da cabine de julgamento e não comprometeu o desfile.

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Na sequência vimos o tripé “Heranças mouras: “doces sabores, velho saber”. O terceiro carro, “Os segredos da máquina do mundo: o alerta à monstruosidade na colonização”, não fez o alerta que se propôs, visto que a escultura do colonizador não deixou claro que a ideia era confrontar o passado. O quarto carro “Passarola: os segredos da verdadeira alma portuguesa” voou pelos imaginários populares à criação cultural e histórica de Portugal. A alegoria que encerrou o desfile foi intitulada “Segredos em romaria: a união do amém com axé”, a grande santa teve um efeito que acabou mostrando algumas ferragens internas.

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Fantasias

O carnavalesco Alexandre Louzada apresentou um bom conjunto de fantasias, em sua estreia na Tijuca, a assinatura se fez presente em todas as alas, o gigantismo, volume e esmero no acabamento permearam todo o conjunto. No total, a escola levou para a avenida 29 alas, o uso de cores foi interessante, assim como o material utilizado na confecção das roupas, foi observado também muitas penas artificiais, o que elevou o tamanho das fantasias. Vale destacar a ala das baianas, “As Téginas: guardiãs do conhecimento e do tempo”, a ala 14, “O monstro da bruma: terror e cegueira no Atlântico” e a 16, “O Dragão de Quatro Cabeças: o terror dos marinheiros no mar da China”.

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Harmonia

A comunidade do Borel por muitos anos foi considerada um rolo compressor, no desfile desta noite essa característica ficou em segundo plano, os componentes cantaram o samba de forma burocrática e alternou momentos de canto mais vigoroso, com outros em que diminuíram o ritmo. A bateria “Pura Cadência”, de mestre Casagrande, foi o grande destaque do conjunto harmônico da escola, com um ritmo equilibrado e paradinha dançante no refrão do meio. O entrosamento junto ao carro de som comandado por Ito Melodia também foi positivo, vale lembrar que o cantor fez sua estreia na agremiação.

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Samba-Enredo

O samba-enredo da Unidos da Tijuca, em 2024, trouxe um compilado de lendas portuguesas que acabaram transbordando também, nas histórias, de forma que o “Fado vira Samba, e o Samba vira Fado”. Composto por Júlio Alves, Claudio Russo, Jorge Arthur, Chico Alves, Silas Augusto e De Sousa, a obra passou sem brilho pela avenida, apesar de bem interpretada por Ito Melodia, não conseguiu fazer com que o componente entregasse um canto satisfatório e muito menos atingiu o público. A parte de maior destaque foi o refrão do meio, principalmente o verso “Põe no balaio um punhado de magia”.

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Evolução

A evolução da Unidos da Tijuca passou pela avenida de forma inconstante e burocrática, apesar de não apresentar falhas graves, a escola alternou momentos de lentidão com outros em que acelerou o passo, a escola finalizou o desfile em 68 minutos. O único ponto realmente negativo foi durante a apresentação da bateria no setor seis, a ala de passistas acelerou e um buraco se formou, sendo visível para os jurados.

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Outros Destaques

A rainha de bateria Lexa passou pela avenida deslumbrante, sua fantasia representou a rainha moura que estimulou a coexistência de diferentes culturas e religiões, sendo considerada a matriarca da diversidade, com muito carisma, a cantora chamou pra si todos os holofotes.

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Freddy Ferreira analisa a bateria da Grande Rio no desfile

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Um desfile muito bom da bateria do Acadêmicos do Grande Rio, sob o comando de mestre Fafá. Uma conjunção sonora de profundo equilíbrio e impecável equalização de timbres foi exibida. Um ritmo pautado pela leveza, com ritmistas tirando som das peças sem força exagerada, garantindo uma sonoridade cujo destaque é a disciplina musical.

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Uma bateria da Grande Rio com uma boa afinação de surdos foi percebida. Os marcadores de primeira e de segunda foram educados, fazendo som com leveza. Surdos de terceira preencheram a sonoridade dos graves com um balanço eficiente. Uma ala de repiques coesa tocou de forma reta, tudo integrado com um trabalho digno de elogios envolvendo as caixas de guerra, que tiveram boa ressonância.

Na cabeça da bateria da tricolor de Caxias, uma ala de agogôs potente e musical ajudou tanto no ritmo, como deu um amparo luxuoso em bossas, inclusive fazendo solo.
Um naipe de chocalhos de imensa virtude sonora tocou entrelaçada com uma ala de tamborins de elevada técnica musical. O casamento entre tamborim e chocalho merece exaltação, pelo acrescento musical obtido diante de tamanho entrosamento. Cuícas seguras também auxiliaram na sonoridade das peças leves.

Bossas bastante musicais foram exibidas de modo seguro pelo ritmo caxiense. Completamente encaixadas nas variações do melodioso samba da Grande Rio, mostraram funcionalidade pela pista, além de impulsionarem componentes em canto e dança. Destaque musical para o belo e ressonante solo dos agogôs com tamborins no início da segunda do samba, além do momento que a bateria na hora de retomar o ritmo após a paradinha no estribilho grita “Trovejou”, primeiro verso da cabeça do samba. Arrancou aplausos de público e júri.

Uma grande apresentação foi realizada na primeira cabine (módulo duplo), recebendo ovação popular, além de reconhecimento dos julgadores que aplaudiram. Na segunda cabine, mais uma exibição de qualidade foi feita, garantindo uma passagem enxuta e segura. No último módulo, uma apresentação potente e equilibrada foi produzida, deixando evidente o desfile muito bom da bateria do Acadêmicos do Grande Rio, dirigida por mestre Fafá.

Com conjunto estético primoroso, Grande Rio arrebata o público em comissão de frente e na excelência nos demais quesitos

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Por Lucas Santos e fotos de Nelson Malfacini

Acostumada nos últimos anos a fazer grandes desfile, após um sexto lugar ano passado, a Grande Rio veio mordida, e, com perdão do trocadilho com o enredo, mostrou suas garras para se colocar de forma séria na briga pelo título. Com um começo arrasador através da comissão de frente que levantou o público, a escola utilizou muito bem a iluminação cênica da Sapucaí na própria comissão e no “trovejou, escureceu” que evidenciava também as alegorias todas bem preparadas para que as cores dialogassem com a iluminação.

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Foto: David Normando/Divulgação Rio Carnaval

Fora isso, a Grande Rio manteve o primor, o bom gosto, o volume e muita criatividade nas fantasias, apostou mais uma vez em um estilo muito próprio da dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad no carros, que tem dado certo e tem muito conceito, mais uma vez casando bastante com o enredo. Nos outros quesitos, a excelência de sempre: casal, bateria, Evandro conduzindo o povo e a comunidade respondendo. Com o enredo “Nosso destino é ser onça”, a Grande Rio foi a quarta escola a se apresentar na primeira noite do Grupo Especial, levando 1h07 para percorrer a Marquês de Sapucaí.

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Comissão de Frente

Comandada por Hélio e Beth Bejani, a comissão de frente “Trovejou, escureceu!” viajou para tempos míticos, quando, segundo o imaginário Tupinambá, “o universo era provavelmente muito escuro”. A comissão se baseia no livro de Alberto Mussa, “Meu destino é ser Onça”, que, no início de tudo, reinava o mistério em meio ao caos. A apresentação durou mais do que uma passada do samba e tem seu início ainda fora do elemento cenográfico, com os morcegos, tratados como guardiões das artes no enredo, por habitarem as cavernas cobertas de pintura, faziam um efeito muito interessante em suas asas e se utilizava da iluminação com verde fluorescente na malha.

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As ocas, todas na cor preta, também abriam asas de morcego. Também eram locais para a transformação destes animais em guerreiros tupinambás. No meio, um guerreiro se sobressai de laranja fluorescente também, ali, a principal transformação, pois o guerreiro se tornava onça. No elemento cenográfico, o grande ponto alto da apresentação, e talvez até do desfile, uma enorme onça totalmente vazada se levanta em direção ao público e jurados, rugindo e mexendo as patas. O tupinambá de laranja aparecia dentro do corpo do bicho, dançando e apresentando um espetacular efeito luminoso. Um banho de criatividade do casal Bejani, com bom gosto e bom uso dos recursos disponíveis em prol da história.

Mestre-sala e Porta-bandeira

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira Daniel Werneck e Taciana Couto, expressou em sua fantasia o bailar do “mundo inaugural”, quando a escuridão dominava o universo e o poder do Velho, o criador da humanidade, explodia em poeira cósmica. Toda trabalhada em tons escuros, a indumentária era lindíssima, na cabeça de Daniel os olhos da onça, o duo entre o preto e o prateado produzia um efeito maravilhoso. Assim como as plumas escuras na saia de Taciana embaixo do corpete todo brilhante em pedras preciosas prateadas.

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Na dança, o casal mostrou mais uma vez um amadurecimento muito grande de um carnaval para outro, o que gerou mais qualidade ainda na apresentação. Sem se fixar na velocidade, mas na qualidade, a dupla acertou e combinou todos os movimentos. Mais soltos nesse ano, ainda houve espaço para um grande momento de coreografia, no segundo “Kio Kio…” do samba em que a dupla prestava respeito ao indigenismo tão presente no enredo, realizando passos imitando uma dança indígena, cravando mais uma vez todos os movimentos. Taciana apresentou muita firmeza em toda a condução do pavilhão, mantendo ele sempre bem desfraldado, um pouco menos na dança indígena, mas ainda dentro das recomendações do quesito.

Harmonia

A comunidade de Caxias reproduziu na Avenida aquilo que já vinha fazendo nos ensaios de rua e no ensaio técnico. Mostrando que é possível sim cantar ” Yawalapiti, pankarau, apinajé, o ritual araweté, a flecha de kamaiura”, os componentes mais uma vez demonstraram estar bastante fechados com o samba-enredo, mantendo o canto de forma bastante contínua e intensa durante grande parte do desfile. O único ponto a se colocar é no último módulo, que em algumas alas mais volumosas, era perceptível o desgaste e houve uma queda no rendimento, somente nestas alas mais específicas.

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No mais a escola cantou muito. No carro de som, Evandro Malandro mais uma vez se colocou como o intérprete maduro e de qualidade que é, comandando um bom time de vozes de apoio e de cordas. O entrosamento entre ele e Fafá, não fica só na Avenida, mas na coordenação do departamento musical da escola, e mais uma vez a musicalidade da Grande Rio permitiu que se pudesse ouvir muito bem todas as vozes, com destaque para Evandro, obviamente, e até os instrumentos de corda que vinha junto nas bossas, inclusive. Muita qualidade sonora.

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Enredo

O enredo “nosso destino é ser onça” é dividido em oito setores. Na abertura ” o primeiro rugido do mundo” a escola apresentou o mito Tupinambá, que versa sobre a criação do mundo: o Velho, divindade máxima que criou a si mesmo e tudo devora. Depois em ” vingança e recriação”, desiludido com a própria criação, o Velho experimenta o sentimento de vingança e decide destruir a primeira humanidade. Em “Terceira humanidade: antropofagia”, a escola falou dos heróis míticos Maíra e Sumé, ambos descendentes do Pajé do Mel, que duelavam e expunham os seus superpoderes.

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O quarto setor “Xamanismo: as visões dos homens-onças” trouxe os rituais antropofágicos se reconfigurando através de povos indígenas do Brasil e de demais localidades das Américas que cultuavam as onças. Depois em “murmúrios das matas”, os cruzos culturais vivenciados no Brasil mostrando que os cultos indígenas às onças viraram lenda e canção. No setor 6 “devo(ra)ções nos sertões, onde a onça mora” observou-se espaços míticos sendo transformados em verso e prosa, onças são poetizadas e alimentam impérios. Por fim, em ” Brincar de ser onça”, a agremiação mostrou uma forma lúdica de se transformar em fera e ocupar a rua. São os foliões vestindo fantasias de onças sem cavalhadas, folias de reis, blocos, festas de bois. E o desfile encerrou em “reantropofagia” apresentando a onça como um poderoso símbolo de lutas. Neste último setor, veio os direitos das populações lgbtqiapn+, a demarcação de terras indígenas, o adiamento do fim do mundo, como propõe o filósofo Ailton Krenak.

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No geral, não é um tema de conhecimento tão presente na vida do cidadão comum. E, obviamente, com o carnaval sendo um grande divulgador de cultura brasileira, é necessário apresentar estes temas e da forma fiel no visual às lendas e ao indigenismo. Por isso, é importante felicitar a Grande Rio pela iniciativa. Havia alguns pontos mais difíceis de entendimento, principalmente, na parte do meio da apresentação nos setores três e quatro do desfile, onde havia pontos mais específicos do trabalho. Mas, no geral, há um entendimento bom da ideia e o final traz uma grande mensagem ao colocar a onça como símbolo de importantes movimentos de luta.

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Evolução

A escola apresentou uma evolução com fluência, com muito volume de fantasias, o que ajudava também as alas a estarem bem enfileiradas, e mesmo assim, sem embolar, o que é um ponto muito positivo para a equipe da escola. Não se observou correria, mas no final do desfile, na dança e na espontaneidade, era possível notar já um pouco de cansaço por parte dos componentes, principalmente nas alas com fantasias mais pesadas. A escola não optou tanto por alas coreografadas o que evidenciou uma comunidade espontânea. O único ponto que se deva ter atenção, foi no primeiro módulo, durante a apresentação da bateria em que o segundo casal Andrey Ricardo e Thauany Xavier precisou avançou para tentar evitar um buraco onde os guardiões da dupla já se movimentavam pela pista de uma forma diferente. A incógnita está em como os julgadores, de um módulo duplo, vão entender esses movimentos.

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Samba-enredo

A obra foi composta por Derê, Marcelinho Júnior, Robson Moratelli, Rafael Ribeiro, Tony Vietinã e Eduardo Queiroz é pode-se dizer que é uma das composições mais peculiares desta safra. Tem partes bastante orginais em termos de melodia e de constituição métrica. Na segunda estrofe, no “ Kiô, kiô, kiô, kiô, kiera/ É cabocla, é mão-torta /Pé-de-boi que o chão recorta, travestida de pantera/ Kiô, kiô, kiô, kiô, kiera /A folia em reverência /Onde a arte é resistência, sou Caxias, bicho-fera” há uma quebra proposital da sequência harmônica e de andamento da composição, que apresenta o tom místico do enredo e confere ao samba-enredo da Grande Rio uma peculiaridade e beleza que o torna diferente dos demais. Há muita musicalidade neste ponto. O ponto alto, mais cantado, além dessa parte, que é “xodó” da comunidade, o refrão principal “Werám werá auê, naurú werá auê” que era cantado aos berros e que encontrou ressonância no público de fora da pista.

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Fantasias

O conjunto de fantasias da Grande Rio mostrou o estilo e a originalidade que vem fazendo os carnavalescos, Leonardo Bora e Gabriel Haddad na Grande Rio desde 2020, serem sucesso e darem resultados a escola. As fantasias possuíam volumetria, beleza, criatividade e bom gosto, além da utilização de matérias alternativos. Destaques para a primeira ala “ornamentos para o céu” trazendo a proposta do começo da escola de um mundo inaugural, constituída de preto em usa maioria, volumosa, mas com uma quebra nos detalhes com elementos coloridos, acompanhando inclusive o abre-alas, que vinha logo em seguida, no espectro de cor.

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Durante o desfile, os carnavalesco ainda passaram por tons terrosos e pastéis, nos cítricos e quentes como na ala “fogo devastador” que representava a desilusão do Velho Onça se vingando dos homens, mandando descer do céu um fogaréu. Outro destaque foi ala dos passistas, todos em dourado representando os povos Incas, moldados em ouro, onde o jaguar é um animal sagrado. Trabalho muito bom no conjunto de fantasias.

Alegorias e adereços

O conjunto alegórico da Grande Rio era composto por cinco carros e mais três tripés. Formado por dois chassis, o abre-alas “Mundo inaugural, misterioso e obscuro” apresentou a onça, segundo a cosmovisão Tupinambá, expressando força, poder, plenitude e perfeição. Nos dois chassis, o preto como tom principal, mas o colorido dos elementos fazia com que a alegoria tivesse um efeito muito positivo, principalmente, na luz cênica.

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O segundo carro já era famoso no pré-carnaval, quando saíram alguns spoilers, agora em sua totalidade, o efeito foi melhor ainda. “Jau Ware Sche” tinha um grande crânio de onça, com grandes mandíbulas na frente da alegoria, imponente representando os rituais de devoção e “devoração”. Tripés muito grandes, muito bem elaborados também fizeram parte de um conjunto alegórico volumoso, com as soluções criativas já conhecidas da dupla de carnavalescos, além de muito movimento, roldanas, etc. No final, a diversidade e a luta por movimentos importantes como os que defendem as populações de lgbtqiapn+, a demarcação de terras indígenas se fizeram presentes no carro “enquanto a onça não comer a lua”.

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Outros destaques

A bateria da Grande Rio “O som do rugido das onças” teve as fantasias concebidas a partir da mescla da iconografia do povo Ticuna (os elementos que dão formas e cores às túnicas vestidas pelos ritmistas, com base em tecido de cor e textura cruas e aplicações em tons que evocam peças de cerâmica) com máscaras que simulam peças de argila dos conjuntos ceramistas Karajá e Waurá.

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A rainha da bateria Paolla Oliveira veio com a fantasia “transformação: nosso destino é ser onça”, representando justamente o ponto central do enredo que é a possibilidade de se transformar em onça. A vestimenta da beldade possuía o aspecto de pele de onça, mas com um dourado de pedras preciosas. A atriz e apresentadora Regina Casé veio no tripé “onças foliônicas”. Antes do desfile, a escola entregou pulseiras luminosas para o público que eram acionadas pela escola e iluminaram o público durante os “apagões” da Sapucaí.

‘A caravana em festa’: primeira ala da Imperatriz reúne estética cigana

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Imperatriz Esp03 002A primeira ala da Imperatriz Leopoldinense representou “A caravana em festa”, uma referência ao grupo de ciganos que, após a morte de Esmeralda na Europa, trouxe o seu testamento para o Brasil. O traje misto reuniu a clássica estética associada à moda cigana. A fantasia masculina exibiu violino, chapéu, calça, colete e joias douradas. Já a feminina, exibiu amplas saias de véus cortados em godê, laços enfeitados com fitas, brincos de argola e lenços ricamente decorados cobrindo a cabeça.

A ala era coreografada e marcada por movimentos leves. Para os componentes, a roupagem chamou atenção não somente pela luxuosidade e riqueza de detalhes. Encantada por representar a caravana, a leopoldinense Ingrid Paola, 24 anos, conta que foi pesquisar a história e a proposta do enredo para entender o mundo cigano.

Imperatriz Esp03 003“É a entrada da escola e dos ciganos. É a fantasia mais bonita do mundo, estou até com dó de ter que devolver (risos). Ela tem uma saia lindíssima que é cheia de panos com cores diferentes, além de glitter. Ela também tem um saiote lindo cheio de moedas. Ela retratou muito bem a estética cigana, o Leandro arrasou. Acredito que a escola incorporou esse enredo, um tema que não é muito falado. Ter que fazer essa representação me fez pesquisar muito e descobrir uma realidade muito linda”, contou Ingrid.

Para a comunidade, o enredo também representou a luta contra a intolerância, além da diversidade entre os leopoldinenses. A ala foi composta por pessoas de diversas religiões. É o exemplo de Viviane Gomes, vendedora de 42 anos. Desfila na agremiação há 15 anos e desde os nove frequenta a quadra. Evangélica, ela não pensou duas vezes antes para desfilar com a fantasia.

Imperatriz Esp03 001“Acredito que além da esperança, a mensagem da ala também é uma luta contra o preconceito – isso é a missão da Imperatriz. A ala foi composta por pessoas de diversas religiões, unidas para combater o preconceito. Muita gente achou que eu não aceitaria, mas mostrei que a mensagem e o meu amor pela escola foram maiores. Fiquei apaixonada e surpreendida com a fantasia. O Leandro, como sempre, nos surpreendeu”, comentou Viviane.

Com o enredo “Com a sorte virada pra lua segundo o testamento da cigana Esmeralda”, a Imperatriz Leopoldinense fechou o primeiro dia de desfiles do Grupo Especial.