O quarto setor da Mangueira trouxe os grandes sucessos de Alcione, ao longo de sua carreira, tendo como nome “O poder feminino de uma voz”, em que diversas músicas marcantes da Marrom foram carnavalizadas para o desfile. “Sufoco”, “Meu Ébano”, “A Loba”, são algumas dessas músicas que fizeram Alcione ser elevada ao patamar de estrela e grande voz da música popular brasileira. O CARNAVALESCO esteve na concentração, onde conversou com componentes sobre esses grandes sucessos, o que eles representam na vida de cada um deles, e a alegria de homenagear a “Negra voz do amanhã”.
Érica Lopes veio na ala “A Loba”, canção gravada em 1997 por Marrom, e falou um pouco sobre a música, que por coincidência a descreve e marcou sua vida: “A música fala de uma mulher forte e resistente. Uma mulher forte, empoderada. E me enxergo perfeitamente nela”. Além disso, a componente de quarenta e quatro anos, que desfila a vinte na escola, conta que Meu Ébano é outra música marcante de Alcione para ela: “É linda essa música, é muito bacana”.
O secretário-executivo do Ministério da Cultura, Márcio Tavares, de trinta e oito anos, também veio desfilando na Mangueira: “Já desfilei anteriormente, mas é a primeira vez que estou vindo na ala de compositores”. Ao falar dos sucessos de Alcione que marcaram a vida, contou que ela sempre marca alguma momento da vida das pessoas: “É impossível a gente não escutar Alcione em algum momento da vida e não ter, seja sufoco, seja qualquer outro, um caso amoroso, uma grande vitória, o amor pelo samba. Sempre Alcione marca a nossa história”. Ele continuou falando dos sucessos de Marrom ao longo dos anos: “Os sucessos da Alcione nas últimas décadas contam um pouco da história do Brasil e a história da vida de cada brasileira. É isso que a escola está tentando mostrar agora também”. Vestido com a fantasia “Pandeiro é meu nome”, Márcio contou a música da Alcione que o impacta: “Alcione arrasa em quase tudo, mas ‘Sufoco’ sempre bate mais fundo em mim, é uma música que sempre que toca eu fico arrebatado”.
Marjorie Arruda, de quarenta e nove, Fernanda Sebrian, de cinquenta e quatro, e Kelly Pereira de quarenta e quatro desfilaram na ala “Sufoco”, um grande sucesso de Alcione sobre as dores e amores de uma mulher apaixonada. As amigas acreditam que essa é a música da Marrom que marcou a vida delas, que aproveitaram para falar de algumas das características que a fantasia trouxe: “Braços apertados no pescoço, coração explodindo, é isso aqui, sufoco”, falou Fernanda. Marjorie achou o figurino confortável: “Super confortável. Braço de fora e peito de fora é vida”. “O body, sem dúvida! Esse body aqui eu quero pra mim, inclusive. Não vou devolver”, contou Kelly, se divertindo ao contar o que mais gostou na fantasia.
O médico Fernando Cruz, de trinta e seis anos, também veio na ala dos compositores, e já começou conversando sobre a música que mais marcou a vida dele: “É ‘A Loba’, né? A Loba marcou a minha vida porque fala muito de reconstrução da nossa força interior, e, enfim, eu acho que é uma música eternizada na voz dela, né, e me emociona muito”. Para Fernando, apelidado de Fefo, a ala mais bela do setor foi “Sufoco”: “Adorei porque tem muito brilho, muito luxo, a Mangueira tá vindo com força. E com um componente estético assim maravilhoso e eu acho que é uma das alas que eu mais gostei, porque é leve também”. O paranaense, que desfila pela primeira vez, ressalta outro grande clássico da Marrom como uma de suas músicas mais importantes: “‘Não deixa o samba morrer’. Eu acho que também é uma marca dela e marcou também porque eu gosto de samba desde pequeno, é a primeira vez que eu tô na Sapucaí e me marcou muito porque ela marca assim de que você tem que ter uma tradição, de você não deixar as tradições de lado, de preservar que isso é cultura popular, nossa, brasileira, fabricada aqui, então eu acho que é muito importante e é uma música que é muito bonita também”. Ao fim, ele agradeceu também ao site pelo trabalho, que o possibilitou de ficar sempre mais perto das escolas de samba, mesmo vivendo em outro estado, desde um tempo anterior a popularização das redes sociais.

Sentada no seu devido trono, de rainha mangueirense, Alcione atravessou a Sapucaí, cercada de crianças, no carro “Meu Palácio tem Rainha”. O desfile da Estação Primeira de Mangueira, em homenagem à Marrom, foi encerrado com o carro inspirado na canção “Mangueira é uma Mãe”, representando a própria trajetória de Alcione na escola, sendo esta uma filha que não nasceu no morro, mas que foi acolhida como parte da comunidade. Como uma mãe, ampara que os seus frutos e busca desenvolver o Amanhã através de sua cultura e tradições do samba.
No carro em que a homenageada veio, radiante e com uma coroa na cabeça, as crianças estavam em volta dela, além de esculturas que representavam crianças. O carro era um grande palácio verde e rosa e brilhante, um típico castelo de contos infantis. A essência da Mangueira estava naquela alegoria, as crianças simbolizavam o amanhã da Mangueira. Foi nesse palácio que as crianças contaram ao site CARNAVALESCO a emoção de desfilar ao lado da grande homenageada da Mangueira.
O Adriano Silva, de 12 anos, veio em cima do carro da Alcione representando o Serginho do Pandeiro, passista ilustre da Verde e Rosa que faleceu em novembro do ano passado.
Trazendo a fantasia “A crença no Espírito Santo”, as baianas da Mangueira desfilaram pela Sapucaí fazendo uma referência a ligação de Alcione, a grande homenageada da verde e rosa, com sua mãe e com as práticas religiosas e populares do Maranhão. A representação mais popular da terceira pessoa da Trindade, a forma de uma pomba branca, foi um dos destaques da fantasia, que estava em tons de branco e dourado, para exaltar o Divino. Além do símbolo na saia das mães do samba da Mangueira, haviam detalhes que remetiam aos raios normalmente encontrados na representação do Espírito Santo aqui no Brasil, conforme explicou a escola. Além disso Mayra Aleta, de trinta e nove anos gostou muito do figurino deste ano, ressaltando a leveza: “Absolutamente espetacular, representa nossa alma, nossa alma de guerreira e eu acho que é isso que a gente vem com esse espírito de brilhar muito na avenida e ela tá leve pra gente brincar e fazer um belíssimo carnaval”. A baiana, que está na Verde e Rosa desde 2017, gostou muito da saia deste ano: “Definitivamente meu destaque foi essa saia branca e dourada que eu achei um arraso”.
Silvinha Poderosa, baiana da escola há dezesseis anos, se maravilhou com a fantasia, ressaltando o significado da mesma: “Não tá pesada, pelo menos pra mim. Tá bem confortável e, assim, nós somos o divino Espírito Santo e o divino Espírito Santo ajuda a gente em tudo, tudo nessa vida”. Moradora de Petrópolis, a baiana de cinquenta e dois anos gostou muito da fantasia ter vindo bem completa e leve: “Amei a fantasia toda. Eu acho que ela tá completa, tá lindíssima, maravilhosa. Falar de Mangueira, meu amor, meu coração é Verde e Rosa. Então, assim, eu acho que o amor maior nem deixa a fantasia pesar”.
“Olha, ela está lindíssima, eu achei que a gente fosse ter algum problema porque ela tem muitos acessórios, mas não, está linda e está suportável, está muito linda, acho que a Mangueira tem tudo para ganhar um dez na ala de baianas”, se divertiu Nina Amaceto, de sessenta e quatro anos, que há cinco desfila como baiana na escola. Ela gostou muito da relação da fantasia com o sagrado: “Eu gostei daqui, tem umas pombas. Elas representam o Espírito Santo, e aí vem com mais umas pombas aqui, que eu achei assim Divino mesmo”.












Atravessar a Sapucaí homenageando uma baluarte do Brasil já é emocionante, quando essa baluarte é também da sua escola, a emoção transborda e haja concentração. Os componentes da Mangueira contaram ao site CARNAVALESCO a emoção de homenagear Alcione em vida e a relação de cada um com sua obra.
A voz de diversas canções de amor que emociona o Brasil há décadas, Alcione é uma unanimidade artística, todos conhecem ou, ao menos, sabem cantarolar um refrão da Marrom. Com os componentes do desfile da Mangueira, não é diferente.
A Elma Prudencio quase desistiu de desfilar este ano, mas quando descobriu que a Alcione seria enredo, ela logo se rematriculou na ala e veio desfilar.
Com o enredo “Gbalá – Viagem ao templo da criação!”, a Unidos de Vila Isabel foi a terceira agremiação a desfilar na Marquês de Sapucaí na noite desta segunda-feira de Carnaval. O abre-alas da escola foi batizado de “Quando acaba a criação, desaparece o criador”. Dividido em dois chassis, ele retratou o caos do mundo em meio aos problemas sociais e ambientais que, no contexto do enredo, adoecem Oxalá.
“O samba descreve que Oxalá está doente porque a sua criação adoeceu. O abre-alas retrata alguns dos males do planeta, mostrando o porquê do planeta estar doente. O material dele é uma base extremamente trabalhada para o sentido carnavalesco. Em resumo, é o ambiente de Oxalá, mas que está meio desgastado – já que no nosso enredo ele está adoentado. É um problema social, que é o rico e o pobre em meio a essa desigualdade – não só do Brasil, mas no mundo inteiro. E isso também causa o desgaste da natureza”, explica Paulo Barros.
“É um grande jantar, que tem pessoas do agronegócio, empresariado, milionários – os magnatas lá no topo. Enquanto a elite está lá em cima jantando, quem está embaixo come os restos. Iniciamos o desfile mostrando para a sociedade o que fizemos com o nosso mundo e o adoecimento de Oxalá em vista do que a sua criatura fez com a humanidade. O Paulo Barros foi genial, porque já começa o desfile dando um ‘soco no estômago”, disse Vinícius.
Já o segundo chassi da alegoria retratou os danos ao meio ambiente, como a floresta em chamas – um dos motivos para o adoecimento do criador. Na parte de trás do carro, os contornos de uma fábrica simbolizavam os impactos causados pelo consumo desenfreado. Composição do chassi, a influenciadora digital Anna Retonde, 25 anos, representou o fogo das queimadas.
O carnavalesco Paulos Barros apresentou, nesta segunda-feira (12), no segundo dia de desfiles do Grupo Especial do Rio, mais um Carnaval com a Unidos de Vila Isabel. O artista refez seu enredo de 1993, denominado “Gbala – Viagem ao Templo da Criação”, realçando o importante papel das crianças para criar um futuro melhor.
A narrativa retoma uma antiga lenda, interpretada pelas lentes das religiões de matriz africana, onde Olorum, a entidade máxima, confia a Oxalá a tarefa de moldar os seres humanos nas origens do mundo. Essa nova criação demandava cuidadores para suas belezas naturais, tais como a flora, a fauna e os oceanos.
Com o decorrer do tempo, a humanidade deixou de cumprir seu dever de proteger essas dádivas. Frente a esse descuido, os orixás convocaram crianças de várias partes do planeta para se dirigirem ao templo da criação.