Repleta de grandes histórias e alegorias, Águia de Ouro surpreende homenageando o rádio
Por Will Ferreira e fotos de Fábio Martins
O grande temor de toda escola de samba é ouvir uma nota diferente de dez no dia da apuração. Para que isso aconteça, não é permitido errar. E, buscando sempre a segurança em cada quesito, o Águia de Ouro teve uma atuação bastante destacada defendendo o enredo “Águia de Ouro nas Ondas do Rádio”, idealizado pelo carnavalesco Victor Santos. Quinta escola a desfilar no sábado de carnaval, a agremiação não deixou de ter pontos de destaque. As alegorias, bastante altas e imponentes, chamara atenção de quem estava no Anhembi. Histórias bastante interessantes, como a de um casal de mestre-sala e porta-bandeira formado há menos de um mês e que tiveram ótima atuação e a de uma rainha de bateria que teve uma fratura no pé e desfilou mesmo assim, rechearam um desfile que surpreendo positivamente.

Comissão de Frente
Com um grande tripé, o segmento, chamado de “Nas ondas do Rádio… em uma viagem imersiva, a invenção do Rádio é Ciência ou Bruxaria?” no enredo, fazia homenagens e continha uma própria história – toda idealizada pelo coreógrafo Ruy Oliveira. Em cima do tripé, uma dona de casa e o marido embarcavam em todas as emoções que o aparelho conseguiu despertar ao longo da centenária história do rádio no Brasil – principal mote do enredo, por sinal. Também fazendo referência a Landell de Moura, padre que patenteou o rádio nos Estados Unidos, o segmento trazia bailarinos representando grandes ícones do universo radiofônico, como Carmem Miranda, Ary Barroso, Linda Batista e Chacrinha. É importante pontuar que os dois grupos citados não tinham grande integração, cada qual com a própria coreografia.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Juntos há cerca de vinte dias, João Carlos Camargo e Monalisa Bueno representavam os Dragões da Independência, que participaram da primeira transmissão radiofônica do Brasil – os festejos da Independência do Brasil, em 1922. Com uma fantasia de identificação bastante simples para quem conhece a unidade militar, ambos passaram longe de ter qualquer falha de sincronia – na realidade, a impressão é que ambos dançavam há tempos juntos. Com ótimas apresentações nos quatro módulos, cumprindo todos os balizamentos obrigatórios, é importante pontuar que a sequência de giros do Casal era bastante extensa, impressionando todos os presentes.

Enredo
O Águia de Ouro buscou, em todo o desfile, prestar uma homenagem ao rádio – item que completou o centenário de existência em 2022. O primeiro setor (chamado de “Sintonia” na carnavalização) falava de toda a ciência que existiu para que a criação do item se concretizasse, além de exaltar a primeira transmissão via rádio no país – já citada neste texto; no segundo, como o objeto se tornou fundamental na sociedade brasileira para informação, lazer e formação da identidade do país ao longo de todo o século XX; no terceiro, o enfoque foi para o radiojornalismo e para as transmissões religiosas, também muito presentes no país até hoje; e, no quarto, falando do futuro, uma homenagem à internet e a Eli Corrêa, homenageado e dos grandes radialistas de São Paulo e do Brasil. De forma bastante leve, a agremiação da Pompeia conseguiu passar seu recado de maneira bastante eficiente e lúdica.

Alegorias
Absolutamente todas alegorias, além de bastante altos, impressionavam pela beleza, pelo bom gosto e pelo excelente acabamento. O abre-alas, “As ondas radiofônicas e a primeira transmissão nacional”, com uma imponente águia dourada em um primeiro chassi, trazia o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, palco inaugural do instrumento no Brasil. O segundo era claramente estilizado em homenagem à relevantíssima Rádio Nacional; o terceiro, “Hora do Angelus”, destaca a miríade de atrações religiosas no rádio brasileiro, todo decorado com motivos religiosos; por fim, o quarto, “O futuro é agora!”, buscava trazer uma mensagem positiva sobre os próximos momentos do instrumento – sempre citado como um meio de comunicação obsoleto, mas que nunca desaparece.

Também é importante pontuar o tripé alegórico “O som do meu carro”, com um conversível vermelho, que representava o status que um jovem possuía em décadas anteriores com um equipamento musical potente. De se pontuar, apenas, um integrante com uma camisa da escola no segundo carro, inteiramente com pessoas com traje de gala.
Fantasias
Chamou atenção o quanto a escola, em sua totalidade, conseguiu dar uma leitura bastante clara para todas as alas, carros alegóricos, casais e segmentos no geral. A ala 06, “Futebol – a emoção da narração de uma paixão nacional”, por exemplo, tinha camisas amarelas, shorts azuis e bolas de futebol; já a ala 12, “Radinho de pilha”, mostrava o quanto o instrumento portátil ajudava o homem do campo em sua labuta. Todos os fardamentos, por sinal, estavam muito bem acabados – muitos dos segmentos utilizavam materiais claramente nobres, por sinal.

Harmonia
O Águia de Ouro é conhecida pelo quanto os componentes da agremiação cantam forte. E isso, mais uma vez, se mostrou verdadeiro no desfile de 2024. Se o samba-enredo não é dos mais elogiados da safra, é nítido que a comunidade abraçou a leve obra, bastante simples de se cantar e com letra sem complicação alguma. A Batucada da Pompeia, bateria da azul e branca da Zona Oeste, colaborou com convenções que empolgaram os desfilantes, que cantaram em uníssono e sem qualquer percalço ao longo de toda a apresentação.

Samba-enredo
Quando as primeiras gravações de sambas-enredo começaram a ser reveladas, muitas críticas surgiram em relação à obra do Águia – composta por Tales Queralt, Aquiles da Vila, Lucas Queralt, Chanel, Marcelo Dores, Salgado Luz, Luccas Barroso, Abílio Jr., André Ricardo, Bruno Ribas, Nando do Cavaco, Ivanzinho, André Filosofia, Caio Ricci, Cauê Ricci, Edson Lins e Ronny Potolski, em uma fusão para decidir a eliminatória interna da instituição. Ao longo de todo o ciclo carnavalesco, porém, novas gravações e, sobretudo, o desempenho da canção ao vivo fizeram com que muitos reconsiderassem a primeira opinião acerca da qualidade da obra.

O que se pode destacar é que, no desfile, como costuma acontecer com todas as músicas levadas pela agremiação da Pompeia para a avenida, a comunidade inteira carregou a canção no colo e cantou com força. O samba, com característica bastante leve e popular, também pareceu feito para empolgar na voz de Douglinhas Aguiar e Serginho do Porto, históricos intérpretes da instituição. Para finalizar, a Batucada da Pompeia, comandada mais uma vez por Mestre Juca (e com os também competentíssimos mestres Mi e Marcão na diretoria), sustentou com galhardia o samba, realizando as tradicionais bossas do segmento do Águia – incluindo uma delas no final da música, antes de chegar ao refrão.

Evolução
Se muitos criticam a agremiação por ter um andamento um tanto quanto mecânico, é muitíssimo importante pontuar que, se o objetivo de toda e qualquer escola é conquistar o título, a agremiação da Pompeia executa com perfeição o que o regulamento pede. Com ritmo bastante uniforme ao longo de todo o desfile, sem correrias ou espaços em branco, o Águia foi, novamente, exemplo no quesito. O tempo bastante tranquilo de encerramento da exibição, uma hora e um minuto, é apenas mais uma mostra de que, no atual carnaval paulistano, há uma agremiação que domina o quesito como ninguém.

Outros Destaques
Reinando soberana na corte da Batucada da Pompeia (que chegou a se ajoelhar na frente da Arquibancada Monumental), uma rainha à altura: Vanessa Alves, que desfilou lesionada (ela sofreu uma fratura no pé esquerdo em ensaio no dia 22 de janeiro, passando por cirurgia dias) e precisou de um imenso esforço extrapassarela para estar presente com os ritmistas.
Com a flecha certeira do grande caçador, as baianas do Império Serrano representam Oxóssi, o rei de Ketú
Oxóssi, o rei do candomblé Ketú, é conhecido por ser o grande caçador, o rei de todas as matas. Sua cor característica é azul, mas usa-se o verde para representá-lo por conta da sua conexão com a natureza. E essas foram as cores que as baianas do Império Serrano vestiram para representar esse orixá no enredo “Ilú-Oba Òyó: A Gira dos Ancestrais”.
Conhecido por ser um caçador de uma flecha só, sendo essa flecha certeira, as baianas se apegam nisso para sonhar com um bom resultado do Império Serrano neste ano na Série Ouro.
“Representar Oxóssi, que é a força do Império, significa que a gente não pode desistir, temos que continuar na luta, porque a gente vai chegar onde a gente merece”, disse a psicopedagoga Bruna José, de 35 anos.
A fantasia das baianas era toda desenhada em figuras triangulares, as pontas significam o ataque do caçador. Assim como o ofá, a arma sagrada de Oxóssi, que as baianas trouxeram nas mãos.
Para Vera Lúcia Moreira, de 62 anos, a fantasia de Oxóssi é sinônimo de Império Serrano.
“Para mim, essa fantasia representa muita coisa, representa a minha comunidade, eu que moro na Serrinha, representar Oxóssi, que é muito importante para a escola, é lindo, espero que ele conceda muita felicidade, harmonia e união para nós imperianos”, contou a doméstica.
A baiana mais antiga da ala do Império Serrano pediu a benção do orixá caçador para a sua amada escola.
“A gente vem representando Oxóssi. E que ele venha abençoar e trazer melhoramento para o Império Serrano, só isso e muita paz”, disse Maria José, que tem 85 anos, a maioria deles vividos como baiana da escola da Serrinha.
A escola veio trazendo no abre-alas Ogum, que é irmão de Oxóssi. Ogum é conhecido por ser um nobre e incansável guerreiro, que para a costureira de 72 anos, Regina Dalva, irá dar forças ao Império Serrano.
“A nossa fantasia é Oxóssi, o dono das matas, o grande caçador, a força, a inspiração de todos os caboclos. O Império vem para caça esse ano, e com Ogum na frente, vencendo demanda. Isso, está muito bonito. Um carnaval ótimo que eles estão botando na avenida, o samba é fantástico, fora de série, obra do Aluísio Machado, a letra do samba tem tudo a ver com a escola”, comentou a costureira.
Com enredo de fácil leitura e casal como destaque, São Clemente faz desfile com problemas em harmonia e alegorias
Por Raphael Lacerda e fotos de Nelson Malfacini
A São Clemente levou para a avenida o enredo “Que grande destino reservaram para você!”, do carnavalesco Bruno de Oliveira, e exaltou a carreira e vida do baluarte e compositor Zé Katimba. Fantasias, leitura do enredo e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira foram os destaques. O samba não teve o rendimento esperado, além disso, houve problemas em harmonia, evolução e nas alegorias.

Comissão de frente
A comissão de frente foi comandada pela coreógrafa Bruna Lopes. Com o figurino batizado de “Cordéis, fitas e viola! Obrigado Zé Catimba!”, o quesito marcou a abertura do cortejo – feita por personagens de cordéis – para a grande festa de Guarabira, cidade natal do homenageado. A equipe foi composta por 15 componentes – oito homens e sete mulheres -, com um dos bailarinos representando o artista. A apresentação dialogou com o samba-enredo e teve uma proposta interessante e de fácil compreensão.

O ponto negativo foi o elemento cenográfico utilizado na apresentação. Em formato de caixote, ele carregava a escultura de uma viola – que era levada ao alto em parte da apresentação. No terceiro módulo de jurados, a sustentação despencou e a escultura foi danificada. Destaque para a roupa da comissão que, em um segundo momento, era invertida. As capas, juntas, formaram o nome da agremiação.
Mestre-sala e Porta-bandeira
Um dos destaques do desfile da São Clemente. A dupla formada por Alex Marcelino e Raphaela Caboclo desfilou com a fantasia “Fogos de artifício”, que representou a anunciação da chegada de Zé Katimba. A apresentação uniu o bailado clássico com passos coreografados em referência ao samba e foi marcada pela sincronia, troca de olhares e conexão do casal. Destaque para os ótimos giros da porta-bandeira e para as meia-voltas e torneados do mestre-sala. O pavilhão foi muito bem conduzido ao longo dos quatro módulos.

Enredo
A agremiação do bairro de Botafogo levou para a Sapucaí o enredo “Que grande destino reservaram pra você”, de autoria do carnavalesco Bruno de Oliveira. A obra conta a história do baluarte Zé Katimba, um dos maiores compositores de samba-enredo do carnaval carioca e um dos fundadores da Imperatriz Leopoldinense. Segundo Bruno, o enredo planejou buscar as principais vivências da trajetória de Zé Katimba, mas sem seguir uma ordem cronológica. A proposta foi bastante positiva e possibilitou uma fácil leitura para o público.

Alegorias
A São Clemente desfilou com três alegorias e um tripé, marcados pela simplicidade. O abre-alas representou Guarabira em festa e trouxe Zé Katimba como destaque. A alegoria marcava o retorno do compositor para sua cidade natal após o sucesso. Apesar de ser de fácil compreensão, o abre-alas apresentou falhas no acabamento. Outro ponto negativo foi o elemento cenográfico da comissão de frente – aquele que apresentou problemas no terceiro módulo – pareceu ser desnecessário. Destaque para a terceira alegoria, que representou a “Carroça de boi e viola de fitas”. A alegoria teve suas cores realçadas pela iluminação e estava bem acabada.

Fantasias
As fantasias foram um ponto positivo e chamaram atenção pela riqueza de detalhes. Destaque para a fantasia da ala das baianas – que representou Nossa Senhora da Luz -, além da fantasia da ala de passistas, que fez referência às canções românticas de Zé. Ao todo, as fantasias apresentaram um bom acabamento e facilitaram a compreensão do público.

Harmonia
O carro de som comandado pelos intérpretes Victor Cunha e Leandro Santos fez uma boa condução do samba-enredo. Entretanto, a obra não empolgou e a harmonia não foi positiva. Com o canto irregular, algumas alas cantaram de forma mais empolgada, enquanto outras foram mais tímidas.

Samba-enredo
A obra foi assinada por Ricardo Góes, Naldo, Serginho Gil, Fadico, Orlando Ambrosio, Matias de Oliveira e Fernando de Lima. O samba-enredo não rendeu na avenida. Apesar disso, o ápice da obra era o refrão final, “A São Clemente traz Zé Katimba”.
Evolução
Inicialmente, os componentes puderam desfilar de forma leve e solta e evoluíram bem. A última alegoria, que representou a “Carroça de boi e a viola de fitas”, apresentou problemas no meio da avenida e precisou ser empurrada. A agremiação também abriu um buraco no último módulo de julgadores. De modo geral, o quesito ficou muito abaixo do padrão da escola. O desfile foi encerrado com 54min54.

Outros destaques
Destaque para a “Fiel Bateria”, comandada pelo mestre Bruno Marfim. Apesar do samba-enredo, os ritmistas tiveram grande destaque no desfile da São Clemente.
Bangu saúda São Jorge e Ogum ao encerrar desfile na Sapucaí
A Unidos de Bangu encerrou seu desfile trazendo o carro “Jorge sincretizado! Patacori, Ogum!”, como uma grande festa saudando Ogum, o orixá guerreiro vencedor de demandas, onde não somente ele, mas diversos outros orixás também apareciam em saudação. O carro traz o sincretismo entre os santos católicos e os orixás cultuados nas religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, através de esculturas e de pessoas representando cada um destes orixás, entre eles Exú e Iemanjá, sendo a maior das esculturas a do orixá homenageado. Em tons de azul e branco, e com muitos búzios, a alegoria trouxe ainda um grande caldeirão a frente.
“A gente, homens, está de guerreiro romano, e aí esse carro vem falando do secretismo religioso entre Ogum e São Jorge”, contou Paulo Roberto de trinta e um anos, um dos componentes da alegoria, ao explicar a fantasia. Ao lado dele a húngara Yvete, de trinta e três anos, que desfilou pela primeira vez na vida, emocionada em representar Oxum, fantasia de composição do carro: “Eu venho da Hungria para fazer o Carnaval aqui, então viajei muito para estar aqui presente, e tenho essa sorte de poder apresentar aqui os orixás e a religião com a Bangu”. Paulo Roberto, em seu segundo desfile, continua ao falar da estética do carro: “Eu acho que está bem bonito, tem bastante escultura, tem uma quantidade também de componentes que eu acho que vai vir no carro bastante diversificada. A Bangu vai entrar legal, vai entrar bonito”. Yvete concordou com o colega: “Ficou muito bonito mesmo. Gostei das cores. Ficou muito colorido mesmo, muito vivo”.
Vitória Zanardo é outra componente que desfilou pela primeira vez na escola: “Eu venho representando a Oxum, que é a deusa da fertilidade, da beleza. E estou muito feliz, hoje, de estar representando essa escola tão linda, de uma comunidade tão linda e especial pra mim, e a fantasia é confortável, achei com bastante brilho, que é o mais importante, né, pra alegoria. E muito completa, com diz, com o que é proposto”. Sobre a alegoria em si, a foliã, de vinte e seis anos, gostou muito: “Eu achei bem completo, né, ele vem falando sobre os orixás, e ele está grande, com muita cor, cores bem vivas, que é o que chama a atenção no carnaval. As cores as fantasias estão com muito brilho, bem caprichadas esse ano e a gente tem tudo para brilhar hoje na avenida”.
Devotos de São Jorge desfilam na Bangu trazendo o amor pelo santo guerreiro
“Jorge da Capadócia” foi o enredo que a Unidos de Bangu trouxe à avenida para o Carnaval de 2024. Contando a história do soldado que virou santo, e séculos depois foi sincretizado com Ogum, orixá guerreiro, marca que fica salientada na religiosidade de vários brasileiros, em especial nas religiões de matriz africana. Sabendo da popular devoção de São Jorge, o CARNAVALESCO conversou com alguns devotos do santo, que vieram desfilando pela escola Vermelha e Branca, ainda na concentração, numa conversa de fé e samba.
Ana Paula Paranhos, é devota de São Jorge há anos, andando sempre com uma medalha com a imagem, e desfilou pela primeira vez na Bangu por conta da devoção, depois de saber sobre o enredo pelas redes sociais, através de uma amiga: “Nossa, São Jorge é meu santo guerreiro de todo dia. Que ele que a gente chama, a gente clama e tá sempre do meu lado. Tô aqui hoje por conta dele. Esse enredo mexeu comigo.Uma amiga minha me chamou e quando eu soube que o enredo era esse e ouvi o samba, achei perfeito”. A componente, de quarenta e quatro anos, conta que pede sempre algo para o santo, principalmente pela família, costume que herdou da mãe: “Todo ano eu tô lá na igreja agradecendo. É a saúde dos filhos, é aquele momento de mãe, né? Que a gente fica desesperado e clama pra São Jorge. Foi herança até da minha mãe. Ela fazia isso, e eu faço com meus filhos hoje”. Sobre o enredo, e a figura de São Jorge no carnaval, ela acredita que sempre terá uma forma de falar dele: “Eu acho que se todo ano tiver uma escola falando, ainda vai ser pouco”.
Carlayle Júnior, de trinta e sete anos, contou sobre sua percepção do santo guerreiro: “Eu acho que São Jorge, como todo santo popular no Brasil, diz muito sobre a nossa cultura, a formação do nosso povo, o sincretismo religioso, misturado com essa questão dos santos católicos, com os orixás, com as entidades. Eu acho que São Jorge é o que talvez represente melhor isso”. O folião conta que além de São Jorge, tem devoção por outros santos, e acredita que, de uma forma, ou outra, seus pedidos, como saúde, trabalho, e tranquilidade, são atendidos, mas sem que os santos tenham uma “dívida” com ele: “Eu tenho uma devoção para São Jorge, São Sebastião, vários santos católicos, mas confesso que eu não chego a achar que eles têm que atender todos os meus pedidos, Mas acho que de uma certa maneira talvez sim, algumas coisas que eu tenha pedido sim”. E falando de samba, ele, que desfila pela primeira vez na escola, falou sobre as vezes que São Jorge veio como enredo, ou parte de um enredo maior: “Eu acho que todo enredo, toda escola vai sempre arrumar um jeito diferente, um outro enquadramento pra contar a história de um mesmo santo, de um mesmo tema. Então acho que a Bangu já encontrou um jeito diferente de contar essa história de uma outra maneira, assim como outra escola, o Império, vai vir com os orixás, que com certeza, são sempre bem vindos e são sempre bem celebrados aqui na Sapucaí”.
Beatriz Guerra, de vinte e oito anos, contou sobre a história do santo com a sua família: “São Jorge é fé, proteção, eu venho de uma família onde mulheres fizeram acontecer, embora ele seja de uma figura masculina, mas sempre foi muito presente na minha vida. Então, é referente às cidades que a gente vive, querendo dar uma questão da criminalidade, então ele sempre vem protegendo, abrindo os caminhos, nós que vivemos na noite gostamos de samba, somos boêmios, então ele representa não só a questão da fé, como também a questão da segurança”. Ela, que vem como um dos guerreiros de Ogum, conta que o santo não deixa em nenhum momento de atendê-la: “Principalmente na questão de saúde, trabalho”. Falando de samba e fé, Beatriz explicou sua visão sobre os enredos de São Jorge, e como cada escola, carnavalesco, presidente, vai ter uma visão diferente quando quiser trazer a história do santo mais uma vez para a avenida: “A cada ano uma escola escolhe abordar de uma maneira diferente, com uma visão de ou viver em sua comunidade, porque junta a visão do carnavalesco, a visão do presidente, a visão de toda uma comunidade, então ele vem representando, mas vem de uma outra visão, acaba sendo de outro contexto e uma abordagem movida da comunidade acredita, então acho que nunca vai ser saturado, o povo sambista é movido pela fé, ele é movido pelos seus guias. Pelos seus protetores, então acho que está sendo feito na medida”.
Rudgeri Gonzaga, que desfila há quatro anos na Bangu, começou definindo São Jorge em algumas palavras ao falar do santo: “Guerreiro, luta, força, coragem. São Jorge é especial em todos os momentos. É com ele que eu me pego, sempre”. Ele continuou contando que é sustentado pelo santo, e alguns dos pedidos que faz a ele, além de citar o momento que considera mais especial nessa relação: “Muita paciência para poder enfrentar os desafios do dia. São Jorge tem me sustentado muito. Todo dia 23 de abril, quando a gente vai na igreja de Quintino, eu acho que é um momento muito especial, que marca uma emoção muito grande de São Jorge, a presença dele na vida da gente. Quando tem a processão, então, é um momento muito emocionante”. Ao falar de samba, o desfilante de trinta e três anos, que veio de São Jorge, falou que é sempre pertinente homenagear o santo da Capadócia: “A gente tem que homenagear sempre São Jorge, eu acho que a gente tem que falar muito sobre Ogum, da representação da religião de Matriz Africana, que traz com muito louvor a história do santo guerreiro, seja em qual religião ele se destaca, porque eu acho que São Jorge é a força da representação do sambista, e a gente tem que trazer sempre”.
Com show na arquibancada, comissão de frente fica em evidência no desfile dos Gaviões da Fiel
Por Gustavo Lima e fotos de Fábio Martins
Quarta agremiação a entrar na passarela, os Gaviões da Fiel levou o infinito para o Anhembi. O desfile foi marcado por uma comissão de frente criativa e um casal com bastante personalidade, visto que a porta-bandeira Carolline Barbosa assumiu o pavilhão faltando pouco tempo para o desfile oficial, perdendo boa parte do pré-carnaval. As alegorias explicaram o enredo de forma satisfatória, mas algumas partes mostraram falhas, além de a evolução ter acelerado consideravelmente no final. Do terceiro módulo para frente, os componentes tiveram que acelerar o passo para fechar o tempo em cima da hora e não estourar. Terminaram o desfile com 01h05. O enredo levado para o desfile é intitulado como “Vou te levar pro infinito”, dos carnavalescos Júlio Poloni, Rodrigo Meiners e Rhayner Pereira.

Comissão de frente
Comandada por Sérgio Cardoso, a ala desfilou com um tripé e teve como significado “Embarque infinito”. A coreografia tinha como todos os bailarinos com fantasia prateada brilhosa. Eles faziam uma dança robótica evoluindo na pista e em cima do tripé. Esse elemento alegórico era bem volumoso e era uma nave espacial no próprio espaço. Apareceu toda prateada em cima de um suporte preto e roxo.

Havia cabos onde em determinado ato da comissão de frente, os dançarinos se penduravam e davam salto para simular um breve voo. Toda essa complexidade, dá para concluir que a ala foi o destaque do desfile.
Mestre-sala e Porta-bandeira
O casal Wagner Lima e Carolline Barbosa, desfilou representando os “Gaviões nas Constelações”. A dupla mostrou sincronismo nos movimentos. A porta-bandeira não sentiu o peso de ter assumido o pavilhão da ‘Fiel Torcida’ já no decorrer do pré-carnaval e se sentiu à vontade. A jovem mostrou uma ótima personalidade. Vale destacar o Wagner, que é um mestre-sala daqueles ‘raízes’, que samba bastante nos atos.

Enredo
“Vou te levar pro infinito” é um enredo abstrato que a agremiação levou para mudar a sua estratégia de desfile e parar com enredos ‘densos’, à pedido da comunidade. Devido a isso, a frase que intitula o tema é derivada do histórico samba-enredo de 1995, que desperta ótimas memórias no componente da ‘Fiel Torcida’ até hoje.

Pelo que se viu no desfile, a agremiação quis tratar esse infinito de várias formas. No espaço sideral, em forma de crítica, na natureza, no carnaval e até na paixão pelo Corinthians. Isso tudo entendido principalmente nas alegorias.
Alegorias
O abre-alas simbolizou “A Grande Explosão e o Espaço Sideral”. Consistia uma alegoria na cor preta predominante e roxa, combinando com o elemento alegórico da comissão de frente. No carro, havia outros elementos, como figuras de planetas, só que alguns estavam mal acabados, tendo falta de pintura no isopor.
Tripés juntos foram levados. Animais como onça, arara, girafa, serpente e cavalo-marinho apareceram.

A segunda alegoria teve como título “Pro futuro renascer”. Era uma crítica, visto que tinha caveiras e pinturas de como se estivesse tudo acabado. Componentes representando ratos saíam das alegorias em alguns momentos. Talvez simbolizando sujeira ou ruínas.
O terceiro carro representou “No infinito carnaval”. Era uma alegoria toda vermelha e dourada com uma escultura de um arlequim no topo. Quis mostrar a felicidade do carnaval.

Por fim, encerrando o conjunto alegórico, o quarto carro foi intitulado “Eu Sou Fiel, Eu Sou Corinthians!” – trecho dos últimos versos do samba-enredo. Representou o amor corinthiano. Havia um gavião com movimentos no topo do carro. Vale ressaltar que a ave estava com o led defeituoso em um dos olhos. A alegoria ainda tinha esculturas pequenas prateadas de gaviões e um grande símbolo do Corinthians em forma de coração.
Juntando todas as alegorias, analisa-se que elas conseguem explicar bem o enredo. É o quesito que mais faz entende-lo. Porém houve algumas falhas de acabamento, como pinturas no abre-alas e led no olho do gavião do último carro são exemplos.
Fantasias
As fantasias da escola foram levadas para a avenida com leveza e permitiram o componente evoluir com tranquilidade. Entretanto, para o contexto do enredo, não havia tanto entendimento na maioria das vestimentas em relação ao tema.

Harmonia
O canto da escola foi linear. A comunidade entoou forte o refrão de cabeça. O “vai meu gavião” pegou bastante com os desfilantes. O defeito do canto apenas foi a primeira parte do samba. Após, ocorreu de forma fluida.

Samba-enredo
O intérprete Ernesto Teixeira conduziu perfeitamente o samba-enredo. Impressionante como o longevo cantor incorpora e vira um dos destaques em desfiles oficiais. Consegue colocar a arquibancada abaixo como ninguém. A ala musical, liderada pelo diretor Rafa do Cavaco é algo à parte. Os acordes feitos potencializaram o samba-enredo no desfile.

Evolução
Os componentes evoluíram soltos no desfile e as fileiras estavam compactas. Por estratégia da equipe de harmonia, quando a bateria estava no recuo, a escola parou por um tempo, sendo aproximadamente dois ou três minutos. Também, por algum motivo, os componentes aceleraram o passo do terceiro módulo para frente. Tal fato deve ter sido pelo tempo fechado, que foi em cima. 01h05 cravado.
Outros destaques
A bateria, regida por mestre Ciro, desfilou simbolizando os “Cientistas”. A batucada executou bossas estratégicas e optou por marcar o samba. As baianas tiveram como fantasia os “Encantos da Imensidão”.

A rainha de bateria, Sabrina Sato, como sempre arrasa multidões e leva o público à loucura por onde passa. A artista, que já está há muito tempo à frente da “Ritimão”, foi à passarela com a fantasia “Ciência do Infinito”.

