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Samba-enredo funciona e comunidade dá o recado, mas Estácio de Sá peca em evolução, estoura o tempo limite e compromete desfile

Por Luan Costa e fotos de Nelson Malfacini

A Estácio de Sá foi a quinta escola a pisar na avenida na primeira noite de desfiles da Série Ouro. Com um enredo que resgatou suas origens africanas e samba na boca povo, o berço do samba levantou o público na Sapucaí, tendo a comunidade como um dos grandes destaques da noite através de um canto forte. A vermelha e branca realizou um desfile aguerrido e de chão quente, porém, problemas de evolução durante todo o percurso fez com que os componentes corressem no final, ocasionando o estouro do tempo regulamentar em um minuto.

Apresentando o enredo “Chão de devoção: orgulho ancestral”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Paulo, a escola propôs falar do povo preto que disseminou sua cultura e transformou a diáspora africana em solo brasileiro através da arte, religião e dança. A agremiação terminou sua apresentação com 56 minutos e largará na apuração com menos um décimo.

Comissão de Frente

A comissão de frente coreografada por Ariadne Lax foi intitulada “Cabindas e Congoleses: Festejos, Rituais em Liberdade e os Destinos”, e composta por 15 componentes mistos entre homens e mulheres. A comissão apresentou as personagens centrais do enredo, Cambinda e Maria da Conceição, suas histórias, permeadas por rituais de nascimento, celebrações culturais e manifestações artísticas foram retratadas na avenida.

A comissão passou pela avenida de forma impactante e dramática, foi possível sentir a força energética empregada pelos componentes do início ao fim da apresentação. Toda a dor e luta que as personagens centrais do enredo passaram durante sua trajetória foram retratadas na comissão. A dança e a teatralização estiveram lado a lado, momentos do sequestro e açoite levaram o público a sentir angústia e se envolver ainda mais com o que era mostrado. No fim, uma troca de roupa simples mostra os orixás em um ritual de libertação e selando o novo destino de Cambinda e Maria Gonga, a utilização do tripé foi fundamental para que a história fosse contada.

Mestre-sala e Porta-bandeira

A dupla formada por Feliciano Junior e Thais Romi dançaram juntos pela primeira, ele, muito experiente e defendendo o pavilhão da Estácio há anos, conduziu de forma encantadora sua companheira. Coube a Rute Alves apresentar o casal ao jurados, logo no início, a porta-bandeira entrou no campo de visão do júri com uma sequência de giros muito bem executados, a dupla demonstrou muita sintonia e leveza nos movimentos. Houve coreografia no final da apresentação, no momento do samba que remete as pretas velhas eles faziam movimentos mais suaves e se curvaram.

A fantasia do casal foi predominantemente em tons vermelhos com detalhes brancos e pretos. Denominada “O Som do Batuque aos Ventos da Liberdade Embalam a Dança”, a indumentária representou os traços culturais dos povos do solo rico e avermelhado congo-angolano e chamou atenção pelo ótimo acabamento.

Enredo

O carnavalesco Marcus Paulo foi o responsável por desenvolver o enredo “Chão de devoção: orgulho ancestral”, que contou a história de “Kianda e Mwana Ya Sanza”, Cambinda e Maria Conga, que, mesmo escravizadas quando meninas, lutaram para implementar sua cultura. A história delas foi o fio condutor para falar da resistência dos povos africanos que foram trazidos ao longo da história do Brasil e como eles conseguiram manter a sua história, apesar dos horrores da escravidão. Apesar de denso e aparentemente triste, o enredo se mostrou um dos grandes destaques da escola por sua força e forma que foi apresentado.

O carnavalesco optou por contar essa história através de quatro setores, tendo como abertura “Livres como a brisa dos ventos costeiros e das savanas”, logo em seguida “Liberdade, festas e rituais”, “O destino: plantaram suas sementes e tem até hoje suas histórias mantidas pela oralidade”, “Orum: a consagração e a coroação no reino das almas” e “Estácio de Sá: chão de devoção e de orgulho da ancestralidade”.

Alegorias e Adereços

O berço do samba apresentou um conjunto alegórico modesto, mas que contou o enredo de forma clara, o carnavalesco Marcus Paulo trouxe o impacto através das cores, foi uma representação diferente do que costumam representar como África. No total, foram apresentados três alegorias e dois tripés, sendo que duas alegorias atrapalharam o bom desenvolvimento do enredo por conta de problemas de acoplamento.

O leão, símbolo da agremiação e motivo de orgulho de seus torcedores esteve presente em uma grande escultura no carro abre-alas, denominado “África – Congo-Angola”, na altura do setor três (módulo um e dois), o carro travou e enfrentou problemas para acoplar, já a segunda alegoria, “O carinho matriarcal e a proteção lendária na travessia” representou a fé, os amuletos e seres que ajudaram durante a travessia, foi a alegoria mais problemática do desfile, desde o início ela se mostrou fora de rumo, no setor três ela avançou para cima das grades e depois seguiu até o final com dificuldades para se manter no prumo.

Na sequência, o tripé “Bravura que ficou na história: o Quilombo de Maria Conga” mostrou o Quilombo de Maria Conga, que servia de abrigo e dava proteção aos negros refugiados, o tripé pecou pela falta de adereço, o mesmo foi visto no segundo tripé “Estácio chão de fundamento e devoção”, que trouxe o grupo de fundadores da reconhecida como primeira escola de Samba do Brasil, além disso, a falta de iluminação também foi observado.

A alegoria que fechou o desfile da vermelha e branca teve como nome “Chão de devoção e culto a ancestralidade”, novamente, a escultura de um leão se fez presente, desta vez ao lado das Pretas Velhas Cambinda e Maria Conga, o carro era predominantemente branco d alguns grafismos pretos permearam o carro.

Fantasias

O conjunto visual apresentado pela Estácio de Sá foi de extremo bom gosto, o carnavalesco Marcus Paulo optou por levar para a avenida uma paleta de cores diversa com o vermelho e branco permeando todo o desfile. No total foram 23 alas, em sua maioria com muito volume, uso de penas artificiais e outros materiais que engrandeceram as indumentárias. Como destaque ficam as alas: “Festejos nas aldeias: Povo de lá e de cá, Cabindas e Congoleses, “A dor e o destino”, “o ser lendário de proteção”, além da ala de baianas, que representou a culinária afro-brasileira. Todo o destaque também para a fantasia da ala de passistas.

Harmonia

Um dos grandes pontos de destaque da escola foi a harmonia apresentada, durante todo o desfile foi observado uma constância no canto da comunidade, o componente estaciano entrou na avenida com muito vigor, as primeiras alas gritavam o samba com muita empolgação, nem mesmo os problemas de evolução foram capazes de diminuir o brilho. A dupla de intérpretes Tiganá e Charles Silva demonstraram muito entrosamento e impulsionaram o samba juntamente da bateria de mestre Chuvisco, que se apresentou de forma impecável por toda a avenida. Além das primeiras alas, o fôlego se manteve durante toda a escola, as alas do último setor, apesar de passarem de forma mais rápida pelos módulos de julgamento, cantaram com a mesma empolgação. Vale deixar registrado a raça e força apresentada pela ala de passistas da agremiação, extremamente numerosa e bem vestida, os componentes deram um verdadeiro show na avenida.

Samba-Enredo

Apontado durante todo o pré carnaval como um dos melhores sambas do grupo, a obra dos compositores Júlio Alves, Cláudio Russo, Magrão do Estácio, Filipe Medrado, Thiago Daniel, Diego Nicolau, Tinga, Dilson Marimba, Guilherme Karraz, Barbara Fonseca, Telmo Augusto, Adolfo Konder, Fernando César e Marquinhos Beija-Flor foi um dos grandes destaques do desfile. Todo o samba possui letra fortíssima e a história contada no enredo foi toda transmitida através dele. A obra foi cantada de forma uniforme pela Sapucaí, porém, os refrões tiveram mais destaque, muito por conta das paradinhas do mestre Chuvisco. O público foi junto com a Estácio, os versos que antecedem o refrão do meio chamam naturalmente o canto da comunidade, assim como o próprio refrão. Mesmo algumas palavras mais difíceis como “Kianda! Mwana tá Sanza” foram cantadas no mesmo nível que as outras, foi um grande acerto do início ao fim.

Evolução

O quesito mais prejudicado no desfile da vermelha e branca foi a evolução, desde o início a escola sofreu com o acoplamentos de carros e viu um buraco perceptível ao olho dos jurados ser formado logo na primeira cabine, ao longo do desfile, por conta de um problema na segunda alegoria, a escola precisou segurar o ritmo, durante alguns minutos as alas não evoluíram, somente no setor três a escola ficou parada por mais de cinco minutos. Outro problema observado foi após a entrada da bateria no recuo, a escola apertou o passo e ficou visível o desconforto de alguns componentes, no final, houve uma correria nas últimas alas e a bateria se apresentou às pressas na última cabine de julgamento, mesmo assim a escola finalizou o desfile com 56 minutos e largará com um décimo a menos na apuração.

Outros Destaques

A Estácio de Sá levantou o público presente na Sapucaí, o samba-enredo estava na boca do povo e a bateria de mestre Chuvisco promoveu inúmeras paradinhas e coreografias que contribuíram ainda mais para que o público se jogasse no desfile da vermelha e branca.

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