Por Luan Costa e fotos de Nelson Malfacini
A Beija-Flor de Nilópolis foi a segunda escola a pisar na avenida na primeira noite de desfiles do Grupo Especial. Apesar de estar em uma posição de desfile inédita para a agremiação e considerada ingrata para muitos sambistas, a escola entrou na avenida com a habitual garra da comunidade. O desfile desta noite marcou o reencontro da azul e branca com a sua identidade visual que marcou história no carnaval, o conjunto de alegorias e fantasias teve gigantismo, luxo e acabamento de primeira marcaram todo o desfile. A passagem Nilopolitana pela avenida começou de forma marcante, a comissão de frente apostou no uso de pequenos elementos cenográficos e causou uma boa impressão junto ao público, assim como a apresentação encantadora de Claudinho e Selminha Sorriso. Porém, nem tudo foi perfeito, a evolução, apesar de correta em boa parte do percurso, teve um grande deslize justamente em frente ao módulo duplo de julgamento, a quinta alegoria travou pouco depois de entrar na avenida, as alas da frente seguiram e um grande buraco foi deixado.

Apresentando o enredo “Um delírio de Carnaval na Maceió de Rás Gonguila”, desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor Araújo, que fez sua estreia na azul e branca de Nilópolis de forma extremamente positiva, a escola homenageou a cidade de Maceió por meio do personagem Rás Gonguila, um filho de escravizados que acreditava ser descendente da realeza etíope. A agremiação terminou sua apresentação com 68 minutos.
Comissão de Frente
A comissão de frente coreografada pela dupla Jorge Teixeira e Saulo Finelon foi intitulada “Gira, mundo, feito o pião do menino!” e costurou os retalhos da memória mais remota de Benedito e refez, na Marquês de Sapucaí, os caminhos percorridos pelo engraxate que se encantou pelos Carnavais de Maceió. Em sua proposta, a comissão abriu mão de um tripé grande e apostou em pequenos elementos cenográficos que faziam sentido dentro da narrativa apresentada.

A cadeira, que antes era do engraxate, se transformou em carruagem, além dessa parte, outros momentos se destacaram, o primeiro deles foi quando o grupo de bailarinos formou um peão com os próprios corpos. No final, as luzes da Sapucaí se apagaram e aconteceu a coroação de Benedito, um grande manto colorido se destacou. O objetivo foi entregue e a comissão passou pelos júris sem apresentar nenhuma falha.
Mestre-sala e Porta-bandeira
Claudinho e Selminha Sorriso são verdadeiras entidades da Beija-Flor e do carnaval carioca, já são mais de 30 anos de uma parceria vitoriosa e encantadora, em mais uma prova de que o tempo parece não passar para ambos, o pavilhão da azul e branca de Nilópolis foi defendido com enorme brilhantismo. Durante as três apresentações nos módulos de julgamento, a dupla mostrou enorme confiança, garra e bailado incomparáveis. A dança clássica teve total destaque, porém, em alguns momentos do samba, houve uma pitada de coreografia.

Na noite deste domingo, eles representaram Zumbi e Dandara, casal que lutou contra a escravidão e foi resistência, no desfile da Beija-Flor, os dois personagens receberam o tratamento digno em suas indumentárias. A roupa mesclou o marrom com o azul da escola, além de detalhes pratas e muito brilho, o cuidado da fantasia evidenciou ainda mais o bailado da dupla, que passou pela avenida esbanjando simpatia e claro, o contagiante sorriso no rosto.
Enredo
O carnavalesco João Vitor Araújo fez sua estreia à frente da Beija-Flor, coube a ele desenvolver o enredo “Um delírio de Carnaval na Maceió de Rás Gonguila”, nele, a escola enredou-se pelos devaneios de Benedito dos Santos, o Rás Gonguila, e embarcou numa jornada encantada de reis negros e folguedos afro-brasileiros, com as nobrezas de Maceió, de Nilópolis e da Etiópia.

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João optou por dividir a narrativa em seis setores, sendo eles: “O quilombo do menino Benedito”, “Meu destino é ser brincante”, “Quando encontro a corte africana”, “É ela, maravilhosa e soberana”, “A soberania popular me traz”, e por último, “Tem Pajuçara no mar da Mirandela”. Apesar da proposta delirante, o enredo foi contado de maneira clara na avenida, ainda que a imaginação precisasse voar, nenhuma ponta ficou solta e o entendimento foi imediato.

Em sua justificativa, o enredo da Beija-Flor para 2024 apostou em um delírio baseado na realidade, um desafio ao tempo e ao espaço. Quase nada nele foi literal ou linear. A passagem da escola foi como uma festa mágica, sob a luz dos encantados, com as cores, os ritmos e os pisados dos folguedos de Alagoas. Um encontro entre personagens reais, alguns dos quais viveram na mesma época, mas que nunca se viram.
Alegorias e Adereços
O conjunto alegórico da Beija-Flor relembrou os velhos tempos da escola: opulento, luxuoso, com esmero nos detalhes e extremamente impactante. No total, foram seis alegorias, todas com o gigantismo e acabamento que fizeram a azul e branca se tornar referência no quesito em décadas passadas. O carnavalesco João Vitor Araújo merece todos os aplausos, em sua chegada na escola, ele conseguiu captar o sentimento do nilopolitano e entregou todo o seu talento.

O carro abre-alas, denominado “Palmares de luta, Palmares de festa”, apresentou o quilombo de Palmares imaginado por Benedito: lugar de luta e de festa, de conquista e ancestralidade, foram três chassis de extremo bom gosto e facilidade de leitura, o Beija-Flor, símbolo da escola, permeou todo o carro.
A segunda alegoria, “Olha o Carnaval de Maceió aí, gente!”, levou o carnaval das ruas e praças de Maceió, na época da consagração do Rás como o maior brincante da capital alagoana, inúmeras esculturas estavam presentes no carro, todas com muito cuidado no acabamento.

Na sequência, a escola seguiu com enorme esmero em suas alegorias, como na alegoria “O último Leão de Judá”, que mostrou a coroação de Haile Selassie, que no delírio de Rás era seu parente. No quarto carro, “Razão do meu cantar feliz”, a velha guarda teve posição de destaque, o único senão ficou por conta de uma das esculturas que não girou. O penúltimo carro, “O relicário da cultura alagoana” representou as festas e a cultura de Maceió. Para finalizar, o carro “À beira-mar, nasce um rei!”, mostrou o encontro das realezas à beira mar e finalizou o desfile com chave de ouro, bolinhas de nitrogênio transportaram o público para o fundo mar.

Fantasias
Assim como no conjunto alegórico, o talento de João Vitor se fez presente também nas fantasias da azul e branca da baixada, do início ao fim as fantasias impressionaram pelo bom gosto, uso de materiais de primeira qualidade, acabamento cuidado e volume. No total foram 33 alas, os figurinos tomavam conta de toda a avenida, os costeiros eram enormes e alguns chegaram a “bater” nas frisas, como na segunda ala, “Guerreiros Jagas-Ingambalas”, ala cinco, “Borboletas, primeiro amor de Benedito”, e 29, “É Carnaval nas praias de Maceió – Brincantes do Pontal da Barra”. A paleta de cores da escola também se mostrou um acerto, João levou para avenida uma Beija-Flor extremamente colorida, tudo fez sentido de acordo com a narrativa contada no enredo, por exemplo, no setor que trouxe a nobreza nilopolitana, as fantasias eram predominantemente nas cores da agremiação.

Harmonia
Se o ano passado marcou o reencontro da Beija-Flor com a sua comunidade, o desfile desta noite deu continuidade, o componente nilopolitano entrou na avenida acima de tudo felizes, talvez por terem se reconhecido nas fantasias e alegorias, ou por conta do samba, que apesar de não figurar entre os melhores da história da escola, passou pela avenida de forma satisfatória. Além da garra habitual apresentada pela comunidade, foi possível observar uma escola mais solta e brincante.

O conjunto harmônico da escola foi de extremo cuidado, a bateria comandada pelos mestres Rodney e Plínio foram fundamentais para que o samba crescesse durante a passagem pela avenida, o mesmo vale para Neguinho da Beija-Flor, a voz da escola passou novamente em grande estilo.
Samba-Enredo
O samba de autoria de Kirraizinho, Lucas Gringo, Wilsinho Paz, Venir Vieira, Marquinhos Beija-Flor e Dr. Rogério foi interpretado com o brilhantismo de sempre de Neguinho da Beija-Flor. A obra fugiu da linha de sambas densos que a escola apresentou nos últimos carnavais, o samba deste ano apostou na leveza e simplicidade, o encontro foi feliz e o samba passou pela avenida com extrema facilidade, sendo cantando inclusive pelo público presente nas arquibancadas.

O refrão principal possui características que mexe com o brio do nilopolitano, o “doa a quem doer” fez com que a comunidade explodisse a cada passada, porém, alguns momentos do samba possuem difícil compreensão, o que diminuiu o brilho em comparação com os refrões, os versos versos “Gira, mundo, feito pião que Gonguila do jeito, que me eterniza o bendito dos plebeus” e “Um coco, um pouco de samba de roda”, exemplificam essa afirmação.
Evolução
A evolução foi o quesito que destoou do ótimo desfile apresentado pela agremiação, apesar de fluido durante boa parte do percurso, a Beija-Flor cometeu um grande deslize em frente ao módulo duplo de julgamento presente no setor três, a quinta alegoria entrou na avenida de forma lenta e travou, as alas que estavam na frente seguiram o cortejo e um grande buraco foi deixado, apesar de não ter demorado muito para contornar, foi exatamente no campo de visão dos jurados. Apesar desse erro, todo o restante do desfile foi sem sustos, os componentes evoluíram de forma uniforme e não foram observados descompassos.

Outros Destaques
A Beija-Flor passou pela avenida com algumas personalidades da mídia presentes, como a atriz Giovanna Lancellotti, a bailarina Brunna Gonçalves e o ator Samuel de Assis, que representou Rás Gonguila na última alegoria da escola. A rainha de bateria Lorena Raíssa brilhou pelo segundo ano à frente dos ritmistas da azul e branca. O desfile realizado pela escola a credencia para disputar as primeiras colocações na quarta-feira de cinzas.




















Terceira escola a desfilar no Grupo Especial do Rio, neste domingo (11), o Salgueiro apresentou o carro com a fantasia chamada “O exército da morte”, denunciando como os militares contribuíram para a destruição de Hutukara.
Na edição de 2024 do Carnaval, o Salgueiro escolheu os Yanomami como foco de sua celebração. A tradicional escola de samba da Tijuca destacou as comunidades indígenas brasileiras em sua narrativa.
“Há um ano atrás a gente via as tragédias que passaram o povo Yanomami. O número de mortes, em relação ao ano passado, diminuiu, mas ainda assim continua altíssimo e o descaso ainda é muito grande”, denunciou Juliana. “Quando você vê as imagens, você se choca. Então o carnaval vem também para te fazer refletir, ver aquilo de maneira colorida, alegre, mas vai te fazer pensar”, completou.
“Estamos aqui para falar sobre o nosso Brasil. Os nativos foram muito massacrados e o Salgueiro está aí levantando essa bandeira”, disse a funcionária pública Juliana Paz, de 29 anos, ao ser questionada sobre a importância da alegoria. “O Brasil pertence aos índios, os portugueses que vieram e colonizaram. Só que a nossa essência são indígenas, não os europeus. Então o salgueiro está trazendo essa essência”, defendeu.
O Salgueiro foi a terceira escola a apresentar seu enredo, neste domingo (11), no primeiro dia de desfile do Grupo Especial do Rio. As baianas da escola, com a fantasia “Em teu solo sagrado”, homenagearam a mãe-terra.
“A Mãe Terra é a Mãe Natureza. É uma mãe que acorda os seus filhos, que cuida, que protege e guarda. As roupas carregam esse significado, tanto nos detalhes e nas flores”, disse a Tia Glorinha, responsável pela a ala há 15 anos.
Sob o tema “Hutukara”, que se traduz do idioma yanomami como “céu original a partir do qual se formou a terra”, o objetivo do Salgueiro é celebrar a rica mitologia dos Yanomami e promover a conscientização sobre a proteção da Amazônia.
Os ritmistas da Furiosa, bateria do Salgueiro, pisaram na Sapucaí com a fantasia chamada “Diamante Bruto”, representando metais com pontinhos brilhantes, metais esses que eram controversos na comunidade Yanomami. Uma vez que os maiores (os mais velhos) da aldeia contam que, antigamente, coletavam esses metais para fabricar uma substância de feitiçaria que era usada para cegar suas inimizades. Atualmente, os mais novos não sabem para o que esses metais servem. Já os descendentes de Yoasi, o criador da morte e aquele que despertou a cobiça do homem, desejavam esse metal, que acreditavam ser diamantes, para vender e obter dinheiro.
“Acho que todo mundo achava que a Furiosa iria vir de indígena, mas a gente está vindo de diamante, a gente está no setor que fala sobre garimpo e a fantasia representa o bem maior que a gente tem de exploração hoje no Brasil. A gente vem com uma mensagem de fora garimpo dentro da bateria também, então os naipes dos tamborins e as cuícas estão com essa mensagem do fora garimpo e os diretores, que vem no meio da bateria, vêm de garimpeiros. Então a Furiosa é o diamante bruto, que é super cobiçado, em forma de uma fantasia super tranquila, boa para o ritmista tocar e vamos que vamos”, contou Paula.
Com uma fantasia leve, reta e nada volumosa, a bateria do Salgueiro cruzou a Sapucaí. Com um clássico vermelho Salgueiro, preto e dourado, a fantasia dos ritmistas era composta de uma capa vermelha, uma calça preta brilhosa, adornos e bota dourada e no chapéu, o cobiçado diamante bruto furta cor. Os mestres de bateria aprovaram o figurino e disseram que tiveram total liberdade sobre o figurino.
Para o outro mestre de bateria, Gustavo Oliveira, a bateria representar essa cobiça pela terra Yanomami, por parte do garimpo, é importante, pois a bateria entra para fazer barulho contra o garimpo e ajudar os irmãos Yanomamis.
Apesar do enredo “Hutukara” do Salgueiro ter sido elaborado por conta dos recentes males do garimpo na terra dos Yanomamis e pelo descaso do poder público com esse povo. Não é de hoje que o garimpo fere esse povo originário. A ala 16, chamada “Massacre de Haximu” representa um fato histórico muito triste ocorrido com esses indígenas há mais de 30 anos.
Para a professora Tatiana Fagundes, contar sobre o massacre indígena no carnaval é trazer um debate sério em um dos maiores palcos do mundo, e ajuda a ampliar a compreensão do tema.
Até hoje, o massacre de Hamixu é o primeiro e único caso de julgamento por genocídio indígena no Brasil. Diante da sensibilidade do tema, o figurino da ala caracteriza a morte dos indígenas apenas pelo símbolo da caveira e o bilhete sujo de sangue na gola da roupa.
Pinah, a ‘Cinderela Negra’ que encantou o Rei da Inglaterra quando ele ainda era príncipe, fascinou a Sapucaí na noite deste domingo. Com a fantasia “A Deusa da Passarela”, a baluarte da Beija-Flor de Nilópolis desfilou como destaque de chão e também recebeu homenagens da Azul e Branca: uma das destaques da quarta alegoria – que fez referência à história da escola – representou a baluarte.
“É sempre uma enorme emoção, porque parece que é a primeira vez que eu estou pisando nesse solo sagrado. Eu tenho muita gratidão, amor e respeito pelo meu pavilhão. É um orgulho representar a comunidade nilopolitana”, disse a baluarte nilopolitana.
A Beija-Flor apostou este ano em um enredo que falou sobre as nobrezas de Maceió, de Nilópolis e da Etiópia, trazendo à tona um encontro mágico de personagens reais guiados pela luz dos encantados e da ancestralidade, com as cores, os ritmos e os pisados dos folguedos das Alagoas. Destacou na narrativa o personagem Rás Gonguila, nascido em Maceió no início do século passado, que cresceu ouvindo histórias encantadas de antepassados reis e rainhas na distante Etiópia. A Beija-Flor trouxe de forma lúdica toda essa narrativa, difundindo um importante personagem da cultura de Maceió.
Marcos Lemos de 42 anos é um dos integrantes da ala de passista masculino e contou um pouco sobre sua trajetória como passista e explicou sobre a fantasia: “A nossa ala vem falando sobre uma tribo da Etiópia e a característica maior dessa tribo é a pintura do corpo e do rosto. Nos preparamos muito. Eu desfilo como passista há quatorze anos, eu já frequentava a escola pela comunidade e eu vim no projeto da Selminha. É uma honra estar dentro da ala de passista da Beija-flor.”