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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A disputa acirrada da Verde e Rosa entra na reta final. A escola segue na missão de escolher o tema para o enredo ‘Oyá por nós’, que exaltará a orixá Oyá, divindade que representa figura central na história da agremiação. Os três sambas restantes se apresentaram nas quartas de final no Palácio do Samba, no último sábado. O intérprete Dowglas Diniz comandou as quatro primeiras passadas dos sambas. Em seguida, as apresentações foram retomadas pelos intérpretes de cada parceria, que tocaram a disputa até então. Além disso, o diretor de carnaval da Mangueira, Dudu Azevedo, convidou a todos a demonstrarem a torcida por cada samba que desejassem: os que torcessem para determinado samba deveriam ir para frente do palco durante sua apresentação. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações.

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Parceria de Lequinho: Além da performance de Dowglas, o samba voltou a ser interpretado por Tinga. Abrindo a noite de apresentações, a parceria de Lequinho apresentou uma composição que traz um olhar mais poético sobre Oyá, suas transformações e amores. A multiplicidade de Iansã e os traços que influenciam suas filhas e a Estação Primeira de Mangueira são sintetizados no verso “Quando toca o adaró, somos tantas numa só”. De melodia mais aguerrida, o samba consegue traduzir e abarcar a força da orixá, do enredo e da temática abordada pela Mangueira em 2027. Entre os destaques melódicos estão os desenhos de “Iyá Mesan Orun… / Treme-terra / Desce o morro, sobe o rum… é guerra / Bate o oguê que o sangue tem dendê / Tá pra nascer quem manda nela!”, que levantam os versos, provocam o canto e funcionaram muito bem em quadra. O trecho “Desce o morro, sobe o rum” chegou a gerar uma pequena coreografia de parte do público, trecho bastante indutivo ao movimento. Outro destaque melódico está na estrofe “Afulelé adê ô, deixa incorporar / Olonifé de Ogum, forja pra lutar / Paixão que atiça, fogo de akará / No coração de Xangô, deixa ela girar”, por seu contorno melódico. O trecho também provocou movimentos “para um lado e para o outro” com as mãos do público e giros no ‘comando’ “deixa ela girar”. Um ponto alto lírico é a valorização das transformações da orixá, que têm papel-chave na narrativa a ser contada na Sapucaí, presentes na estrofe “O tambor do recomeço / Quando vira a encruzilhada / Sou rebeldia de Oluafefé / Pele de búfalo no corpo de mulher / Afulelé adê ô, deixa incorporar”, em uma abordagem menos literal e mais poética. A composição também encontra espaço para trabalhar a diversidade de Oyá a partir de suas relações e dos elementos que atravessam sua trajetória, como Ogum e Xangô, ampliando criativamente possibilidades oferecidas pela narrativa que será abordada. Entretanto, alguns versos como “É que eu sou preta macumbeira e de Oyá” e “O Brasil da intolerância eu despacho no ebó” denotam uma perda de força poética, quebrando um pouco a coesão lírica dos demais versos. Ao mesmo tempo, a simplicidade dessas frases acabou funcionando muito bem com o público. Diretas e de fácil assimilação, ganharam força por sua funcionalidade e estiveram entre os trechos mais cantados durante a apresentação. Além delas, “Eparrey, meu povo é trovoada” também se destacou pela força do canto da comunidade, especialmente em “Eparrey”, a saudação a Oyá. O refrão principal “Oyá Tetê, Oyá Tetê, Oyá / Oyá Tetê, Oyá Mangueira Yabá / Ê mamãe, traz de novo teu axé / Relampejou pra vitória, motumbá lé!” é explosivo e foi cantado por toda a quadra com muita energia em quase todas as passadas, tornando-se o grande destaque da apresentação e o refrão de maior força a passar pelo Palácio do Samba nesta noite. A composição se vale da referência à cantiga que invoca a mudança e a rapidez de Iansã e encontra um recurso criativo ao aproximá-la do desejo de vitória dos mangueirenses no verso final “Relampejou pra vitória, motumbá lé”. A referência a “Oyá Tetê” é um dos recursos criativos e melódicos que mais contribuem para a força da obra: a repetição é fluida, indutiva e funciona como um dos pontos de maior energia da performance. A harmonia vocal do carro de som também foi um destaque, com desenhos vocais bem construídos, respeitando as variações melódicas e trechos como o verso “Colo de Ketu, solo do gueto, força de orixá”, além de entregarem, ao todo, uma defesa muito enérgica. No entanto, algumas intercorrências aconteceram: o intérprete Dowglas trocou as palavras do verso “Ela dança no ilê axé, dá caminho no axexê” por “Afefê”, termo semelhante ao de um verso anterior; alguns dos microfones do carro de som “estouraram” em determinados momentos da performance. Porém, nada disso prejudicou a compreensão e a qualidade do canto, principalmente do intérprete Dowglas Diniz, que não teve seu microfone afetado. Tanto na passada liderada por Dowglas quanto nas demais, os intérpretes mantiveram a energia em alta. Houve uma leve queda de intensidade no canto da sexta para a sétima passada, já com os intérpretes da disputa tocando a apresentação, mas a performance retomou a força e se manteve firme até o final. O canto da quadra também foi um diferencial. O público era volumoso, conforme convocado pelo diretor de Carnaval antes das apresentações, de forma que restava pouco espaço entre o palco e os torcedores, o que limitou a mobilidade para coreografias e a descida do intérprete para cantar no meio da quadra. Os torcedores acompanharam a música por completo, de forma unânime, em todas as passadas. Na boca do povo, o samba já era entoado espontaneamente antes do início da performance. Além do público, baianas e baluartes cantaram e dançaram muito o samba bem à frente do palco. Apesar da leve queda de energia apontada, a parceria teve um rendimento excelente e enérgico, tanto pela defesa dos intérpretes quanto pela sinergia com o público, passando pela quadra como um verdadeiro furacão.

Parceria de Arlindinho: Após a introdução com Dowglas Diniz, Bruno Ribas, Victor Cunha e Evandro Malandro voltaram a assumir os microfones principais para o samba da parceria de Arlindinho. A composição também se apropria de elementos centrais oferecidos pela narrativa da escola, explorando a força espiritual de Iansã, suas transformações e a relação entre a orixá, seus domínios e a Mangueira. As múltiplas características de Oyá aparecem de forma criativa em diferentes momentos da obra, especialmente ao relacionar sua força guerreira, o movimento e a transformação à própria identidade da escola. O samba traz uma melodia que valoriza a força e exalta o traço guerreiro da orixá, como bem dito no verso “No toque de guerra, a Mangueira vai passar”. A obra tem como uma de suas forças o refrão principal, contagiante e explosivo: “Ah, epahey, ela é Oyá, a bela Oyá / Ah, epahey, a minha mãe é Iansã / É quarta-feira, tem macumba na Mangueira / Batuquei a noite inteira / Amanheci campeã”, que se vale da referência lírica e melódica a uma conhecida canção em louvação a Iansã. Além disso, aproxima a narrativa da realidade da escola, que encerrará o Carnaval no dia ritualístico dedicado à divindade, quarta-feira, recurso que induz ao canto e funcionou muito bem na quadra. O refrão foi cantado intensamente pelo público em todas as passadas. Entretanto, perde força melódica e energia do público nos versos que seguem: “Dobra o adaró, rufa o alujá”. Alguns outros trechos melódicos merecem observação, como “Na fúria de um furacão / A fera vai se transformar”, cuja melodia não atende tão bem aos versos, apesar de ser bem trabalhada pelos intérpretes. O trecho “Faz ajeum, abará e acarajé / Chama yaô, o povo de santo e os filhos de fé” também apresenta uma variação rítmica interessante, bem executada pelos intérpretes. Outro destaque está em “Ô, gira a saia, vai começar o xirê / Bate cabeça”, que provocou o canto alto dos sambistas, além da “bossa” lírica em “Bate cabeça”, com a melodia levando o público a marcar as sílabas do verso. Além desses, o verso “No toque de guerra, a Mangueira vai passar” tomou força na interpretação dos cantores. Já os versos “Ventania na favela / Quem me protege é meu orixá / Armada de adaga e fio de conta / Pode vir demanda, eu vou derrubar” mostraram sua beleza, interpretados de forma que ‘acende’ nos ouvidos, e se tornaram um dos destaques do trabalho do carro de som, valorizados tanto na passada de Dowglas quanto na dos intérpretes da disputa. Mesmo antes da apresentação, o público já cantava o samba. Entretanto, o canto não se mostrou tão uniforme nos trechos além do refrão principal, com essa irregularidade ficando mais clara a partir da segunda passada: nem todos cantavam o samba por completo; a falta de unanimidade diminuiu a intensidade da recepção. Na quinta e sexta passadas, houve pouco canto do público na estrofe “Oyá olhai por nós, Iyá Mesan guerreira / Tem fundamento no meu igbá / O céu vai relampejar, chegou a Estação Primeira”. A torcida convocada a ocupar a frente do palco tinha espaço suficiente para tomar impulso e pular junta em determinados momentos da performance, além de facilitar o trânsito quando o intérprete desceu para cantar junto ao povo. Apesar das oscilações, o canto se manteve até o fim da performance. Além disso, a convite da organização, o pai de santo Sandro Luiz e seus filhos surgiram no meio dos torcedores durante a quarta passada com Dowglas Diniz, e a “surpresa” elevou a energia da quadra. O samba e sua apresentação carregaram uma força própria e distinta, passando pela quadra como uma ventania. Houve um ótimo rendimento, batendo de frente com a performance anterior, embora sem alcançar a mesma intensidade e regularidade do canto.

Parceria de Chacal do Sax: Encerrando a noite de apresentações, Juan Briggs e Charles Silva defenderam o samba composto pela parceria de Chacal do Sax, após a performance de Dowglas Diniz. Pixulé, que liderou como voz principal ao longo da disputa, não esteve presente nesta noite. A composição se divide em dois momentos: entre os diversos atributos da divindade das tempestades e transformações, exalta seu domínio sobre os ventos e seu aspecto indomável; em seguida, destaca essas características, que também recaem sobre seus filhos e protegidos. A narrativa culmina no refrão, referência à cantiga “Oyá te te, Oyá te te Ayabá! / Oyá te te Oloyá, Oyá te te!”, que suplica atenção e mudança rápida da “mãe dos nove filhos”, senhora das mudanças e que nunca os abandona. Ao tratar de uma orixá marcada por transformações e mudanças, conforme apresentado pela sinopse, a obra se vale pouco da narrativa proposta em questões criativas. A multiplicidade de Oyá e as relações que foram fundamentais para suas transformações — dos aprendizados com seus amores ao domínio do fogo, da luta e das mudanças — a obra explora pouco esses elementos diante das possibilidades apresentadas, tornando sua abordagem um pouco mais redutiva. A melodia, por sua vez, mais cadenciada, apresenta momentos agradáveis de ouvir, mas não possui o mesmo caráter arrebatador dos dois primeiros sambas. É uma composição mais voltada à fruição melódica, capaz de fazer o público dançar e acompanhar, ainda que sem o mesmo ‘punch’ das obras que a antecederam. Essa característica também apareceu na apresentação: poucas pessoas se reuniram inicialmente para torcer pelo samba, mas, conforme a defesa avançou, a melodia conseguiu envolver parte da quadra. Um ponto alto da obra é a boa capacidade de identificação, como pode ser visto nos versos “Senhora do ajerê / Acarajé já preparei pro ajeum! / Em cada Ilê-axé / Sagrado é o obé do axogum! / Dança, rainha, no afefé / Nas ruas e afoxés / Governa minha fé… Odara! / Fio de contas vermelho no peito / Não ouse me desafiar!”. A estrofe aprofunda a relação da divindade com seus filhos através de seus ritos, especialmente com suas filhas, como bem proposto pela escola: uma escola feminina, com dominância das filhas de Oyá. É uma passagem que bate forte na identificação do mangueirense. O mesmo aparece em “Quando ela passa, nada fica no lugar!”, um dos versos mais cantados durante a apresentação, e em “Eu não seria nada sem Oyá!”, também valorizado pela interpretação e que mostrou sua força com o público. O refrão principal, simples e funcional, “Ô, ô ogã, bate o daró ogã! / Eu sou Mangueira, ventania de Yansã / Iluminando essa favela inteira / Oyá por nós da Estação Primeira!”, também vingou na quadra. Ainda assim, parte do público demonstrou dificuldade com a letra: alguns integrantes da torcida ainda cantavam lendo a folha de apoio e, em vários momentos, muitos torcedores entoaram “Olhai por nós da Estação Primeira” em vez de “Oyá por nós da Estação Primeira”. Apesar da torcida inicialmente menor, algumas pessoas foram se juntando a partir da segunda passada, com a animação a cargo do líder da parceria, energicamente convocando as pessoas que assistiam ainda sentadas às mesas. Na sexta passada, a torcida organizou um “trenzinho” circulando pela quadra, que contagiou e chamou mais pessoas, conseguindo levantar e sustentar o público até o final e retomando o fôlego da performance. Na sétima passada e novamente na última, o trecho “Em cada Ilê-axé / Sagrado é o obé do axogum! / Dança, rainha, no afefé / Nas ruas e afoxés” foi executado de forma um pouco truncada, enquanto “Acarajé já preparei pro ajeum!” gera uma queda melódica, o que ocasionou perda de energia no canto em algumas passadas. A apresentação obteve um rendimento regular, de forma decrescente. Vale notar que foi desfavorecida pelo impacto dos dois sambas que a antecederam. A diferença de energia entre as três obras pesou na recepção do samba de Chacal do Sax, que, embora tenha qualidade, não passou de forma ‘avassaladora’, com alto engajamento dos torcedores de forma geral, como os primeiros sambas. Também merece destaque a condução de Dowglas nas quatro primeiras passadas. Mesmo diante da recepção mais morna, o intérprete manteve a mesma energia para cantar, foi ao meio da galera e buscou o público. A atuação nos três sambas da noite mostrou não apenas energia, mas capacidade de adequar sua interpretação às diferentes propostas de cada composição.