Por Rafael Soares e fotos de Nelson Malfacini
A escola foi a sexta a se apresentar na Marquês de Sapucaí nesta sexta-feira de carnaval da Série Ouro. A tricolor levou o enredo “O Esperançar do Poeta” para a avenida. O desfile da União de Maricá mostrou uma defesa de quesitos muito competente através de seu time gabaritado. Já na comissão de frente houve um grande impacto pela apresentação inspirada dos componentes com muito samba no pé. O casal de mestre-sala e porta-bandeira vestia uma indumentária riquíssima e teve um bailado leve e seguro, apesar de uma pequena falha na segunda cabine. A harmonia teve grande destaque, com praticamente todas as alas cantando com bastante volume o bom samba-enredo, defendido com maestria pelos cantores e bateria da agremiação. A evolução também se mostrou muito competente, sem qualquer tipo de sobressalto, muito tranquila. Chamou muito a atenção o altíssimo nível de alegorias e fantasias da escola na avenida. Com excelente acabamento, cores vivas e muito luxo, a parte plástica foi de excelência. A União de Maricá encerrou seu desfile com 52 minutos.

Comissão de Frente
Com o nome de “O Som do Morro”, a comissão de frente assinada pelo coreógrafo Patrick Carvalho trouxe um grupo de 15 componentes, entre homens e mulheres, além de um menino. Todos eles estavam vestidos como malandros, com roupas e maquiagem com aspecto de sujeira. Os integrantes mostraram muito samba no pé, primeiramente no chão e depois em cima do tripé, onde ficaram a maior parte do tempo da apresentação. O elemento tinha escadas e um grande pandeiro, que girava e inclinava durante o número. Os bailarinos seguiram sambando mesmo quando girava, e faziam poses, como se fossem estatuas, quando este inclinava. Uma apresentação muito forte, que cativou o público, gerando muitos aplausos.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Fabrício Pires e Giovana Justo, veio com uma fantasia que representava “A Lua e o Compositor”, uma das maiores parcerias do samba, já que o astro seria uma fonte de inspiração para os poetas. A indumentária dos dois era muito rica e luxuosa, em branco, rosa, roxo e azul. O bailado da dupla foi bem tradicional, com pouquíssimos momentos mais coreografados. Giovanna sorriu o tempo todo e mostrou uma dança bem suave e segura, talvez atrapalhada pelo peso da fantasia. Fabrício acompanhou o mesmo ritmo de sua parceira, cortejando com muita graça nas interações. A boa apresentação da primeira cabine, não se manteve na segunda, onde Fabrício errou uma pegada de bandeira, a deixando escapar. Isso pode gerar uma penalização do jurado.

Samba-Enredo
O samba da União de Maricá tem uma letra bastante poética, que fala sobre a vida de um humilde compositor, passando muito bem a ideia do enredo. A melodia é dolente e possui belas variações. Composto por Rafael Gigante, Vinícius Ferreira, Júnior Fionda, Camarão Neto, Victor do Chapéu, Jefferson Oliveira, Marquinho Abaeté e André do Posto 7, a obra musical teve ótimo rendimento na avenida. Os intérpretes Nino do Milênio e Matheus Gaúcho mostraram um desempenho muito competente ao cantar o samba, embalados pela bateria de mestre Paulinho. Esse rendimento foi acompanhado na totalidade pelos componentes da escola, que entoavam a obra musical com vontade.

Harmonia
A comunidade de Maricá teve um canto excelente em seu desfile. O principal trecho entoado pelos componentes foi o refrão principal, mas é importante destacar que toda a obra teve bom volume. Mostrando bastante regularidade entre suas alas, a harmonia não caiu em nenhum momento do cortejo. O entrosamento com o carro de som e a bateria foi excelente, produzindo um uníssono. Várias alas se destacaram no canto, entre elas a “Só Falta Alguém Espremer o Jornal” e a “Vida Dolorida pra lá de Sofrida”. Talvez as alas com estandartes maiores tiveram seu canto um pouco mais abafado pelos adereços, mas sem comprometer o conjunto.

Evolução
A evolução da agremiação foi muito consistente durante a passagem pela Sapucaí. O ritmo de desfile se mostrou excelente para os componentes, fazendo com que eles tivessem bastante espaço para cantar e brincar o carnaval. Foram marcantes a espontaneidade e alegria dos integrantes. Algumas alas coreografadas abrilhantaram o desfile, sem causar problemas na evolução. Não houve qualquer tipo de correria ou lentidão, nem a abertura de espaçamentos anormais. A escola encerrou o desfile em 52 minutos, com tranquilidade.

Enredo
Em sua estreia na Sapucaí, a União de Maricá apresentou o enredo “O Esperançar do Poeta”, uma homenagem ao papel social, cultural e humanitário presente no ofício do compositor. As alegorias tiveram uma leitura mais fácil por conta de seus elementos e acabamento de alto nível. As fantasias também eram belas, mas não tinham uma leitura tão facilitada assim, por guardar mensagens mais profundas e mais difíceis de traduzir nos figurinos. Além de alguns sambas específicos que também foram retratados nas fantasias, que não geravam identificação imediata.

Fantasias
O conjunto de fantasias apresentado pela Maricá em seu desfile foi de ótimo nível estético. Primando por um bom acabamento, com materiais de excelência, a paleta de cores foi bastante explorada, gerando lindas combinações. Muitas alas também traziam adereços de mão, em especial estandartes, que geravam uma massa de volume e cor, deixando tudo ainda mais imponente. Muitas fantasias se destacaram no cortejo, entre elas a das passistas “Já Raiou a Liberdade”, a da ala 12 “Amor, Sonhei com os Anjos”, e a da ala 13 “Sonho Meu, Eu Sonhava que Sonhava”.

Alegorias
O conjunto alegórico da escola foi marcado pela riqueza e pelo ótimo acabamento. Talvez a iluminação tenha sido tímida, mas a beleza e o brilho eram tantos, que não comprometeu. O carro abre-alas, intitulado “Tempo de Compor”, representava os lugares e espaços onde um compositor consegue o encontro perfeito com a inspiração, fazendo fluir a imaginação e criatividade, com a presença de diversos elementos que auxiliam nesse processo, como as pipas, as flores, os pássaros e a lua. A alegoria era muito bonita, com ótimas combinações de cores e acabamento excelente. Apenas uma escultura de violão na lateral do carro teve uma avaria.

Na sequência do desfile, a segunda alegoria da União de Maricá, de nome “E Aquela Gente de Cor com a Imponência de Rei Vai Pisar a Passarela”, representava o samba-enredo e o carnaval como momento de poder coroar os sambistas, reconhecendo suas conquistas e perpetuando seu legado. As burrinhas eram elementos de retorno ao passado, a baiana coroada significava a glória do sambista e da figura feminina, e os três estandartes representavam os prêmios conquistados pelo compositor Guará. O carro mostrou ser muito imponente. A escultura central da baiana era bem alta e girava. As burrinhas na frente também se mexiam, como se estivessem cavalgando, gerando belo efeito. Muita riqueza de materiais e acabamento foi visto no carro, também com lindo uso das cores.

Já a terceira e última alegoria da agremiação, intitulada “Pra Reunir a Garotada e Proteger Meu Amanhã”, representava a fé depositada pelos poetas na proteção das crianças, com a esperança de viver um futuro mais justo, igualitário e próspero. O chão de cacos, presente em casas do subúrbio, significava o orgulho de suas origens. As pipas representavam a inocência das crianças. A velha guarda veio no carro, significando a passagem das tradições e ensinamentos culturais para os mais novos. A escultura de uma criança montando o cavalo de São Jorge representava a fé e esperança no amanhã. A alegoria mais simples do conjunto, mas ainda assim, com ótimo nível de acabamento.
Outros destaques

A bateria da Maricá comandada pelo mestre Paulinho teve uma exibição de ótimo nível na sustentação do ritmo, que se mostrou muito adequado para os desfilantes poderem evoluir e cantar o samba. Os ritmistas não abusaram na quantidade de bossas, usando na medida certa para impulsionar o cortejo da escola.


Iara Sant’anna, de 47 anos, filha de Guará, veio ao lado da sua filha em cima do abre-alas homenageando seu pai, falecido em 1988, com apenas 33 anos:
“Por um tempo andei desacreditada, mas eu nunca esqueci que ele deixou um legado, os poemas que ele vivia, seja da boemia dele, pois ele era muito boêmio, mas muito inteligente, ele era um gênio, ele era temporal, ele era a frente do seu tempo, literalmente. Se ele estivesse aí hoje, seria um Cartola, um Candeia da vida, estaria com os grandes. Mas ele está vendo tudo isso. O que a Maricá está fazendo é lindo, eu sou muito feliz pela Maricá lembrar do meu pai, por isso que a Maricá é um país”, finaliza Iara.












“A emoção é grande, porque também é minha estreia na Sapucaí junto com a escola. E a gente está muito feliz, estamos entregando um trabalho maravilhoso da comunidade. Estamos desde o natal treinando, já que a nossa ala é coreografada. E estamos aí, dando o gás para a escola, pois Maricá é meu país, meu país é Maricá. A gente veio para poder permanecer. Dá para sonhar com o título esse ano com toda a certeza, a gente veio para isso”, afirma Daniela.
“Esse é o meu primeiro ano, está sendo muito gratificante e maravilhoso, é uma emoção enorme pela escola que está abraçando a nossa comunidade de Maricá, como já vinha fazendo. Estamos firmes e fortes, guerreando, com o foco na vitória sempre. Estamos aí acreditando no título”, contou o porteiro José Filho, de 35 anos.
O segundo setor da Inocentes de Belford Roxo trouxe uma homenagem aos comerciantes que vieram de longe para se estabelecer no Brasil , como árabes, judeus, chineses, e turcos, que contribuíram para a criação de diversos mercados e feiras país a fora, como o Ver-o-Peso em Belém, o Mercado de Belo Horizonte, o Mercado Modelo de Salvador, o Centro de Tradições Nordestinas no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, e o Mercado Municipal de São Paulo.
Alguns integrantes de alas desse setor citaram as inspirações de suas fantasias, assim como dois destaques do carro, e contaram sobre como o setor foi desenvolvido ao CARNAVALESCO.
A ala seguinte, falando sobre os mercadores judeus, veio com tons de azul, trazendo objetos comercializados por eles, como tachos e talheres, em partes da fantasia. João Pedro Monteiro, um dos membros da ala, contou um pouco sobre o setor e sobre a ala em si: “Todo esse setor aqui vem com alas de comerciantes, brasileiros, chinês, judeu, árabes, esses povos que formaram o comércio do Brasil. A gente como comerciantes judeus, também formamos aqui”. Ele finalizou citando a fantasia em si: ” Está muito bonita a fantasia, gostando muito, está muito confortável. Ela é cheia de detalhes, com os itens comercializados, acho uma fantasia muito interessante”.
Os destaques do carro por sua vez vieram como elementos específicos desses locais de comércio ao longo da história, como as especiarias e as jóias de crioula.


















A Estácio de Sá foi a quinta escola a desfilar nesta sexta-feira, no primeiro dia de desfile da Série Ouro do Carnaval carioca. Em seu segundo carro, chamado de “Terrível travessia: fé e proteção”, a escola mostrou o poder feminino e como, através da fé crenças, o amor materno foi essencial para resistir à luta.
A agremiação retratou em seu enredo a trajetória de “Kianda e Mwana Ya Sanza”, Cambinda e Maria Conga, duas mulheres que, desde jovens, foram submetidas à escravidão, mas lutaram incansavelmente para manter viva sua herança cultural.
A narrativa serviu como elo para explorar a tenacidade dos povos africanos trazidos ao Brasil ao longo da história e como conseguiram preservar sua identidade, apesar dos desafios cruéis impostos pelo sistema escravista.
Fátima Tavares, de 66 anos, é professora e ritmista no chocalho. Foi convidada a desfilar no carro este ano e está “experimentando a sensação”. Ela defende o enredo e a alegoria da escola: “É porque a mulher agora, graças a Deus, está sendo mais valorizada. A gente está externando toda a problemática social. Eu estou aqui representando a luta, as guerreiras, as poderosas, que estão assim botando para quebrar na nossa sociedade”.