A Unidos de Vila Isabel deu a largada para a sua disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027 com a apresentação das obras concorrentes, na última sexta-feira, na quadra da azul e branco. Quatorze parcerias se apresentaram na noite, com algumas apresentações de destaque. Seis sambas se classificaram para a próxima etapa, com oito obras ficando pelo caminho. A Vila desfilará no domingo de carnaval, 7 de fevereiro, exibindo o enredo “Torto Arado – Sobre a terra há de viver sempre o mais forte”. Abaixo, o CARNAVALESCO analisa o desempenho dos sambas classificados.

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Parceria de Moacyr Luz: Leozinho Nunes comandou o samba de Moacyr Luz, Gustavo Clarão, Inácio Rios, Márcio André Filho, Igor Federal, João Martins e Daniel Braga. A primeira parte possui uma melodia de bom balanço e fluidez, passou de forma correta, porém caiu um pouco na segunda passada, onde a passagem obteve menor fluidez. Na narrativa, destacam-se os versos “Eu sou um rio maior que o mar, sou o anzol maior que o peixe, e vi no sol, o corte e o fio, da mãe África eu sou o arrepio”. O refrão central “água negra, cachoeira de Dendê, boneca de milho, caruru pro Erê, eu faço a Vila encantada, no couro da batucada, de atabaque e xequerê” tem uma pegada de samba de roda e passou de forma deliciosa, sendo o ponto de ápice da apresentação. A segunda parte exibiu uma melodia redonda, permeando a escrita poética presente no setor, vide versos como “As duas meninas, silêncio e sina, abelha e o mel, a luta enraizada, no cabo da minha enxada, não conheço coronel”, dissecando com qualidade a saga das irmãs em busca de justiça. Essa melodia gerou um bom funcionamento. O refrão principal “é sangue preto parindo o amanhã, no fio da faca, desafio a morte, minha Vila rasga o chão, mãe guardiã, sobre a terra há de viver sempre o mais forte” tem ótima síntese do enredo e força narrativa, o que sustentou muito bem o desempenho. Uma apresentação com boa credencial, mas com uma leve queda durante a passagem, apesar do bom desempenho de Leozinho Nunes.

Parceria de Gustavinho Oliveira: Rafael Tinguinha e Juan Briggs cantaram a obra de Thales Nunes, Paulo César Feital, Gustavinho Oliveira, Danilo Garcia, Julio Alves, Marcelo Martins e Gabriel Simões. O refrão principal “Jarê, Jarê, vai descer o morro todo, o Brasil nasce de novo pela força da enxada, o quilombo é do povo, é a Vila incorporada” é extremamente valente e para cima, impulsionando o desempenho da obra. A primeira parte foca com poesia na forte ancestralidade que permeia o livro-enredo, com destaque para os versos “eu ando pelas águas pra cicatrizar, a velha mágoa, memória secular, zanzei em corpos pelo breu, de quem me recebeu na gira e no altar”. O refrão central “Eh Donana, caboclo vai caminhar, simbora do Caxangá, simbora Vila, ê Donana, encantado tem poder, incorpora no Dendê, incorpora Vila” também possui a característica de puxar o canto com valentia e funciona bem. A melodia é bem construída e tem momentos de maior dolência na segunda parte da obra, como nos versos “Velho curador, Santa Rita pescadeira, aqui estou eu, no terreiro vivo que me acolheu, e resiste em águas negras”. O trecho final “livrar do severo abandono, esta terra que tem dono, hoje tem macumbaria” encerra com força um samba redondo e bem construído, cujo desempenho foi de bastante firmeza, bem puxado pela dupla de intérpretes, que conseguiu um bom casamento harmônico de suas vozes.

Parceria de Marcelinho Moreira: Igor Vianna, Charles Silva e Tem-Tem Jr. comandaram o samba de Marcelinho Moreira, Kléber Cassino, Mano 10, Orlando Ambrósio, Miguel Dibo, Guilherme Karraz, JB Oliveira e Marcelo Rodrigues. Uma apresentação maiúscula, com um refrão principal forte e bonito melodicamente: “firma ponto de macumba, dona Vila Isabel, o povo do samba faz do livro o seu papel, cabo de marfim em punho corta o mal na raiz, feitiço teimoso de ser feliz”. A primeira parte possui uma ruptura melódica na virada dos versos “em Água Negra traz história pra contar” para “da vida o fio de corte amolado”; de resto, é bem resolvida e segura bem uma estrutura longa. Em letra, o setor é bem construído, narrando a vida dura no sertão e a religiosidade nos ritos de Jarê, como nos versos “hoje é dia de Jarê, de quintal enluarado, de ver nosso pai benzer recebendo os encantados, quando troca o chapéu grande por rendados e adê, a boca da mata sorri, alegria de Erê”, brincando com a alcunha de Zeca Chapéu Grande, pai de Bibiana e Belonísia. O refrão central se utiliza dos versos de um conhecido ponto, cantado também nas celebrações de Jarê, “Ogum, Ogum, tatará, tenha dó de mim, aê aê tatará, tenha dó de mim”, o que facilitou a recepção por parte da quadra. A segunda parte tem uma narrativa de bravura e evoca a força presente nas protagonistas e nas entidades que as amparam, vide os versos “pra cada filha da bravura a sede saciada, a mão do quilombo é de libertar, a mesma que ampara mas pesa na cara de quem abusar”, menos poética e mais literal. Essa força segurou bem o rendimento da obra, que fez duas passadas bem consistentes.

Parceria de Ricardo Mendonça: Evandro Malandro foi a voz principal do samba da parceria de Ricardo Mendonça, Jarbas Bittencourt, Diego Nicolau, Diego Jorge, Aldir Senna, Antônio Pontes e Gigi da Estiva. Outra apresentação de destaque na noite. A obra emenda uma sequência de três bis, sendo o de desempenho mais empolgante o dos versos “abre a sala de Angola, olha a Vila, lelê, abre a saia de Angola, olha a Vila, leleco”, enquanto o anterior “Quem ama a terra é quem tem que colher, quem ama a terra é quem tem que morar” retrata a imagética do enredo. O bis de cabeça que completa o conjunto “Samba vai virar jarê, samba vai virar jarê” tem a pegada de uma cantiga de roda e encerra muito bem a sequência de versos, que passou com enorme musculatura. A narrativa da primeira parte exalta a terra e a força daquele chão presente na Chapada Diamantina, como nos versos “Essa mesma terra onde Donana semeou, nascem duas rosas, fruto do amor, quando o verbo cala, fala o olhar, como o rio abraça o mar”. A parte central possui força mesmo sem um refrão, quando entra o ritual de jarê e a evocação aos orixás, com uma melodia bastante gingada e versos fortes: “Eparrei Oyá, ora iê iê mamãe Oxum, na gira, Cosme e Damião chamou Doum, andei na mata de Odê, pedi a cura, Atotô, traz a justiça em seu oxé, Obá Xangô”. Sobretudo, o samba não perdeu a pegada em momento algum da apresentação, mantendo-se firme e passeando melodicamente com qualidade, vide versos como “quanta injustiça, meu Deus, no encanto de Severo, o rio sangrou, eu me desfiz em chuva, pra só mais uma vez molhar tua boca e galopar teu corpo”, que conta a passagem com bastante lirismo. Um samba que une uma melodia muito qualificada e uma narrativa construída com poesia e visceralidade, união que gerou uma ótima apresentação.

Parceria de Martinho da Vila: Wander Pires liderou a apresentação da parceria de Martinho da Vila, Evandro Bocão e André Diniz. Mais um samba com forte desempenho, chamando a atenção na noite. A obra tem uma estrutura de um refrão “a semente que ficou é se juntar, dividir o que plantou, e se a vida derrubar, enxugue o pranto, te levanto pra lutar”, que é simples, bonito e funcionou bem, seguido de um trecho que, pela entrada e linha melódica, dá a impressão de ser o refrão principal, porém não tem bis: “nas páginas de um livro admirado, torto arado é retrato brasileiro, a nossa Vila, mais que uma escola, aguerrida quilombola, risca o chão desse terreiro”. Pela narrativa e melodia, acaba chamando até mais o canto do que o trecho anterior e deixa o samba em alta. A primeira parte apresenta variações melódicas interessantes, algumas conexões entre versos que fogem da linha mais comum, mas que deram ótimo funcionamento à obra, vide o trecho “tortuosa travessia que o destino reservou, e a poeira anuviou, a cobiça inebriante lapidava diamantes”. O refrão central “na brincadeira, o batuque do jarê, rodo na gira do corpo pra corpo benzer, à luz de um velho nagô, o lume de lampião, o caruru na tijela comendo com a mão”, que inverte os versos na repetição, destacou-se com um rendimento envolvente. A segunda parte protagoniza as irmãs da história nos versos “a professora dá a mãos à profetiza, nos dramas, na lida, na fé e no amor, mulheres destemidas não se calam, contra injustiças e grilhões”, numa narrativa mais descritiva. Wander Pires usou muito bem a linha melódica da obra e a potencializou.

Parceria de Raoni Ventapane: Pitty de Menezes e Dodô Ananias defenderam a obra da parceria de Raoni Ventapane, Didi Américo, Markinho da Vila, Wilson Mineiro, Robson Bastos, Elton Babu, Bernardo Nobre e Gabriel Coelho. Um fechamento em excelente nível, com grande desempenho dos intérpretes. O samba começa com um refrão principal “Ogum, Ogum, ouça a voz de quem te chama, Ogum, Ogum, lá da aldeia de aruanda, ô nagô Inã, partilhar é o caminho, me orgulho em ser a Vila de Martinho”, que teve um desempenho empolgante, com uma melodia gostosa de ouvir, além de citar o mestre Martinho da Vila, o que sempre cria uma conexão com os componentes e a quadra. A primeira parte já começa com uma solução melódica interessantíssima nos versos “por terras secas passei e feito anzol de pescar, cativa então mergulhei, não via o sol a brilhar”, e a obra continua sedutora nos versos subsequentes até chegar em outro excelente refrão, “tem boneca de milho na casa de barro, jarê, raízes que vem ‘benzê’, do velho nagô, vi curador cavalgando em cantoria, cada alma que descia, um lampião incendiou”, que cria uma imagética fantástica e poderosa sobre os ritos e o poder dos orixás na religião Jarê e também teve ótimo rendimento. Ele é seguido de outro refrão, no estilo de cantiga de roda: “é marinheiro, ventania e aluá, o peji foi convocado pra jogar rede no mar”. A melodia fica mais lírica na segunda parte nos versos que clamam a justiça social, como nos versos “se essa terra fosse minha, eu mandava partilhar, pra que cada Bebiana, tenha um canto pra plantar ou ensinar”. Os versos finais “Vila, a tua nobreza é raiz quilombola, dos versos de luta marcados na história, é samba que roda gira jarê, batuque que faz o terreiro tremer” possuem outro belo momento melódico, que se sobressai sobre a letra, que mostra menos soluções poéticas na parte final da obra. Pitty e Dodô passearam em cima da ótima melodia e fizeram o samba passar com extrema força, encerrando em alta a noite de apresentações da Vila.