Fazendo alusão ao João Francisco malandro, porradeiro, que aprendeu capoeira para se defender e, simultaneamente, trazendo a personalidade de Madame Satã como drag, a fantasia dos ritmistas da Lins Imperial resumiu as duas principais personalidades de Madame Satã ao longo de sua vida. A fantasia “Bicha-malandro” era dividida ao meio, inclusive na pintura de rosto, evidenciando a mistura entre o João malandro e a Satã artista.
Em entrevista ao CARNAVALESCO, os componentes da bateria da escola de samba do Lins explicaram a mensagem representada na roupa dos ritmistas e a importância de falar de Madame Satã no carnaval deste ano.
Adailton Junior, de 29 anos, é ritmista da Lins Imperial a vida inteira e há três anos é diretor da bateria da escola de samba. Ele destacou as duas personalidades de João Francisco, mensagem representada na fantasia dos ritmistas da agremiação.
“A fantasia da bateria representa uma parte do trecho do samba, que significa o bicha-malandro – ao mesmo tempo que a malandragem representada na figura de Madame Satã, também havia toda a parte performática dele. A fantasia representa esses dois lados de Madame Satã, que acompanhou ele em boa parte de sua vida”, explicou o diretor de bateria da escola de samba.
Para Adailton, a diversidade é o principal ponto nesta mensagem da bateria da Lins Imperial que, segundo ele, está presente nos próprios ritmistas. O diretor destacou que o segmento da escola é plural, com mulheres, meninos e pessoas de diversas orientações sexuais.
“A importância desta mensagem em meio ao segmento da bateria é a diversidade. Nós temos meninos, homens e muitas mulheres que foram formadas pela nossa bateria. Também temos heteros, bi e homossexuais. É uma bateria muito diversa e, por isso, essa mensagem também é passada através dos nossos componentes”, enfatizou Adailton Junior.
Uma releitura do que foi um grande desfile no Grupo Especial de 1990. O diretor de bateria enfatizou a importância de voltar a falar de Madame Satã na atualidade, em meio a um crescente número de transfobia e discriminação contra minorias.
“Madame Satã foi um samba histórico da nossa escola. A importância é trazer de volta para a Avenida a figura de Madame Satã em meio a um momento em que o Brasil vive com muita intolerância em diversos aspectos, como religiosa e sexual. A importância é destacar que o carnaval é feito através da diversidade. Ele não é feito de cores, gênero ou qualquer outra coisa. Ele é o carnaval do povo. A mensagem é de muita garra. A escola vem com muita força e muita vontade e sede de fazer as coisas darem certo”, detalhou.
Se para o ritmista que já está há anos na escola fazer uma releitura de Madame Satã é de enorme responsabilidade, para quem chegou agora na Lins Imperial, o peso é em dobro. Romulo Fernandes, de 29 anos, contou que este foi o seu primeiro ano na Marquês de Sapucaí. Mesmo novo na agremiação, Romulo sabe a importância que é falar sobre João Francisco dos Santos.
“É uma experiência muito boa e uma expectativa muito grande. Moro no Engenho Novo, ao lado do Lins, e poder estar presente, representando a minha região, com certeza será algo que ficará marcado, ainda mais com o enredo de Madame Satã, que é uma figura histórica da Lapa. É um enredo histórico da escola e ela está tentando ressignificar justamente em tempos em que temos muito preconceito e descriminação como a transfobia. O Brasil é um dos países em que se mais mata pessoas transsexuais. Trazer esse enredo novamente tem uma grande importância social e histórica para esse grupo que, infelizmente, sofre violência todos os dias”, enfatizou o ritmista.
Outro novato na bateria da escola de samba, Jeferson Lourenço, de 32 anos, lembrou que a mensagem no enredo e na fantasia da bateria é a diversidade, algo que sempre fez parte do carnaval.
“A responsabilidade é grande e muito nervosismo. Acredito que a escola vem bem. A minha fantasia é uma mistura de malandro com Madame Satã e ela está bonita para a gente ir firme para a Avenida. A mensagem e o que é importante é a diversidade. Trazer para a bateria, que as pessoas acham que é um segmento muito masculino, essa diversidade e alegria para o carnaval. A palavra do carnaval é justamente essa – diversidade – trazer a integração. No carnaval, todo mundo tem voz e o seu espaço”, contou.
Samuel Douglas, de 40 anos, desfila pela Lins Imperial há três anos. Para ele, é importante trazer novamente a figura de Madame Satã para a Passarela do Samba.
“Eu acredito que a bateria é o coração da escola e Madame Satã é justamente isso. É muito importante trazer um homem negro e homossexual para a Sapucaí. É uma mensagem de suma importância que nós vamos passar na Marquês de Sapucaí”, declarou o ritmista da Lins Imperial.
A Lins Imperial foi a segunda escola a desfilar neste primeiro dia do carnaval carioca. Com Madame Satã, a escola marcou a abertura dos desfiles com representatividade aos grupos minoritários.































Em meio ao peso de fazer uma releitura do excelente desfile de Madame Satã no Carnaval de 1990, a Lins Imperial buscou contar as fases da vida de João Francisco dos Santos. Nesta pegada, o primeiro e o segundo tripé da escola de samba representavam o primeiro trabalho de João e a incorporação de Madame Satã, respectivamente. Em entrevista ao CARNAVALESCO, os destaques centrais Samille Cunha, Andrea Gaspareli e Meime dos Santos detalharam a importância de trazer esta releitura de enredo.
Meime destacou que é importante representar o nome de Madame Satã na Passarela do Samba. Ela lembrou que em 1989 a Beija-Flor, de Joãosinho Trinta, fez uma homenagem.
“Como eu trabalhei muitos anos na Lapa, a Lins Imperial está me homenageando dentro do enredo de Madame Satã. Eu sou homenageada pela minha história na Lapa – por muitos anos eu comandei uma casa noturna lá. Por isso, eu me sinto dentro do enredo Eu estou sendo homenageada, então eu criei meu próprio ‘figurino’”, explicou.
Para ela, sempre é importante defender causas. Andrea comentou sobre o papel da escola neste enredo e também lembrou que na época em que Madame Satã, mesmo com um preconceito maior do que o da atualidade, não deixou de lutar pelas minorias e pelos seus sonhos.
“Acredito que ainda tem o que melhorar. Preconceito existe em tudo o que é lugar, mas, aos poucos, a gente vai chegando lá. Estou vindo com o maior privilégio, como ator e transformista que sou. A mensagem que queremos deixar é paz, amor e muito respeito pelas pessoas. Vivam a vida, porque ela é muito importante”, disse Andrea Gaspareli, que era destaque do primeiro tripé.
Samille Cunha também detalhou o seu papel como destaque neste segundo tripé, além de explicar o que o carro representa no enredo da escola de samba: um padê para Satã.
Em seu terceiro e último carro alegórico, a Lins Imperial fez sua exaltação final de Madame Satã na Sapucaí. Tons de verde e rosa, as cores da agremiação, faziam parte da composição. Bandeiras com os nomes e rostos de outras grandes personalidades que fizeram história como representantes de uma resistência também estavam em evidência.
Segunda agremiação da Série Ouro a desfilar na sexta-feira, dia 17 de fevereiro, a Lins Imperial levou para a Sapucaí a vida e a história de João Francisco dos Santos, a Madame Satã. Com o enredo “Madame Satã: Resistir para Existir”, o desfile ecoou as vozes de ativistas negros e da comunidade LGBTQIA+.
Para Greicy Darhk, de 33 anos, é gratificante homenagear uma pessoa que quebrou tantas barreiras numa época difícil. “Se não fosse por Madame Satã, talvez eu não estivesse aqui, vivendo plenamente como um homossexual. Ele foi preso, humilhado e até apanhou, então nos defendeu antes mesmo de nascermos”, afirmou.
Infelizmente, minutos antes do desfile começar, a barra de direção da alegoria quebrou. Impossibilitada de transitar pela Avenida, apenas a parte que seria acoplada pode encerrar o terceiro setor.