Por Rafael Soares e fotos de Nelson Malfacini
A Vigário Geral foi a terceira a se apresentar na Marquês de Sapucaí nesta sexta-feira de carnaval da Série Ouro. A tricolor levou o enredo “Maracanaú: Bem-Vindos ao Maior São João do Planeta” para a avenida. Em um bom início de desfile, com uma apresentação divertida da comissão de frente e uma atuação leve e segura do casal de mestre-sala e porta-bandeira, a agremiação não conseguiu manter o nível no resto do desfile. O canto dos componentes foi irregular, com poucas alas entoando o samba inteiro. A evolução também se mostrou problemática, muito acelerada, tanto é que a bateria nem entrou no segundo recuo. Depois, a escola teve que segurar muito o passo para conseguir passar no tempo mínimo regulamentar, já que o contingente era bem reduzido. Além disso, alguns problemas alegóricos, como acabamentos simples em todos os carros, e esculturas com falhas visíveis. Fantasias também eram simples, mas com boa leitura. Apesar das dificuldades, o enredo foi bem contado e o samba teve um bom rendimento por conta de seu carro de som e bateria bem entrosados.

Comissão de Frente
Com o nome de “Vamos com destino ao Ceará”, a comissão de frente assinada pelo coreógrafo Handerson Big trouxe um elemento cenográfico que representava o deslocamento da trupe para Maracanaú em uma kombi, liderada pela presidente da escola, Betinha. O grupo, composto por integrantes homens e mulheres, apresentava os ‘perrengues’ do caminho e as histórias do lugar. Em uma apresentação divertida, eles representavam turistas vestidos de branco, com maquiagem preta e branca no rosto e câmeras no pescoço. Movimentos feitos em cima do tripé na maior parte do tempo foram bem sincronizados. No final do número, dançavam forró e fogos frios saiam do elemento, gerando resposta do público.

Mestre-sala e Porta-bandeira
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diego Jenkins e Thainá Teixeira, veio com uma fantasia que representava uma das tradições do Ceará, a renda de bilro, fonte de renda para vários artesãos do local. Os dois estavam bem coloridos, em uma indumentária de fácil leitura. A apresentação teve ótimo nível, com movimentos leves e precisos. A dupla usou um bom espaço da pista para seu bailado. Também chamou atenção a expressividade do casal, com muitos sorrisos e troca de olhares. A dança mesclou passos tradicionais e coreografias bem regionalizadas baseadas no samba.

Samba-Enredo
O samba da Vigário Geral tem uma letra que descreve bem o enredo, abordando a religiosidade, o desenvolvimento do local e as tradições da festa. Além de uma melodia alegre no geral, mas que também possui algumas variações interessantes. Composto por Tem-Tem Jr., Silvana Aleixo, Junior Fionda, Romeu Almeida, Jefferson Oliveira, Valtinho Botafogo, Marcus Lopes, Marcelinho Santos, Rafael Ribeiro, Sérgio Augusto de Oliveira Junior e Edu Casa, a obra musical teve um rendimento muito bom no desfile por conta do cantor Danilo Cezar, que mostrou um ótimo desempenho ao entoar o samba, embalado pela bateria de mestre Luygui.

Harmonia
A comunidade de Vigário Geral teve um canto bastante irregular em seu desfile. O principal trecho entoado pelos componentes foi o refrão principal. Mas até essa parte não teve um bom nível de volume durante o cortejo, pois muitas alas passaram sem cantar, como por exemplo as de nome “Cajuína” e “Parque Industrial”. As que mais tiveram destaque positivo na harmonia foram as alas “Novenas e Orações” e “As Quadrilhas”. De forma geral, o canto da escola não se mostrou em bom volume, o que deve gerar problemas na apuração.

Evolução
A evolução da agremiação também teve problemas durante a passagem pela Sapucaí. A escola trouxe um pequeno contingente em seu desfile. Com isso, o ritmo acabou se mostrando um tanto acelerado. Para aumentar a situação, a bateria não entrou no segundo recuo de bateria, fazendo com que a Vigário passasse ainda mais rápida. De forma geral, os componentes estiveram animados, embora sem cantar tanto o samba. Na reta final, a escola precisou fazer uma evolução muito lenta, segurando o passo, para poder terminar no tempo mínimo regulamentar. A escola encerrou o desfile em 53 minutos.

Enredo
A escola contou na avenida a história de Maracanaú, cidade localizada no estado do Ceará. Fundada oficialmente no século XIX, é uma região povoada há séculos, desde os indígenas até os dias atuais. O local é sede do maior São João do mundo, já que a festa dura 40 dias. As fantasias e alegorias foram de fácil leitura, por conta de seus materiais simples, cores bem destacadas e elementos bem reconhecíveis da cultura nordestina.

Fantasias
O conjunto de fantasias da Vigário Geral se mostrou com uma leitura bem facilitada. Cores, símbolos e formatos bem tradicionais e identificáveis. Adereços complemetaram bem as fantasias. Todas elas pareciam bem leves, ajudando o componente a desfilar e brincar. A maioria dos materiais era bem simples, em algumas alas até de forma exagerada. Os destaques positivos foram “Povo Negro” e “Mão de Obra Negra”. Por outro lado, a fantasia das passistas, de nome “Fogueira” era básica demais, além da fantasia “Novenas e Orações”, que era bem diferente do mostrado no projeto original.

Alegorias
O conjunto alegórico da escola foi marcado pela extrema simplicidade e problemas de acabamento. O carro abre-alas, intitulado “Nossas Origens Tradições”, representava uma homenagem aos primeiros habitantes do território ao pé da Serra de Maracanaú, povo que luta para preservar suas tradições, como o ritual em torno de uma centenária mangueira, associada à mãe natureza, marcado por danças e cantos que refletem sua identidade e história. Os animais tinham defeitos de acabamento, a árvore central era muito pequena e o carro tinha formatos e forros muito simples, com a parte traseira expondo defeiros.

Na sequência do desfile, a segunda alegoria do Vigário Geral, de nome “A Indústria e o Progresso de uma Grande Cidade”, representava a chegada da estação ferroviária e a instalação do parque industrial, destacando as políticas econômicas e sociais da cidade. A Paróquia de São José veio em destaque na frente e a Prefeitura veio retratada nas laterais do carro. Esses elementos estavam muito confusos na alegoria, um em cima do outro, com dificuldade para leitura. Além dos acabamentos e materiais simplórios.

Já a terceira e última alegoria da agremiação, intitulada “O Maior São João do Planeta”, retratava a grande festa junina de Maracanaú, com suas cores, fitas, balões e igrejas, que ocorre em uma imensa cidade cenográfica. O carro também trouxe um espaço para apresentação das quadrilhas que animam a festa. A escultura principal tinha um grave defeito de acabamento, com ferragens aparentes na cabeça. A forragem da alegoria também era muito simples. A parte de madeira das torres também ficaram aparentes.
Outros destaques
A bateria de mestre Luygui teve um ótimo desempenho na avenida durante o desfile da Vigário Geral. Exibindo um ritmo muito propício para a execução do samba-enredo, as bossas de ótima musicalidade nordestina impulsionaram ainda mais o desempenho do carro de som. A rainha de bateria Egili Oliveira chamou muito a atenção por sua
fantasia vermelha com leds, que davam um brilho especial para ela, ainda mais quando a escola fazia uso da luz cênica da Sapucaí.

























“Eu vou levar meu povo para Maracanaú”, foi isso que Betinha disse ao site CARNAVALESCO ao apresentar a sua comissão de frente. Ela, que veio representada por um componente do quesito, teve até seu look e penteado imitados para uma representação à altura da presidente popular que ela é.
“Eu me sinto popular sim, não do jeito que o povo fala, mas eu sou popular porque eu sou uma presidente de pé no chão, gosto de andar com o meu bonde, ir ao pagode. Eu não sou uma presidente nariz em pé, eu sou eu, Betinha. Gosto de andar igual perua, a cada hora eu mudo o look e também ando de chinelo igual aos outros. Hoje eu vim de trem com o meu bonde, todo ensaio técnico e desfile eu só venho de trem ou metrô, mesmo tendo a opção de ônibus com ar condicionado”, conta Betinha.
Para os componentes da Vigário Geral, não há dúvidas de que a festa de São João da cidade de Maracanáu, no Ceará, é o maior do planeta. Os componentes da escola que apresentou o enredo “Maracanaú – bem -vindos ao maior São João do planeta”, contaram ao site CARNAVALESCO o que o desfile representa e a importância de contar sobre a cultura nordestina na avenida carnavalesca mais famosa do Brasil.
“Eu amo o carnaval, saio em 8 escolas esse ano, e a segunda festa que eu mais amo é São João. Então é um sonho sair no carnaval contanto sobre outra festa que eu amo, São João é uma festa muito querida, a escola está muito linda pelo que eu vi, muito colorida e vai arrepiar, com certeza, Maracanaú é o maior São João do planeta, os outros agregam, é tudo alegria, é tudo de bom, mas o maior é lá no Ceará”, afirma a catarinense que desfilará nos outros três dias de Sapucaí.
O terceiro carro da Vigário Geral, chamado “O maior São João do planeta”, veio todo colorido, decorado com estampas e balões de festa junina. Algumas componentes do carro falaram da representatividade do nordestino para o Brasil, tanto na cultura, quanto na formação do país.
O abre alas da Império da Tijuca, representando “nos braços da linda mãe sereia”, trouxe um carro com o mar como um portal para a espiritualidade e a expressão artística de Lia, destacando suas canções em homenagem a Iemanjá, estabelecendo uma conexão entre música, devoção e natureza. O carro foi elaborado em tons de azul, com detalhes nos corais e recifes feitos com seis mil garrafas de PET, confeccionadas pelos estudantes do Instituto Federal do Rio de Janeiro, sob a coordenação dos professores André Wonder e Flávio Sabrá.
Sebastião, conhecido como Tiãozinho, compartilhou toda a sua emoção em desfilar no abre alas ao lado de Lia e tudo que a escola representa em sua vida: “Eu desfilo há 67 anos na escola. Saí por um momento, mas eles se lembraram de mim e eu retorno ao lado da Lia, porque sou o mais antigo da escola. Meu nome é Sebastião, mas todos me chamam de Tiãozinho. Já fui presidente da escola e conquistei o primeiro campeonato para ela. Fui presidente da velha guarda e da ala de compositores por 21 anos. O reconhecimento deles para comigo é algo muito especial. Eu nasci no Morro da Formiga e tenho orgulho disso. Minha filha e minha neta agora desfilam comigo.”
Juan Junior Rodrigues de Andrade de 27 anos e grande fã de Lia, expressou seus sentimentos em viver esse momento: “Eu como fã de Lia de Itamaracá, estou muito contente, emocionado, muito feliz, porque ela representa uma gigante da nossa música, da nossa arte, da nossa cultura. Então, eu estou realmente muito feliz de estar participando do desfile da escola, que está homenageando Lia de Itamaracá, e de estar no carro abre alas juntamente com a Lia de Itamaracá, que era um dos meus sonhos, conhecer ela. Então, eu estou muito contente e eu acredito que esse desfile vai ser maravilhoso. As expectativas são altíssimas. Pelo que eu vi, as fantasias estão maravilhosas, o samba-enredo é maravilhoso, o tema do desfile, o enredo por si só, já é muito grandioso, e ter a presença de Lia de Itamaracá aqui é motivo para causar muita alegria, muita emoção, muita… sem palavras, é uma coisa muito verdadeira, muito íntima, que vem do coração”.