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Com plástica impecável e samba na boca do povo, Imperatriz se credencia fortemente na luta por um bi campeonato

Por Lucas Santos e fotos de Nelson Malfacini

Motivada desde logo depois do título de 2023 por um bicampeonato que não aparece na Sapucaí desde 2008, a Imperatriz mostrou com o dia já quase clareando o porque de apostar nos profissionais que chegaram à escola no carnaval passado e de outros que já tem mais de alguns carnavais na Verde e Branca. Com trabalho primoroso e repleto de bom gosto e criatividade de Leandro Vieira, que promoveu soluções até diferentes dos últimos anos, a Rainha de Ramos ainda teve na dobradinha Pittty de Menezes e Mestre Lolo mais uma avassaladora apresentação que confirmou que o antes “Frankesnteis” samba da Imperatriz, criado a partir de uma junção de duas obras, se transformou em um belíssimo príncipe cigano, cantado, até nos momentos da bossa de seresta da Swing da Leopoldina pela comunidade e pelo público que esperou até de manhãzinha para cantar o “Vai clarear” a plenos pulmões. A ex-certinha de Ramos, apelidada por seu carnavalesco mais uma vez, foi quente na pista, mas também certinha, não cometendo erros e se colocando forte na briga. Com o enredo “Com a sorte virada para a lua, segundo o testamento da cigana Esmeralda”, a Imperatriz encerrou seu desfile com 1h09.

Comissão de Frente

Marcelo Misailidis realmente conseguiu deixar bem escondida a proposta da comissão. Em meses de ensaio na rua Professor Lacê com os bailarinos vestidos todos de cigano ninguém poderia imaginar que a proposta para o quesito foi a apresentada esta noite. Em “A cigana e o fogaréu”, o coreógrafo trouxe o fogo, elemento central para o povo cigano. Com o elemento cenográfico se constituindo em uma enorme fogueira, com iluminação especial, os bailarinos se revelam como salamandras em estado de lúdica incandescência. Junto deles, Esmeralda, apresenta-se como uma divindade que, em torno das chamas (e tingida por sua coloração avermelhada) tentava conduzir o espectador a adentrar no universo místico que se descortinou ao longo de um desfile que se nutre do imaginário cigano.

Na apresentação para o júri, os bailarinos subiam no elemento cenográfico e produziam com panos em estampas bastante fiéis a coloração das chamas, o movimento do fogo se consumindo. Enquanto isso, Esmeralda dançava e logo era içada por uma corda, no movimento de como que levitasse pelo ar, ao mesmo tempo que controlava uma bola de cristal (um drone) que subia ao controle da cigana. No final da apresentação, já no chão da alegoria, a cigana dançava e era consumida pelo fogo no movimento dos bailarinos. Foi uma apresentação criativa que procurou trazer o imaginário do tom misterioso dos ciganos, ainda que não tenha superado a apresentação da comissão de 2023. Mas, foi perfeita dentro da sua proposta, apenas em um dos módulos de jurados, que a bola caiu e a escola deve ser levemente penalizada.

Mestre-sala e Porta-bandeira

Com uma fantasia simplesmente deslumbrante, abusando dos tons do dourado e das jóias próprias da cultura cigana e do bom gosto, a vestimenta “a cigana Esmeralda e o príncipe da França”, representava a porta-bandeira Rafaela Theodoro representava a cigana fictícia a quem é atribuído o testamento do enredo, tido como um tesouro por conter os ensinamentos e os métodos para ler a sina de um indivíduo, bailando com o pavilhão Leopoldinense enquanto seu figurino revela a tonalidade da pedra verde que ela carrega em seu nome. Ao verde é acrescentado o ouro tão apreciado pelo povo cigano, que prevaleceu sobre o figurino do mestre-sala Phelipe Lemos, coroado, ele é o príncipe da França. O nobre europeu com quem, segundo a narrativa fantasiosa da obra que inspira o desfile, a personagem foi casada.

Na dança, a dupla mostrou o entrosamento de sempre, além de muita segurança e tranquilidade nos movimentos. Havia grande sincronismo, o pavilhão sempre bem desfraldado nas apresentações para os jurados. Um dos pontos altos foi no “O que é meu é da cigana..” em que os dois giravam de forma muito graciosa, bem casado com a bossa das palmas. A dupla ainda mesclou passos mais tradicionais com algumas pontuações do samba em movimentos. Apresentação irretocável.

Harmonia

Como pedido pelo diretor executivo da escola, João Drumond, em seu discurso antes do desfile, a comunidade desfilou como se estivesse fazendo um ensaio na Rua Professor Lacê em Ramos. E o que se vê lá? Muito canto, muita alegria e muita espontaneidade. Ajudados por uma Sapucaí que veio junto do samba, os componentes cantaram do início ao fim a obra da Imperatriz, de forma orgânica, natural, e felizes ao amanhecer, podendo justificar finalmente o “Vai clarear, olha o povo cantando no meio da rua…”. Com uma vestimenta que em sua maioria facilitou a evolução dos componentes, a comunidade de Ramos manteve o nível de canto até o final mostrando garra na briga pelo título.

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Já Pitty de Menezes, mostrou que já é um dos grandes intérpretes do carnaval do Rio de Janeiro, tranquilo, sereno, levou a obra com maestria, o samba que ele mesmo fez crescer nos ensaios de rua, de quadra em outras atividades da Imperatriz. Com muito vigor e chamando os foliões a todo momento para vir junto com a escola, o cantor também mostrou ter um time bem afinado de vozes que o acompanharam no samba, deixando ele à vontade para os cacos, terças e vocalizações.

Enredo

Dividido cinco setores, o primeiro “a caravana, a festa e um manual delirante” a Imperatriz Leopoldinense esteve mergulhada em atmosfera cigana, já na comissão de frente iniciando o ritual da luz sobre o fogo introduzindo testamento de uma cigana chamada Esmeralda, que foi encontrado por um grupo de ciganos que se encarrega de trazer o artigo para terras brasileiras. Depois em “sonhando a vida feito carnaval” a escola recorreu ao conteúdo do testamento da cigana que prevê a interpretação de um sonho como uma das formas de se ler a sina de uma pessoa. No terceiro setor “destimo traçado: um calendário e a leitura da mão”trazendo a ideia de que o destino é algo pré-estabelecido como uma sina a ser cumprida que pode ser antecipada por um conhecimento adivinhatório.

No penúltimo setor “os astros na imensidão” mergulhou nos ensinamentos atribuídos à cigana no campo astrológico. Por fim, o desfile se encerra em “O zodíaco e o prenúncio da sina da minha escola” fazendo lúdicos paralelos que se valem da permissividade carnavalesca e reivindicando a ficção e o delírio como premissas de atividades artísticas ligadas ao carnaval, entrecruzam as premonições zodiacais atribuídas à cigana em seu testamento ao mapa astrológico da escola de Ramos. Em geral, a ideia de mais uma ficção carnavalesca se mostrou extremamente criativa, arrojada e que dialogou facilmente com o público. A leitura estava bastante facilitada também nas fantasias e alegorias.

Evolução

A Imperatriz, mais uma vez, contrariou quem achava que o fato de ela ser uma escola mais quente na pista como quer o seu carnavalesco, poderia acarretar em uma escola que não desse atenção aos quesitos de chão e mais técnicos. A Verde e Branca de Ramos ensaia muito e é bastante crítica com o seu trabalho. Por isso, mais uma vez a evolução foi bastante correta, sem buracos, sem correria, sem pausas acentuadas, mas ainda assim muito espontânea, quente, com os foliões felizes, dançando, sem muitas alas coreografadas. A caravana cigana do início, além de ser destaque no campo visual, dava toda a alegria do enredo. Eram ciganos legítimos na festa que faziam e contagiaram a Sapucaí. Desfile irretocável neste aspecto, perfeito.

Samba-enredo

Com a fusão o samba ficou de autoria de Me leva, Gabriel Coelho, Luiz Brinquinho, Miguel da Imperatriz, Antonio Crescente e Renne Barbosa, com participações especiais de Daniel Paixão e Lucas Macedo; com a de Jeferson Lima, Rômulo Meirelles, Jorge Goulart, Sílvio Mesquita, Carlinhos Niterói e Bello, com a participação especial de Gigi da Estiva. O ex “frankeinstein” passou muito bem na Sapucaí como havia passado nos ensaios, e com uma ressonância muito grande no público.

Como pontos altos mais uma vez, os refrões “Vai Clarear..” e “O destino é traçado na palma da mão”, além do “o que é meu é da cigana..” com seu jeito mais malandreado, inspirado nas batidas de umbanda, no ponto que é de mesma letra, e o “prenúncio da sina …” que vem logo antes e é um primazia em termos de melodia. A introdução da obra com todos os componentes batendo palmas, mestre Lolo subindo a bateria até o ” verde-esmeralda é vitória que virá” para entrar no “Vai Clarear…” foi surreal, melhor ainda do que já havia sido em todos os ensaios.

Fantasias

Leandro Vieira mostrou mais uma vez que domina muito bem a parte estética e que sabe fazer fantasia para carnaval. A paleta de cores dialogava muito com a temática de cada setor, desde o segundo que versava sobre as adivinhações de sonhos, em que espectro privava por tons mais claros, branco, como a névoa do mundo dos sonhos presentes nas fantasias como “Morfeu, sonho, devaneio e magia”, “sonhar com rosa” que traziam estes tons. Até no último setor que apresentava uma Imperatriz pisciana, pela sua data de fundação, presente nas águas, e com o azul como cor que predominava, como na ala de compositores “a certeza da minha” e na logo em seguida “o zodíaco e o prenúncio da sina”, com os astros celestes jogando energia para a escola.

A ala “netuno, o planeta azul” evidencia Netuno, o senhor dos mares. E a criatividade do carnavalesco também se fez presente na ala seguinte “sol em peixes”, com uma fantasia maravilhosa tendo uma cabeça de um peixe bem criativa. Ótimas soluções estéticas, ótimo uso de material, de qualidade além de fácil leitura. Um primor.

Alegorias e adereços

Sempre prezando pelo bom acabamento, pela estética e pelas informações contidas do que o tamanho, Leandro Vieira trouxe carros um pouco mais diferentes do que costuma trazer, ainda que o traço bem conhecido na assinatura do artista. Antes mesmo do abre-alas, o elemento cenográfico “A Imperatriz desfila com a sorte virada para a lua” representava alguns caminhões que traziam a caravana cigana e era recoberto por uma lua em zepelin.

No abre-alas “Imagens poéticas para um testamento vertido em manual” o mundo real é deixado de lado e o delírio é o ponto de partida da escola para uma atmosfera esotérica forma por esculturas que representavam símbolos do zodíaco, todo em azul e com roldanas em movimento, mãos, etc. Infelizmente, durantes alguns momentos, a alegoria não tinha iluminação e o carrossel não girava. É esperar para ver o posicionamento dos julgadores. No último carro, “uma pisciana com a sorte virada para a lua” um lúdico paralelo entres as premonições e o mapa astrológico a partir da data de fundação da Imperatriz, apresentando Netuno, o senhor das águas, que é o elemento que rege o signo, além, de peixes, pois a Rainha de Ramos é pisciana. A alegoria fecho com chave de ouro um ótimo conjunto da Imperatriz, com bom acabamento, e muito bom gosto.

Outros destaques

A rainha de bateria Maria Mariá estava deslumbrante com a fantasia “um trevo de quatro folhas”, toda trabalhada no verde da escola, que representava o famoso artifício da sorte. No esquenta, Pitty puxou “Podes chorar” que é cantado pelo Cacique de Ramos, além da música Barracão Velha que é da umbanda. O diretor de carnaval João Drummond em seu discurso convocou a escola a desfilar como se estivesse em Ramos. A musa Rafa Kalimann veio de “asas para sonhar” poeticamente oferecendo asas em direção ao mundo dos sonhos.

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