Por Lucas Sampaio e fotos de Fábio Martins
A Mocidade Alegre realizou na noite de sábado seu desfile no Sambódromo do Anhembi no carnaval de 2024. Uma vez mais o conjunto do desfile da Mocidade se destacou e atraiu os olhares atentos do público que compareceu à Passarela do Samba, com elementos visuais de fácil leitura e bem narrados pelo samba da agremiação. A Morada do Samba foi a terceira escola a se apresentar pelo Grupo Especial, fechando os portões após exatamente uma hora.

Comissão de Frente
A comissão de frente intitulada “Caleidoscópio Paulistano” se apresentou em dois atos marcados por passagens do samba e fez uso de um elemento alegórico simbolizando uma locomotiva que continha bicicletas anexas nas laterais. O grupo cênico foi composto por diversos atores vestidos de arlequins e um protagonista representando Mario de Andrade, interpretado pelo ator Pascoal da Conceição.

No primeiro ato, a parte frontal da alegoria se abre e revela Mario, que passa a interagir com os animados arlequins. No segundo ato, que simboliza o início da jornada do poeta, ele volta para dentro da locomotiva, os arlequins todos sobem no veículo e passam a manipular o maquinário, parte pedalando as bicicletas, parte movimentando um mecanismo que passa a soltar fumaça. A comissão de frente conseguiu chamar a atenção do público com sua irreverência, e contribuiu positivamente para o início do desfile da Morada do Samba.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O primeiro casal da Mocidade, formado por Diego Motta e Natália Lago, desfilou com fantasias nomeadas de “Desafiando o céu de concreto”, e foram acompanhados de um grupo de guardiões chamados “A Corte Arlequinal”. O casal apostou em uma dança muito fiel à tradição do quesito, cravando seus giros com segurança nos dois primeiros jurados e no último. Uma ressalva, porém, é preciso.

Em duas oportunidades a dupla ficou diante de módulos de jurado por um período muito superior ao necessário, sendo a primeira, na cabine dois, por conta de a escola ter parado para a coreografia da bateria durante a Monumental, e a segunda no terceiro julgador durante o recuo da bateria. Teoricamente, o casal só pode ser julgado dentro das indicações dadas pelo apresentador, mas não deixa de ser uma exposição excessiva ao júri que poderia ter sido evitada.
Enredo
O enredo da Mocidade Alegre em 2024 foi “Brasiléia Desvairada: a busca de Mário de Andrade por um país”, assinado pelo carnavalesco Jorge Silveira. A Morada retratou em seu desfile a viagem pioneira do escritor paulistano para conhecer e registrar as manifestações culturais brasileiras. Dessa expedição, iniciada com a companhia de modernistas geniais, como a pintora Tarsila do Amaral, surgiu a inspiração para várias obras de Mario, em especial o livro “O turista aprendiz”. Após relatar momentos da jornada, como o testemunho de manifestações como a arte barroca, carimbó, maracatu e o frevo, Mario de Andrade volta para São Paulo onde, batizado no samba rural de Pirapora do Bom Jesus, que é berço do samba no estado, escreve a história com os registros de suas pesquisas.

A facilidade com a qual o enredo foi lido surpreende. É uma temática densa e complexa, que exigiu do carnavalesco Jorge Silveira muita perícia para encaixar os elementos sem gerar dúvidas ou confusão da narrativa. O samba ajudou a leitura das alegorias e fantasias, formando um conjunto primoroso de apresentação.
Alegorias
A Morada do Samba se apresentou com quatro carros alegóricos e um quadripé. O Abre-alas foi intitulado “Paulicéia Desvairada”, enquanto o segundo carro recebeu o nome de “As riquezas do Barroco Nacional”, a terceira se chamou “Pelo Amazonas até dizer chega” e a última foi batizada de “O samba rural de Pirapora do Bom Jesus – o berço do samba paulista”. O quadripé, que veio entre os carros dois e três, representou o “Maracatu”. Os nomes dos carros são inspirados em trabalhos frutos das pesquisas realizadas por Mario de Andrade ao longo da viagem retratada pelo enredo.

O conjunto alegórico conseguiu não apenas retratar os elementos do enredo com clareza, como o impacto causado por cada uma das alegorias imergiu o público na viagem pelo Brasil proposta pela Mocidade. Destaque para a representação do famoso Viaduto Santa Ifigênia no carro Abre-Alas, que gera rápida identificação a qualquer cidadão paulistano que o viu. Alguns detalhes de acabamento, como uma faixa de LED do para-choques do caminhão presente no primeiro carro desalinhada e um detalhe na escultura de uma das santas do segundo cabem aos jurados interpretarem se comprometeram o conjunto.

Fantasias
As fantasias da Mocidade representaram os diferentes registros feitos por Mario de Andrade ao longo da viagem pelo Brasil. Ritos folclóricos como o Carimbó e a Chegança, a arte barroca que inspirou a Ala das Baianas, passagens da jornada pelo Rio Amazonas e a famosa ferrovia Madeira-Mamoré, e danças presentes no carnaval brasileiro como maracatu e frevo, marcaram presença nas alas do desfile da Morada do Samba.

A leveza para os componentes brincarem o carnaval associada com a fácil leitura marcou todo o conjunto de fantasias da Mocidade Alegre. A comunidade pode evoluir com alegria pela Avenida, resultando em um desfile culturalmente agregador e agradável de se assistir em todos os momentos. Destaque especial para a criativa Ala das Baianas, que representou esculturas barrocas esculpidas em pedra-sabão e veio toda em um único tom de cinza.
Harmonia
Quesito que costuma ser muito forte na Morada do Samba, a harmonia teve desempenho correto ao longo de toda a Avenida. Os desfilantes clamaram o samba em um nível compreensível, sem deixar clarões audíveis. Os apagões apostados pela bateria “Ritmo Puro” demonstraram que a comunidade sabe responder nos momentos necessários, e sempre que exigida conseguiram entregar mais vigor. Destaque para a ala “Caboclinhos”, que se manteve muito animada por toda a apresentação.

Samba-Enredo
O samba da Mocidade Alegre foi composto por Biro Biro, Turko, Gui Cruz, Rafa Do Cavaco, Minuetto, João Osasco, Imperial, Maradona, Portuga, Fábio Souza, Daniel Katar e Vitor Gabriel, e foi defendido na Avenida pela ala musical liderada pelo intérprete Igor Sorriso. O samba narra a jornada de Mario de Andrade para registrar a cultura brasileira começando por Minas Gerais, onde pesquisou sobre a arte barroca, passando pela região Amazônica, o Nordeste e retornando à São Paulo para transformar o material colhido em obras que marcaram a literatura brasileira.

Um samba funcional com elementos inconfundíveis de sambas da história da Morada do Samba, que gosta de letras com desfechos crescentes na segunda parte da obra. Se o nome “Mocidade” do refrão principal fosse retirado, ainda assim seria fácil saber que se trata de um samba da escola. A obra funcionou para atrair a atenção do público, ajudou na leitura dos elementos visuais e teve grande desempenho nas vozes do competente carro de som liderado por Igor Sorriso.
Evolução
Acompanhar a evolução da Mocidade Alegre em um desfile é como ler poesia em forma de técnica. A facilidade com a qual os representantes do segmento se comunicam mesmo à longa distância chama atenção e não é de hoje, e resulta há anos em desfiles fluídos e despreocupados para a Morada do Samba. A escola parou na Avenida em duas oportunidades, sendo uma para a apresentação da bateria diante da Monumental e outra para o recuo da mesma. Fora esses momentos, todo o cortejo da Mocidade transcorreu com leveza, sendo que a escola arrancou com o samba já com o relógio correndo e mesmo assim fechou os portões tranquilamente após uma hora exata de desfile.

Outros Destaques
A bateria “Ritmo Puro” novamente fez uma apresentação especial para o público da arquibancada Monumental, dessa vez utilizando-se de uma pequena alegoria em forma de locomotiva. Por sinal, “Fascinante Locomotiva: em busca de novos Brasis” era o nome da criativa fantasia da Rainha Aline Oliveira, que chamou atenção com um adereço de cabeça que continha um farol aceso. A campeã do BBB e musa da Morada Thelminha também atraiu olhares com a bela fantasia representando “São Paulo, a musa inspiradora do poeta”.













A São Clemente celebrou a vida e a obra do compositor Zé Katimba com o enredo “Que grande destino reservaram para você” do carnavalesco Bruno de Oliveira. Reverenciar Zé Katimba é cantar as raízes desse Brasil, refletindo sua essência na mistura das raças e das cores, enaltecendo todos os compositores de samba-enredo, os verdadeiros poetas que entrelaçam com sua arte a musicalidade do Carnaval.
“Muita emoção, estou emocionadíssima em passar em um carro homenageando o Zé Katimba. Sou da velha-guarda da Imperatriz há uns cinco anos, mas eu sou da escola faz tempo, eu já perdi as contas”, comentou Tereza Maria de 74 anos .
Vânia Maria de 69 anos, é da velha-guarda da Imperatriz e completa 52 anos com a escola nesse carnaval, ela contou a emoção de desfilar no carro que homenageou a trajetória de Zé Katimba na sua escola e também revelou a sua emoção com o enredo já que seu primeiro desfile foi com o Martim Cererê: “Eu acho o enredo perfeito, porque eu acho que a gente tem que homenagear as pessoas em vida, e o Zé Katimba tem tudo a ver com o Carnaval, ele realmente merecia ter um enredo para ele, e nós virmos no carro é maravilhoso, porque nós acompanhamos a trajetória do Zé Katimba, o pessoal da velha-guarda, ou pelo menos as pessoas que estão na escola há muito tempo, como nós, acompanhamos a trajetória do Zé, por isso é tão emocionante. Nesse Carnaval eu faço 52 anos de Imperatriz, e o meu primeiro desfile foi o Martim Cererê, então eu estou emocionadíssima, assim, você perguntou qual é o samba do Katimba que eu mais gosto, eu gosto muito de um samba Brasil de todos os deuses, um samba lindíssimo, mas esse Martim Cererê foi meu primeiro desfile, está no sangue, é maravilhoso.”










Intitulada como “Mãe das Dores”, a fantasia das baianas da Unidos de Padre Miguel personifica o lugar onde Padre Cícero teve uma das suas mais importantes visões, que foi na Capela de Nossa Senhora das Dores. Sendo uma fantasia majoritariamente feita de renda branca, com detalhes ornamentados em dourado e detalhes vermelhos, as baianas estavam radiantes na concentração.
Um detalhe que chamou muito a atenção na fantasia das baianas era o coração vermelho com led dentro que elas traziam no peitoral da fantasia. Ao desfilarem, esse coração brilhava. Além disso, outro detalhe interessante era que o mesmo coração estava espetado por 7 espadas, assim como o coração da Nossa Senhora das Dores que elas traziam desenhadas em suas saias, essas 7 espadas simbolizam as 7 dores que a Virgem Maria sentiu em sua vida, principalmente nos momentos da Paixão de Cristo.
“Porque lá no sertão, o sofrimento era muito grande porque a tecnologia não existia, sofria-se muito, então as pessoas tinham uma devoção divina direta E havia muitas dores, muitas dores por fome, pela sede, pela violência que existia, pelas maldades, pela falta de comida e, principalmente, a seca, que sempre assolou muito o sertão brasileiro”, afirmou a professora.
Recém-ordenado padre em Fortaleza, o jovem Cícero sonhou com 13 homens na sua frente representando a “Santa ceia do Agreste” com Jesus e seus doze apóstolos. Para além das questões religiosas, o carro simboliza a grande fome que o povo nordestino viveu e ainda vive. O carro trazia esculturas de 2 casais, cujas mulheres carregam uma criança nos braços. Os casais, colocados um de cada lado do carro, traziam a expressão de tristeza.
“O nosso carro representa a vida. Porque traz um povo sofrido que se apegou à fé, fé em padre Ciço e veio a esperança. Da fé do povo em padre Ciço veio a esperança de um mundo melhor, de coisas melhores. Então o nosso carro representa a nossa esperança, a nossa fé na vitória da nossa escola. E o carro está lindo, é uma emoção a cada ano, a cada desfile, eu chego até a chorar, não tem como conter a lágrima, a paixão pela Unidos de Padre Miguel é grande”, disse a técnica de enfermagem emocionada.
O padre Cícero veio simbolizado em uma escultura que estava deitada na frente do carro, como se estivesse rezando pelo seu povo que viria atrás.
“Eu acredito que já passou da hora da escola subir para o Grupo Especial. Acho que nós estamos aqui desde 2017, mostrando um carnaval extremamente fora da curva para a Série Ouro. E é o ano que devemos subir. E esse carro é, primeiramente, grandioso, que traz a mensagem de Cícero e que traz essa grandiosidade que é a Unidos de Padre Miguel”, disse Matheus Moura, de 27 anos.
“Viva o encontro no Aiyê! É festa de Erê!” foi o segundo carro da União da Ilha neste segundo dia de desfiles. Representando o momento que ocorre o encontro das duas crianças que protagonizam o enredo para brincar e dançar pela comunidade insulana, ele veio com as imagens de São Cosme e Damião e Doum como figuras centrais junto de um grande pião por onde Doum e Amora brincaram. Com diversos doces, oferendas para os erês, se destacando as árvores de algodão-doce, e atabaques conduzidos por ogãs, para realizar o “bate tambor” como canta a letra do samba.
Alguns dos componentes que vieram de Ogãs no carro, Luciano Júnior, de vinte e cinco, e Flávio Sobreira, de vinte e sete, comentaram sobre o carro, contando sobre a Festa dos Erês que ocorreu na avenida: “A festa de Erê é a alegria propriamente dita e é o que a gente vai transmitir na avenida. Quando a gente vê ali, é a encarnação do próprio erê. As crianças felizes aplicando o que foi ensinado pra elas pelos pretos velhos”, explicou Flávio. “A gente vem representando os ogãs. A gente vai bater o tambor pros erês, para as crianças pularem à vontade aqui, curtirem, literalmente, essa Sapucaí”, continuou Luciano. “Que é isso que a Ilha vai fazer, ela vai mostrar tudo que ela precisa mostrar de ponta a ponta feliz, toda a importância da criança, do ensinamento da criança pro futuro da nossa nação”, concluiu Flávio.
Conversamos também com Uemi Morgado e Bárbara Vitória, que vieram como Doum e Amora neste carro. Uemi, de trinta e um anos, falou sobre interpretar Doum: “Ele é um ser iluminado e tem junto com uma amizade muito legal com a Amora, que está do meu lado”. Bárbara, que tem dezessete anos, contou sobre a menina Amora também: “Ela é uma criança de periferia e que, sem querer, invoca o Doum e eles saem pelo mundo espalhando essa magia de criança e representando isso”. Ambos desfilam pela primeira na Ilha, e se encantaram com o enredo e com o carro em que vieram: “É a primeira vez que eu estou tendo essa experiência e eu estou achando sensacional. Tudo isso para mim tem muita representatividade de fato e traz muito a realidade da nossa vida de infância, e o que a gente traz de toda a nossa bagagem, isso é muito maneiro”, contou Uemi. “Eu particularmente achei o carro lindo, antes eu passei na Cidade do Samba, eu vi tudo sendo montado, então quando vê, pronto, é muito bonito de se ver. E também, eu tô bem nervosa com a experiência, né, que é a primeira vez também, mas eu tô feliz, eu tô animada”, complementou Bruna, logo em seguida, a caminho do desfile.