A Dragões da Real realizou na noite de quarta-feira o primeiro ensaio técnico preparando a sua comunidade para o desfile de 2023. Como era esperado, o treino ficou marcado pelo forte canto, que é característico da agremiação. O samba-enredo, interpretado por Renê Sobral, fluiu muito bem junto com a sua ala musical. O teste também teve as estreias da porta-bandeira Janny Moreno e do mestre de bateria, Klemen Gioz. Ambos pisaram no Anhembi pela primeira vez junto a sua comunidade. A primeira não sentiu o peso do pavilhão perante ao forte vento que a Dragões enfrentou no ensaio, além da fantasia usada. Ao todo, para um primeiro ensaio, a comunidade deve comemorar o seu desempenho. “Paraíso Paraibano – João Pessoa, a porta do sol das Américas” é o enredo da agremiação para o carnaval de 2023.
Fotos de Fábio Martins/Site CARNAVALESCO
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Fotos de Fábio Martins/Site CARNAVALESCO
Foto: Fábio Martins/Site CARNAVALESCO
Comissão de frente
A ala claramente fez uma espécie de coreografia de festa junina. No samba é citado a ‘quadrilha de Cariri’, que é tão famosa em João Pessoa. Os componentes, na maioria das vezes dançavam em duplas, enquanto outro grupo saudava o público. Ambos com roupas brancas e muitos detalhes coloridos, principalmente as mulheres. A dança também contava com um tripé, onde duas pessoas ficavam em cima agitando duas bandeiras laranjas.
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Harmonia
Como observado, a harmonia da escola ecoou forte no Anhembi. O olhar apurado é que não dá para ver qual ala cantou mais ou menos. Deu para notar apenas que o terceiro setor foi abaixo dos demais. Porém, como tudo deve ser corrigido em ensaios técnicos, a direção de harmonia deve-se atentar ao fato de que os componentes deram uma caída tanto em evolução como no próprio canto após a metade do treino. Há vários fatores para serem observados, como vigor físico, empolgação, energia e entre outras coisas. Portanto, ao todo, o desempenho do quesito foi satisfatório, mas esses detalhes devem ser analisados. Vale destacar a arrancada que a escola fez dentro do samba. Logo que soltou o verso “isso que tá bom demais, incendeia”, deu uma explosão de vozes e um efeito incrível. A ‘Ala Zarama’ foi destaque no treino.
“Quanto ao nosso primeiro ensaio, é o renascimento. Estamos reaprendendo a fazer carnaval, costumo dizer que a Dragões está se reinventando, todo mundo pode esperar uma nova escola na avenida, e tenho certeza que um pouco disso conseguimos trazer hoje. Claro que nunca trazemos tudo no primeiro ensaio técnico, é uma questão de amadurecimento, desenvolvimento, mas sem dúvida nenhuma foi um ensaio extremamente proveitoso, positivo. Saímos com a sensação de dever cumprido, o primeiro passo foi dado. Queremos uma escola que entre na avenida para brincar carnaval, fazer festa mesmo, trazer a alegria de João Pessoa para dentro do carnaval de São Paulo, dentro do Sambódromo. É transmitir calor com o corpo, estamos falando de uma terra que é marcada pelo sol, e que o calor é tão presente. Então nada mais justo do que transmitir isso através de uma evolução totalmente solta, alegre, brincante”, disse Márcio Santana, diretor de carnaval da escola.
Mestre-sala e Porta-bandeira
O casal Rubens de Castro e Janny Moreno teve um desempenho satisfatório no ensaio. A felicidade ao final do treino corrobora com a análise. Mostraram movimentos sincronizados, sorriso no rosto, coreografia leve dentro do samba e de fácil leitura. Ambos ensaiaram vestidos com fantasia. O vento forte e a vestimenta não impediram Janny de segurar o pavilhão com sutileza.
“Foi bom, mas tem que melhorar ainda. O vento não foi muito parceiro, mas foi bom, eu gostei. Foi animado, foi divertido”, declarou a porta-bandeira, Janny Moreno.
“É lembrar que o andamento que teve aqui atrapalhou um pouquinho o nosso treinamento, que é outro andamento em relação ao que treinamos aqui. Hoje a escola está todinha aqui, então muda um pouco os aspectos. Para o próximo, nós ajustamos esses erros mínimos para nos tornarmos agradáveis para nós dois. Nós queremos nos divertir”, completou o mestre-sala, Rubens de Castro.
Evolução
A Dragões da Real adotou uma estratégia diferente para evoluir neste ensaio. Em anos anteriores, a escola sempre inventava coreografias dentro do samba para toda a comunidade fazer. Porém, com a chegada do carnavalesco Jorge Freitas, que participa diretamente em todos os setores da agremiação, sem dúvidas houve uma conversa para deixar o componente totalmente solto, pois o samba pede isso. É um hino explosivo, leve e que permite o componente brincar de carnaval. Também tem a questão da ‘comunidade de gente feliz’ desfilar como última escola do sábado. Isso pode ter influenciado a decisão. A comunidade atendeu o chamado e está comprometida com toda a dança.
Samba-Enredo
É um dos melhores sambas do carnaval. É totalmente carne e osso cara de Dragões da Real. É um somatório de trilhas sonoras alegres que a agremiação costumeiramente levou para a avenida desde que subiu, no ano de 2012. A arrancada foi um espetáculo. As primeiras passadas davam a impressão de que estávamos em um estádio de futebol. O samba da Dragões da Real foi praticamente escolhido desde as primeiras divulgações nas eliminatórias. A comunidade abraçou totalmente. Destaque para Renê Sobral e sua ala musical, que executam o papel de segundas vozes incríveis, dando tons melódicos que enriquecem ainda mais, especialmente nos primeiros versos pós refrão do meio. “Óh mãe, senhora da fé paraibana… A mulher tem sua luz, emana uma força soberana”.
O intérprete Renê Sobral avaliou o ensaio e rasgou elogios ao samba. “Foi o nosso primeiro ensaio técnico, experimentamos muitas coisas e depois faremos uma certa ‘limpeza’, para no próximo ensaio já prepararmos o que será apresentado na avenida. Hoje foi um ensaio muito bom, a resposta da comunidade em relação ao canto foi satisfatória, a gente sempre pede mais, mas foi satisfatória. A escola cantou bastante o samba que é bem agradável, que não é cansativo. A bateria fez um grande show, uma sustentação maravilhosa para o canto da escola, trazendo a agremiação para um andamento sem oscilações. Não notei oscilações, às vezes em uma bossa o andamento cai ou acelera, não teve nada disso. Os ensaios estão indo muito bem. Obviamente não está 100%, da parte técnica ainda vai trabalhar ainda mais para chegar à perfeição. Saiu muito satisfeito com a comunidade, com a ala musical, com a bateria. Estamos no caminho certo. Eu sou da opinião que uma escola começa a ganhar um carnaval quando ela escolhe um bom samba. Um samba de fácil aceitação e canto para o público, para a escola. Gosto do ‘menos é mais’. Sem trava-línguas, com poucas palavras dentro das frases. O refrão não precisa ser chiclete ou oba-oba, mas inteligente, porém com palavras fáceis para o povo tirar onda na avenida e cantar. Esse samba é exatamente assim. O samba é alegre, traz a alegria de João Pessoa para a escola. Foi muito bem escrito e elaborado para esse enredo. Estou muito satisfeito com esse samba”, contou.
Outros destaques
A bateria ‘Ritmo que Incendeia’, regida por mestre Klemen Gioz, teve um grande desempenho nesta noite. Realizou bossas que interagiram bastante com a comunidade. O ‘breque’ que fica nos últimos versos e refrão principal foi a de grande destaque pela grande presença auditiva de todos os surdos (principalmente o de terceira), interagindo com as caixas.
O mestre Klemen analisou o ensaio. Veio bem. Como de clichê, todas as baterias têm que acertar alguns detalhes. Mas está correndo conforme o esperado, combinado, o nosso Plano A está sendo bem executado graças a Deus. Gostei do desempenho da escola, que já tem uma história aqui no Anhembi muito boa. Eu só tenho a agradecer. A bateria desenvolveu, a escola desenvolveu. Fizemos o nosso papel”, avaliou.
Alas criativas coreografadas fizeram parte do treino. O carnavalesco Jorge Freitas, comemorando seu aniversário, fez questão de estar presente no ensaio da Dragões da Real. Como sempre, foi muito ativo com a comunidade.
A Independente Tricolor realizou seu segundo ensaio técnico na noite desta quarta-feira, feriado municipal na cidade de São Paulo. Com destaque para a grande melhoria geral no desempenho, a escola mostrou que está praticamente pronta para o desfile oficial ao realizar um belo espetáculo no Sambódromo do Anhembi, com seu treinamento finalizado sem preocupações com uma hora e quatro minutos. A Tricolor será a primeira escola a desfilar na sexta-feira, dia 17 de fevereiro, com o enredo “Samba no pé, lança na mão, isso é uma invasão!”.
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Comissão de Frente
Uma dança valente como os povos retratados pelo enredo da Independente. A comissão de frente se destaca por componentes fazendo movimentos rápidos e cruzando entre si, algo que exige muito ensaio e confiança nos seus parceiros. Ao menos nesse ensaio, tudo funcionou bem ao alcance do que foi visto. A dança aparenta passar entre duas passagens do samba, mas de acordo com o coreógrafo Arthur Rosas, a cada ensaio os dançarinos representarão um povo diferente. Hoje foram os troianos. Até o momento, excelente. Bela maneira de apresentar a agremiação.
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Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O casal da Independente, formado por Jeff Antony e Thais Paraguassu, apresentou uma dança digna do clima apresentado pelo ensaio da escola. Sincronia ótima de movimentos, confiança nos olhares de um para o outro. Nem o vento que fazia no primeiro módulo impediu o pavilhão Tricolor de ostentar sua beleza. Nos últimos jurados, parece até que os deuses resolveram se render, abrilhantando ainda mais a apresentação da dupla, que falou a respeito ao analisar o próprio desempenho no ensaio.
“Hoje a gente conseguiu cumprir todos os quesitos obrigatórios na frente dos quatro jurados, graças a Deus. O vento hoje foi cruel, muito forte. Foram rajadas e rajadas. Mas é assim que funciona, não sabemos como será no dia. Deu para contornar, e agora é esperar o momento”, disse Thais.
“Não me atrapalha diretamente, mas se atrapalha a minha porta-bandeira, é um conjunto. Eu tenho que ter todo um jogo de cintura, uma preocupação para com ela, para que possamos juntos conseguir driblar essa crise do vento. Não contamos com fenômenos naturais, mas nos preparamos para qualquer coisa. Por mais que a gente se prepare, ela molha o pavilhão para ter um peso maior, mesmo assim o vento ainda sempre é uma questão de ficarmos de olho. Mas nada que atrapalhe o nosso desempenho. Hoje fizemos um ótimo ensaio, e já nos sentimos preparados às vésperas do Carnaval. Por mais que tenhamos feito um bom trabalho, sempre vamos nos cobrar. Eu e a Thaís temos isso. No próximo ensaio vamos querer dar o máximo da gente ainda, mas estamos aqui firmes e fortes, rumo à vitória”, afirmou Jeff.
Após a dura batalha travada contra o vento, Thais saiu vitoriosa. Mesmo assim, a dançarina acredita que é preciso sempre estarem atentos a todas as situações.
“Sempre tem. Até no dia tem. Nós ensaiamos no dia do desfile, e às vezes alteramos algum detalhezinho. Sempre pensamos: se chover, vamos alterar tal coisa. E se ventar, vamos alterar tal coisa. No dia do desfile, ensaiamos também na parte da manhã, e se a gente ver que o clima está meio estranho, nós fazemos alterações também”, explicou.
Com o encerramento do ensaio, Jeff e Thais comemoraram com os demais componentes e dedicaram a eles os créditos pelo sucesso neste segundo ensaio técnico da Independente Tricolor.
“Eu falo que é sempre uma emoção muito grande cada ensaio, porque é uma comunidade muito aguerrida. Uma comunidade que parece que guarda todo o fôlego para jogar na Avenida. É demais essa sensação de ver o canto ecoar. Parece que os Independentes são aquele povo que querem mostrar que a escola realmente é uma escola forte e aguerrida, que não fica devendo nada para nenhuma coirmã”, declarou Jeff.
“Para nós é sempre uma alegria finalizarmos o nosso ensaio e parar ali perto do portão para admirar a comunidade, porque eles cantam muito, muito, muito. É um orgulho tão grande de pertencer a essa escola, de defender o pavilhão dessas pessoas que estão aqui. O canto realmente é sempre o diferencial”, acrescentou Thais.
“E isso puxa a gente. Eu e a Thais ficamos “Nossa Senhora! A escola está nesse gás, temos que ficar com o gás em dobro para compensar e estar junto!”, porque não adianta virmos desanimados e olhar para trás e ver eles. Esse canto é o gás que nos faz entrar com tudo. É bem bacana”, finalizou o Mestre-Sala.
Harmonia
O canto da escola cresceu significantemente em relação ao primeiro ensaio. A vontade de batalhar está evidente no olhar da maioria dos componentes, e ajudaram a dar beleza e vida ao samba da Independente. A ala ABC, apesar de um pouco menor em tamanho, mandou muito bem nesse quesito.
Mas ainda há o que ser corrigido. É difícil entender, mas a ala coreografada que virá na frente do segundo carro só canta alguns versos intercalados enquanto se apresenta. Isso atrapalhou o ritmo de canto das alas que vem depois da alegoria, que atravessou em momentos-chave, como no primeiro apagão que a bateria experimentou. A direção de harmonia parece conseguir lidar com isso rapidamente, mas o ideal é não correr esse tipo de risco.
Evolução
A Independente desfilou pela Avenida sem apresentar o menor sinal de preocupação com o tempo. Ajustes precisam ser feitos no alinhamento entre algumas alas, mas em questão de ritmo de desfile a escola está bem ajustada. Os componentes puderam curtir o espetáculo, o que é fundamental para a magia do Carnaval acontecer. Ponto para a Tricolor.
Douglas Pinto, um dos diretores de harmonia da Independente, fez sua análise do desempenho dos quesitos técnicos no ensaio.
“O ensaio foi muito bom. Deu para ver que a escola canta demais, está cantando muito. Usamos o ensaio para tirar algumas divergências que ocorreram no primeiro. Tivemos algumas melhorias e apareceram outras correções para fazer, por isso é ensaio. Esperamos no último, o terceiro, sanar todas essas últimas falhas, mas no geral o ensaio foi muito bom. A escola evoluiu bem, cumprimos todo espaço, fizemos no tempo certinho, não aceleramos o andamento, nem retardamos o andamento, não precisamos segurar. Foi muito bom ensaio”, declarou Douglas.
Em relação a melhorias percebidas em relação ao primeiro ensaio, Douglas destacou os elementos de dança apresentados pela Independente.
“Alguns quesitos, como o módulo dança, tem que andar em conjunto, por isso é módulo. São casal e evolução, só que a gente teve que ajustar para um quesito ajudar o outro, e isso deu muito certo. Tínhamos encontrado algumas dificuldades, divergências. Quando você faz o primeiro ensaio, você junta a evolução da comissão, do casal, com evolução da escola, e daí muitas vezes tem os ajustes, e esses foram bem resolvidos neste ensaio. Foi bom, a ênfase maior foi o módulo dança”, explicou.
Por fim, o diretor exaltou a presença da comunidade, apesar do horário no qual a Tricolor realizou seu ensaio. “Foi a comunidade vir esse horário, onze horas da noite em peso, e cantar desse jeito, foi o ponto forte”, concluiu.
Samba-Enredo
Um pouco irregular no primeiro ensaio, o samba desta vez mostrou que pode ser protagonista na grande epopeia que a Independente apresentará na Avenida. É sempre bom ver a comunidade cantando animada, e a obra da Tricolor estava mais viva na voz da maioria dos presentes na pista. Pode melhorar. Pessoas em algumas alas ainda precisavam de uma colinha para ajudar, mas vejo isso como um esforço positivo na meta de fazer parte desse grande time.
O intérprete Pe Santana foi mais um a exaltar o canto da comunidade como fundamental para o grande ensaio realizado pela Independente.
“Falar do canto da nossa comunidade é chover no molhado. Como eu sempre digo nos bate-papos, o grande forte da Independente sempre foi o chão. É um chão muito forte, aguerrido e vem provando isso no ensaio de quadra a cada tempo que passa, nos ensaios de rua e agora nesse segundo ensaio que a gente teve a oportunidade de realizar hoje. Acredito que ainda temos muitas coisas pra ajustar. É normal, ensaio é pra isso, porém tenho certeza de que pela cara da imprensa, dos presidentes e dos amigos que ficam na arquibancada, foi extremamente positivo”, celebrou.
Quanto ao desempenho do time de canto no ensaio, o cantor acredita que estão no caminho certo.
“Hoje já estamos sincronizados. Conseguimos dissecar mais para deixar o samba mais valente. Fizemos ensaios no meio da semana e fio positivo hoje. Vamos tentar fazer algumas correções para o próximo ensaio técnico que está por vir”, concluiu Pe Santana.
Outros destaques
A ala das baianas é uma das que mais cantou até o momento nessa temporada de ensaios técnicos e foi curioso destaque do ensaio da Independente. Os giros das senhoras podem ser belos, mas com o vigor e a alegria nos olhos percebidos foram fatores que engrandeceram ainda mais o espetáculo apresentado pela escola.
A bateria “Ritmo Forte”, comandada pelo mestre Cassiano de Andrade, mostrou ousadia nas bossas e coragem nos apagões, provando a grande confiança que tem na comunidade. O mestre aprovou o desempenho da escola neste segundo ensaio técnico.
“A gente teve uma evolução bacana do primeiro ensaio para esse. Não teve muito tempo de um ensaio para outro, mas tivemos evolução. Gostei bastante da evolução da escola e o canto, deu pra ficar nítido. Agora é trabalhar e peneirar bastante para corrigir alguns erros que podem ter passado despercebidos. Vamos atrás para fazer o melhor para a bateria”, afirmou.
Quanto a novidades em preparação por ele e sua equipe, como bossas ou paradinhas, Cassiano explicou o trabalho realizado com os ritmistas da escola.
“É trabalhar para o samba, escola e bateria. Não quer dizer que ao fazer isso, você está fazendo apenas pela bateria. Você consegue um meio termo. Trabalhar pela bateria, um pouco do ego do ritmista e trabalhar pela escola, sendo bem firme para todo mundo cantar”, explicou.
A Independente Tricolor encerrou seu segundo ensaio técnico dando a sensação de que está praticamente pronta para o desfile. A melhora geral da escola em relação ao primeiro treinamento na Passarela do Samba foi explícita, e a ascendente do Grupo de Acesso surpreendeu pela grande coesão de seu conjunto. Os pequenos problemas apontados têm tudo para serem ajustados até o terceiro ensaio, mas com base no que o público que compareceu ao Sambódromo do Anhembi presenciou na noite desta quarta-feira, estamos diante de um exército pronto para encarar a mais importante batalha da sua história.
Assumir a bateria do Salgueiro jamais poderia ser uma missão fácil, mas os irmãos Guilherme e Gustavo, nascidos e criados na comunidade, não recusariam de forma alguma. Sem ao menos saber, os dois se tornaram mestres pouco antes da pandemia de Covid-19. Após anos conturbados, eles sentem que finalmente terão a oportunidade de mostrar sua essência de trabalho. Em entrevista concedida ao site CARNAVALESCO, a dupla contou sobre o passado, inspirações e a constante vontade de inovar que os persegue.
Foto: Luisa Alves/site CARNAVALESCO
Hoje, após a entrada de vocês, em 2019, qual é o balanço que fazem do trabalho nesse período?
Gustavo: “Quando entramos, em 2019, passamos por um curto período de reformulação da bateria. Muita gente queria voltar, poucas pessoas saíram, tivemos esse impasse. Naquele curto período em que assumimos a bateria, ainda em dezembro de 2018, até o carnaval de 2019, a bateria passou por uma certa reformulação. Foi o que a gente conseguiu arrumar e decidir rápido para o desfile. Aí chega o carnaval de 2020, no ano seguinte, e foi o ano em que conseguimos estabelecer um pouco das nossas ideias e do que pensamos sobre a bateria do Salgueiro. Muito do que aprendemos e crescemos escutando, as nossas concepções musicais, de trabalho e logística em torno da bateria. Só que chegou a pandemia e deu esse corte na linha do tempo de todos. Ninguém sabia o que ia acontecer, ficamos muito tempo parados, e quando veio o carnaval de 2022… foi difícil. Não sabíamos se teria ou não, e retornamos para a situação atípica de um entra e sai de pessoas. Várias pessoas ainda estavam com medo, e nós obviamente entendemos. A dinâmica de ensaio também precisava ser diferente, com máscaras e o distanciamento social. Foi um ano em que, assim que chegou em janeiro, não sabíamos se ia ter carnaval. Foi adiado para a abril. Por um lado, foi bom, porque conseguimos acertar detalhes que não conseguiríamos se fosse no período normal. Conseguimos fazer um carnaval bonito e implantar as nossas ideias. Desde que assumimos a bateria, essa foi a primeira vez em que conseguimos fazer um trabalho mais orgânico e certo. Messe atual carnaval de 2023, a gente consegue entender mais o que está acontecendo. A gente consegue se entender, transmitir mais o que queremos e o pessoal compreende mais. Contei um pouco a história para explicar o motivo de termos uma bateria realmente consolidada agora. Nossos ritmistas são bem unidos, estão dentro da dinâmica. Eu estava até comentando com o Guilherme quase agora. Hoje eu fiz uns movimentos nos grupos, de energia, mostrando que falta só um mês para o nosso desfile, e foi engraçado porque ficou um falatório ali no WhatsApp. Todo mundo animado, brincando. Hoje temos uma visão de que o nosso trabalho está um pouco mais consolidado e, graças a Deus, estamos conseguindo transmitir isso para o público”.
Na parte técnica, o que mudaram na bateria comandada pelo Marcão e agora por vocês?
Guilherme: “Logo quando a gente assumiu, tinha umas coisas do gosto dele que já não gostávamos tanto. Alguns detalhes. Aumentamos o número de taróis, ele usava bem menos. Abaixamos a afinação dos surdos, para trazer de volta as nossas referências da década de 1990, que ouvíamos bastante na bateria do Louro. Uma das coisas que mantivemos foram as caixas vazadas, que foram trocadas por volta de 2016. Essas caixas têm os timbres mais agudos. Lembro que, bem antes de sermos mestres de bateria, íamos na Sapucaí para assistir aos ensaios de outras escolas e comentávamos que, de longe, dava para escutar muito mais os surdos. Só escutávamos as caixas quando a bateria chegava bem perto. A caixa vazada te dá essa possibilidade de levar o som do instrumento numa distância maior. Foi isso. De resto, a nossa forma de criar, os nossos shows… todos têm uma identidade própria, sabe? Fazemos isso, e resgatamos um pouco das nossas referencias antigas”.
Neste contexto, o que representa para vocês estar à frente da bateria do Salgueiro?
Guilherme: “Acho que a ficha demorou para cair, não sei nem se caiu totalmente. Porque hoje, se for olhar na história do Salgueiro, a escola vai fazer 70 anos, temos dois mestres que são muito conhecidos e juntos ficaram 47 anos. O falecido mestre Louro e o mestre Marcão. Foram 32/33 anos do Louro e 14 do Marcão. Teve um ano do Jonas também. Antes do Louro, tivemos alguns outros mestres… O que os mais antigos contam é que os mestres de bateria eram os mais poderosos do morro, mudava com frequência. Mas você vê esses grandes nomes e agora, caramba, Guilherme e Gustavo. A gente sabe que a responsabilidade é enorme, assistimos vídeos muito antigos… Hoje mesmo estávamos debatendo um filme. Sabemos que somos figuras importantes dessa agremiação absurda. A gente percebe o sucesso que o Salgueiro tem até mesmo fora do brasil, porque recebemos mensagens de amantes do samba espalhados pelo mundo inteiro. Fora a exposição que temos, os convites e oportunidades que recebemos. Eu vou ser julgador do carnaval da Argentina agora, no início de fevereiro. Já temos viagem marcada para Portugal, para um festival de samba. Isso tudo pela exposição que o Salgueiro nos dá. Obviamente, sei também que tem o nosso mérito, não chegamos aqui à toa, não caímos de paraquedas. Estudamos muito. Esse ano, entre escola mirim e Salgueiro, completo 30 anos na escola. Desfilo desde os oito anos. Além disso, nascemos ali. Sabemos da responsabilidade, mas também penso que se tivéssemos vindo de fora sentiríamos mais. Como estamos no nosso ambiente, é mais tranquilo. Eu já era diretor de bateria desde 2010, fora os anos de ritmista. Estamos em casa. Sabemos da responsabilidade e sentimos um friozinho na barriga, mas estamos em casa”.
Foto: Luisa Alves/site CARNAVALESCO
Gustavo: “A minha questão também é parecida com a dele, pelo fato de sermos irmãos. Mas eu não simplesmente tinha o sonho de ser mestre de bateria, percorri um caminho que me levou a isso. Fui mestre da bateria da escola mirim por cinco anos, então trilhei esse caminho. Hoje em dia isso representa a nossa história. Conseguimos, através das nossas jornadas, chegar aqui e, como o Guilherme falou, representar todas as ancestralidades. Um pessoal que foi importante não só para o samba, como para a música popular brasileira num todo”.
Como irmãos a amizade e o companheirismo é grande, mas como mestres como é a relação de vocês?
Gustavo: “Isso é uma coisa que muita gente pergunta, mas costumamos dizer que sempre trabalhamos juntos. Apesar de eu ser mais novo, tivemos nosso pontapé na música praticamente na mesma época. Nós dois tocamos em orquestras. Quando eu cresci, começamos a tocar juntos em várias bandas e gravações. Nesse momento de assumir a bateria, surgiu como um trabalho a mais para a gente. Discutimos o tempo todo, inclusive já discutimos em dia de desfile, mas é normal de irmão. De trabalho também. Às vezes tenho uma opinião, ele tem outra, e até chegar num consenso pode ser complicado”.
Guilherme: “Gostamos de coisas diferentes. Em algum momento, alguém precisa ceder, mas, na verdade, concordamos na maioria das vezes. É exatamente o que ele disse. Continuamos trabalhando juntos fora do Salgueiro também. Fazemos parte da banda do Xamã, por exemplo. O fato é que conversamos muito para sempre chegarmos num acordo”.
Dentro de uma bateria, qual é o instrumento que cada um mais gosta e por qual motivo?
Gustavo: “O instrumento que eu mais me identifico na bateria é o tarol, por ter sido o meu primeiro. Desfilei várias vezes tocando o tarol na bateria, então tenho muito carinho. Acaba sendo uma ala que eu pego muito no pé também, mas eles gostam dessa valorização e apreciação que eu tenho. Só que… É engraçado porque eu gosto demais de tocar tamborim também, sabe? Tanto que até o Ewerton, que é fotógrafo e faz os nossos vídeos, gravou um vídeo meu tocando tamborim no sábado. Eu postei, todo feliz, porque eu amo tocar tamborim”.
Guilherme: “Eu já tive um instrumento preferido. Na época da escola mirim, comecei tocando caixa e eu adorava. Aí quando adolescente, já desfilei tocando quase todos os instrumentos da bateria. O tempo passa e você pega apreço por outros. Então, eu sou de épocas, sabe? Hoje, como mestre de bateria, eu posso dizer que não tenho um preferido, mas ao longo da vida já tive vários”.
Hoje, as baterias, além das paradinhas, têm que fazer coreografias. O que pensam sobre isso e quem faz as coreografias da bateria do Salgueiro?
Gustavo: “A coreografia não é algo tão primordial para o nosso trabalho. Tanto que nos nossos dois primeiros anos, não fizemos nada nesse aspecto. A gente preza mais a linguagem musical, do que a questão corporal, como as coreografias. O que temos muito é: a ala de chocalho faz um passinho entre eles, outra ala também… mas é um detalhezinho deles mesmo. Para não dizermos que não fizemos nada, no nosso último carnaval, em que falávamos sobre resistência, todos ajoelhamos e cerramos os punhos. Não chegou a ser uma coreografia, mas fizemos um movimento”.
Guilherme: “Para mim, são dois pontos. No dia do desfile, estamos buscando nota máxima para a escola. O julgador se preocupa com ritmo, afinação, cadência, criatividade, retomadas… e eu acredito que precisamos de foco para isso. Por outro lado, a questão da dança ajuda a trazer o público para você. Dá um gás no desfile, mas o julgador não se importa tanto. Se você conseguir conciliar os dois, ótimo, mas atualmente o nosso foco é nota”.
Qual é importância de ter oficina de percussão na formação de novos ritmistas? Como vocês renovam a bateria dentro do Salgueiro?
Gustavo: “O Salgueiro, como algumas outras escolas, dá muito valor a escola mirim. Gosto de bater nessa tecla. Acho que o carnaval devia reconhecer mais a escola mirim. Muitos artistas, assim como nós, vieram da escola mirim. A gente tem também a oficina de percussão para o pessoal mais velho, que acontece nas segundas-feiras na quadra. Cada turma tem seu monitor que ensina tudo direitinho. A escola mirim tem essa energia infantil… Caramba, às vezes parece hereditário. Chega um filho de um ritmista com seis anos que toca muito. A gente gosta de participar disso, é um trabalho orgânico. Então, temos esses dois lados maravilhosos.
Como funciona na cabeça de vocês ter que inovar todo ano e manter a nota máxima do quesito?
Guilherme: “A gente gosta. A nossa vida inteira foi praticamente nos palcos, dentro do showbusiness. Assistimos muita coisa que envolve criatividade. Hoje em dia todo mundo faz, e se você não faz fica um pouco para trás. Sei que é importante ir um pouco contra a maré, mas estar ali junto também proporcionando esse espetáculo… A gente gosta muito. Tem gente que não gosta, é mais tradicional, mas precisamos lembrar que é carnaval, sabe? É para ser mágico. Eu comparo o carnaval com vários outros espetáculos, apesar de sermos o maior da terra. A gente se inspira muito para criar, principalmente lá na quadra. Colocamos fumaça na bateria, alguns repiques deslocados na quadra… A gente gosta dessa interação com o público, que eles gritem pela bateria. Tentamos levar um pouco disso tudo para a Sapucaí também. Nos espelhamos em vários outros grupos de percussão. Acho que quase todo ritmista já assistiu ‘Drumline’, um filme americano sobre bandas marciais, que mostra essa questão do show mesmo. Enfim, o carnaval é tão mágico quanto a Disney. Você chega e encontra cores, fogos, fantasias grandiosas… Acho que se temos isso na cabeça, a chance de dar certo é grande. Ser campeão é outra coisa, depende de muitos outros fatores. Temos vários carnavais históricos que não foram campeões. Mas para fazer um grande carnaval, ter um grande samba é o primeiro passo. Essa questão da criatividade tentamos levar sempre no que fazemos. Como a gente gosta, todo ano a gente tenta… não fazer melhor, mas ser tão excelente quanto”.
Aliás, a chuva de notas 10 para as baterias em 2022 é correta? As baterias estão em alto nível mesmo? E qual é o motivo disso?
Gustavo: “As baterias estão num nível absurdo, todos trabalham há muito tempo. Hoje em dia, as pessoas pesquisam mais o que fazer. Tem essa relação da bateria com o enredo, então buscam inovar também. No pré-carnaval, acontecem ensaios exaustivos. Elas estão tão boas que você vê que, hoje, a bateria que perde ponto recebe a justificativa de ter sido por um detalhe bem especifico que aconteceu no desfile. Mas é isso, está certo. Tem que dar nota 10 mesmo”.
A Viviane Araújo é uma rainha ritmista. Como é a relação de vocês com ela? E pensam em utilizar ela para alguma coreografia ou bossa?
Guilherme: “Quando a Viviane chegou no Salgueiro, estávamos lá também. Foi uma apresentação no Cristo Redentor. Então, a nossa relação com ela vem desde 2007 e é muito boa. Conversamos muito, trocamos mensagens, opinamos nas escolhas dos sambas. Ela é uma rainha presente e representa muito bem a bateria. Espero que ela continue por muito tempo”.
Gustavo: “Sobre usar nas bossas, geralmente usamos em outras coisas. O que ela faz ali na frente já é informação suficiente”.
Quem é sua referência em bateria no carnaval? E por qual motivo?
Gustavo: “Como o Guilherme disse antes, por crescermos no Salgueiro, a grande referência de todos os ritmistas da escola sempre foi o mestre Louro. Ele deu a cara da Furiosa como ela é hoje. Também temos vários amigos da nova geração que são mestres incríveis, trocamos ideias, mas a minha referência mais antiga sempre foi o Louro”.
Guilherme: “Eu acho que a gente é muito clubista”.
Qual a preferência de cada um: Bossas ou passa reto? E por qual motivo?
Guilherme e Gustavo: “Bossa”.
Gustavo: “É que a gente vem de uma geração que pegou o final na década de 90, em que as baterias eram mais retas, para os anos 2000 em que a criatividade foi cobrada. Virou critério de julgamento. Então, as baterias vêm numa crescente vontade de fazer convenções com o enredo. De uns tempos para cá, algumas pessoas decidiram preferir fazer o mínimo, mas a gente não. Tem que juntar o ritmo e com uma atitude ousada”.
Guilherme: “Esse ano a gente faz uma bossa em que paramos na entrada do refrão que canta ‘Vermelha paixão salgueirense que invade a alma, tá no sangue da gente’. Qual salgueirense não gostaria de cantar isso? Então, quando a gente para a bateria para a comunidade cantar, traz emoção para o desfile. Por isso somos tão a favor da bossa. Cada um constrói como quer, mas acho que eleva o samba-enredo”.
Sobre fantasia, como foi até hoje a conversa com os carnavalescos que passaram pela escola e como está sendo agora com o carnavalesco para o desfile de 2023?
Guilherme: “Fantasia tem que ser leve e com chapéu pequeno. Tocar cansa, ainda mais se a escola for desfilar tarde. Todo mundo fica pilhado o dia inteiro”.
Gustavo: “O ritmista tem que estar confortável para tocar”.
Guilherme: “Sim, nós ensaiamos o ano inteiro sem fantasia. Imagine chegar no dia e ter que vestir algo pesado, que tampe sua visão ou ouvido”.
A Unidos de Vila Isabel prepara diversas surpresas para brindar o público com um grande desfile no Carnaval 2023. Além da comunidade, que vem ensaiando forte desde a escolha do samba-enredo, em outubro do ano passado, a escola contará com outras participações especiais que prometem divertir bastante na avenida. Uma delas será a do ator Ataíde Arcoverde, que aceitou o convite do carnavalesco Paulo Barros.
Foto: Divulgação/Vila Isabel
“Ganhei um presente da vida. Fui convidado por essa pessoa genial, o Paulo Barros, e estarei no desfile. Estou me sentindo em casa. É simplesmente um luxo”, comemora o artista, que esteve no barracão da escola na última semana. “Agradeço de coração pelo que ele está fazendo e pelo que vai fazer pela Vila Isabel na avenida”, complementa o carnavalesco Paulo Barros.
Ator, humorista e professor de interpretação, Arcoverde tem uma longa carreira no cinema e na televisão, tendo se destacado em papéis como Salsichão, do “Zorra Total”, e Raulzito, da sitcom “Família Paraíso”, da TV Globo.
A azul e branca do bairro de Noel será a terceira escola a desfilar, na segunda-feira de Carnaval, com o enredo “Nessa festa, eu levo fé!”.
A Central Liesa de Atendimento e Vendas estará disponibilizando, no próximo dia 03 de fevereiro (sexta-feira), das 10 às 16 horas, a reserva de ingressos de Arquibancadas Especiais e Cadeiras Individuais através da internet – o endereço eletrônico será informado até o dia 30 de janeiro.
Foto: Divulgação/Riotur
Os ingressos reservados deverão ser pagos no dia 07 de fevereiro (terça-feira) no estande da Central Liesa, montado atrás do Setor 11, na Passarela do Samba, de 09 às 15 horas – entrada pela Av. Salvador de Sá. O pagamento será feito em dinheiro para a retirada dos ingressos (físicos). Os preços dos ingressos de arquibancadas variam de R$ 250,00 a R$ 300,00; os de cadeiras custam R$ 230,00.
Reserva de Arquibancadas Populares também via internet
No dia 08 de fevereiro (quarta-feira), de 10 às 16 horas, serão disponibilizados para reserva, na internet, os ingressos de Arquibancadas Populares – cujo pagamento será feito no dia 11 de fevereiro (sábado), também no estande da Central Liesa, atrás do Setor 11, no Sambódromo. O atendimento ao público será de 09 às 15 horas. Os ingressos populares custam R$ 15,00.
Camarotes e frisas – inclusive para o sábado das campeãs – estão esgotados.
A Mangueira pretende retomar em 2023 um casamento que já deu muito certo pra escola ao longo de sua gloriosa história. Ao realizar um enredo sobre a Bahia, a agremiação se encontra com sua própria identidade, além de trazer auspícios de carnavais vitoriosos que a escola produziu citando de alguma forma o estado. Em 1986, por exemplo, foi campeã na homenagem a Dorival Caymmi com o enredo “Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm”. Em outro desfile também vitorioso com temática relacionada a Bahia, em 1973 a escola venceu com o enredo “Lendas do Abaeté”. Os dois foram produzidos pelo carnavalesco Júlio Mattos. Para citar outros carnavais importantes da Verde e Rosa relacionados à Bahia, tem-se ainda o campeonato de 1933 com “Uma segunda-feira no Bonfim da Bahia” e o vice-campeonato “Exaltação à Bahia” de 1963.
Fotos de Divulgação/Mangueira
Responsáveis por resgatar esse relacionamento entre Bahia e Mangueira, a dupla de carnavalescos estreantes na Verde e Rosa, Annik Salmon e Guilherme Estevão, trouxe um outro elemento que há tempos vinha sendo requisitado pelos torcedores mangueirenses: a produção de um enredo com pegada afro. “As Áfricas que a Bahia Canta” pretende levar para a Sapucaí toda a musicalidade baiana através dos Cortejos Afros, enfatizando o lado feminino. O carnavalesco Gui Estevão conta que a ideia do enredo foi a junção de dois desejos presentes em cada um dos artistas que estão desenvolvendo o desfile da Verde e Rosa.
“O enredo nasce da união de duas ideias, minha e da Annik. Eu já tinha na gaveta a ideia de falar sobre a história dos Cortejos Afros do carnaval da Bahia, e a Annik quando veio à Mangueira tinha uma proposta relacionada ao feminino. Quando a gente se encontra, essas duas vontades se casam, não gratuitamente, porque, na verdade, dentro da história desses Cortejos, o protagonismo feminino sempre foi muito evidente, mas muitas vezes negligenciado pela própria história. A gente conseguiu potencializar a força dessas mulheres para além dessa visão que é sempre ligada no carnaval em geral da mulher como elemento visual, o interesse sexual, mas entender a mulher na potência criativa, líder, construtora de projetos culturais como são esses Cortejos”, explica Guilherme.
O enredo é bastante amplo e busca de uma forma concisa apresentar uma cronologia da história dos Cortejos Afros da Bahia, fazendo uma conexão entre eles. Guilherme Estevão explica que a narrativa começa antes mesmo da abolição da escravidão no país.
“Partimos do período ainda escravocrata no Brasil, todos esses primeiros cortejos carnavalescos, partindo para os Cucumbis, por exemplo. O que acontece é que cada cortejo se torna uma consequência do cortejo de tempos anteriores, porque é um processo de luta para a realização dos cortejos. É uma disputa de direitos sociais para brincar carnaval de uma população negra, talvez na cidade mais negra do país. É uma dicotomia muito louca neste processo, que é intenso, de luta, e a gente mostra com a alegria do carnaval. A gente traça essa cronologia partindo do período escravocrata, logo depois um período pós abolição em que os direitos da mulher e do negro ainda não eram garantidos, inclusive o direito de brincar carnaval, todas as proibições que aconteceram nessa primeira metade do século XX. O processo de reafricanização do carnaval baiano se dá no início com os Afoxés e depois com os blocos afros. Essa expansão vem de fato dessa negritude baiana dentro do carnaval a partir do axé da baianidade e da musicalidade contemporânea”, esclarece o carnavalesco.
Guilherme conta que a história é tão ampla que se o artista decidisse ir a fundo em cada bloco afro citado no enredo daria para fazer um desfile para cada uma dessas instituições.
“É de fato uma história ampla que caberia mais uns dez enredos dentro desse enredo. Se eu quisesse seria possível fazer um enredo de cada um dos blocos afros. Muita coisa teve que ser peneirada para essa cronologia ser traçada, mas de alguma maneira a partir dessa perspectiva de desenvolvimento, a gente consegue de fato dar a pincelada geral em tudo o que foi desenvolvido dessa história a partir desse período escravocrata até a contemporaneidade”, acredita Guilherme Estevão.
Viagem à Bahia é fundamental para início do processo de criação plástica
Ainda no início do desenvolvimento do enredo para 2023, no mês de julho, Annik e Guilherme partiram em missão até a Bahia para absorver mais conhecimento sobre o tema e achar um norte para guiar a parte estética do desfile. No período em que estiveram no estado, a dupla, acompanhada de uma comitiva de profissionais da Verde e Rosa, visitaram, entre outros lugares, a Casa do Olodum, a Casa do Carnaval da Bahia, o Candeal, a sede dos Filhos de Ghandy. Durante o período de pesquisa houve reuniões com os principais presidentes e diretores dos blocos afros da Bahia como Ilê Aiyê, Commanches, Capoeira, Malê Debalê, Muzenza, entre outros. Guilherme Estevão contou ao site CARNAVALESCO que a passagem pela Bahia foi fundamental para que os carnavalescos definissem muita coisa do projeto.
“Nós planejamos que só iríamos começar a traçar de fato o plástico do desfile depois da viagem à Bahia e de fato foi a melhor coisa que fizemos. A viagem foi extremamente enriquecedora, primeiro que a gente bebeu direto da fonte. Nós conseguimos ter encontro com mais de quatorze blocos afros, com mais de seis Afoxés, com lideranças históricas, com personagens importantes dentro da história desses cortejos afros, além do contato visual artístico”, revelou o carnavalesco.
Annik lembra que a viagem à Bahia ajudou a dupla também a perceber que estavam no caminho certo em relação à escolha do enredo.
“Foi uma visita corrida, mas a gente teve encontros emocionantes. A Bahia é verde e rosa. Todo mundo que a gente encontrava dizia ‘eu sou mangueirense’. Eles foram muito carinhosos e diziam que estavam aguardando o momento que a Mangueira falasse deles. E isso deu ainda mais ânimo e motivação para gente e a certeza de ter acertado no tema do enredo”, conta Annik.
Um ponto fundamental para o trabalho foi a relação estabelecida com o artista plástico Alberto Pitta, que há mais de trinta anos desenvolve pesquisas e criações artísticas do que hoje se conhece por estampas afro-baianas, utilizando de símbolos, indumentárias e adereços dos orixás como fonte de inspiração. Pitta está na história dos blocos afros e vem desenvolvendo publicações a respeito do tema, como explica o carnavalesco Gui Estevão.
“Dentro das nossas pesquisas, chegamos a uma gama visual muito grande que foi aberta pra gente, além dos contatos que a gente estabeleceu, por exemplo com Alberto Pita, que talvez seja o principal estampador do país, artista plástico e um cara que marcou a história dos blocos afros ao desenvolver essa história pelos tecidos dos blocos, e ele estava coincidentemente desenvolvendo um livro que fazia essa cronologia dos Afoxés e de blocos afros. Foi uma fonte muito importante para nós porque ele disponibilizou o livro antes de ser lançado. Foi por isso que a gente conseguiu referenciar o trabalho artístico da Mangueira todo em cima da arte de vários artistas baianos no seu determinado período histórico. Essa cronologia dos cortejos de alguma maneira também acompanha uma cronologia artística da Bahia”, esclarece Guilherme.
Verde e Rosa dará o colorido do desfile mas não estará de forma exclusiva na paleta de cores
Uma das grandes questões que permeia a cabeça do mangueirense é o uso das cores da escola tão singulares no mundo do samba, e até mesmo fora dele. No último carnaval quando homenageou três de seus baluartes, o verde e o rosa estiveram presentes em todo o desfile, em vários tons e de forma bastante expressiva. Para 2023, a dupla de carnavalescos Annik Salmon e Guilherme Estevão sabem da necessidade de cuidar bem desse patrimônio e identidade da escola, mas não se furtam ao cuidado com a temática do enredo e suas características próprias, como coloca Gui Estevão.
“O carnaval todo vai ter verde e rosa, mas não dá para ser exclusivamente verde e rosa, porque a gente está falando de Bahia, a gente está falando do carnaval baiano, e cada uma dessas instituições que são abordadas possuem suas cores. O verde e o rosa convidam outras cores ao longo do desfile, mas a gente está sempre pincelando o verde e rosa junto com essas cores”, entende o carnavalesco.
Guilherme traduz de que forma a paleta de cores será usada neste próximo carnaval da Mangueira. “Dentro do movimento dos blocos afros há uma ligação muito forte com o samba-reggae, com a tradição jamaicana, por exemplo, que tem as cores do verde, do amarelo e do preto. Isso também é pincelado. Você tem vários Afoxés que são ligados a determinados orixás que têm suas cores que predominam. Nesse sentido, a Mangueira respeita todas essas cores, assim como respeita as cores da nossa escola e a gente combina tudo isso dando um colorido bem mais amplo nesse carnaval da Mangueira”.
Processo criativo tem participação dos dois artistas
Quem entra no barracão da Mangueira percebe os carros aparentemente maiores que no carnaval passado. A escola teve em seus dois artistas estreantes participação similar na produção criativa do desfile. A carnavalesca Annik Salmon conta que o carnaval foi pensado para que de forma homogênea as singularidades de cada profissional se unissem e dessem forma ao desfile, mas respeitando principalmente as características da própria Mangueira.
“Desde o início a gente já tinha um acordo de que em todo o processo a gente iria participar, um instigar o outro a fazer junto. Está sendo uma parceria maravilhosa, viramos amigos e confiamos um no outro, posso dizer que realmente existe aqui uma dupla, e uma parceria mesmo, um fiel ao outro. E com pensamentos bem próximos em termos artísticos. O que um pensa, o outro vai e completa. O que um cria, a gente vai lá e complementa. Acho que será um trabalho artístico que vocês verão na Avenida que é do Guilherme e da Annik. Vocês não vão ver uma fantasia e dizer que essa é a cara do Guilherme, ou essa é a cara da Annik. Vai ser a cara dos dois e da Mangueira. A proposta é para ser identidade da Mangueira”, define a carnavalesca.
Annik também aponta que desde o início a dupla sentiu uma química boa para o trabalho, com processos de produção bem parecidos um com o outro, mas também sabendo respeitar as habilidades mais singulares que cada um possui.
“Quando a gente estava ainda se conhecendo, ficamos bem abertos um com o outro. Até o processo de trabalho nosso era bem parecido. A gente desenha, desenvolve enredo, cria e executa fantasia. Só que cada um tem habilidade para algumas coisas. Por exemplo, o Guilherme faz tudo de desenho de planta, de alegoria no 3D, e o meu já é na mão. E no 3D é tudo muito mais rápido. Quando a gente chegou no processo de alegoria, pensamos a alegoria juntos, e ele foi para o computador e fez o desenho no 3D. Enquanto isso, eu já estava desenhando os destaques a mão, porque, fantasia nós gostamos de desenhar a mão. E a gente desenhava e discutia. E todo o processo de criação das alas antes, a gente fez junto, tudo a lápis, eu desenhava um setor e ele outro, e a gente trocava, cada um olhava a fantasia do outro e via o que poderia acrescentar. Realmente foi um processo criativo a quatro mãos, com duas mentes pensantes ali em cima”, afirma Annik.
Compartilhando bastante do processo de criação, a dupla agora consegue se dividir melhor até para otimizar o trabalho desenvolvido no barracão da Mangueira.
“A divisão agora, quando a gente chegou nessa parte que já desenhamos, já criamos, já desenvolvemos, e estamos só na execução, já conseguimos nos dividir um pouco. Eu fui resolver um negócio e ele começou dando entrevista primeiro. Eu tive que hoje ir na rua ver um material que estava faltando e ele ficou para tocar as coisas do barracão. Ontem foi ele que foi na rua. Agora conseguimos fazer essa divisão”, conta a carnavalesca Annik Salmon.
Carnavalescos acreditam que grande trunfo é a sua conexão com o mangueirense
Em um ano de grandes mudanças na Verde e Rosa, com diretoria e presidência novas inclusive, fica a expectativa do mangueirense sobre como a escola vai chegar na Sapucaí. Expectativa também enorme em relação ao novo projeto artístico, início de um novo ciclo, podemos dizer assim, afinal os últimos seis carnavais foram produzidos pelo carnavalesco Leandro Vieira que hoje está na Imperatriz. E se não tivesse tudo isso, há ainda o enredo. A Mangueira não levava uma temática com pegada afro para Sapucaí já há muito tempo. Mas é de se imaginar também que o enredo seja especial por ter muita relação com aquilo que o mangueirense sonha para a sua escola.
“Eu acho que o trunfo do enredo da Mangueira é ele de fato combinar características que formam a própria Mangueira, a identidade do mangueirense. A gente está trazendo um enredo que é negro, que enfatiza o protagonismo feminino, é um enredo nordestino e baiano, é tudo aquilo que a Mangueira gosta. A Mangueira gosta de sair com Bahia, a escola estava carente de um enredo que tivesse uma abordagem realmente voltada à história afro-brasileira. A Mangueira tem essa festividade e essa baianidade já entranhada no DNA, não é à toa a Tia Fé, não é à toa a Mangueira nascer das mãos de uma mulher baiana. E a escola tem a tradição de cantar a Bahia de diversas formas, essa é mais uma Bahia diferente de todas as outras Bahias que a Mangueira trouxe, mas é mais uma vez um olhar da Mangueira sobre a Bahia”, entende Gui Estevão.
A carnavalesca Annik Salmon vai além e cita outros fatores até externos ao seu trabalho e ao de Guilherme para apontar que há a expectativa por um grande carnaval.
“Tem vários pontos. É difícil falar um único. Acho que começa pela temática de enredo, a escolha que a gente fez, é um tema que é a cara da Mangueira. E é um tema que foi pedido pelos torcedores, pelos mangueirenses. Mais o fato de ser uma temática alegre, que traz cor para a Mangueira, um colorido. Vindo com isso, nós temos um samba que acho que é o melhor samba do carnaval, e não acho por estar aqui. A gente tem um samba que levanta a galera, que todo mundo está cantando. Quando a Mangueira entrar tocando esse samba já vai levantar todo mundo. Plasticamente estamos vindo com uma estética diferente dos últimos anos, resgatando coisas bem antigas na Mangueira”, revela a carnavalesca.
Por fim, Guilherme diz que esse novo momento da Estação Primeira já se reflete no mangueirense e fala de um retorno muito positivo que os carnavalescos vem recebendo da comunidade desde que o enredo foi anunciado em junho.
“A escola está muito feliz. A safra de sambas da escola foi a maior do Grupo, do país. O samba da escola é um dos melhores do ano. Quando você de fato atinge o coração do componente, pela maneira como ele quer se ver, ouvir, vestir, sambar, é o grande trunfo. E mais do que encontrar o coração do mangueirense, quando a gente foi na Bahia, a gente encontrou o coração do baiano. Eles falaram pra gente na visita, que estavam esperando o momento que a Mangueira fosse contar a história deles, a história dos blocos afros, aquilo pegou muito forte na gente, pois era um sinal de que estamos no caminho certo. E de fato acredito que estamos”, finaliza Gui Estevão.
Conheça o desfile da Mangueira
A Estação Primeira de Mangueira vai levar para a Sapucaí 5 alegorias e terá cerca de 3200 a 3500 componentes. Guilherme Estevão revelou como está dividido cada setor. Confira a divisão apresentada pelo carnavalesco e sua representação a partir de trechos da sinopse de “As Áfricas que a Bahia canta”:
Primeiro Setor – Cucumbis “Negros iam as ruas em dia de folia, desafiando toda perseguição, entoando cantares nativos, contando a saga daqueles que, infelizmente, sucumbiram pela escravidão.Faziam festa para a sua preta rainha em forma de cucumbis, trazendo, a frente, um cortejo de rotins, afugentando todo mal que pudesse estar por ali”.
Segundo Setor – Clubes Negros “Era proibido “ser” africano na Bahia, mas, em dias de folia, a fantasia era ousada, com muita sabedoria se esquivavam da chibata da polícia que insistia em esquecer em que tempo estava. Seguindo a tradição preta de cortejos, se organizaram em Clubes Negros, a disputar as ruas com a burguesia, em forma de arte, protestavam contra os açoites e a serventia”.
Terceiro Setor – Afoxés “Mas nada era mais intenso que a união do gueto, a rua e a fé, andando a pé pela cidade. Do terreiro do Engenho Velho, o céu dos orixás intervia ao unir a arte, a religiosidade e a fantasia, levando os livres toques de ijexá pelas ladeiras e avenidas. Preparava-se o padê para que Exu mensageiro fosse ligeiro abrir os caminhos para passar o Afoxé”.
Quarto Setor – Blocos Afros “Os blocos afros reconstruíram a identidade de um povo, que passa a ter ainda mais orgulho de sair na folia a cantar, de fazer a terra tremer, pois o vulcão da Bahia é tambor de Ilê Aiyê”.
Quinto Setor – Baianidades e o Axé Contemporâneo “Salvador se agita no negro toque do agogô, nas quebradas com a pele pintada, nas estampas de faraós, na pipoca do trio, nos tambores do Pelô. Na mistura do Timbalada, dos sambas de roda, reggae e tantos sons que dão o tom à baianidade Nagô”.
A Camisa 12 abriu a maratona de seis dias seguidos de ensaios técnicos no Sambódromo do Anhembi nesta terça-feira, em preparação para os desfiles do Grupo de Acesso II. Com destaque para a bela e criativa Comissão de Frente, a Pantera realizou ensaio regular, podendo melhorar em especial o quesito Harmonia. A escola será a 11ª a desfilar no dia 11 de fevereiro com o enredo “Da inclusão à superação. Todos somos iguais. Sou um Campeão”.
Fotos: Fábio Martins/Site CARNAVALESCO
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Fotos: Fábio Martins/Site CARNAVALESCO
Comissão de Frente
A Camisa 12 abre seu desfile apresentando as aventuras de Mogli, o menino-lobo, na selva da diversidade. Com dez componentes, o protagonista, representado por um menino trans, desvenda esse mundo de várias cores apresentado pelo enredo da escola, formado pelos demais dançarinos, ao longo de uma passagem do samba. Assistir a apresentação sem as fantasias atiça ainda mais a curiosidade para o desfile oficial, levando em consideração a boa execução de movimentos do conjunto e a expressividade do ator principal.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Luan Camargo e Mari Santos realizaram um treinamento focado aparentemente na sincronia de movimentos, que foram bem executados. Falta praticar mais a velocidade na dança da dupla, afinal a diversidade de movimentos foi ampla e agradável de se ver. O vento foi outro elemento que atrapalhou em alguns momentos, e pode ser levado em conta nos treinamentos futuros.
Harmonia
O canto da Camisa 12 teve altos e baixos. No primeiro setor, muitas alas quietas, com pessoas até mesmo conversando entre si. Isso é perigoso e precisa ser mais cobrado dos componentes nos ensaios de quadra. O canto evoluiu ao longo da passagem pela Avenida, com destaque para a ala de passistas, que vem falhando nesse aspecto em outras escolas, mas em um concurso tão disputado não se pode dar ao luxo de abrir mão da nota de um jurado.
Evolução
Um bom ensaio do quesito Evolução no geral. A escola fluiu bem e soube elaborar uma boa estratégia de entrada no recuo de bateria. Os ritmistas inverteram suas posições ainda dentro da pista, e entraram de forma que já ficassem prontos para sair ao fim da passagem. O treinamento da Camisa 12 foi encerrado com 46 minutos, e mesmo que o contingente fosse menor do que o estimado pela escola para o desfile oficial, ainda sobra tempo para analisar no próximo ensaio previsto.
Samba-Enredo
Em mais um carnaval com samba assinado por Dudu Nobre, a Camisa 12 tem em mãos uma obra leve e de fácil assimilação, que ajuda na criação de bossas pela bateria. O canto pode ser melhorado nos próximos ensaios levando esse trunfo em consideração.
Outros destaques
A noite foi delas! Destaques de chão dançaram com entusiasmo, mostrando que poderão contribuir positivamente para ilustrar os diferentes segmentos da escola. A Rainha de Bateria Tatá Soares está em grande harmonia com a bateria “Ritmo 12”, com direito a dança no meio dos ritmistas.
A Camisa 12 traz para o Sambódromo do Anhembi em 2023 um enredo cada vez mais necessário em uma sociedade tomada pelo preconceito e violência contra minorias, mas é preciso levar mais os valores desse importante tema para seus componentes. Todos são em algum grau atores da grande ópera chamada Carnaval, e quanto mais fazerem seu papel melhor a mensagem será transmitida.
A Estrela do Terceiro Milênio realizou na noite de terça-feira o seu primeiro ensaio técnico visando o carnaval de 2023. Foi a primeira vez que a agremiação do Grajaú pisou no sambódromo do Anhembi como uma escola do Grupo Especial. A comunidade cantou muito. Foi praticamente um grito de libertação após tantos anos brigando para se estruturar e atingir tal feito. O destaque também fica para a comissão de frente, que foi de simples leitura, mas de grande riqueza teatral. Interações com o público e humor definiram bem como a Terceiro Milênio pode abrir o seu desfile e contar o enredo. A bateria com as bossas e paradinhas do mestre Vitor Velloso também chamaram a atenção no treino.
Fotos de Fábio Martins/Site CARNAVALESCO
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Fotos de Fábio Martins/Site CARNAVALESCO
“A gente fez o primeiro para ver a parte técnica como estava. Hoje a gente se preocupou com o canto, bateria e todos os itens técnicos para poder analisar. Nós filmamos, vamos para casa, assistir com calma, avaliar e ver o que podemos melhorar para chegar no próximo mais arrumado, mas estava dentro do que a gente esperava. A comunidade chegou em uma véspera de feriado e, agora, a ideia é chegar sábado melhor ainda. A gente está trabalhando muito no canto da comunidade do Grajaú. O que vocês viram hoje, para nós não é surpresa. A escola está cantando muito, mas tem que cantar mais. A verdade é que a gente está tendo uma disputa dura. Tem vários concorrentes com a gente. Nós estamos trabalhando isso nos ensaios de quadra, de rua e não é surpresa. Agora temos que melhorar mais”, avaliou Carlão, diretor de carnaval da agremiação.
Comissão de frente
Foi um dos destaques da escola no ensaio. A ala interpreta totalmente o que é cantado no samba. E tudo isso é feito de forma teatral e humorística. Os integrantes interagiram com o público e, dentro das encenações, simularam intensos risos uns com os outros. Pode até não ser, mas aparentava comportamentos de palhaços. Também havia uma criança enfrentando a censura e a repressão. Aparentemente, no dia do desfile, a comissão também irá se fantasiar de personagens humorísticos conhecidos. As danças foram feitas em grande parte no tripé com escadas que a ala irá desfilar.
Fotos de Fábio Martins/Site CARNAVALESCO
Harmonia
O canto da comunidade do Grajaú ecoou muito forte no Anhembi. As alas da escola são bastante comprometidas com essa questão e sempre se dedicam ao máximo. Nesta noite não foi diferente. Houve até paradinhas de bateria e carro de som para avaliação. Dentro das próprias alas tudo ocorreu dentro dos conformes e como já prometido. Porém, houve irregularidade entre uma ala e outra dos setores. A ausência do carro de som atrapalhou demais o andamento do samba para os componentes de algumas alas. Enquanto um setor cantava, outro estava em sintonia diferente. Mesmo com a comunidade tendo o hino na ponta da língua e bradando forte, os integrantes da agremiação devem se atentar a essas questões.
O diretor de harmonia, Japa, avaliou o ensaio e aprovou o desempenho. “A gente veio fazer um teste no Anhembi onde ensaiamos há meses na nossa quadra e avaliar como está a nossa escola. Olhando a nossa parte de harmonia e evolução, foi muita boa. Agora a gente vai assistir os vídeos. Não estamos em todos os pontos da escolas. Vamos conversar, avaliar e chamar todo o time de harmonia para ver cada setor, mas olhando em um todo, acredito que a gente tenha alcançado o objetivo hoje. Nós cantamos alto, o objetivo é esse. Não deixar o samba cair”, disse.
Mestre-sala e Porta-bandeira
O casal Daniel de Vitro e Edilaine Campos fizeram um ensaio seguro. Juntos, a dupla estreou no solo do Anhembi. Executaram os movimentos horário e anti-horário e, o principal, o sorriso no rosto e a simpatia de ambos chamaram a atenção no treino. Esbanjaram felicidade em estampar o pavilhão da Estrela do Terceiro Milênio neste primeiro ensaio técnico como uma agremiação do Grupo Especial. Dentro da coreografia, fica o destaque para o verso “minha coruja voar ao infinito”, onde o casal fazia o movimento de voo de forma sincronizada.
Evolução
Se as alas cantaram bastante, a comunidade evoluiu no ritmo delas. Todos os componentes dançavam de um lado para o outro e pulava na explosão do refrão principal. Entretanto, a escola teve pequenos problemas de alinhamentos das fileiras em algumas alas. Especialmente no último setor. O próprio departamento de harmonia era obrigado a corrigir tal posicionamento em alguns momentos. Os componentes não fazem nenhuma coreografia dentro do samba. Pode ser uma estratégia para deixá-los à vontade no canto e na própria evolução como desfile em si.
Samba-Enredo
Vale ressaltar que esse samba não era o preferido entre os dois finalistas por grande parte da comunidade. Porém, a obra cresceu muito nas vozes de Bruno Ribas e Grazzi Brasil, logo caiu nas graças dos componentes e foi abraçado. Em 2020, Grazia fez parceria com o intérprete Pitty de Menezes, que se desligou. Mas a diretoria da escola foi certeira em escolher o experiente Bruno Ribas para sucessor o então cantor da Imperatriz Leopoldinense. Ambos estão mostrando grande sincronia e fazendo os famosos ‘cacos’ na hora certa. Sem atrapalhar um ao outro. As partes mais cantadas do samba são os últimos cinco versos que são emendados com o refrão principal.
“Estamos em um trabalho bem intenso. Muito lindo, mas pode ficar melhor ainda, é claro. Todos nós, é um processo. Mas quando chegar no dia tudo vai dar certo, se Deus quiser”, declarou a intérprete Grazzi Brasil.
Eu discordo dela. Eu discordo pelo seguinte. Todos estão muito bem preparados, todos já vem numa fluência de ensaios há pelo menos cinco meses, e o que precisava alinhar foi alinhado ontem. Todo mundo foi para o estúdio, houve um bate-papo. Eu não pude estar, mas a Grazzi estava lá, bateu um papo legal, foi muito bom. O grupo é muito unido, é muito leve, todos aqui são amigos. Não há um domingo que a gente não saia para comer juntos. Saímos do ensaio na quadra e vamos comer juntos. Que não pare para bater um papo. Então é um grupo muito coeso”, completou a sua dupla, Bruno Ribas.
Outros destaques
A bateria ‘Pegada da Coruja’, sob o comando do mestre Vitor Velloso, teve um grande desempenho neste treino. O mestre comandou a batucada para fazer várias bossas em determinados momentos da pista.
O diretor de bateria falou sobre o ensaio. “É um momento muito importante por todos nós da comunidade. Estreia no Especial, primeiro técnico geral pelo Especial. E bateria estamos ensaiando há muito tempo, e hoje foi um dia que serviu para quebrar o gelo também. Todo mundo estava bem ansioso, o gelo foi quebrado, conseguimos entender algumas coisas que a gente vinha fazendo na quadra. Então tem que mexer em algumas coisinhas ali e aqui. Mas no geral foi muito bom, bacana, aproveitar e mandar um beijão para toda comunidade que fez um belo ensaio e um abraço para o presidente Silvão que fortalece o trabalho, diretor Carlão e Japa, enfim, geral da escola que apoia o trabalho”, avaliou.
Vitor também revelou a quantidade de bossas e as paradinhas realizadas. “Isso daí são as aventuras do nosso diretor de carnaval (apagão longo), o Carlão, então todo ensaio técnico ele faz isso daí para ver como está a escola, para ver o canto, se está legal, bacana. É um diferencial da Terceiro Milênio. Estamos fazendo desde 2020, e é isso, foi um apagão que deu para perceber que a escola está cantando bem. Temos cinco bossas. O apagão inteiro não vai para o desfile, vai um apagão antes do refrão de cabeça, que é menorzinho, pega da entrada do refrão de cabeça para a primeira parte do refrão, quando vira no bis do refrão, a bateria volta”, completou.
A estreia da nova madrinha de bateria, Carla Diaz, foi cercada de expectativa. Houve ótima sinergia entre ela, bateria e a comunidade e, além disso, Carla cantou bastante alguns trechos do samba. Está aprendendo aos poucos, mas não tirou o sorriso do rosto.
Após o belo carnaval apresentado ano passado na Marquês de Sapucaí não levar a Unidos da Tijuca de volta ao desfile das campeãs, alguns tijucanos mostram superação e cabeça erguida na busca do sucesso no Sambódromo, mas ainda há aqueles que estão ‘mordidos’.
Foto: Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO
No ensaio técnico na Passarela do Samba, a voz da arquibancada e dos componentes se uniram, mostrando que da parte deles, folego, garra e entrega não faltarão m busca de um desfile ainda melhor. Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes da Unidos da Tijuca falaram sobre a ferida deixada pelo último carnaval e o sonho de retornar ao desfile das campeãs, algo que não ocorre desde 2016 – época em que realizou o feito pela sétima vez seguida (2010-2016) – além do que estão preparando na tentativa de voltar a ficar entre as seis.
Anderson Silva, de 25 anos, é passista da escola e não escondeu a angústia de ter ficado de fora, mas acredita que a Tijuca está vindo para surpreender no Sambódromo.
“Com certeza, estou mordido. Eu acredito que a gente deveria ter ido ao desfile das campeãs, mas acontece. Carnaval é isso mesmo. Vamos mostrar que estamos prontos para voltar e voltar a brilhar como sempre fizemos. Acredito que a Unidos da Tijuca vai fazer um desfile bem diferente do que ela costuma trazer. Acho que a Bahia vai trazer um outro aspecto para a Tijuca que ninguém está esperando”, afirmou Anderson.
Ainda na conversa, o passista disse acreditar que a Unidos da Tijuca se encontrou. Para ele, investir em enredos que enaltecem a cultura brasileira é o segredo para vir com tudo na Avenida, e também revelou o que ele acredita ser o trunfo para o sucesso.
“O resgate dos enredos culturais, enredos que valorizam a nossa cultura era o que faltava. No ano passado, com a lenda do guaraná, e neste ano, com a Bahia, a gente viu que a Unidos da Tijuca está conseguindo se renovar. Com certeza a gente vai conseguir voltar a brilhar. O trunfo será o canto da nossa comunidade, que está cantando muito. Esse ano eu tenho certeza que os jurados não terão motivos para tirar o nosso ponto”, confiante, completou Anderson.
Já Adriana Dorico, que tem 52 anos e desfilará na ala 18, disse estar magoada com o resultado do ano passado e foi um pouco mais polêmica ao dizer o que faltava para que a agremiação chegasse ao sucesso. Rindo, ela declarou que o segredo para um bom desfile seria força de vontade e… “retirar os estrangeiros que desfilam na Tijuca”.
“Fizemos um belíssimo desfile e mesmo assim não levamos nada. Não teve erros, fomos perfeitos. Para o sucesso precisamos de garra, coragem, mais dedicação e menos gringos – porque a gente tem que gritar por eles, que nem o samba sabem (risos)”, disse Adriana.
Adriana completou dizendo que não existe trunfo, mas sim fé, amor e dedicação para entregar um lindo desfile e buscar mais um título. “Só Deus. Não tem carta na manga. É fazer um belíssimo desfile, vir confiante, o povo cantar o samba, muito samba no pé e rumo a vitória. A expectativa é que a Unidos da Tijuca será a campeã deste carnaval”, concluiu Adriana.
Há quem disse ter superado. O famoso “passado é passado”. Dona Noelma Luiza, de 58 anos, acredita que não falta nada para um bom desfile. Já o trunfo, é segredo para ser revelado somente na avenida.
“Vida que segue. Ano passado ficou para trás. Esse ano é outra coisa. Eu acho que não falta nada para o desfile. Na verdade, só falta um olhar melhor dos jurados, porque a escola está ótima”, confessou Noelma.
Mordidos ou não, os tijucanos deram um show no ensaio técnico e prometem fazer o mesmo na Sapucaí. A Unidos da Tijuca irá desfilar no domingo de carnaval, sendo a quarta agremiação a entrar na avenida.