mangueira sidnei
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A Mangueira vai para o Carnaval 2027 com a missão de transformar em desfile uma expressão que, segundo o carnavalesco Sidnei França, já fazia parte do cotidiano da comunidade antes mesmo de virar enredo. À frente do terceiro projeto para a escola, o artista conta ao CARNAVALESCO que mergulhou nas histórias e nos ensinamentos dos mangueirenses para construir ‘Oyá por nós’ e revela que o samba escolhido terá papel decisivo na narrativa apresentada na Sapucaí.

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Como você controla a ansiedade, já que os mangueirenses sonham com esse título? O que quer trazer para o mangueirense com esse desfile?

“Primeiro, eu preciso dizer que, como um sambista de São Paulo, quando eu cheguei ao Rio, o que eu mais lia na internet era assim: ‘Ah, ele precisa aprender muito sobre o que é a Mangueira’. E é impressionante como rapidamente eu consegui me envolver com o morro, com as famílias antigas da Mangueira, e eu ouvia muito. Aliás, os mais velhos dizem para a gente que a gente tem ‘dois ouvidos e uma boca’, que a gente tem que ouvir mais, falar menos. E o que eu mais ouvia era isso: ‘Oyá por nós!’. É um discurso muito corrente. As baianas, as mulheres da Velha Guarda, ‘Oyá por nós’ é uma fala muito frequente dentro da Mangueira. E eu falei: ‘Cara, isso precisa virar enredo’. Era para ser o ano passado, surgiu uma parceria com o Amapá e ficou aguardando, e tudo tem seu motivo, tudo tem sua hora. E vai esquentar o centenário. É isso: ‘Oyá por nós’, um carnaval na hora certa, na hora que Oyá quis, na hora em que tem feito essa escola vibrar de alegria, emoção em alta temperatura. E o meu papel aqui é conduzir isso para que a Mangueira sempre se encontre consigo própria. Essa é a razão primordial. Não sou eu, não é a presidente. A gente tem um pacto de colocar a Mangueira em primeiro lugar. E hoje foi mais um dia da história da Mangueira, em que a comunidade foi ouvida, a comunidade foi privilegiada, e ela vai cantar ‘Oyá por nós’ eternamente, e agora com uma trilha sonora incrível”.

O que o samba influencia no seu desfile?

“Eu disse, no dia da explanação aqui no auditório da quadra da Mangueira, aos compositores que eles tinham total liberdade para interpretar a sinopse e que, se preciso fosse, eu alteraria o enredo, o desenvolvimento do desfile, para atender a um grande samba. Porque, mais do que uma grande plástica, a Mangueira precisava de um grande samba. Essa é a real, a gente precisa ser bem claro: a Mangueira é uma escola de samba, uma escola com S maiúsculo, Samba maiúsculo. Desde sempre eu tive esse cuidado de entender que, se viesse uma sinopse de uma forma tão cartesiana, eu ia mudar. Mas, por sorte minha, veio um grande samba e muito encaixado, inclusive, com a sinopse. Eu não preciso mudar o projeto, mas esse samba tem algumas doses de Brasil que eu pretendo, sim, potencializar no desfile. Por exemplo, ‘o Brasil da intolerância eu despacho num ebó’. Isso é muito forte e, com certeza, isso vai entrar no desfile. Isso não estava na sinopse, pelo menos não de uma forma tão enfática, tão forte, mas vai entrar agora no desfile, porque eu entendo que o samba tem que nortear a narrativa. E assim será, e a Mangueira vai ser muito feliz com esse samba”.