A Mangueira pretende retomar em 2023 um casamento que já deu muito certo pra escola ao longo de sua gloriosa história. Ao realizar um enredo sobre a Bahia, a agremiação se encontra com sua própria identidade, além de trazer auspícios de carnavais vitoriosos que a escola produziu citando de alguma forma o estado. Em 1986, por exemplo, foi campeã na homenagem a Dorival Caymmi com o enredo “Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm”. Em outro desfile também vitorioso com temática relacionada a Bahia, em 1973 a escola venceu com o enredo “Lendas do Abaeté”. Os dois foram produzidos pelo carnavalesco Júlio Mattos. Para citar outros carnavais importantes da Verde e Rosa relacionados à Bahia, tem-se ainda o campeonato de 1933 com “Uma segunda-feira no Bonfim da Bahia” e o vice-campeonato “Exaltação à Bahia” de 1963.

Fotos de Divulgação/Mangueira

Responsáveis por resgatar esse relacionamento entre Bahia e Mangueira, a dupla de carnavalescos estreantes na Verde e Rosa, Annik Salmon e Guilherme Estevão, trouxe um outro elemento que há tempos vinha sendo requisitado pelos torcedores mangueirenses: a produção de um enredo com pegada afro. “As Áfricas que a Bahia Canta” pretende levar para a Sapucaí toda a musicalidade baiana através dos Cortejos Afros, enfatizando o lado feminino. O carnavalesco Gui Estevão conta que a ideia do enredo foi a junção de dois desejos presentes em cada um dos artistas que estão desenvolvendo o desfile da Verde e Rosa.

“O enredo nasce da união de duas ideias, minha e da Annik. Eu já tinha na gaveta a ideia de falar sobre a história dos Cortejos Afros do carnaval da Bahia, e a Annik quando veio à Mangueira tinha uma proposta relacionada ao feminino. Quando a gente se encontra, essas duas vontades se casam, não gratuitamente, porque, na verdade, dentro da história desses Cortejos, o protagonismo feminino sempre foi muito evidente, mas muitas vezes negligenciado pela própria história. A gente conseguiu potencializar a força dessas mulheres para além dessa visão que é sempre ligada no carnaval em geral da mulher como elemento visual, o interesse sexual, mas entender a mulher na potência criativa, líder, construtora de projetos culturais como são esses Cortejos”, explica Guilherme.

O enredo é bastante amplo e busca de uma forma concisa apresentar uma cronologia da história dos Cortejos Afros da Bahia, fazendo uma conexão entre eles. Guilherme Estevão explica que a narrativa começa antes mesmo da abolição da escravidão no país.

“Partimos do período ainda escravocrata no Brasil, todos esses primeiros cortejos carnavalescos, partindo para os Cucumbis, por exemplo. O que acontece é que cada cortejo se torna uma consequência do cortejo de tempos anteriores, porque é um processo de luta para a realização dos cortejos. É uma disputa de direitos sociais para brincar carnaval de uma população negra, talvez na cidade mais negra do país. É uma dicotomia muito louca neste processo, que é intenso, de luta, e a gente mostra com a alegria do carnaval. A gente traça essa cronologia partindo do período escravocrata, logo depois um período pós abolição em que os direitos da mulher e do negro ainda não eram garantidos, inclusive o direito de brincar carnaval, todas as proibições que aconteceram nessa primeira metade do século XX. O processo de reafricanização do carnaval baiano se dá no início com os Afoxés e depois com os blocos afros. Essa expansão vem de fato dessa negritude baiana dentro do carnaval a partir do axé da baianidade e da musicalidade contemporânea”, esclarece o carnavalesco.

Guilherme conta que a história é tão ampla que se o artista decidisse ir a fundo em cada bloco afro citado no enredo daria para fazer um desfile para cada uma dessas instituições.

“É de fato uma história ampla que caberia mais uns dez enredos dentro desse enredo. Se eu quisesse seria possível fazer um enredo de cada um dos blocos afros. Muita coisa teve que ser peneirada para essa cronologia ser traçada, mas de alguma maneira a partir dessa perspectiva de desenvolvimento, a gente consegue de fato dar a pincelada geral em tudo o que foi desenvolvido dessa história a partir desse período escravocrata até a contemporaneidade”, acredita Guilherme Estevão.

Viagem à Bahia é fundamental para início do processo de criação plástica

Ainda no início do desenvolvimento do enredo para 2023, no mês de julho, Annik e Guilherme partiram em missão até a Bahia para absorver mais conhecimento sobre o tema e achar um norte para guiar a parte estética do desfile. No período em que estiveram no estado, a dupla, acompanhada de uma comitiva de profissionais da Verde e Rosa, visitaram, entre outros lugares, a Casa do Olodum, a Casa do Carnaval da Bahia, o Candeal, a sede dos Filhos de Ghandy. Durante o período de pesquisa houve reuniões com os principais presidentes e diretores dos blocos afros da Bahia como Ilê Aiyê, Commanches, Capoeira, Malê Debalê, Muzenza, entre outros. Guilherme Estevão contou ao site CARNAVALESCO que a passagem pela Bahia foi fundamental para que os carnavalescos definissem muita coisa do projeto.

“Nós planejamos que só iríamos começar a traçar de fato o plástico do desfile depois da viagem à Bahia e de fato foi a melhor coisa que fizemos. A viagem foi extremamente enriquecedora, primeiro que a gente bebeu direto da fonte. Nós conseguimos ter encontro com mais de quatorze blocos afros, com mais de seis Afoxés, com lideranças históricas, com personagens importantes dentro da história desses cortejos afros, além do contato visual artístico”, revelou o carnavalesco.

Annik lembra que a viagem à Bahia ajudou a dupla também a perceber que estavam no caminho certo em relação à escolha do enredo.

“Foi uma visita corrida, mas a gente teve encontros emocionantes. A Bahia é verde e rosa. Todo mundo que a gente encontrava dizia ‘eu sou mangueirense’. Eles foram muito carinhosos e diziam que estavam aguardando o momento que a Mangueira falasse deles. E isso deu ainda mais ânimo e motivação para gente e a certeza de ter acertado no tema do enredo”, conta Annik.

Um ponto fundamental para o trabalho foi a relação estabelecida com o artista plástico Alberto Pitta, que há mais de trinta anos desenvolve pesquisas e criações artísticas do que hoje se conhece por estampas afro-baianas, utilizando de símbolos, indumentárias e adereços dos orixás como fonte de inspiração. Pitta está na história dos blocos afros e vem desenvolvendo publicações a respeito do tema, como explica o carnavalesco Gui Estevão.

“Dentro das nossas pesquisas, chegamos a uma gama visual muito grande que foi aberta pra gente, além dos contatos que a gente estabeleceu, por exemplo com Alberto Pita, que talvez seja o principal estampador do país, artista plástico e um cara que marcou a história dos blocos afros ao desenvolver essa história pelos tecidos dos blocos, e ele estava coincidentemente desenvolvendo um livro que fazia essa cronologia dos Afoxés e de blocos afros. Foi uma fonte muito importante para nós porque ele disponibilizou o livro antes de ser lançado. Foi por isso que a gente conseguiu referenciar o trabalho artístico da Mangueira todo em cima da arte de vários artistas baianos no seu determinado período histórico. Essa cronologia dos cortejos de alguma maneira também acompanha uma cronologia artística da Bahia”, esclarece Guilherme.

Verde e Rosa dará o colorido do desfile mas não estará de forma exclusiva na paleta de cores

Uma das grandes questões que permeia a cabeça do mangueirense é o uso das cores da escola tão singulares no mundo do samba, e até mesmo fora dele. No último carnaval quando homenageou três de seus baluartes, o verde e o rosa estiveram presentes em todo o desfile, em vários tons e de forma bastante expressiva. Para 2023, a dupla de carnavalescos Annik Salmon e Guilherme Estevão sabem da necessidade de cuidar bem desse patrimônio e identidade da escola, mas não se furtam ao cuidado com a temática do enredo e suas características próprias, como coloca Gui Estevão.

“O carnaval todo vai ter verde e rosa, mas não dá para ser exclusivamente verde e rosa, porque a gente está falando de Bahia, a gente está falando do carnaval baiano, e cada uma dessas instituições que são abordadas possuem suas cores. O verde e o rosa convidam outras cores ao longo do desfile, mas a gente está sempre pincelando o verde e rosa junto com essas cores”, entende o carnavalesco.

Guilherme traduz de que forma a paleta de cores será usada neste próximo carnaval da Mangueira. “Dentro do movimento dos blocos afros há uma ligação muito forte com o samba-reggae, com a tradição jamaicana, por exemplo, que tem as cores do verde, do amarelo e do preto. Isso também é pincelado. Você tem vários Afoxés que são ligados a determinados orixás que têm suas cores que predominam. Nesse sentido, a Mangueira respeita todas essas cores, assim como respeita as cores da nossa escola e a gente combina tudo isso dando um colorido bem mais amplo nesse carnaval da Mangueira”.

Processo criativo tem participação dos dois artistas

Quem entra no barracão da Mangueira percebe os carros aparentemente maiores que no carnaval passado. A escola teve em seus dois artistas estreantes participação similar na produção criativa do desfile. A carnavalesca Annik Salmon conta que o carnaval foi pensado para que de forma homogênea as singularidades de cada profissional se unissem e dessem forma ao desfile, mas respeitando principalmente as características da própria Mangueira.

“Desde o início a gente já tinha um acordo de que em todo o processo a gente iria participar, um instigar o outro a fazer junto. Está sendo uma parceria maravilhosa, viramos amigos e confiamos um no outro, posso dizer que realmente existe aqui uma dupla, e uma parceria mesmo, um fiel ao outro. E com pensamentos bem próximos em termos artísticos. O que um pensa, o outro vai e completa. O que um cria, a gente vai lá e complementa. Acho que será um trabalho artístico que vocês verão na Avenida que é do Guilherme e da Annik. Vocês não vão ver uma fantasia e dizer que essa é a cara do Guilherme, ou essa é a cara da Annik. Vai ser a cara dos dois e da Mangueira. A proposta é para ser identidade da Mangueira”, define a carnavalesca.

Annik também aponta que desde o início a dupla sentiu uma química boa para o trabalho, com processos de produção bem parecidos um com o outro, mas também sabendo respeitar as habilidades mais singulares que cada um possui.

“Quando a gente estava ainda se conhecendo, ficamos bem abertos um com o outro. Até o processo de trabalho nosso era bem parecido. A gente desenha, desenvolve enredo, cria e executa fantasia. Só que cada um tem habilidade para algumas coisas. Por exemplo, o Guilherme faz tudo de desenho de planta, de alegoria no 3D, e o meu já é na mão. E no 3D é tudo muito mais rápido. Quando a gente chegou no processo de alegoria, pensamos a alegoria juntos, e ele foi para o computador e fez o desenho no 3D. Enquanto isso, eu já estava desenhando os destaques a mão, porque, fantasia nós gostamos de desenhar a mão. E a gente desenhava e discutia. E todo o processo de criação das alas antes, a gente fez junto, tudo a lápis, eu desenhava um setor e ele outro, e a gente trocava, cada um olhava a fantasia do outro e via o que poderia acrescentar. Realmente foi um processo criativo a quatro mãos, com duas mentes pensantes ali em cima”, afirma Annik.

Compartilhando bastante do processo de criação, a dupla agora consegue se dividir melhor até para otimizar o trabalho desenvolvido no barracão da Mangueira.

“A divisão agora, quando a gente chegou nessa parte que já desenhamos, já criamos, já desenvolvemos, e estamos só na execução, já conseguimos nos dividir um pouco. Eu fui resolver um negócio e ele começou dando entrevista primeiro. Eu tive que hoje ir na rua ver um material que estava faltando e ele ficou para tocar as coisas do barracão. Ontem foi ele que foi na rua. Agora conseguimos fazer essa divisão”, conta a carnavalesca Annik Salmon.

Carnavalescos acreditam que grande trunfo é a sua conexão com o mangueirense

Em um ano de grandes mudanças na Verde e Rosa, com diretoria e presidência novas inclusive, fica a expectativa do mangueirense sobre como a escola vai chegar na Sapucaí. Expectativa também enorme em relação ao novo projeto artístico, início de um novo ciclo, podemos dizer assim, afinal os últimos seis carnavais foram produzidos pelo carnavalesco Leandro Vieira que hoje está na Imperatriz. E se não tivesse tudo isso, há ainda o enredo. A Mangueira não levava uma temática com pegada afro para Sapucaí já há muito tempo. Mas é de se imaginar também que o enredo seja especial por ter muita relação com aquilo que o mangueirense sonha para a sua escola.

“Eu acho que o trunfo do enredo da Mangueira é ele de fato combinar características que formam a própria Mangueira, a identidade do mangueirense. A gente está trazendo um enredo que é negro, que enfatiza o protagonismo feminino, é um enredo nordestino e baiano, é tudo aquilo que a Mangueira gosta. A Mangueira gosta de sair com Bahia, a escola estava carente de um enredo que tivesse uma abordagem realmente voltada à história afro-brasileira. A Mangueira tem essa festividade e essa baianidade já entranhada no DNA, não é à toa a Tia Fé, não é à toa a Mangueira nascer das mãos de uma mulher baiana. E a escola tem a tradição de cantar a Bahia de diversas formas, essa é mais uma Bahia diferente de todas as outras Bahias que a Mangueira trouxe, mas é mais uma vez um olhar da Mangueira sobre a Bahia”, entende Gui Estevão.

A carnavalesca Annik Salmon vai além e cita outros fatores até externos ao seu trabalho e ao de Guilherme para apontar que há a expectativa por um grande carnaval.

“Tem vários pontos. É difícil falar um único. Acho que começa pela temática de enredo, a escolha que a gente fez, é um tema que é a cara da Mangueira. E é um tema que foi pedido pelos torcedores, pelos mangueirenses. Mais o fato de ser uma temática alegre, que traz cor para a Mangueira, um colorido. Vindo com isso, nós temos um samba que acho que é o melhor samba do carnaval, e não acho por estar aqui. A gente tem um samba que levanta a galera, que todo mundo está cantando. Quando a Mangueira entrar tocando esse samba já vai levantar todo mundo. Plasticamente estamos vindo com uma estética diferente dos últimos anos, resgatando coisas bem antigas na Mangueira”, revela a carnavalesca.

Por fim, Guilherme diz que esse novo momento da Estação Primeira já se reflete no mangueirense e fala de um retorno muito positivo que os carnavalescos vem recebendo da comunidade desde que o enredo foi anunciado em junho.

“A escola está muito feliz. A safra de sambas da escola foi a maior do Grupo, do país. O samba da escola é um dos melhores do ano. Quando você de fato atinge o coração do componente, pela maneira como ele quer se ver, ouvir, vestir, sambar, é o grande trunfo. E mais do que encontrar o coração do mangueirense, quando a gente foi na Bahia, a gente encontrou o coração do baiano. Eles falaram pra gente na visita, que estavam esperando o momento que a Mangueira fosse contar a história deles, a história dos blocos afros, aquilo pegou muito forte na gente, pois era um sinal de que estamos no caminho certo. E de fato acredito que estamos”, finaliza Gui Estevão.

Conheça o desfile da Mangueira

A Estação Primeira de Mangueira vai levar para a Sapucaí 5 alegorias e terá cerca de 3200 a 3500 componentes. Guilherme Estevão revelou como está dividido cada setor. Confira a divisão apresentada pelo carnavalesco e sua representação a partir de trechos da sinopse de “As Áfricas que a Bahia canta”:

Primeiro Setor – Cucumbis
“Negros iam as ruas em dia de folia, desafiando toda perseguição, entoando cantares nativos, contando a saga daqueles que, infelizmente, sucumbiram pela escravidão.Faziam festa para a sua preta rainha em forma de cucumbis, trazendo, a frente, um cortejo de rotins, afugentando todo mal que pudesse estar por ali”.

Segundo Setor – Clubes Negros
“Era proibido “ser” africano na Bahia, mas, em dias de folia, a fantasia era ousada, com muita sabedoria se esquivavam da chibata da polícia que insistia em esquecer em que tempo estava. Seguindo a tradição preta de cortejos, se organizaram em Clubes Negros, a disputar as ruas com a burguesia, em forma de arte, protestavam contra os açoites e a serventia”.

Terceiro Setor – Afoxés
“Mas nada era mais intenso que a união do gueto, a rua e a fé, andando a pé pela cidade. Do terreiro do Engenho Velho, o céu dos orixás intervia ao unir a arte, a religiosidade e a fantasia, levando os livres toques de ijexá pelas ladeiras e avenidas. Preparava-se o padê para que Exu mensageiro fosse ligeiro abrir os caminhos para passar o Afoxé”.

Quarto Setor – Blocos Afros
“Os blocos afros reconstruíram a identidade de um povo, que passa a ter ainda mais orgulho de sair na folia a cantar, de fazer a terra tremer, pois o vulcão da Bahia é tambor de Ilê Aiyê”.

Quinto Setor – Baianidades e o Axé Contemporâneo
“Salvador se agita no negro toque do agogô, nas quebradas com a pele pintada, nas estampas de faraós, na pipoca do trio, nos tambores do Pelô. Na mistura do Timbalada, dos sambas de roda, reggae e tantos sons que dão o tom à baianidade Nagô”.