
A reta final da disputa de samba-enredo da Portela para 2027 já deixou claras as obras favoritas. Na noite de eliminatórias que reuniu as chaves azul e branca, as parcerias de Wanderley Monteiro, Cecília Cruz e Dudu Nobre se destacaram entre os 12 sambas apresentados, entregando as exibições mais fortes e emotivas em torno da homenagem a Monarco, o eterno baluarte de Oswaldo Cruz e Madureira. A semifinal está marcada para domingo, dia 30 de agosto. Em 2027, a Portela abre a terça-feira de carnaval com o enredo “Ao Mestre com Carinho”, em homenagem a Monarco. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações da noite.
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Parceria de Valtinho Botafogo: Primeiro samba a se apresentar na noite, a obra de Valtinho Botafogo, Madalena, Xande de Pilares, Savanna, Cardosinho, Dinny Peçanha e Bernini teve Juan Briggs à frente do microfone. A composição descreve a trajetória de Monarco de modo linear, com os momentos de sua história bem resolvidos, e traz momentos bonitos como o trecho: “No cavaquinho dedilhou tantos amores / Partido-alto, ala de compositores”. O refrão do meio descreve com beleza a relação do baluarte com a agremiação, e o samba segue bem construído a partir daí. Há uma virada melódica interessante no pré-refrão principal, que prepara o terreno para o ponto alto da obra, o refrão principal: “Voa minha águia mostra a essa gente / Que o Monarco da Portela está presente / Em Madureira floresceu sua raiz / O filho da majestade “Hildemar Diniz””. O samba começa muito bem, com as primeiras passadas executadas com segurança. No entanto, o andamento cai um pouco ao longo da apresentação; a execução parece exigir uma constância no canto que vai se perdendo aos poucos. É uma exibição regular.
Parceria de Dudu Nobre: Defendido por Pitty de Menezes e Carlos Junior, o samba de Dudu Nobre, Rubens Gordinho, Rafa Cria, Mario Presida, Bruna Dallari, André Ricardo Katar e Minuetto Moreira teve uma apresentação animada e de muita força, consolidando-se como o primeiro destaque da noite. O maior destaque do samba está na melodia: lírica, envolvente e gostosa de cantar do início ao fim, sem quedas de rendimento ao longo da execução. Esse lirismo melódico dialoga com o lirismo da letra, construída no formato de carta da Portela à Monarco. Já no primeiro refrão a parceria apresenta seus versos mais bonitos: “E você compositor virou mestre no caminho / Te abracei de colo, de mãe e carinho / Ensinei, aprendi, que toda águia tem que voltar pro seu ninho”. Esses versos conversam, de maneira flecheira, com o momento atual da escola no ciclo rumo a 2027; o retorno ao ninho nessa homenagem ao baluarte, em busca de melhores resultados. Como ponto de atenção, a ser analisado pelos dirigentes da agremiação, é o quanto a letra atende a construção do desfile, uma vez que a letra, apesar de seu enorme lirismo, é um pouco inespecífica em relação à trajetória do próprio Monarco. O samba fala com destreza sobre a relação de mão dupla entre Portela e Monarco (o que a escola aprende com ele e o que ele aprende com a escola), mas a história do homenageado propriamente dita não aparece. Por fim, o refrão principal reforça o fator emoção: cresce, anima, e funciona bem como uma declaração de amor bem apresentada por Pitty e Carlos Junior, que imprimiram toda a beleza melódica da parceria em cada verso. É um samba com todas as condições para brigar até a final.
Parceria de Marcello Luz: Terceiro samba a se apresentar, a obra de Marcello Luz, Fred Lima, Zé Roberto, Wagner Escóssia, Hebinho da Portela, Ricardo Simpatia e Léo Lopes contou com os intérpretes Tem-Tem Jr. e Guto. O melhor momento do samba é o refrão principal, bem cantado e com um bom desfecho: “Oh! Minha águia abre as asas sobre o céu / Traz o Monarco pra Portela de novo / Quem é raiz atravessa o véu / E vive eterno no canto do povo”. Já o refrão do meio passa sem grandes destaques. No geral, o samba tem momentos em que o andamento se arrasta um pouco, o que faz perder intensidade ao longo da execução; uma apresentação irregular.
Parceria Cecília Cruz: Outro destaque da noite, com adesão expressiva de parte do público presente na quadra, foi o samba de Cecília Cruz, Cláudio Cruz, Luciano Fogaça, Fabinho Gomes, Gêmeos, Osmar Fernandes e Julio Pagé. O que mais chama atenção na letra como um todo é a ambiência construída em torno da história de Monarco, como nos seguintes versos: “O cheiro do feijão, um balé de pipas no céu / Cavaco, rei, tempo bom / Fruta do pé, doce mel”. É um recurso poético inteligente: em vez de narrar fatos da vida de Monarco, o samba evoca a sensorialidade da história de seu baluarte para os portelenses cantarem. O refrão do meio também é um dos pontos altos, muito bem cantado, de melodia envolvente com os versos: “Leva o peixe, freguesa / Bota tempero na mesa / Vem com a primeira, a roda vai começar / E a segunda é por mim / Refrão que pega é assim / Quando a pastora a voz entoar”. Já o refrão principal é o momento mais emocionante da composição, começando com os versos: “Minha maior alegria é poder te exaltar / Seu eu pudesse diria / Como foi bom te ouvir cantar”. O fechamento brinca com a própria impossibilidade de esgotar o fator emoção (“Se eu for falar de Monarco até posso chorar” e “Seu eu for falar de Portela não vou terminar”), trechos cantados coletivamente pelo público. Isso ocorre tanto pela simplicidade e fluidez do verso quanto por expressar com força o sentimento de reverência a um baluarte tão querido. No conjunto, o samba chega forte nesta reta final, como um dos grandes candidatos à briga na final.
Parceria Wanderley Monteiro: O terceiro destaque da noite foi o samba de Wanderley Monteiro, Vinicius Ferreira, Jefferson Oliveira, Hélio Porto, Orlando Ambrosio, W. Correa & Rafael Gigante, defendido por Wander Pires. Já no refrão principal, o samba traz com força o caráter emotivo que a Portela está apostando para 2027. A letra e a melodia constroem uma intimidade particular com o Monarco, presente já na cabeça do samba. O refrão do meio tem melodia bonita, fazendo o jogo entre Madureira e Oswaldo Cruz, territórios da Portela. Funciona bem para cantar, ainda que seja mais direto e perca um pouco em construção poética se comparado a outros trechos. Na segunda parte, o pré-refrão (“ao mestre com carinho”) traz uma variação melódica bonita, preparando o terreno para o refrão principal, o grande destaque do samba: “E por favor de amor, dos que não vão terminar / Falar de Monarco, meus olhos vão marejar / A “Velha Guarda” teu sorriso na lembrança / Eu sou Portela desde os tempos de criança!”. Cada vez que é cantando ganha mais vigor no canto. Cresce e explode, com a bateria correspondendo a esse efeito. Wander Pires, que defendeu o samba campeão do último Carnaval, soube explorar muito bem toda a carga emotiva presente nos versos e na melodia. A parceria já despontava em outras rodadas, e chega a essa reta final com muita força, consolidando uma excelente trajetória na disputa da Portela.
Parceria de Toninho Geraes: O samba de Toninho Geraes, Paulo César Feital, Eli Penteado, Alexandre Fernandes, Victor do Chapéu, Marcéle Sàlles e Juninho Luang teve como intérpretes o trio Dowglas Diniz, Igor Vianna e Wantuir. O refrão principal, apesar da referência clara a uma das músicas do Monarco, não tem força de refrão: falta um desfecho que sintetize e emocione, no tom que a Portela está buscando para essa homenagem. Já o pré-refrão principal traz uma saudação bonita: “Comunhão de gente bamba / A fé em Nossa Senhora e São Sebastião / Embala toda gratidão / Nos braços da Majestade do Samba”. Trecho que homenageia os padroeiros da escola. Já em relação ao canto, tanto na primeira quanto na segunda parte, a sensação geral é de um samba que não dá respiro, dificultando a execução e podendo cansar o componente ao longo do desfile. No conjunto, é uma apresentação irregular, sem força para chegar até a final da disputa.
Parceria de Jorge do Batuke: Zé Paulo Sierra foi quem defendeu o samba de Jorge do Batuke, Márcio Carvalho, Luiz Matos, João Menna Barreto, Lucas Alves, J. Ferreira e Araguaci. A obra traz apenas um verso repetido como refrão principal (“A maior campeã do Carnaval”), antecedido por um trecho bonito que evoca diversas personalidades da escola: “Chamei Casquinha pra versar um bom partido / Mestre Candeia para nos iluminar / Os batuqueiros de Marçal são atrevidos / Deixa a Portela passar / Alô, Paulinho! Mete a mão nessa viola / Lá vem a água de Paulo e Natal / Com Manácea apresentando a velha guarda / Da maior campeã do carnaval”. Esse trecho passa muito bem e é um dos pontos altos do samba, bem executado por Zé Paulo Sierra. Entretanto, há uma questão de construção narrativa a ser observada: esse trecho final, somado ao refrão de verso único, não traz a dimensão de homenagem ao Monarco propriamente dita. Apesar da bonita homenagem aos baluartes da escola, Monarco fica de fora do refrão principal do samba que o homenageia. Isso merece atenção. Já o refrão do meio apresenta uma variação melódica interessante no trecho: “A Tabajara no alvorecer / Teu povo canta: corri pra ver! / Para ver quem era a força ancestral / Te fiz poeta no meu quintal”. No geral, uma apresentação bem conduzida por Zé Paulo Sierra, que passa de maneira correta, mas com questões narrativas importantes.
Parceria de Samir Trindade: O samba de Samir Trindade, defendido por Marquinho Art’Samba e Gera, tem uma característica saudosista, tanto na letra quanto na melodia, em relação à figura de Monarco, um tom emocionado pela saudade que se sustenta bem ao longo da composição. O refrão do meio é o momento de maior força do samba: “Coração em desalinho / A paixão aflora / Vejo o pai ao ver o filho / Cavaquinho chora / E a dor se esqueceu em canções tão belas / Daí mande um beijo meu pra Paulo da Portela”. É um trecho encantador, onde a força do samba se concentra com mais intensidade. Na segunda parte, outro momento de destaque marca o mesmo tom: “Monarco teu legado jamais vai embora / Pra sempre em minha memória / Ao espírito santo entrego o panamá”. Já o refrão principal deixa uma sensação de um fechamento sem a força necessária para arrematar o samba com o mesmo vigor dos trechos anteriores. A performance da noite também deixou a desejar em alguns pontos, especialmente na primeira parte e no início da segunda, com certa dificuldade de compreensão da letra em determinados momentos. Ainda assim, é uma apresentação com qualidade própria, cumpre seu papel, mas que, num quadro geral da disputa com sambas que já despontam, tem menos força para se destacar nessa reta final.
Parceria Diogo Nogueira: Tinga liderou a apresentação do samba de Diogo Nogueira, Cláudio Russo, Raphael Gravino, Júlio Alves, Adolpho Konder, Laura Roméro e Gabriel Simões. O samba une poesia e funcionalidade ao optar por uma construção em que Dona Olinda, esposa de Monarco, é a narradora da obra, subvertendo a proposta narrativa da sinopse. É um ponto de atenção para a direção da escola: como essa perspetiva narrativa dialoga com a construção do desfile. O grande destaque do samba é o refrão do meio, de swing envolvente, no momento em que cita outras duas baluartes da agremiação: “Vou pra Portela que o samba mandou me chamar / Vou-me embora pra Portela, já é hora de sambar / Bota fogo na panela, Madureira sabe bem / Tem feijão da Vicentina com tempero da Neném”. É o ponto mais forte da composição. Na segunda parte, o refrão principal cresce e é bem cantado, com uma construção mais poética e bom rendimento. Já a segunda parte, anterior ao refrão principal, é mais longa e apresentou trechos de difícil compreensão na apresentação de ontem. No geral, é uma apresentação que passa bem, mas com algumas questões pontuais que pesam no conjunto.
Parceria de Jamys Ferraz: A parceria de Jamys Ferraz, Robertinho Sorriso, Luciano Leal, Marcelo Paulista, Roberto Nascimento, Serginho JC e Léo Vicente foi levada por Sandro Ferraz. O refrão principal tem bom apelo, e a primeira parte do samba se destaca por uma beleza poética consistente, como no trecho: “Tem cheiro de infância e de terra molhada / Onde o samba ancorava na madrugada”. Em alguns momentos há certa dificuldade de compreensão da letra. O refrão principal, embora bonito, não fecha com a força emotiva esperada em uma homenagem à Monarco. Já o pré-refrão principal é um dos pontos mais fortes, muito bem cantado, e prepara bem a entrada do refrão: “Mestre, segue viva a sua lição / “Nada pode ser maior… que a instituição””. À medida que o samba avança, porém, as passadas perderam rendimento; uma apresentação irregular.
Parceria de Noca Neto: A obra de Noca Neto, Queiroga, Maralhas, Luciano Gomes, PC Lopes e Filipe Zizou alcança bom desempenho nas passadas, sobretudo com a entrada da bateria, e é bem defendida por Rodrigo Tinoco. Os dois refrões passam muito bem, e o principal contagia pelos versos: “Salve a velha guarda salve o nosso sentinela / “Corre pra ver”, tua Portela! / Eterna é a minha devoção / Ao mestre, com carinho e gratidão”. A melodia da retomada na segunda parte também é bonita. No entanto, o samba foi recebido de forma fria pela quadra, e a segunda parte apresenta uma construção mais literal e menos poética em boa parte do trecho, o que puxa o conjunto para baixo. Apesar dos bons momentos, o samba não pega como um todo.
Parceria de Naldo: O samba de Naldo, Bororó, Waguinho, Marcelo Fernandes, Mário Carvalho, Paulo Beckham e William Ramos faz uma belíssima homenagem a Monarco como baluarte, aquele que carrega os fundamentos da agremiação. É um samba mais cadenciado, com um bom refrão como grande destaque: “Lá vem Madureira! / A emoção vai reluzir na passarela / receba esta carta de amor / com carinho da sua Portela”. Uma boa defesa, bem conduzida, que passa com tranquilidade. O samba como um todo não embala tanto, mas cumpre bem o seu papel, com uma passagem correta. O refrão do meio também merece destaque, com boa construção melódica: “No solo sagrado de Oswaldo Cruz / Talento, menino, a flor que seduz / Com a melodia beijando o poema / É mestre Monarco entrando em cena”. Rendimento agradável como um todo e uma boa exibição.









