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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A Mocidade recebeu mais uma noite de apresentações de alto nível na quadra histórica da Vila Vintém. Nas quartas de final, seis sambas se apresentaram, e cinco seguem para a semifinal, que ocorrerá no próximo sábado, 29. A disputa escolherá o samba-enredo para o tema “Latinamente Independente – Nosso norte é o Sul em Remanifesto”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos. Confira a análise do CARNAVALESCO sobre a noite de apresentações.

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Parceria de Jefinho Rodrigues: O samba da parceria de Jefinho Rodrigues foi o segundo a se apresentar na quadra histórica da Vintém, defendido por Wander Pires. A composição é uma das que mais se atêm ao que está descrito na sinopse, recuperando diversos elementos apresentados pela escola, como “Os filhos do sol”, “A flecha de Oxóssi é farol”, “A caça agora vira caçador” e “Vamos sulear”. A letra é relativamente simples e bastante fiel à ordem narrativa, e é na melodia que encontra seu principal diferencial. O refrão “Arriba la Mocidade / Leva mi corazón / Faz valer tua verdade, teu chão / Mostra pro mundo que só a gente tem / Dá-lhe ritmo caliente / Molho da Vila Vintém” não apresenta uma construção lírica especialmente complexa, mas é elevado por uma melodia muito forte e indutiva. A frase melódica permanece facilmente na cabeça, fazendo com que mesmo quem não memorize todos os versos reconheça imediatamente seu desenho. Na quadra, essa característica apareceu com força. O refrão principal funcionou bem, assim como a estrofe que segue: “Coragem! Pra revolucionar / Filhos do sol / A flecha de Oxóssi é farol / Estrela guia do nosso destino”. Distinguem-se também os versos “Vamos sulear”, “Nosso jeito é dar um jeito / Quando a vida desatina / Gambiarra criativa”, que foram muito cantados pelo público. Além destes, “Meus valores não têm preço / O futuro que eu mereço / O passado me ensina” apresentou um desenho melódico que chama a torcida e foi valorizado musicalmente pela interpretação, funcionando bem na maior parte das execuções. O irreverente verso “‘Ai, se’ te pego aqui, volto a te devorar” também encontrou boa resposta da comunidade. Entretanto, “o amor serpenteou, o vento anunciou / a luz tá no saber de Pachamama” passou com menos força, tendo perda de intensidade no canto do público em algumas passadas. Houve uma leve perda de energia do público na quarta passagem, mas o rendimento geral foi bom, firmando-se como um grande destaque da noite. Antes da performance, as baianas já se alocaram à frente do palco, e as passistas se juntaram ao canto enérgico no início da apresentação. Além dos segmentos, os torcedores formaram um grupo volumoso, que cresceu até o fim da performance. O canto contagiou também integrantes da diretoria e o próprio intérprete da escola.

Parceria de Paulo César Feital: Zé Paulo Sierra e Juan Briggs deram voz à composição da parceria de Paulo César Feital. O samba dá um peso histórico à proposta da sinopse ao recuperar a resistência dos povos originários e dos africanos escravizados diante dos processos de colonização, aproximando figuras como Oxóssi, padroeiro da escola, e Ogum, associado à tecnologia, metalurgia e guerra, dessa ideia de retomada de poder. A letra olha para a América Latina de forma ampla, mas mantém presente a crítica ao processo de colonização europeia e à permanência de relações de dominação entre Norte e Sul globais. A composição se destaca, assim, por sua abordagem histórica à narrativa. Seu ponto mais alto em termos de lirismo, coesão e criatividade está nos versos “Eu sonhei com Obatalá e Tupã lá no Orum / Caetés na Casa Branca e a Colômbia e o Peru / Na soberania plena, todos juntos somos um / Pindorama era o quilombo dos saberes de Ogum”. A estrofe reúne referências distintas em sua construção e consegue traduzir musicalmente a ideia de uma América Latina soberana, atravessada pelos saberes dos povos originários e africanos. O refrão principal também estabelece uma relação muito forte com a identidade da Mocidade: “Toca o agueré pra fazer revolução / Toca o agueré e respeita essa nação / O meu norte sempre foi nossa pátria mãe gentil / Mocidade Independente do Brasil”. “Toca o agueré” traz uma referência diretamente ligada a Oxóssi e, dentro da narrativa, coloca o orixá como uma das forças que conduzem a revolução proposta pelo enredo. Já “nossa pátria mãe gentil” resgata uma expressão presente em sambas importantes da escola, especialmente no samba vencedor de 2017, e pode reativar no torcedor uma memória associada a momentos de vitória. Na quadra, o verso “Toca o agueré” confirmou, na prática, o potencial de identificação da canção. O refrão foi um dos mais cantados da noite, garantindo o destaque da parceria de Feital nesta fase da competição. A letra também encontra força no coloquialismo. Em “Tome tenência / Que meu filho vire o mundo de cabeça pra baixo”, o samba incorpora uma expressão popular e aproxima o remanifesto da linguagem cotidiana, acrescentando irreverência à narrativa. O rendimento foi excelente, com uma defesa enérgica e segura. O desempenho também foi crescente, contagiando, além da torcida expressiva que ocupava o meio da quadra, quem estava pelas mesas e nos camarotes. O canto se manteve firme até o fim da exibição, entoado do início ao fim em cada passada por sua torcida. Na quadra, “Toca o agueré” já demonstrava sua capacidade de mobilização antes mesmo do início da apresentação. A torcida foi a primeira a puxar espontaneamente um trecho do samba antes da primeira passagem, especialmente esse verso. Diretoria, musas, baianas e integrantes da bateria também cantaram bastante o samba.

Parceria de Léo Peres: Defendida por Bruno Ribas e Igor Pitta, a composição da parceria de Léo Peres adota uma construção mais descritiva para desenvolver o remanifesto proposto pela Mocidade. A letra percorre diferentes elementos da narrativa, passando pela América Latina, pelos povos originários, pelos quilombos e pela própria Zona Oeste com teor poético: “Do luar da cordilheira ao suor dos cafezais / Das aldeias irmanadas convoquei os rituais / Divindades da mãe terra, os saberes e mistérios / De quilombos e ogãs / O hemisfério se levanta, a Zona Oeste se agiganta e reescreve o amanhã”. Entre os momentos de maior força lírica está “vade retro, invasor! Kaô! Laroyê! ‘Ai, se eu te pego!’ no maculelê”, que funcionou muito bem na quadra, sendo um dos versos mais cantados pelos “independentes” e de ênfase melódica dos cantores. A composição também assume a ideia de remanifesto em “Quero poesia das canções inconformadas / De batizar e honrar quem são nossos heróis”, reforçando a intenção de reescrever a narrativa a partir daqueles que foram historicamente colocados à margem. O refrão principal “Dale Mocidade, canta, incendeia a avenida / Se a latinidade é forte, o Sul vira Norte, gracias à la vida” mostrou sua força desde antes da apresentação, com os torcedores gritando “Dale”. São versos que apresentam melodia interessante e dão força ao canto dos sambistas, especialmente em “Dale Mocidade”. Vale como um destaque da apresentação, rendendo muito bem em todas as passadas. Já o verso “inverte o mapa, muda o destino” apresentou uma melodia interessante, também trabalhada pela defesa. A performance do carro de som também se distingue, com belas harmonias vocais e divisão de vozes, que engrandeceram a experiência. Entretanto, o trecho “a gente dá um jeito e vinga esse chão / sem perder a ternura, mãos que se ajudam” teve uma queda de energia na quinta passagem. O canto dos versos “Que a reza dos tambores, ‘vieja negra’, nos conceda proteção pelas veredas. Oh! Morena, só quem bole ‘las caderas’ sabe a força da paixão!” foi menos uniforme na segunda passagem, apesar de a torcida se manter animada. Na quarta, houve uma leve queda de rendimento, especialmente neste trecho. A exibição teve um bom rendimento, apesar das leves quedas, valendo-se da força de seu refrão principal. Teve uma torcida numerosa e muito animada, com a presença das baianas da escola à frente do palco, cantando e dançando.

Parceria de Richard Valença: A penúltima parceria a pisar no palco foi cantada por Tinga, Charles Silva e Tem Tem Jr. A composição da parceria de Richard Valença também parte do sentido histórico do enredo, mas assume uma postura ainda mais direta e combativa diante do colonialismo e do imperialismo. “Samba originário, canibal que tem fome de reparação / Latino quilombo, flecha do caboclo imortal / Das mentiras de Cabral e no peito de Colombo” já apresenta a disposição de confronto que atravessa a obra. Na sequência, “Retupiniza esse filme americano que se diz republicano / Mas nos tacha covardia / Inflama a luta na alma de cada irmão / Pro nosso corpo não ser mais capitania” reforça esse caráter de enfrentamento, colocando a letra em uma espécie de “dedo na cara” do poder colonial. É uma composição simples e direta, mas justamente por isso consegue ser bastante incisiva, transformando a ideia de resistência em palavras de ordem que atravessam a letra. O refrão principal é um dos pontos mais interessantes da composição: “O mapa que vira, virou / Refez o passado / Independente não vai ser colonizado / O mapa que vira, virou / Nos faz ir além / São outros quinhentos na Vila Vintém”. A expressão “são outros quinhentos” funciona como um recurso criativo ao trazer para a narrativa uma construção popular, recebida com muito entusiasmo pelos presentes. Já a escolha de “vira, virou” estabelece uma referência especialmente interessante à memória musical da Mocidade, já que as palavras remetem a um de seus sambas mais conhecidos. O refrão principal foi muito bem cantado pelos torcedores, enquanto a estrofe “samba originário, canibal que tem fome de reparação, latino quilombo / flecha do caboclo imortal nas mentiras de Cabral e no peito de Colombo…” também teve boa resposta na segunda passagem, embora tenha perdido força na terceira. A melodia acompanha o caráter de luta da letra e apresenta diversos momentos de destaque. Em “Inflama a luta na alma de cada Hermano pro nosso corpo não ser mais capitania” e “Eu sou o som, o calor, o jeitinho, amor sem fronteiras”, há desenhos melódicos bem trabalhados e marcados pelos intérpretes, o que ajuda a chamar a comunidade para o canto. “Viva la revolução” também funcionou com o público, embora tenha apresentado uma queda de adesão na terceira passagem. A energia dos próprios intérpretes acompanhou a oscilação da quadra, com uma leve queda de rendimento entre a quarta e a quinta passagens. Isso também foi visto no verso “Em cada ylê, a soberania forjou o saber de ser anarquia”, que apresentou uma redução no canto nesse momento. Em geral, a apresentação obteve um bom rendimento. Começou enérgica, com leve decaimento ao longo das passadas, assim como a animação da torcida. Mesmo com a queda gradual de energia, a apresentação teve momentos de força, especialmente no refrão principal, que lhe rendeu um bom momento de destaque nesta noite. Reuniram uma torcida menos volumosa em comparação às anteriores, mas tiveram a participação de integrantes da ala de passistas, que reforçaram o canto. Além delas, alguns membros da bateria também cantaram alguns trechos da obra.

Parceria de Santana: Fechando a noite de quartas de final, a obra foi interpretada por Dowglas Diniz e Leonardo Bessa. O samba da parceria de Santana encontra em Oxóssi um dos principais caminhos para desenvolver a proposta do enredo. Vai além da dimensão de evocar o orixá padroeiro da Mocidade e aproveita características que dialogam diretamente com a narrativa: Oxóssi como caçador, guerreiro e figura associada à inteligência estratégica. É válido pensar também na presença do orixá no Brasil, onde sua tradição africana se desdobra e se ramifica a partir do contato com as crenças indígenas, dando peso à coerência narrativa e ao nível criativo da composição. O lírico se reforça na melodia aguerrida, que aumenta o ar de “luta” da canção. Essa leitura aparece de forma eficiente no refrão do meio: “Okê, okê, okê arô / okê, okê arô / Se ontem eu fui à caça, hoje eu sou o caçador”. É uma construção simples, mas que se reforça ao evocar Oxóssi e chamar a identidade dos independentes, além de ser indutiva – o que se comprovou na noite de apresentação, sendo um dos trechos mais cantados pelos sambistas. Vale destacar também, tamanho o potencial lírico, que a cantora Lara Vidal abriu a performance entoando este refrão com vocais poderosos, abrilhantando a defesa. A composição também apresenta uma leitura mais poética da sinopse. “Não se aprisiona o sonho de quem tira um sorriso da dor / Riquezas da mãe natureza, obra do criador / Ogum, a saga do povo guerreiro / Forjou no aço meu terreiro / Tecnologia ancestral” é um dos trechos que melhor traduz essa escolha. O refrão principal segue pelo mesmo caminho: “Sangue latino revestido de alegria / Até o fim demonstro minha identidade / O sol que brilha, amanhã um novo dia / Virei o mundo pela minha Mocidade”. “Até o fim demonstro minha identidade” ainda recupera uma expressão associada a um dos sambas mais importantes da escola, criando uma referência capaz de provocar a memória afetiva dos torcedores. Mesmo com a quadra se esvaziando no fim da noite, o refrão pôde mostrar seu potencial, sendo bem cantado ao longo das passadas. A performance teve um rendimento regular. O público acompanhou bem diferentes trechos para além do refrão, embora tenha apresentado algumas oscilações. Na terceira passagem, “Das veias abertas, na flecha um destino / Troveja o hino que faz despertar…” teve pouco canto da comunidade, e o rendimento voltou a cair na quarta. A torcida era bem menos volumosa que a de outras parcerias, mas conseguiu participar de diferentes momentos da execução.