Início Site Página 655

Freddy Ferreira analisa a bateria da Porto da Pedra no desfile

0

Um desfile correto da bateria “Ritmo Feroz” da Unidos do Porto da Pedra, sob comando de mestre Pablo. Arranjos conectados à nordestinidade atrelaram culturalmente a sonoridade da Porto ao enredo sobre Lunário Perpétuo. Bossas com impacto e pressão foram exibidas com firmeza e ferocidade peculiar dos surdos gonçalenses. Mas sem exageros no uso da força, o que garantiu apresentações corretas para julgadores. Uma pena somente uma fantasia de bateria quente e com um chapéu que possivelmente prejudicou a percepção sonora integral dos ritmistas do Tigre.

porto pedra desfile24 054

A cozinha da bateria da Porto contou com sua tradicional afinação de surdos, mais pesada. Marcadores de primeira e segunda tocaram com firmeza, enquanto os surdos de terceira foram eficientes, contribuindo com balanço tanto em ritmo, quanto nos arranjos musicais. Um naipe de repiques coeso tocou conectado a uma ala de caixas de guerra com boa ressonância.

Na parte da frente da bateria, uma ala de agogôs funcional executou um desenho rítmico simples junto de um naipe de cuícas correto. Chocalhos de nítida qualidade musical tocaram de modo interligado a um naipe de tamborins de virtude técnica, que realizou uma convenção rítmica pautada pela melodia do samba com eficácia.

Bossas que se aproveitaram do impacto sonoro do peso das marcações foram percebidas. Todas com bastante integração musical com o samba da vermelha e branca de São Gonçalo. Bastante pertinente atrelar a musicalidade da “Ritmo Feroz” a levadas nordestinas, demonstrando bom gosto musical.

A apresentação na primeira cabine (módulo duplo) ocorreu de forma satisfatória. Importante ressaltar que havia instabilidade sonora na cabeceira da pista, mas não a ponto de comprometer a exibição nos dois primeiros módulos. Na segunda cabine (terceiro módulo) foi realizada uma apresentação segura, mas ligeira e em movimento. Já na última cabine, infelizmente uma apresentação apressada por causa do tempo escasso garantiu somente a exibição de uma bossa, mas sem um momento mais estendido para a apreciação do ritmo por parte do julgador. Uma bateria “Ritmo Feroz” correta da Porto da Pedra, dirigida por mestre Pablo em sua estreia no Grupo Especial.

Problema com última alegoria compromete evolução em desfile da Porto da Pedra que poderia ser histórico pela estética e grande apresentação da comissão de frente

0

Por Lucas Santos e fotos de Nelson Malfacini

A Porto da Pedra entrou na Sapucaí neste domingo abrindo o desfile do Grupo Especial com alegorias muito bonitas, comissão de frente levantando a Sapucaí com uso de truques de levitação e hologramas. O tigre rugia no “pede passagem” da escola e o primeiro carro também abusou do recurso tecnológico do holograma. Porém, um problema com a última alegoria fez com que ela demorasse a entrar na Avenida provocando um buraco enorme que pode ter sido notados pelas duas primeiras cabines de julgamento, sendo que a segunda era módulo duplo, o que deve gerar bastante despontuação. No final do desfile, era perceptível notar o clima mais fechado, desapontado, de alguns componentes e da diretoria na finalização do desfile. Com 1h09 de exibição, a Porto da Pedra apresentou o enredo “Lunário Perpétuo – A profética do saber popular”, que contou a história do almanaque que prometia decifrar desde a previsão do tempo até o comportamento dos insetos. Durante 200 anos, foi o livro mais lido do Nordeste brasileiro.

porto pedra desfile24 021

Comissão de Frente

Coreografada por Junior Scapin, a comissão da Porto da Pedra trouxe para a Avenida os alquimistas: pensadores, filósofos, sábios, inventores. O elemento cênico intitulado “Em Algum Lugar do Passado” ilustrou alegoricamente o cenário onde foi desenvolvida parte da coreografia de avanço, etoda a coreografia principal. A peça se tratava de um majestoso castelo medieval onde os sábios ou magos subiam para realizar a coreografia principal para os jurados. O grupo se utilizou da iluminação cênica do Sambódromo e teve hologramas na frente do elemento cenográfico.

porto pedra desfile24 015

Uma mulher levitava pelos cabelos através de uma corda não tão perceptível para quem assistia de longe. Uma tela no chão da alegoria, levantava e os integrantes ficavam quase de cabeça pra baixo, sendo levantados nessa posição. A tela trazia pontos altos do enredo como a parte dos astros, a partir da visualização do espaço sideral, e em seguida com os elementos como água, fogo e terra. A comissão trazia características muito singulares de Júnior Scapin em termos de ideias, surpresas, apresentação, bem casadas com a estética do carnavalesco Mauro Quintaes. Ponto alto do desfile. A única coisa de negativo que pode ser citada foi um probleminha com a roupa de um dos bailarinos próximo ao segundo módulo, antes da apresentação para a cabine, na coreografia de deslocamento ainda, resolvido em alguns segundo em que ele teve que ficar no canto e que não afetou nem no visual e nem na apresentação para os jurados.

porto pedra desfile24 017

Mestre-sala e Porta-bandeira

Formado para o desfile da Porra da Pedra de 2024, o casal Rodrigo França e Denadir Garcia tinham em sua fantasia “Mistério Supralunar” a representação dos estudos dos alquimistas sobre a lua e os mistérios que envolviam o grande satélite natural. Usando uma fantasia branca em sua maioria, mas com detalhes em roxo e prateado, a saia de Denadir era muito bonita com o duo do branco e do roxo. A vestimenta ainda era repleta de pedras brilhantes, indumentária bastante luxuosa.

porto pedra desfile24 019

Na apresentação, estreando essa parceria na Sapucaí, Denadir, mais experiente, sobre conduzir bem o bailado, iniciando a apresentação nas cabines com diversos giros. A dupla mostrou muito contato, muita doçura, Rodrigo fez diversas mesuras e foi marcada por um bailado mais tradicional. O ponto mais coreográfico aconteceu no “Vem Antônio, Vem menino”, se aproveitando de uma bossa de xaxado de mestre Pablo em que o casal buscou dançar mais no ritmo. No geral, uma apresentação sem problemas, com a bandeira sempre bem desfraldada.

Harmonia

A Porto da Pedra iniciou o desfile a todo vapor com as primeiras alas cantando bastante o samba, com muita vibração e  energia. Ao passo que o desfile foi acontecendo, mais para a parte final da apresentação, o canto deu uma diminuída em seu ímpeto, muitos componentes ainda cantavam, porém, já sem toda aquela energia e aquele vigor do ínicio, em alguns casos era nítido pelo volume de algumas fantasias como por exemplo a ala “agouro espiritual” situada já no quarto setor da escola em que os foliões estavam cobertos até a cabeça, representando os abutres que afetam negativamente o corpo e a alma.

porto pedra desfile24 024

LEIA MAIS

* Componentes da Porto da Pedra vibram com retorno ao Grupo Especial
* De roxo, baianas da Porto da Pedra evocam alquimia floral
* Simbolizando coragem e bravura, componentes se impressionam com maior tigre da história da Porto da Pedra
* Em sua estreia no Grupo Especial, mestre Pablo rompe tradição de desfilar fantasiado

Já no fim, era visível, que por conta de terem observado os problemas da agremiação, alguns componentes estavam mais desanimados. Já o carro de som comandado pelo experiente Wantuir, manteve o bom andamento do samba o tempo todo, com o cantor livre para fazer os seus cacos “adoro, adoro”, as suas vocalizações “oi, oi”, e se arriscando em algumas terças que casaram muito bem com a melodia do samba. Mesmo com os problemas que a escola enfrentou no final em outros quesitos, mantiveram o clima no alto e cumpriram muito bem o seu papel.

porto pedra desfile24 056

Enredo

“Lunário perpétuo” foi divido em 5 setores. A abertura “Alquimia dos Saberes” tratou de apresentar uma exposição dos conhecimentos, inicialmente ditados pelas estrelas e a energia do cosmo, passando a guiar o corpo e o espírito no caminho do cuidado e do bem viver. Esse início mostrou o surgimento de um pequeno livreto mágico que foi compilado para libertar das trevas a consciência humana, sendo perseguido e proibido. Em seguida, o primeiro setor, “A Gênese do Saber Popular Brasileiro” fez uma relação entre as referências utilizadas para a realização do lunário com as influências das imigrações no Brasil, principalmente com os mais pobres vindos da região do Minho em Portugal.

porto pedra desfile24 058

A seguir, em “O Presságio dos Astros”, a escola contou sobre os saberes que também vem do alto, a história do homem simples a decifrar a influência dos diferentes corpos celestes sobre os terrestres. Em “a cura do corpo e da alma” a escola apresentou o libreto ensinando a curar a aflição do corpo e da alma. No quarto setor “Armorial dos Folguedos Populares” a Porto da Pedra se debruçou sobre a influência deste libreto, ponto central do enredo, que inspirou Ariano Suassuna a criar o manifesto que dá vida ao “Movimento Armorial” na década de 1970.

porto pedra desfile24 041

Por fim, no último setor da escola “O Lunário Perpétuo de Um Brincante” o desfile se encerra apresentando o pernambucano Antônio Nóbrega que formulou um espetáculo homônimo ao livro criado em 1594. No geral, o carnavalesco Mauro Quintaes conseguiu brincar com essa atmosfera presente no enredo de misturar um tom mais místico com a sabedoria e a escrita do sertão que é o ambiente do “Lunário pérpetuo”, as fantasias tinham boa leitura do enredo.

Evolução

Neste quesito, a Porto da Pedra vai ter bastante para se lamentar. Com um início de desfile com fluência em que os componentes evoluiam com bastante espontaneidade e energia, após os problemas no último carro, a escola continuou evoluindo inexplicavelmente enquanto se tentava resolver as avarias com a alegoria para que ela pudesse entrar na pista. Isso gerou primeiro um buraco que foi aumentando do setor três até o setor quatro, que podem ser facilmente notados pela primeira cabine.

porto pedra desfile24 032

Depois, já com a alegoria entrando na faixa de início do desfile, o buraco já chegava, do setor três até o seis, outro buraco enorme, agora visto pela cabine em que o módulo de julgadores é duplo. Se não bastasse todos os problemas com buraco na pista, o final do desfile da Porto da Pedra ainda se deu com um pouco de correria após a apresentação da bateria de mestre Pablo no último módulo de julgamento para que o Tigre não estourasse o tempo, o que acabou realmente não acontecendo, pois a escola fechou com 69 minutos, um a menos que o limite.

Samba-enredo

A obra para este carnaval foi composta pela parceria de Guga Martins, Passos Júnior, Gustavo Clarão, Lucas Macedo, Leandro Gaúcho, Clairton Fonseca, Richard Valença, Gigi da Estiva, Abílio Jr., Marquinho Paloma, Cristiano Teles e Ailson Picanço. E apresentou um bom rendimento na Sapucaí, passando pela dificuldade já concreta de ser a primeira escola a desfilar e ainda pegar a pista muito fria. O samba tem pontos interessantes na melodia como a repetição ainda na primeira do samba “Quem acendeu as lamparinas desse chão”, e o refrão do meio que é bem mais melódico com o ” Só porque eu escolhi (navegar por esse mar)”, e ainda na segunda do samba “Vem Antônio, Vem Menino”.

porto pedra desfile24 028

Em termos de letra, ainda que case bem com a melodia, em relação a repetição citada acima do “Quem acendeu..”, é necessário ver como os jurados vão receber, já que é a repetição de uma frase solta da primeira estrofe. E o momento de maior explosão no refrão principal “Quarto minguante, a moringa quase seca”, um ponto em que a muita gente da arquibancada e das frisas vinha junto. No “Vem Antônio, Vem menino”, a obra ganhou por parte da bateria “Ritmo Feroz”, de mestre Pablo, uma bossa em forma de xote que mexeu com a galera.

Fantasias

A Porto da Pedra apresentou um conjunto estético de fantasias bastante criativo, volumoso e de fácil leitura. Mauro Quintaes mostrou o domínio que tem ao falar de temas lúdicos como este que ao mesmo tempo tem uma pitada grande de Brasil, conseguindo sair perfeitamente do medieval do início que trazia tons primeiro um pouco do espectro do azul e do roxo presentes nas baianas, sem dúvida, as que mais chamavam atenção pelas luzes de led, com a fantasia “elementos da vida” que tratava da alquimia floral e que trazia um lilás bem bonito.

porto pedra desfile24 029

Após o segundo carro, a aposta por tons mais claros, intercalando com detalhes em prateado até chegar na sétima ala “caixeiros viajantes e logo em seguida “retirantes”, em que a paleta fica um pouco mai quente e cítrica misturando amarelo, laranja e vermelho. A partir do terceiro setor, “o presságio dos astros”, há a procura pelos tons mais claros do azul como na roupa dos passistas “amores do Cariri”.

porto pedra desfile24 034

Durante toda a apresentação o carnavalesco intercalou com alguns pontos em que utilizava um pouco do espectro da escola, em um vermelho e dourado. No geral, fantasias muito criativas como “marujos da nau catarineta”, essa, outra no vermelho e dourado, em que a roupa tinha um trecho na parte de baixo como se fosse uma nau de navio mesmo. Ótimas soluções estéticas, mas que em alguns momentos eram bastante volumosas.

Alegorias e adereços

A Porto da Pedra levou para a Sapucaí um conjunto alegórico formado por seis carros e mais um “pede passagem”, que trazia o tigre, símbolo da Porto da Pedra anunciando com seu rugido a profética do saber popular. O elemento cenográfico da comissão de frente já citado, que não conta para o quesito, mas contribui muito com o aspecto imponente da cabeça da escola, constituído de elemento da comissão, pede passagem e abre-alas.

porto pedra desfile24 044

No pede passagem, o Tigre era enorme e possuía ainda o aspecto do medieval que havia no elemento da comissão, acrescentado de gárgulas em formato de tigres. No carro abre-alas “Alquimia dos saberes” falava justamente da alquimia que na velha Europa foi uma forma que os homens encontraram de expandir o intelecto e se envolver com elementos místicos. No primeiro chassi o grande alquimista que tem em suas mãos manipula elementos representando os estudos alquímicos e astrais. No segundo chassi, os laboratórios de alquimia, alguns parecendo templos medievais destruídos. Neles também vinham as gárgulas.

porto pedra desfile24 038

Porém, o bonito conjunto alegórico da Porto da Pedra passou por problemas. Ainda no abre-alas havia partes não bem presas.Já no terceiro carro, “A casa dos horóscopos”, que representava a mistura do passado, presente e futuro através dos estudos astrais, o olho que havia dentro do sol, tanto na frente, quanto atrás da alegoria, não se abriu. Apesar da ausência do efeito, a alegoria manteve boa constituição estética, precisando dessa forma observar como os jurados vão entender. No último, que teve problemas para entrar na Sapucaí, a lateral direita da alegoria colidiu com a grade e uma parte pequena teve que ser retirada para que ela pudesse se movimentar.

porto pedra desfile24 096

Outros destaques

A bateria “Ritmo Feroz”, de mestre Pablo, veio de “o assombro do sertão” representando o cordel mais famoso impresso de Manoel Caboclo que também imprimia seu pequeno almanaque de saberes. Uma bossa de xote na segunda parte do samba foi um dos pontos altos da escola. A rainha da bateria Tati Minerato desfilou com a fantasia”brilho lunar”, em tons branco e prateado e com luz de led.

porto pedra desfile24 053

No esquenta Wantuir cantou o exaltação “Bota pra ferver” , além de um dos mais queridos, do carnaval de 1996 “um carnaval dos carnavais” com o icônico refrão “endiabrado eu tô…” e do samba do acesso e título da Série Ouro 2023 “Warrãna-rarae”.

Alegoria do desfile do Salgueiro denuncia descaso dos militares com os Yanomamis

0

Salgueiro Esp04 001Terceira escola a desfilar no Grupo Especial do Rio, neste domingo (11), o Salgueiro apresentou o carro com a fantasia chamada “O exército da morte”, denunciando como os militares contribuíram para a destruição de Hutukara.

“A alegoria mostrou a parte mais trágica do enredo: as doenças, o garimpo ilegal e tudo de ruim que foi feito”, explicou o diretor de destaques da escola, Eduardo Pinto, de 58 anos, ao ser questionado sobre o significado da quarta alegoria.

O carro, colorido em tons de vermelho, verde, preto e branco, mostrou esculturas dos nativos em estado avançado de desnutrição, além de diversas caixas representando os minérios que são roubados na Amazônia. Através de caveiras e urubus, significando a morte, a alegoria denunciou as consequências dos crimes ambientais.

Salgueiro Esp04 004Na edição de 2024 do Carnaval, o Salgueiro escolheu os Yanomami como foco de sua celebração. A tradicional escola de samba da Tijuca destacou as comunidades indígenas brasileiras em sua narrativa.

A alegoria lembra que a morte dos povos indígenas começa com a abertura da estrada Transamazônica, feita durante o golpe militar. Eduardo explicou o significado do carro: “É a parte trágica do próprio enredo. Tudo de ruim que está sendo feito pelos brancos a esse povo originário, desde a abertura da Transamazônica. É por isso que tem esses detalhes lembrando o exército”.

“Meu pai não vai gostar. Minha família é toda militar e eu estou saindo no carro do exército do mal”. É o que explicou Juliana Kmiciak. A gerente de projetos desfila na escola há 4 anos e disse de maneira bem humorada que vai ser “deserdada pela família”.

Salgueiro Esp04 003“Há um ano atrás a gente via as tragédias que passaram o povo Yanomami. O número de mortes, em relação ao ano passado, diminuiu, mas ainda assim continua altíssimo e o descaso ainda é muito grande”, denunciou Juliana. “Quando você vê as imagens, você se choca. Então o carnaval vem também para te fazer refletir, ver aquilo de maneira colorida, alegre, mas vai te fazer pensar”, completou.

O desfile levou o nome de “Hutukara”, termo da língua yanomami que se refere ao “céu original a partir do qual se formou a terra”, com a intenção de homenagear a cultura e as histórias mitológicas Yanomami, além de enfatizar a importância da proteção da Amazônia.

Salgueiro Esp04 002“Estamos aqui para falar sobre o nosso Brasil. Os nativos foram muito massacrados e o Salgueiro está aí levantando essa bandeira”, disse a funcionária pública Juliana Paz, de 29 anos, ao ser questionada sobre a importância da alegoria. “O Brasil pertence aos índios, os portugueses que vieram e colonizaram. Só que a nossa essência são indígenas, não os europeus. Então o salgueiro está trazendo essa essência”, defendeu.

Baianas do Salgueiro se vestem de mãe natureza

0

Salgueiro Esp03 003O Salgueiro foi a terceira escola a apresentar seu enredo, neste domingo (11), no primeiro dia de desfile do Grupo Especial do Rio. As baianas da escola, com a fantasia “Em teu solo sagrado”, homenagearam a mãe-terra.

Com uma roupa colorida, as damas representaram a mãe do povo yanomami: a terra e a floresta. A roupa é repleta de adereços que lembram a mata, como as flores, as folhas e o azul da água.

Salgueiro Esp03 004“A Mãe Terra é a Mãe Natureza. É uma mãe que acorda os seus filhos, que cuida, que protege e guarda. As roupas carregam esse significado, tanto nos detalhes e nas flores”, disse a Tia Glorinha, responsável pela a ala há 15 anos.

No carnaval de 2024, a agremiação apresentou uma grande homenagem aos Yanomami durante seu desfile. A vermelha e branca da Tijuca destacou as culturas indígenas do país..

Jorgete Oliveira é baiana da escola desde 2009. Emocionada por defender seu pavilhão por mais um ano, ela comentou sobre a importância do enredo: “Ele denuncia a tragédia. É extremamente atual, um problema que chamou a atenção de toda a sociedade brasileira e que ainda existe”.

Salgueiro Esp03 002Sob o tema “Hutukara”, que se traduz do idioma yanomami como “céu original a partir do qual se formou a terra”, o objetivo do Salgueiro é celebrar a rica mitologia dos Yanomami e promover a conscientização sobre a proteção da Amazônia.

“A floresta está pedindo socorro e nós temos que tentar salvá-la”, clamou a baiana Angela Luciano, de 67 anos. A dama do samba, que desfila na escola como baiana desde os anos 90, é apaixonada pelo enredo deste ano. “A terra está complicada e ninguém respeita nada. Esse enredo do Salgueiro é o melhor que tem, levamos para avenida a luta do povo Yanomami. São eles que mais cuidam da floresta e nós não vamos ficar de braços cruzados”.

As baianas definiram a fantasia como pesada, mas “a emoção acaba contribuindo para não sentir desconforto”, é o que explica a baiana Fátima Copello, de 65 anos, desfilando na escola pela 14º vez consecutiva.

“A fantasia é um pouquinho pesada, mas a gente nem sente. Nós vamos atrás da décima estrela, e com essa fantasia. A gente quer mãe, quer avó, a gente quer o bem do povo Yanomami”, defendeu Fátima.

Salgueiro Esp03 001

Bateria Furiosa do Salgueiro faz crítica garimpo ilegal

0

Salgueiro Esp02 005Os ritmistas da Furiosa, bateria do Salgueiro, pisaram na Sapucaí com a fantasia chamada “Diamante Bruto”, representando metais com pontinhos brilhantes, metais esses que eram controversos na comunidade Yanomami. Uma vez que os maiores (os mais velhos) da aldeia contam que, antigamente, coletavam esses metais para fabricar uma substância de feitiçaria que era usada para cegar suas inimizades. Atualmente, os mais novos não sabem para o que esses metais servem. Já os descendentes de Yoasi, o criador da morte e aquele que despertou a cobiça do homem, desejavam esse metal, que acreditavam ser diamantes, para vender e obter dinheiro.

E, por fim, os ritmistas trazem em sua fantasia o pensamento dos napës, os garimpeiros, a cobiça pelo diamante bruto. A publicitária Paula Santos, de 27 anos, que toca tamborim, está com o significado da fantasia na ponta da língua.

Salgueiro Esp02 004“Acho que todo mundo achava que a Furiosa iria vir de indígena, mas a gente está vindo de diamante, a gente está no setor que fala sobre garimpo e a fantasia representa o bem maior que a gente tem de exploração hoje no Brasil. A gente vem com uma mensagem de fora garimpo dentro da bateria também, então os naipes dos tamborins e as cuícas estão com essa mensagem do fora garimpo e os diretores, que vem no meio da bateria, vêm de garimpeiros. Então a Furiosa é o diamante bruto, que é super cobiçado, em forma de uma fantasia super tranquila, boa para o ritmista tocar e vamos que vamos”, contou Paula.

“A gente está representando no setor 3, o setor que fala da mata que chora, falando das mazelas do garimpo. E a fantasia está bem bacana, está bem leve, está confortável, está bem bonita, dá até para a gente guardar chinelo, guarda tudo dentro da fantasia. Vamos entrar com tudo!”, disse a professora Adriane Soares, de 28 anos.

Salgueiro Esp02 002Com uma fantasia leve, reta e nada volumosa, a bateria do Salgueiro cruzou a Sapucaí. Com um clássico vermelho Salgueiro, preto e dourado, a fantasia dos ritmistas era composta de uma capa vermelha, uma calça preta brilhosa, adornos e bota dourada e no chapéu, o cobiçado diamante bruto furta cor. Os mestres de bateria aprovaram o figurino e disseram que tiveram total liberdade sobre o figurino.

“A fantasia da bateria é o Diamante Bruto. Vem representando o Diamante Bruto e os diretores da bateria vem de garimpeiros. Eu gostei muito da fantasia, o Edson é muito solícito quanto a isso. Sempre quando ele faz o protótipo ele chama a gente para ver e a gente vai ajustando da melhor forma para o ritmista e para o diretor jogar. Nessa conversa com o carnavalesco a gente diminuiu algumas coisas. O chapéu, que é o diamante, algumas coisas de adereço da fantasia a gente diminuiu para que chegasse nesse resultado de hoje”, disse o mestre de bateria Guilherme Oliveira.

Salgueiro Esp02 003Para o outro mestre de bateria, Gustavo Oliveira, a bateria representar essa cobiça pela terra Yanomami, por parte do garimpo, é importante, pois a bateria entra para fazer barulho contra o garimpo e ajudar os irmãos Yanomamis.

“A gente vem no centro da escola, que é justamente para falar de todo o problema, falando da parte do garimpo, da extração do diamante. E a gente vai fazer esse barulho aí, para que a gente consiga ajudar a acabar e consiga ajudar nossos irmãos Yanomamis a sair dessa situação. Sempre há uma conversa com o Edson, ele é um cara sensacional, que sempre deixou tudo as claras com a gente, quando vamos lá ver a fantasia. Temos muito liberdade de estar tirando um pouquinho aqui, tirando um pouquinho ali para poder ajeitar, ele sempre é muito solícito. E assim a gente consegue sempre chegar em um resultado bom para os dois lados. E esse ano foi isso, uma fantasia bem leve, sem ferro nenhum. Tudo certinho para a galera ficar confortável e conseguir desempenhar legal na avenida”, contou Gustavo.

Beija-Flor: fotos do desfile no Carnaval 2024

0

Salgueiro traz o histórico massacre Yanomami para a Sapucaí

0

Salgueiro Esp01 003Apesar do enredo “Hutukara” do Salgueiro ter sido elaborado por conta dos recentes males do garimpo na terra dos Yanomamis e pelo descaso do poder público com esse povo. Não é de hoje que o garimpo fere esse povo originário. A ala 16, chamada “Massacre de Haximu” representa um fato histórico muito triste ocorrido com esses indígenas há mais de 30 anos.

Foi no ano de 1993 que aconteceu uma chacina encomendada por um garimpeiro com um bilhete: “Faça bom proveito desses otários”, foi uma barbárie que resultou na morte de 16 indígenas, homens, mulheres e crianças que habitavam a região montanhosa da Terra Yanomami, conhecida como Haximu, em Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela.

O acontecimento brutal ganhou notoriedade na mídia, dos 24 garimpeiros apontados, apenas cinco foram identificados plenamente e condenados.

Salgueiro Esp01 002Para a professora Tatiana Fagundes, contar sobre o massacre indígena no carnaval é trazer um debate sério em um dos maiores palcos do mundo, e ajuda a ampliar a compreensão do tema.

“Esse ano nós estamos desfilando com o tema Hutukara, que vai trazer um pouco da história dos Yanomamis. E a minha ala, que é a 16, vai trazer a representação do Massacre de Haximu, que foi quando a gente teve um pouco mais de noção, mas ainda muito vaga, em relação daquilo que acontece com os Yanomamis no nosso país. A escola traz essa perspectiva ampliada desse debate em relação aos Yanomami de uma maneira muito profunda e é isso que a gente vai mostrar na avenida. O carnaval amplia a possibilidade da gente compreender aquilo que está acontecendo no nosso país. Então existe um processo de carnavalização mesmo de toda essa discussão que tem, de fato, com um fundo político, mas também com a alegria de estar aqui. Uma coisa não exclui a outra e essa que é a grande questão para nós. É importante que esses temas apareçam porque fazem parte da história do nosso país, tanto as culturas indígenas na sua ruralidade, quanto as culturas de matrizes africanas, tudo aquilo que nos forma enquanto povo, sobretudo a população negra e a população indígena. Que são as maiorias minorizadas no nosso espaço, na nossa cidade, enfim, no nosso país”, disse a professora Tatiana Fagundes, de 39 anos.

Salgueiro Esp01 001Até hoje, o massacre de Hamixu é o primeiro e único caso de julgamento por genocídio indígena no Brasil. Diante da sensibilidade do tema, o figurino da ala caracteriza a morte dos indígenas apenas pelo símbolo da caveira e o bilhete sujo de sangue na gola da roupa.

Sendo uma fantasia volumosa, com uma caveira em cada ombro e uma no topo da cabeça, simbolizando a morte, os componentes tinham um bilhete ensanguentado no peito. As cores fortes e maquiagem marcante deixam nítido que a fantasia é sobre algo triste.

“A nossa fantasia é maravilhosa. Achei que podia ter mais cor, mas está de acordo com o tema que a gente vai retratar, que foi uma chacina de indígenas que ocorreu a muitos anos atrás. Então conforme o tema é uma fantasia mais sombria, com caveiras, com cores escuras, totalmente de acordo com o significado. Não nego que eu esperava uma coisa mais alegre, falando das festas indígenas, já que a grande maioria da escola vem colorida. Mas ficou para gente a parte ruim. Alguém tem que contar, mas é importante também”, contou a biomédica, Nicole Santos de 28 anos.

Samara Silva, técnica em radiologia, elogiou a maneira pela qual a fantasia foi feita.

“Apesar do significado triste, mas necessário, a fantasia é maravilhosa, boa para a evolução e espero trazer o título do Salgueiro, que traz para o carnaval história de um povo originário tão sofrido e importante para o nosso país.”

Pinah, a ‘Cinderela Negra’ que encantou o então príncipe da Inglaterra, fascina a Passarela do Samba

0

Beija Esp03 001Pinah, a ‘Cinderela Negra’ que encantou o Rei da Inglaterra quando ele ainda era príncipe, fascinou a Sapucaí na noite deste domingo. Com a fantasia “A Deusa da Passarela”, a baluarte da Beija-Flor de Nilópolis desfilou como destaque de chão e também recebeu homenagens da Azul e Branca: uma das destaques da quarta alegoria – que fez referência à história da escola – representou a baluarte.

Há quase cinco décadas na escola de samba, Pinah viveu a experiência de desfilar longe de uma alegoria. Mesmo com tanta experiência, o sentimento de pisar no solo sagrado da Sapucaí continua o mesmo.

Beija Esp03 003“É sempre uma enorme emoção, porque parece que é a primeira vez que eu estou pisando nesse solo sagrado. Eu tenho muita gratidão, amor e respeito pelo meu pavilhão. É um orgulho representar a comunidade nilopolitana”, disse a baluarte nilopolitana.

A fama internacional começou em março de 1978, logo após o carnaval daquele ano. A agremiação de Nilópolis se apresentava no Palácio da Cidade durante uma visita do então príncipe Charles. Sem saber com quem havia acabado de dançar, Pinah viu sua vida mudar.

“Ele veio ao Brasil à convite do prefeito da época. Eu realizava uma apresentação com o Joãosinho Trinta. Na hora o príncipe ficou enlouquecido (risos). Éramos cerca de 400 pessoas – parecia um desfile mesmo. Eu sabia quem era o príncipe, mas naquele momento não o reconheci. Fiquei sabendo só no dia seguinte, quando a minha mãe me perguntou o que eu havia feito – a imprensa do mundo inteiro estava na minha porta. Quando fui ver, descobri que dancei com o futuro Rei da Inglaterra”, explicou.

Na alegoria que representou o povo nilopolitano com seus delirantes enredos rumo a Maceió, Pinah foi representada por Renata Pérola, cria da Azul e Branca. Essa foi a terceira vez que a baluarte foi homenageada pela agremiação e marca o legado deixado por ela. Questionada sobre a mensagem que ela planeja deixar para a nova geração, ela destacou o respeito pelo pavilhão.

“Até brinco dizendo que Deus vai me ‘puxar’, porque estão me homenageando muito (risos). Mas isso significa que eu fiz um trabalho muito bonito e elegante. Para as próximas gerações, peço que respeitem o pavilhão – não importa qual escola é. O respeito e a gratidão pelo pavilhão é fundamental”, afirma.

A Beija-Flor de Nilópolis foi a segunda agremiação a desfilar na Marquês de Sapucaí na noite deste domingo. A agremiação da Baixada Fluminense levou para a Passarela do Samba o enredo “Um delírio de carnaval na Maceió de Rás Gonguila”, do carnavalesco João Victor Araújo.

Passistas da Beija-Flor levaram a Etnia Suri para a Sapucaí com uma fantasia cheia de cores e representatividade

0

Beija Esp02 001A Beija-Flor apostou este ano em um enredo que falou sobre as nobrezas de Maceió, de Nilópolis e da Etiópia, trazendo à tona um encontro mágico de personagens reais guiados pela luz dos encantados e da ancestralidade, com as cores, os ritmos e os pisados dos folguedos das Alagoas. Destacou na narrativa o personagem Rás Gonguila, nascido em Maceió no início do século passado, que cresceu ouvindo histórias encantadas de antepassados reis e rainhas na distante Etiópia. A Beija-Flor trouxe de forma lúdica toda essa narrativa, difundindo um importante personagem da cultura de Maceió.

A etnia Suri, retratada na fantasia da ala de passistas da Beija-Flor, trouxe para a coroação de Selassie suas máscaras tribais adornadas com pintura de bolinhas e pequenos frutos e sementes silvestres. As fantasias muito coloridas, com cores fortes como o roxo e o rosa se destacaram, além do detalhe nos braços e a máscara no chapéu que fez referência a tribo da Etiópia que tinha como característica maior a pintura do corpo e do rosto.

Beija Esp02 002Marcos Lemos de 42 anos é um dos integrantes da ala de passista masculino e contou um pouco sobre sua trajetória como passista e explicou sobre a fantasia: “A nossa ala vem falando sobre uma tribo da Etiópia e a característica maior dessa tribo é a pintura do corpo e do rosto. Nos preparamos muito. Eu desfilo como passista há quatorze anos, eu já frequentava a escola pela comunidade e eu vim no projeto da Selminha. É uma honra estar dentro da ala de passista da Beija-flor.”

“A nossa fantasia ela representa um delírio, um sonho que o Rás Gonguila teve e vem representando uma tribo que gostava de pintar os corpos, por isso tem essa malha com essas pintas marrons. E assim, eu estou muito feliz de estar representando o Rás Gonguila e espero que a Beija-flor venha campeã, que é o sonho de todo esse integrante que desfila, que a gente passa o ano todo trabalhando para que corra tudo bem no Carnaval”, contou Cris Keller de 38 anos.

Baianas da Beija-Flor brilham na avenida com uma fantasia que foi um festival de prata

0

Beija Esp01 003A Beija-Flor se envolveu nos devaneios de Benedito Santos, o Rás Gonguila, e mergulhou em uma jornada encantada de reis negros e folguedos afro-brasileiros, com as nobrezas de Maceió, de Nilópolis e da Etiópia. As baianas do grêmio nilopolitano apresentou uma fantasia que foi um festival de prata em plena pista. Com vestidos brancos em detalhes pratas e o beija-flor na saia do vestido, as matriarcas levaram na sua fantasia muita delicadeza, beleza e representatividade na Avenida

“Nossa fantasia é o folião do beija-flor e essa é a primeira vez que eu estou saindo na escola e eu estou adorando, meu coração está a mil aqui dentro, estou muito emocionada. O nosso enredo estava maravilhoso e nós estamos torcendo, porque ele vai ganhar. Temos que ganhar, estamos muito lindas”, comentou Cândida dos Santos Ramos Alves de 62 anos.

Beija Esp01 002A fantasia representou uma história de 1948, quando um grupo de foliões se reuniu na casa de Tia Eulália. Queriam fundar um
bloco novo, que ainda não tinha nome. Ela lembrou do tempo de menina, quando desfilava no Rancho Beija-Flor, em Valença. Foi quando um beija-flor cruzou o seu quintal, parou no ar por uns instantes e sumiu no céu azul de nuvens brancas. Neste delirante bater de asas de um beija-flor, estava criada e batizada a Associação Carnavalesca Beija-Flor, que mais tarde seria a grande escola campeã, tendo Tia Eulália como a única mulher entre os fundadores.

Carla Valéria que desfila como baiana da Beija-Flor há 20 anos, contou sobre a emoção de desfilar mais uma vez com a escola, o quanto deseja o primeiro lugar e a recepção do enredo e fantasia das baianas na Avenida: “ Quero ser campeã, chega de levar o caneco para outra escola, eu tenho saudades de ser campeã, desde 2018 que a gente não ganha, já tem muito tempo e esse é um enredo que foi bem aceito pelo público, pela crítica também e a comunidade abraçou o samba, cresceu muito durante esse tempo e agora mais ainda na avenida.”

Beija Esp01 001“Sou baiana da Beija-Flor há 5 anos, para o carnaval desse ano eu sei que a gente está falando de Maceió, porque eu não sei falar de enredo, é muito difícil de falar porque eu não sei ler, só sei que eu estou aqui, me distraindo e eu tenho que estar bem, eu já estou velha, tenho 82 anos e estou aqui maravilhosa e vou passar, eu sei que eu já estou velha, mas tenho muito pique ainda para rodar essa baiana e se Deus deixar ainda ano que vem de novo, nossa fantasia de baiana está linda, eu adorei muito, muito bonito e esse grupo está show de bola, muito bonito”, contou Nilceia Costa de 82 anos.