
Quando Pixulé saudou a Marquês de Sapucaí com “Iboru Iboya Ibosheshe” ainda no Setor 1, o público respondeu em alto e bom som: “Canta Tuiuti!”. O samba-enredo “Lonã Ifá Lukumi”, do Paraíso do Tuiuti, é o maior exemplo recente de que a encomenda de samba pode dar bons frutos tanto em termos da competição quanto do apelo popular. E parece ter impulsionado uma tendência entre as escolas de samba do Rio. Para o Carnaval 2027, agremiações conhecidas por suas tradicionais disputas de samba optaram pelo mesmo caminho da escola de São Cristóvão. A União da Ilha do Governador e a Unidos de Padre Miguel anunciaram que para o próximo ano seus sambas serão encomendados. Até o momento, 11 dos 29 sambas que passarão na Sapucaí já foram encomendados. Para entender o que pensam os sambistas sobre as encomendas de samba, o CARNAVALESCO ouviu segmentos de diferentes escolas. As opiniões divergem, mas apontam que o modelo é um caminho mais seguro.
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“É bom porque a escola consegue colocar tudo que ela quer dentro do samba que vai para a avenida, mas não tem aquela energia de disputa”, ponderou Ellen Belo, 24 anos, artista e passista do Salgueiro.
Já para Francine Rosa, 32, artista circense que desfila na ala de passistas da Vila Isabel, a identificação da comunidade com a encomenda pode demorar mais: “Quando existe uma disputa em que público participa, a gente se sente mais pertencente daquele samba escolhido”.

Anderson Guilherme, 41, jornalista e integrante da Beija-Flor, avalia que a questão não é se a encomenda de samba em si é boa ou ruim. “Eu não sou contra”, resumiu. Para ele, o que deve ser colocado é a capacidade de uma obra garantir o quesito no julgamento. “Quem encomenda samba tem uma suposta vantagem de receber uma obra dentro da expectativa do enredo. Pode ser uma vantagem, mas não é tão garantido assim”.
Quem concorda com essa visão tem muito tempo de Avenida. Olívia Galvão, 69, socióloga e baiana da Mangueira há mais de 20 anos, é direta: “Eu não tenho preconceito com samba encomendado”. Ela aponta, no entanto, que nem todo o samba acontece na Sapucaí. “Samba não é 2 + 2 = 4. Ou ele pega o componente, ou não pega”, afirmou. Para ela, a encomenda não muda essa lógica: “Não garante nada. Samba pega ou não pega, e isso a gente sente na quadra e nos ensaios de rua. Quando é encomenda, já pagou, e a gente tem que engolir”.

Por outro lado, quando um samba acontece, a Sapucaí inteira canta junto. “O desfile do Tuiuti desse ano, nossa senhora, a avenida inteira cantava, porque teve tempo de aprender o samba e de entender tudo o que era falado”, pontuou Ellen Belo, lembrando que a obra de Cláudio Russo, Luiz Antonio Simas e Gustavo Clarão, encomendada pelo presidente Renato Thor, teve grande apelo popular e gabaritou o quesito em 2026.
Como fortalecer a ala de compositores das escolas?
Para Anderson Guilherme, a resposta passa por incentivo institucional. Ele lembra que a Beija-Flor é conhecida justamente por suas disputas de samba concorridas: “Todos os carnavais, as disputas de samba na Beija-Flor são muito quentes, com sambas sempre bons”. Entretanto, ele reconhece que nem toda escola tem uma ala nesse nível. “A estratégia é justamente incentivar: pedir emprestado para coirmã, convocar a comunidade, conversar, explicar a importância, incentivar financeiramente com premiação os compositores vencedores”, resumiu.

Olívia Galvão discorda do diagnóstico. Para a baiana da Mangueira, o problema não é de estrutura, mas de dom. “O cara tem que ter talento. Não tem como; não tem um remédio, não tem um xarope”, afirmou. Segundo ela, formar compositor não é como formar profissional em outras áreas: “tem que ter uma espécie de iluminação diante da sinopse, para fazer verso e música que levantem a escola. Isso não tem receita”.
Um compositor, várias escolas
Outro ponto levantado pelo CARNAVALESCO foi a participação de um mesmo compositor em disputas de samba de diferentes escolas, prática cada vez mais comum no carnaval.
Para Ellen Belo, o compositor que roda de escola em escola perde o que mais importa: o pertencimento. “Não me ganha, só me perde. Compositor que escreve para todas as escolas; para qual ele torce, afinal?”, afirmou a artista, argumentando que quando um compositor escreve para a sua escola de coração, a caneta funciona melhor. “As pessoas têm que focar na escola que conhecem em vez de escrever para várias e ser ruim em todas”.

Francine Rosa discorda. A passista da Vila Isabel argumenta que o período de disputas de samba é o momento em que os compositores podem mostrar seus trabalhos. “É uma das maiores vitrines para quem é artista, acho importante que os compositores possam mostrar o trabalho deles em todas as escolas, inclusive quem está começando”.
Já Olívia Galvão vê a questão por outro prisma: não importa a quantidade de disputas que um compositor participa, e sim se o samba entrega. “É talento!”, disse, lembrando que nem todo samba que um compositor coloca nas escolas é campeão.
Segundo a baiana da Mangueira, escrever para várias escolas só é um problema quando vira estratégia de exposição, deixando a qualidade da obra em segundo plano. “Se for pra botar em todas as escolas, que mande samba bom em todas as escolas”, afirmou.
Anderson Guilherme faz uma leitura mais estrutural. Para o jornalista, o fenômeno é um sintoma. “Isso, para mim, é o resultado da escassez de compositores no carnaval”, declarou. Como nem toda escola tem uma ala forte o suficiente para sustentar sozinha suas disputas, ele explicou, “elas acabam buscando composições e parcerias das coirmãs”.
Por um lado, é bom para o compositor individualmente, mas revelador de um problema maior. “Se houvesse um número satisfatório de compositores, não haveria tanta rotatividade”, finalizou.
Carnaval 2027: um terço dos sambas encomendados para a Sapucaí
Levantamento do CARNAVALESCO mostra que, somando Grupo Especial e Série Outo, um terço das escolas que vão desfilar na Marquês de Sapucaí em 2027 vai levar samba encomendado para a avenida. Até o momento, dos 29 sambas que serão defendidos entre os dias 05 e 09 de fevereiro de 2027, 11 já foram encomendados.
No Grupo Especial, o Paraíso do Tuiuti é a única escola que optou pelo modelo. A obra, já apresentada ao público na Festa dos Enredos e lançada oficialmente em 31 de julho, vai embalar o enredo “Ciata: a mãe preta do samba”, uma homenagem à matriarca do samba Tia Ciata.
Na Série Ouro, a adesão é bem maior. Segundo apuração do CARNAVALESCO, vão encomendar samba para 2027: Botafogo Samba Clube, União do Parque Acari, Vigário Geral, Inocentes de Belford Roxo, Acadêmicos de Niterói, Jacarezinho, Unidos de Bangu, Unidos da Ponte, União da Ilha do Governador e Unidos de Padre Miguel.
Do outro lado, mantêm o formato tradicional de disputa de samba: Império Serrano, Arranco do Engenho de Dentro, Em cima da Hora, São Clemente e Porto da Pedra. A Estácio de Sá também optou pela disputa e definiu o samba do centenário no último dia 08 de agosto. Até o momento, apenas a Acadêmicos de Santa Cruz ainda não definiu o modelo de escolha de suas obras para 2027. A expectativa é que todos os sambas-enredo que passarão na Sapucaí sejam definidos até o fim de setembro.









