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De olho nos quesitos: julgadores de enredo questionam densidade cultural e relevância histórica das narrativas

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O quesito enredo é um dos mais complexos de se julgar em um desfile de escola de samba. De acordo com o manual do julgador da Liesa divulgado para o desfile de 2024, o enredo “é o conteúdo da narrativa construída sobre um tema, um conceito ou uma história que é apresentada de forma sequencial, por meio de representações iconográficas como elementos cenográficos (alegorias e adereços) e figurinos (fantasias)”. Para julgar é preciso considerar a concepção da temática, que é a argumentação, a clareza da apresentação e a criatividade (não o ineditismo do tema). No subquesito realização, o juri observa a leitura daquilo que foi apresentado na avenida, a sequência correta de alas e alegorias bem como a carnavalização do tema proposto.

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Foto: Divulgação/Rio Carnaval

A reportagem do CARNAVALESCO observou as notas e justificativas utilizadas por Arthur Gomes, Jhony Soares, Carolina Vieira e Marcelo Filgueira, os quatro responsáveis por julgar enredo em 2024, para traçar um perfil daquilo que eles mais costumam observar para penalizar um desfile. A base de dados estudada vem de 2018 pra cá. No período Arthur e Jhony julgaram cinco vezes, Marcelo três e Carolina entrou em 2022.

Em relação a outros quesitos, enredo é um que não costuma ‘perseguir’ as escolas que desfilam no domingo de carnaval. Das 80 notas 10 aplicadas nos últimos anos pelos jurados de 2024 a distribuição é igual entre as duas noites de Grupo Especial. Foram 40 no domingo e 40 na segunda-feira.

Nenhum jurado de enredo possui índice superior a 50% de notas 10 dadas, o que demonstra que o nível de exigência sobre o quesito é elevado. Arthur, Jhony e Marcelo possuem índices semelhantes de notas máximas, variando entre 42 e 45%. Quem destoa da turma é a novata Carolina Vieira. A julgadora só deu sete notas 10 em 24 possíveis nos dois anos que julgou, índice inferior a 30%. Dessas notas máximas, 72% delas aconteceram na segunda noite. Foram apenas duas notas máximas no domingo de carnaval.

Viradouro com o melhor desempenho, Tuiuti o pior

Se considerarmos apenas as notas aplicadas nos últimos cinco anos pelos jurados de 2024, a Viradouro não perdeu um décimo no quesito na apuração desde que voltou ao Especial em 2019. Ela foi penalizada uma única vez com um 9,9 mas como a nota é descartada, não houve prejuízo. O desempenho é destacadamente o melhor entre as escolas. Imperatriz e Portela são quem mais se aproximam da vermelha e branca. A atual campeã perdeu oito décimos e a Majestade do Samba, cinco.

Por outro lado, o Salgueiro tem sofrido neste quesito. Até os próprios salgueirenses vem admitindo que os enredos apresentados pela escola vem afastando a vermelha e branca das primeiras colocações. Com os jurados de 2024 a Academia perdeu impressionantes 2,1 pontos desde 2018, desconsiderando eventuais descartes de notas. Mas o desempenho mais frágil foi do Tuiuti, que foi penalizado com a perda de 2,5 pontos. Unidos da Tijuca e Mocidade (1,5) além da Beija-Flor (1,2) também precisam melhorar em enredo.

Dificuldades de leitura e erros de conceito dominam justificativas

Entre as justificativas mais apontadas pelos jurados de enredo, a reportagem do CARNAVALESCO encontrou a maioria no subquesito da realização. Uma das mais usadas é sobre a leitura do enredo. A facilidade de compreensão da temática é um fator fundamental para que uma escola de samba alcance a nota máxima neste quesito. Enredos excessivamente complexos que causem dificuldades de entendimento vem sendo penalizados.

Embora não conste do manual do julgador, algumas conceituações presentes nos enredos são alvo de penalizações. Em 2018, por exemplo, o Salgueiro apresentou o enredo ‘Senhoras do Ventre do Mundo’. A narrativa apresentou a força da negritude feminina em setores da sociedade. Um dos jurados do quesito puniu a escola por considerar que havia muitas figuras masculinas em um enredo feminino. Erros históricos também costumam causar perda de décimos.

Outros aspectos abordados pelos julgadores de enredo: realização diferente daquilo que consta no livro abre-alas; conjunto estético irregular causando dificuldades de clareza na apresentação; erros de roteirização e ausência de alas e alegorias no desfile que comprometem a apresentação do enredo.

Império de Casa Verde homenageia Fafá de Belém em desfile tecnicamente impecável

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Por Lucas Sampaio e fotos de Fábio Martins

O Império de Casa Verde realizou na noite de sábado seu desfile no Sambódromo do Anhembi no carnaval de 2024. Tecnicamente impecável, a escola teve grande desempenho da harmonia e da sua ala musical, além de apresentar um belo conjunto de alegorias e fantasias. O Tigre Guerreiro foi a sexta escola a se apresentar pelo Grupo Especial, fechando os portões após exatamente uma hora.

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Comissão de Frente

A comissão de frente intitulada “Ritual Kanapí: as Caboclas na defesa da mata”, se apresentou em dois atos marcados por passagens do samba e teve a presença de um elemento alegórico representando um igarapé, planta aquática típica da região amazônica. O grupo cênico contou com a atuação de uma protagonista que representou Fafá de Belém como “A cabocla escolhida”, em meio ao conflito entre as Caboclas Jurunas e os Seres da Ambição.

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No primeiro ato ocorre a encenação desse duelo entre os dois agrupamentos, enquanto no segundo Fafá, que é coberta por um manto representando a bandeira do estado do Pará, é erguida pela grande flor do igarapé, girada por parte dos demais atores. O grupo cênico conseguiu representar bem a proposta do enredo de relacionar Fafá de Belém a rituais, e nos momentos em que a alegoria foi utilizada chamou a atenção do público. O único apontamento possível é para os efeitos especiais de faíscas e fumaça que o tripé soltava, que não ocorriam em um momento específico da coreografia e não foram acionados em todas as apresentações da comissão de frente, mas que não devem ser considerados pelos jurados.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal do Império, formado por Rodrigo Antônio e Jéssica Gioz, desfilou com fantasias nomeadas de “O Indígena Juruna e Nossa Senhora de Fátima”. A dupla esteve em grande noite não apenas pela sincronia de movimentos apresentados ao cumprir com todas as obrigatoriedades do quesito nos quatro módulos em que foram observados, mas também pela criatividade da coreografia aplicada à dança tradicional em determinados momentos do samba e a incrível agilidade com a qual a dança ocorria. A alegria era evidente no rosto de ambos, que combinava muito bem com suas belas fantasias, credenciando Rodrigo e Jéssica a serem considerados um dos melhores casais do carnaval de 2024.

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Enredo

O enredo do Império de Casa Verde em 2024 foi “Fafá, a cabocla mística em rituais da floresta”, assinado pelo carnavalesco Leandro Barboza. A ideia do Tigre foi homenagear a cantora Fafá de Belém em uma proposta diferente em relação ao que os desfiles do gênero costumam fazer. A religiosidade da artista, que tem a mente aberta para agregar a positividade de diferentes crenças, teve papel fundamental no desenvolvimento dos rituais apresentados ao longo do desfile. Festas tradicionais da região Norte do Brasil como o Círio de Nazaré, a Pajelança e o famoso Festival Folclórico de Parintins estiveram presentes ao longo de toda a narrativa.

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O conceito dos rituais que cada setor propôs acabaram tendo uma aplicação mais conceitual. Na prática, a história de Fafá de Belém foi retratada na forma de momentos que representam as fases da vida da artista não apenas na carreira musical solo como também na presença nas festividades nortistas e na sua religiosidade. Para o público, o que se viu foi a caracterização de Fafá como uma pessoa do povo, que vivencia e aprecia a cultura de sua terra natal tal qual tantas outras caboclas. Era um pedido da cantora que as mulheres da região fossem exaltadas no desfile, e esse objetivo o Império cumpriu com honras.

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Alegorias

O Tigre Guerreiro se apresentou com quatro carros alegóricos. O Abre-alas foi intitulado “Círio de Nazaré indígena: Fafá, a Maria dos Jurunas”, enquanto a segunda alegoria recebeu o nome de “Fafá na encantaria da floresta avermelhada”, a terceira se chamou “Festejos de Fafá – O Pará da Pavulagem” e a última foi batizada de “Fafá, a estrela em cena no teatro da mata”. A proposta das alegorias foi apresentar Fafá de Belém em diferentes rituais representados em cada carro, misturando a religiosidade com a carreira da artista.

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As alegorias foram capazes de representar o grande destaque de cada setor proposto pelo desfile imperiano, e chamaram atenção principalmente pela boa volumetria e a presença de muitos elementos visuais diferenciados, como articulações criativas e telões no caso do último carro, onde inclusive a homenageada desfilou sobre uma estrela segurada pela escultura de uma pessoa indígena. Foi observado, porém, que boa parte da iluminação do lado direito do segundo carro passou apagada pela Avenida, cabendo aos jurados avaliarem o impacto dessas luzes no conjunto visual da alegoria.

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Fantasias

As fantasias das alas do Império representaram as diferentes propostas de rituais contidos em cada setor do desfile. O primeiro setor teve nas roupas uma associação da figura de Fafá de Belém com sua religiosidade. Os setores dois e três apresentaram elementos da cultura nortista para narrar os rituais associados aos festejos da região. O último setor contou com a celebração da carreira de Fafá após ganhar fama internacional.

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O conjunto de fantasias das alas cumpriu bem a função de retratar a proposta de cada setor, e as roupas no geral não atrapalharam os componentes a brincarem o carnaval. O único apontamento fica para a ala “Enamorou Portugal”, cujo costeiro contava com algumas bandeiras que enroscaram entre si nas fantasias de alguns desfilantes.

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Harmonia

O “Eeeeemoriô” deu o tom da harmonia imperiana ao longo de todo o desfile. O bom samba da escola foi clamado pelos componentes com clareza e vigor, elevando o nível durante as bossas e apagões aplicados pela bateria “Barcelona do Samba”. O destaque especial vai curiosamente para a ala chamada “Emoriô”, cujos desfilantes estavam especialmente animados.

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Samba-Enredo

O samba do Império de Casa Verde foi composto por André Diniz, Samir Trindade, Gustavo Clarão, Fabiano Sorriso, Darlan Alves, Evandro Bocão, Marcelo Casa Nossa e Tinga, e foi defendido na Avenida pela ala musical liderada pelo intérprete Tinga, que também assina a obra. A obra explora o conceito de rituais proposto pelo enredo para exaltar Fafá de Belém em diferentes momentos de sua vida. O grande destaque da rica obra imperiana, curiosamente, está no simples “bis” composto pela palavra “Emoriô”, que dá nome e marca versos de um clássico da cantora. O samba teve bom desempenho ao longo de todo desfile na voz do intérprete Tinga e contribuiu positivamente para o conjunto imperiano.

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Evolução

A evolução imperiana ocorreu com muita tranquilidade ao longo do desfile. A arrancada da ala musical começou no exato momento em que os portões se abriram, e a escola no geral aproveitou bem o tempo na Avenida, fechando os portões com exatamente uma hora de apresentação. Uma única parada na evolução foi percebida por certo momento além da habitual entrada no recuo, mas nada que comprometa o desempenho do Tigre no quesito.

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Outros Destaques

O grande destaque do desfile inevitavelmente vai para a presença da homenageada, a cantora Fafá de Belém. Não só marcou presença ao longo de todo o processo de construção do desfile como se tornou mais uma imperiana. Junto da ala musical, a artista cantou o samba-exaltação do Tigre, fez discurso motivador antes da arrancada da apresentação e foi destaque principal da última alegoria da escola com roupas que muito lembraram a própria arte oficial do enredo. A ala das baianas se apresentou com uma bela fantasia simbolizando as “Senhoras Jurunas sob o manto de Nazaré”, que misturou elementos católicos e indígenas.

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Freddy Ferreira analisa a bateria do Império Serrano no desfile

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Um desfile excelente da bateria “Sinfônica do Samba” do Império Serrano, comandada por mestre Vitinho. Um ritmo imperiano com muito fundamento ancestral. Toda a concepção criativa se pautou pela hereditariedade africana do enredo do Reizinho de Madureira. Isso ocasionou em um desfile potente e triunfal da bateria do Império.

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Uma bateria imperiana com excelente afinação de surdos foi notada. Com seu peso característico, os surdos de primeira e segunda foram precisos, além de firmes durante todo o cortejo. Surdos de terceira irrepreensíveis foram responsáveis pelo balanço eficiente dos graves. Repiques coesos tocaram interligados a um sólido naipe de caixas, com sua peculiar batida rufada reinando.

Na cabeça da bateria do Império Serrano, um naipe de agogôs historicamente privilegiado mostrou sua técnica diferenciada. Uma ala de tamborins que se exibiu de modo uníssono tocou entrelaçada com um naipe de chocalhos de imensa virtude musical. Atabaques primorosos também vieram na parte da frente do ritmo, sendo importantes inclusive em bossas.

Bossas profundamente atreladas ao enredo de matriz africana da escola da Serrinha brilharam. Aproveitando o enredo sobre o Candomblé, inúmeros toques afros marcaram o grande Xirê realizado pela “Sinfônica”. Destaque para a participação simplesmente luxuosa dos atabaques, que inclusive chegaram a tocar com baquetas, em alusão ao Aguidavi, que possui aspecto sagrado.

A apresentação na primeira cabine (módulo duplo) foi exemplar, com todos os arranjos bem encaixados e uma fluência incontestável entre os mais diversos naipes, graças a boa equalização da bateria do Império. Na exibição da segunda cabine, outra explosão sonora que recebeu forte ovação popular. No último módulo de apresentação, mais uma exibição consistente arrancou aplausos de julgadores, evidenciando o excelente desfile feito pela bateria “Sinfônica do Samba” do Império Serrano, sob a regência de mestre Vitinho.

Império Serrano promove xirê na Sapucaí e encerra Série Ouro nos braços do povo

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Por Luan Costa e fotos de Nelson Malfacini

Coube ao Império Serrano a missão de encerrar os desfiles no segundo dia da Série Ouro. Após o rebaixamento considerado injusto por muitos no ano passado, o Reizinho de Madureira entrou na avenida disposto a mostrar que de fato é uma escola de Grupo Especial. A ancestralidade trazida no enredo contagiou o imperiano, que pisou no Sambódromo emocionado, aguerrido e com muito gás. Impulsionado pela “Sinfônica do Samba”, comandada por mestre Vitinho, o samba-enredo foi um dos protagonistas do desfile. Porém, apesar de realizar uma boa apresentação, o Império cometeu algumas falhas de acabamento em suas alegorias que pode comprometer a briga pelo título, mesmo assim, o público gritou ‘é campeão’ ao final do desfile.

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Apresentando o enredo “Ilú-oba Òyó: a gira dos ancestrais”, desenvolvido pelo carnavalesco Alex de Souza, a escola da Serrinha mostrou a importância dos orixás e contou a história dos deles não apenas como divindades, mas como fundadores e reis de várias cidades e reinos africanos que compunham um império de Oyó, da cultura yorubá, do povo nagô. A agremiação terminou sua apresentação com 53 minutos.

Comissão de Frente

A comissão de frente coreografada por Marlon Cruz foi intitulada “As Mães do Candomblé”, ela representou três princesas da corte do Alafin de Oyó: Iyá Akalá e Iyá Adetá e Iya Nassô, que fundaram o primeiro terreiro do candomblé na Bahia, o Ilê Axé Airá Intilê. Composta somente por mulheres, todas elas com os pés em contato direto com chão, a comissão entregou um belíssimo trabalho, aliando a modernidade da luz cênica, com a dança tradicional. O sincronismo foi impressionante, os movimentos eram rápidos e intensos, mesmo assim todas se entregaram de forma emocionante. O tripé utilizado como apoio serviu para revelar uma das princesas.

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Mestre-sala e Porta-bandeira

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira Anderson Abreu e Eliza Xavier fez sua estreia pelo reizinho de Madureira no desfile deste sábado. Ele representou o Orixá Exú, predominantemente em preto com arte plumária em tons de fogo, representando o itan, que conta a façanha que o fez Rei. Já a indumentária dela segue o mesmo desenho e cores do seu par, com uma predominância maior da representação do fogaréu em sua saia. A dança da dupla foi intensa e extremamente forte, Eliza demonstrou muita personalidade, e mesmo realizando sua estreia, não economizou nos movimentos arriscados, todos eles realizados com muita precisão, o que chamou mais atenção foi a bandeirada.

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Enredo

O experiente carnavalesco Alex de Souza foi o responsável por desenvolver o enredo “Ilú-oba Òyó: a gira dos ancestrais”, a escola da Serrinha se lançou sobre os mistérios de Ilú-Oba Òyó, antigo império que ocupava os locais que hoje estão situados Nigéria, Togo e Benin, na África Ocidental, e promoveu um xirê em homenagem aos Orixás na Sapucaí.

* LEIA AQUI: Terceiro carro do Império Serrano consagra Oxalá

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Alex optou por contar a história em quatro setores, a abertura foi intitulada “Origens, fundamentos e a iniciação do ritual com os Orixás senhores dos caminhos”, representou o xirê, onde os orixás foram apresentados e a história de cada um como fundador e como rei pertencente de alguma cidade, algum reino que compunha esse grande império yorubá, que é o Ilu-Obá Oyó. O segundo setor trouxe uma sequência de orixás e foi denominado “Dos Nagô /Yorubá aos Jeje de Daomé”. O terceiro, “Oyó, seu poderoso Rei e as poderosas Yabás”, para finalizar, “O encerramento da gira no Grande Ilê Imperial”, em que a espiritualidade da do Império ganhou destaque.

* LEIA AQUI: Integrantes do Império Serrano elogiam conjunto alegórico da escola

Alegorias e Adereços

O Império Serrano levou três alegorias, um tripé, além de um elemento cenográfico para sua comissão de frente. Durante o desfile foram observados algumas falhas aparentes de acabamento nas alegorias.

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A primeira alegoria, denominada “Reino de Ketu, Ifé e Iré”, representou a história dos irmãos Ogum e Oxóssi, além de trazer seus reinos no Império Yorubá, as esculturas chamaram atenção pela dramaticidade. O segundo carro, “Dan, o reino de Daomé”, trouxe toda a riqueza e colorido de Oxumaré, porém, algumas serpentes que permeavam a alegoria estavam com ferro aparente. Outro problema observado foi no tripé “O alafin de Oyó”, a grande escultura de Xangô passou pela avenida com uma falha no acabamento do pescoço. O Império finalizou seu desfile com o carro “Ilé-Ifé, Igbó e Ifón. O Império de Oxalá”, predominante branco, a alegoria trouxe a grande coroa símbolo da escola.

Fantasias

O Império demonstrou muito cuidado com o seu seu conjunto de fantasias, o uso de materiais e cores contribuiu para que o nível se mantivesse alto em todas as alegorias, mesmo naquelas que se utilizou de materiais menos comuns. Característica do carnavalesco Alex de Souza, a grandiosidade das fantasias foi notada por quase todo o desfile, no geral, não foi um problema para os componentes, porém, na ala 14, “Nàná. De Daomé, ela é o começo, o meio e o fim”, alguns desfilantes passaram segurando o adereço de cabeça. Como destaque, é possível citar a ala de abertura, “Èsù guardião e mensageiro divino. Rei de kétu, èsù alákétu”. Como ponto negativo, ficou o fato de que a ala cinco, Obalúaiyé. Quando o senhor da cura está em terra. Rei dos tapas, rei de nupê”, passou pela avenida com alguns adereços se desfazendo.

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Harmonia

O intérprete Tem Tem Jr fez sua estreia no comando do carro de som da verde e branco de Madureira, o entrosamento dele com a bateria comandada por mestre Vitinho foi notada desde o primeiro minuto, ambos contribuíram para que o padrão do conjunto harmônico da escola fosse altíssimo. O componente imperiano entrou na avenida de forma explosiva e se manteve assim até o final, eles estavam soltos e cantando de forma espontânea.As alas mais próximas a bateria, como a de passistas, e a oito, “Òsùmàré “salve o senhor dos ciclos”. Dan de Daomé”, esbanjaram samba no pé e canto na ponta da língua.

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Samba-Enredo

A obra de Aluísio Machado, Carlos Senna, Rafael Gigante, Lequinho, Andinho Samara, Ronaldo Nunes, Jefferson Oliveira, Orlando Ambrósio, Carlitos Santos e Richard Valença foi responsável por conduzir o belíssimo desfile do Império.

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Apesar de algumas palavras com dialeto africano, como no verso “Awá o soro Ilê, Awá o soro Ilê”, o samba se mostrou um grande acerto, por ser a última a desfilar, era necessário um samba que fosse capaz de levantar os componentes e o público, foi exatamente isso que aconteceu, o canto da comunidade foi explosivo e a comunicação com a arquibancada excelente.

Evolução

O componente do Império Serrano passou pela avenida de forma explosiva, no geral, a evolução fluida e organizada, vale destacar que as alas eram numerosas e mesmo assim se mantiveram compactas e alinhadas, porém, os desfilantes estavam soltos, se divertindo e aproveitando cada minuto do desfile. Porém, a sensação foi de que o desfile passou pela avenida rapidamente, aparentemente sem necessidade as últimas alas aceleram o passo, nada que tenha comprometido o conjunto, já que a apresentação da bateria se estendeu no final.

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Outros Destaques

A presença de seu Aloísio Machado, um dos autores do samba, em cima do carro de som foi uma das imagens emocionantes que o desfile do Império proporcionou, foi possível observar inúmeros componentes emocionados com a passagem do reizinho pela Sapucaí. A bateria Sinfônica do Samba presenteou o público com uma apresentação de tirar o folêgo, um grupo performático encenou um xirê dos orixás, eles interagiram com a bateria e com a rainha Darlin Ferrattry.

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Tucuruvi: fotos do desfile no Carnaval 2024

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Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos de Bangu no desfile

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A bateria “Caldeirão da Zona Oeste” (CZO) da Unidos de Bangu se apresentou bem, comandada por mestre Laion. Um leque de bossas culturalmente inserido no enredo da escola e bem musical foi exibido.

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Uma bateria CZO com boa afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e segunda foram precisos, além de seguros. Surdos de terceira com balanço envolvente ajudou no swing da bateria da Bangu. Repiques coesos e técnicos se exibiram junto de caixas de guerra sólidas e com boa ressonância.

Na cabeça da bateria da Bangu, uma ala de tamborins de alto nível técnico tocou de modo entrelaçado com um naipe de chocalhos extremamente acima da média. Uma ala de agogôs correta auxiliou no preenchimento sonoro das peças leves, bem como cuícas seguras também mostraram seu valor. Dois ritmistas com pratos também desfilaram na parte da frente do ritmo, contribuindo de forma luxuosa com a bossa com musicalidade mais atraente, a da marcha para Jorge, conectando à musicalidade do ritmo ao enredo da vermelha e branca da zona Oeste. Instrumentos de pagode também vieram na primeira fila da bateria e auxiliaram na paradinha do trecho “Tem pagode e feijoada nos terreiros do Brasil”.

Um leque de bossas com certo refino foi apresentado. Todas ligadas à melodia do samba da agremiação e se aproveitando do impacto sonoro dos surdos, além da consistência das caixas. Destaque musical positivo para o belo arranjo musical da marcha para Jorge, exibida com segurança.

A apresentação na primeira cabine (módulo duplo) deixou um pouco a desejar. Já que na segunda cabine um ritmo bem mais fluído e encaixado foi exibido. Sem dúvida, a melhor apresentação para jurado foi no último módulo, no bom desfile da bateria da Unidos de Bangu, dirigida por mestre Laion.

Terceiro carro do Império Serrano consagra Oxalá

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imperio serrano desfile24 40Para fechar o desfile das escolas da Série Ouro do Carnaval carioca neste sábado (10), o Império Serrano desfilou com 5 alegorias. Entre elas, o último carro da agremiação, “Ilé-Ifé, Igbó E Ifón. O Imperador De Oxalá”, apresentou o grande Orixá: Oxalá, o “pai” de todos.

A alegoria gigante é branca com detalhes prateados. Na frente, dois caracóis em marrom e ao centro a figura de Oxalá. Na alegoria desfilou tanto componentes mais jovens como a velha guarda da escola.

André de Souza, de 42 anos, é fiscal da receita e viajou de Brasília até o Rio para desfilar pela primeira vez no Império Serrano. Apaixonado pelo Carnaval, e realizando um sonho, ele falou sobre a importância de estar na alegoria: “Este carro representa a liberdade, representa como é que você é e como você pode ser por completo”, disse emocionado.

imperio serrano desfile24 41Com o enredo intitulado “Ilú-ọba Ọ̀yọ́: a gira dos ancestrais”. A obra, desenvolvida pelo carnavalesco Alex de Souza, pretende levar o título da Série Ouro com uma celebração aos orixás.

Alan Paiva, de 33 anos, é figurinista e o destaque da alegoria. Vestindo a fantasia de Orixá Funfun, ele falou sobre o sentimento de estar numa posição importante na alegoria. “Eu tenho uma casa de Umbanda, então eu me sinto muito emocionado por estar aqui vestindo essa fantasia no carro. É reconhecimento e ancestralidade”, disse Alan emocionado. Ele é pai de todos nós”, completou.

imperio serrano desfile24 39“Ilu-ọba Ọ̀yọ́” se refere ao nome de um antigo império que se estendia pelas regiões que hoje são conhecidas como Nigéria, Togo e Benin, na África Ocidental. Com a diáspora africana, os povos originários dessas terras trouxeram para o Brasil seus rituais sagrados, fundando e recriando suas tradições ancestrais na forma do candomblé, com forte presença na Bahia. Essa religião se expandiu, evoluindo para um rito que unifica diversas divindades em um culto coletivo conhecido como xirê, o qual é descrito no enredo como a “gira dos ancestrais”.

Ivo Mendes, de 73 anos, é o vice-presidente do Jongo da Serrinha e filho de Maria de Lourdes Mendes, uma das fundadoras da escola de samba. Desfilando na alegoria, ele defende o enredo e como ele se encontra com a “ancestralidade”: “Estar aqui é estar representando também os meus antepassados, os orixás”, disse alegre e com brilho nos olhos por defender a sua escola por mais um ano. “É uma homenagem que eu estou fazendo aqui a eles, e para mim é representar o meu povo”, completou.

Bangu faz desfile de harmonia irregular e falhas de acabamento nas alegorias; comissão de frente foi destaque

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Por Rafael Soares e fotos de Nelson Malfacini

A Unidos de Bangu foi a sétima a se apresentar na Marquês de Sapucaí neste sábado de carnaval da Série Ouro. A vermelho e branco levou o enredo “Jorge da Capadócia” para a avenida. O desfile da agremiação se mostrou bem problemático. As alegorias eram simples e tinham graves defeitos de acabamento, com esculturas quebradas e panos rasgados. As fantasias tiveram bom uso de cores, mas irregularidade no acabamento. O enredo não mostrou nenhuma novidade em relação aos vários que já passaram na avenida sobre o mesmo tema, o que resultou em uma leitura facilitada. Outro quesito comprometido foi a harmonia, que se exibiu com baixo nível de canto na maior parte do cortejo, apesar do bom trabalho do time de carro de som. A evolução foi correta em seu ritmo, mas fria na animação dos componentes. O casal de mestre-sala e porta-bandeira mostrou um número apenas correto. O grande destaque foi a apresentação da comissão de frente, bem expressiva e sincronizada.

Comissão de Frente

Com o nome de “Guerreiros da Capadócia”, a comissão de frente assinada pelo coreógrafo Fábio Costa trouxe um grupo de 15 componentes homens. Usando uma bela fantasia de guerreiros, o grupo mostrou uma dança bastante expressiva, e muito bem sincronizada em seus movimentos. Os integrantes gritavam ao guerrear, passando bastante realismo no ato. Alguns eram jogados contra o tripé, chegando a cair no chão e aparentarem sentir dor. Na reta final do número, dois guerreiros subiam no alto tripé, e pouco depois, no seu topo, surgia um integrante representando São Jorge, montado em um cavalo articulado. O quesito foi o maior destaque do desfile.

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Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Jorge Vinícius e Verônica Lima, veio com uma fantasia de nome “Vestidos com as Armas de Jorge”, representando os elementos usados pelos soldados em combate. A dança exibida pelos dois foi apenas correta e leve, chegando a ser lenta, sem tanta expressividade ou movimentos mais ousados. Eles bailaram de forma bem tradicional, com alguns momentos coreografados de acordo com a letra do samba.

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Samba-Enredo

O samba da Unidos de Bangu tem uma letra forte que descreve bem o enredo, retratando a história guerreira de Jorge, além do sincretismo no Brasil através da figura de Ogum. A melodia é pesada e valante, com boas variações para impulsionar o canto. Composto por Tem-Tem Jr, Dudu Senna, Marcelinho Santos, Jefferson Oliveira, Rafael Ribeiro, Ronie Oliveira, Cândido Bigarin, Binho Percussão VR, Jorginho Via 13, Juca, Renan Diniz e Denis Morais, a obra musical teve um rendimento que deixou a desejar na avenida. Os intérpretes Igor Viana e Pipa Brasey mostraram um bom desempenho ao cantar o samba, embalado pela bateria de mestre Laion, mas isso não foi o suficiente para impulsionar a obra, que pouco foi entoada pela comunidade. Isso ficou ainda mais notório nos ‘apagões’ dos ritmistas, quando não se ouvia a escola cantar.

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Harmonia

A comunidade da Unidos de Bangu teve um canto irregular em seu desfile, com muito mais pontos baixos do que altos. O principal trecho entoado pelos componentes foi o falso refrão, mas também sem tanto volume. Muitas alas passaram com componentes calados ou entoando mínimas partes da obra musical. Algumas alas na segunda parte do cortejo mostraram um canto mais satisfatório, mas isso não se manteve no restante da agremiação. Se destacaram as alas “O Martírio do Jovem Guerreiro”, “O Bem Venceu o Mal” e “Patrono da Inglaterra”.

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Evolução

A evolução da agremiação foi correta no ritmo adotado durante a passagem pela Sapucaí. Não se viu correria ou lentidão no cortejo, nem qualquer tipo de espaçamento inadequado. A escola encerrou o desfile em 53 minutos. Entretanto, os componentes se exibiram com certa frieza, pouca animação ou espontaneidade.

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Enredo

A Unidos de Bangu apresentou o enredo “Jorge da Capadócia”, uma das figuras mais populares da fé no Brasil. Venerado como mártir da fé em Jesus Cristo no catolicismo, é sincretizado com Ogum no candomblé e na umbanda, e de forma especial com Oxóssi no candomblé baiano. As fantasias e alegorias foram de óbvia leitura, até por conta do enredo já ter passado inúmeras vezes pelo carnaval carioca, e ter muitos símbolos e elementos de fácil identificação. O acabamento precário das alegorias e algumas fantasias não prejudicou o quesito.

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Fantasias

O conjunto de fantasias da Unidos de Bangu se mostrou com soluções e materiais mais simples, facilitando a leitura. Mas no aspecto estético deixou a desejar em vários momentos, com acabamentos razoáveis. De forma geral, o uso de cores foi interessante. No último carro alegórico, alguns componentes estavam com fantasias incompletas. Algumas poucas se destacaram na beleza, como as baianas “Escudo de Jorge”, a ala “Ogum do Ferro e da Estrada” e “Ogum Vence Demanda”, com belas combinações de cores.

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Alegorias

O conjunto alegórico da escola foi marcado pelos problemas de acabamento bem visíveis. O carro abre-alas, intitulado “Capadócia Entre Lutas e Combates”, apresentava os tradicionais cavalos, usados em tantas batalhas, soldados guerreiros e o bravo Jorge, liderando seu exército. O elemento cênico remeteu aos tempos medievais, com escudos, gárgulas e lanças. A grande escultura principal passou com o braço quebrado. Outra escultura tinha uma lança mal executada, fora de proporção. A saia também era bem simplória. Além disso, a iluminação foi bem tímida.

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Na sequência do desfile, a segunda alegoria de Bangu, de nome “Alvorada de São Jorge: Ritos de Fé”, simbolizava uma grande homenagem às alvoradas ao Santo Guerreiro ocorridas em todo 23 de abril. Apresentava a figura de São Jorge montado sobre seu cavalo, velas, escudos e os dragões que são enfrentados e vencidos pelo seu povo. Os dragões eram grandes e tinham efeito de fumaça, mas um dos homens que fazia os movimentos estava visível no carro. Outra escultura de São Jorge estava sem sua lança. Um queijo foi coberto com material precário. O acabamento geral era bem básico.

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Por fim, o terceiro e último carro da agremiação, intitulado “Jorge Sincretizado! Patacori, Ogum!”, apresentava uma grande festa em louvor a Ogum, o orixá guerreiro. Irmão de Exu e Oxóssi, filho de Iemanjá, amante de Oyá, parceiro de Oxaguiã em suas lutas e batalhas. As cores dessa alegoria eram interessantes, gerando uma combinação diferente. Porém, o acabamento geral também foi muito simplório, marca do conjunto da Unidos de Bangu.

Outros destaques

A bateria da Bangu, comandada pelo mestre Laion, mostrou um ritmo bem adequado para a execução do samba-enredo. As bossas tinham ótima qualidade musical, tentando impulsionar o canto e animação dos componentes.

Integrantes do Império Serrano elogiam conjunto alegórico da escola

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Imperio Esp02 015A última agremiação a desfilr na Série Ouro neste sábado (10), o Império Serrano, caprichou nas alegorias que apresentou no desfile. Com 5, sendo 2 tripés e 3 carros, a verde e branco de Madureira, tem como objetivo conquistar o campeonato da Série Ouro com uma homenagem aos orixás.

A escola abriu o desfile com o tripé “Exu”, representando a comunicação de Exu, o senhor do movimento e da transformação torna-se rei: Ésú Alákètú. A alegoria com figuras de exu, é vermelha com detalhes pretos e prateados.

“Eu estou muito contente porque agora nos próximos seis meses são os meses de Exu”, lembrou Cristiane Hikiji, médica e destaque do tripé. Ela é moradora de Ribeirão Preto, em São Paulo, e vem ao Rio para desfilar na escola nos últimos 10 anos. “Ele abre os caminhos, ele é como eu, é da alegria, da prosperidade. É uma alegoria muito importante e nós vamos abrir a escola, dando passagem para todos os orixás”.

Imperio Esp02 010O abre-alas da escola, chamado de “Reino de Ketu, Ifé e Iré”, apresentou a história dos irmãos Ogum e Oxóssi e de seus reinos, no Império Yorubá. Para representar, a alegoria, os personagens aparecem lutando em uma alegoria azul com detalhes verdes.

Angélica Vilasboas, de 49 anos, é militar e desfila “há décadas” no Império Serrano. Ela falou sobre a importância de desfilar no abre-alas da escola, que é o carro que “abre o enredo” para o público na avenida. “O Abre Alas é o termômetro quando você entra no setor 1, não tem sensação melhor na vida que ser componente do abre-alas”, relatou animada.

O enredo, denominado “Ilú-ọba Ọ̀yọ́: a gira dos ancestrais”, foi criado pelo carnavalesco Alex de Souza. “Ilu-ọba Ọ̀yọ́” era a denominação de um vasto império localizado nas áreas que atualmente correspondem à Nigéria, Togo e Benin, no oeste africano.

Imperio Esp02 012“Este reino dos orixás está bem representado nesse Abre Alas, fala da nossa ancestralidade, e o império está trazendo xirê pra avenida. É um passeio sobre a lenda dos orixás”, explicou Angélica.

No seu segundo carro, chamado de “Dan do Reino de Daomé”, a verde e branco contou a riqueza de Oxumaré, o Rei do povo Jeje, do reino de Daomé como representação do símbolo da continuidade e permanência. Para representar o reino, a agremiação usou cobras, em uma alegoria bem colorida.

“Eu venho como a serpente sagrada, que vem em homenagem a todo o povo de Oxumaré”, disse Leila Matias, de 52 anos, destaque do segundo carro. Ela desfila na escola desde os 19 anos e destaca o significado que o desfile tem para a agremiação: “Esse ano é muito importante porque a gente está lutando para voltar para o grupo especial. Esse enredo também significa prosperidade, ou seja, tem um significado especial”, completou.

O segundo tripé, com o nome de “O Alafin de Oyó”, mostrou a grandeza do reino de Oyó, na figura de Xangô, à justiça do povo de Yorubá. Retratando o Reino de Oyyó, Xangô é exibido em uma alegoria laranja.

Imperio Esp02 007Durante o período da diáspora africana, os descendentes dessa região levaram seus rituais religiosos para o Brasil, onde estabeleceram e adaptaram suas práticas tradicionais, criando a religião conhecida como candomblé, especialmente na Bahia. Esta religião se difundiu e adquiriu uma nova dimensão ritualística com a integração de várias divindades em um único culto chamado xirê, referido no enredo como “gira dos ancestrais”.

O terceiro e último carro da agremiação, “Ilé-Ifé, Igbó e Ifón. O Imperador de Oxalá”, apresenta o grande Orixá: Oxalá, o “pai” de todos. O carro é branco e prateado, com detalhes em marrom, com dois caracóis na frente. A figura de Oxalá aparece no centro da alegoria.

A mãe Marcia Marçal de 63 anos, é neta do Mano Elói – um dos fundadores do Império Serrano – e desfila “desde criança” na agremiação. Componente do terceiro carro da escola, ela fala sobre a importância do enredo e da alegoria: “O tema é lindo, nesse carnaval lindo que o Império está botando na avenida falando sobre Orixá. É a minha bandeira, e a gente sabe, é o pai maior, é o pai de todos, é o senhor do branco, é o senhor da paz, é o senhor da cura. Estar no carro representando Oxalá pra mim é uma honra.

Freddy Ferreira analisa a bateria da São Clemente no desfile

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Uma estreia muito boa de mestre Marfim, comandando a “Fiel Bateria” da São Clemente. Um ritmo com bom equilíbrio foi exibido, que ainda contou com apresentações seguras nos julgadores, principalmente na última cabine, onde houve inclusive certa interação popular.

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Uma bateria clementiana com boa afinação de surdos foi percebida. Surdos de primeira e segunda mostraram precisão e firmeza. Já os surdos de terceira foram responsáveis pelo balanço eficiente. Repiques coesos e caixas de guerra consistentes auxiliaram no preenchimento da sonoridade dos médios.

A cabeça da “Fiel Bateria” contou com um bom trabalho envolvendo as peças leves. Cuícas ressonantes mostraram solidez. Enquanto um naipe de tamborins com bom volume tocou de modo integrado a uma ala de chocalhos de nítida técnica musical. O desenho rítmico dos tamborins era simples, mas foi executado com bastante precisão.

Bossas com boa integração musical com o samba da escola preta e amarela do bairro de Botafogo foram notadas. O ponto alto dos arranjos, além da simplicidade e praticidade, reside na funcionalidade proporcionada por eles. Como se tratam de bossas simplesmente intuitivas, sua assimilação foi praticamente orgânica, garantindo execuções leves e principalmente fluídas. Pode ser dito que a concepção criativa da “Fiel Bateria” foi dar ao samba exatamente o que ele pede.

Na primeira cabine (módulo duplo) a apresentação foi enxuta e segura. Já na segunda cabine foi até superior, com uma maior fluidez musical e garantindo um bom encaixe das bossas nas execuções. A melhor apresentação em cabine acabou ficando para o final. No último módulo, é possível dizer que a “Fiel Bateria” deu um verdadeiro show, evidenciando a estreia muito boa de mestre Marfim, no comando da bateria da São Clemente.