Vigário Geral faz desfile alegre com show da bateria, mas deixa a desejar na parte plástica
A Acadêmicos de Vigário Geral foi a terceira agremiação a desfilar nesta sexta-feira de carnaval, com enredo “A Fantástica Fábrica da Alegria”. O que se viu pela Sapucaí foi uma abordagem bem leve e divertida do universo infantil. Os destaques do desfile ficaram por conta da bateria Swing Puro de mestre Luygui e do casal de mestre-sala e porta-bandeira Diego Jenkins e Thainá Teixeira, porém a parte plástica da tricolor deixou um pouco a desejar. A escola encerrou sua passagem pela avenida com 53 minutos. * VEJA FOTOS DO DESFILE
- LEIA AQUI: ANÁLISE DA BATERIA NO DESFILE

Mestre-sala e porta-bandeira
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diego Jenkins e Thainá Teixeira, estava com a fantasia intitulada “Vigário Geral, Fonte de Alegria”. Os dois utilizavam uma luxuosa roupa nas cores da escola. A saia dela, inclusive, levava o pavilhão da Vigário. A ideia da vestimenta deles dentro do enredo foi justamente ressaltar a importância da escola como um núcleo fomentador de alegria e orgulho para toda a sua comunidade. A apresentação do casal esbanjou graciosidade, alegria e muita leveza nos movimentos executados em frente aos módulos de julgamento durou cerca de 2’10” em frente ao módulo de julgamento.
LEIA MATÉRIAS ESPECIAIS
* Vigário Geral representa brincadeiras de rua em fantasia com peteca, pião e bolhas de sabão
* Bateria da Vigário Geral representa a infância fantasiada de Chapolin
* Personagens que marcaram gerações no cinema e TV são revividos em alegoria da Vigário Geral
* Componentes da Ala ‘O mundo anda muito sério’ da Vigário Geral levam o nome da ala ao pé da letra

Bateria
Comandada por mestre Luygui, a Swing Puro realizou uma belíssima exibição ao longo da passarela. As bossas foram muito bem executadas, dentre elas um “apagão” durante o trecho: “Ê, guri, o teu mundo é agora. Ê, menino, vem brincar de carnaval”, que impulsionou a escola a cantar junto o refrão principal. A bateria da Vigário veio homenageando o icônico personagem Chapolin Colarado, uma espécie de herói atrapalhado que marcou várias gerações. À frente do naipe de cuícas, vieram dois ritmistas, um tocando xequerê e o outro tocando pratos.

Samba-Enredo
A Vigário Geral trouxe para a avenida de desfiles um samba bastante alegre e animado, conforme pedia o enredo. A obra foi muito bem interpretada por Tem Tem Jr., que veio vestido de rei, e seu time de canto. O carro de som buscou ao longo de toda passarela contagiar os componentes da Vigário. O samba-enredo foi composto em parceria por Junior Fionda, Tem Tem Sampaio, Marcelo Adnet, Marcelinho Santos, Romeu Almeida, Fábio Turko, Orlando Ambrósio, Kelly Grande Rio, Silvana Aleixo e David Rei das Cestas.

Comissão de frente
Coreografada por Anderson Big, a comissão de frente da Vigário é composta por 15 componentes masculinos com o figurino batizado de “Vem Brincar de Carnaval”. O “Sr. Foliwonka”, dono da fantástica fábrica de alegria, e seus 14 funcionários, “Loompaticuns”, divertiram o público enquanto apresentavam a escola. Os funcionários vieram vestidos com uma roupa vermelha e prateada, com cabelos verdes e uma maquiagem facial cor de abóbora. Eles empurravam latões de lixo ao longo da avenida, que continham palavras como “amor”, “felicidade”, “diversão”, “arte”, “traquinagem”…

O Sr. Foliwonka veio a frente do grupo, e estava trajado de sobretudo e cartola bordô, com muito brilho. No início da coreografia, os funcionários retiravam lanternas das latas de lixo. Em certo momento, as tampas das latas eram abertas e podia-se ler o nome da escola: Vigário Geral. Na segunda parte da apresentação, os integrantes retiravas das latas brinquedos infantis como “pipas”, “bichos de pelúcia”, “bolas”, “carrinho”, “aviãozinho”… Ao final da coreografia, parte do grupo se abaixava na frente das latas, enquanto a outra parte levantava bonecos inspirados nos segmentos das escolas, convidando o público da Sapucaí a brincar de carnaval. Ao todo, a comissão de frente levou cerca de 2’30” para concluir sua exibição em frente a cada uma das três cabines de jurados.
Harmonia
A harmonia da Vigário Geral apresentou certa oscilação no canto do samba-enredo, em que os refrões eram cantados com mais vigor e intensidade pelos seus componentes. Especialmente a parte do samba que diz: “Veste a fantasia, Teu herói é ser humano” até “Vem ser criança na minha Vigário Geral”. As alas que mais cantaram durante o desfile da escola foram: a ala 1 “O mundo anda muito sério”, a ala 4 “Funcionários da Fábrica de Alegria” e a ala 9 “O Palhaço o que é, Ladrão de mulher”. Já as alas “O mundo anda muito sério” e “Heroínas Superpoderosas” poderiam ter mostrado um canto mais intenso.

Evolução
A Acadêmicos de Vigário Geral começou o seu desfile com uma evolução correta, aproveitando todos os espaços da avenida Marquês de Sapucaí. O desfile ocorreu sem grandes problemas, fluindo de uma forma espontânea e alegre por toda a pista. Muitas musas desfilaram entre as alas como destaque de chão, o que evitou com que elas pudessem embolar na passarela. A agremiação optou por não realizar o recuo de bateria no segundo box, passando direto rumo à Praça da Apoteose. Uma integrante da ala 9 “O palhaço o que é, Ladrão de mulher” escorregou na pista molhada e infelizmente precisou deixar o desfile.

Fantasias
Foi apresentado um belo e colorido conjunto de fantasias de durante o desfile da agremiação tricolor. Destaque para os figurinos da Ala 5 “Brincadeira de Rua” e da Ala 7 “São Cosme e São Damião”, que eram de fácil leitura e muito bom gosto. Além da fantasia da Ala das Baianas “Fadas e Seres Místicos da Alegria”, toda em dourado e branco, muito bem acabada, e que causou um interessante efeito visual na avenida.

Porém, o restante das fantasias da Vigário não apresentou o mesmo padrão na execução dos figurinos idealizados pelos carnavalescos. As alas “O mundo anda muito sério”, “São Cosme e Damião”, “A turma do sítio” e a bateria “Vigarista Colorado” tiveram problemas com o adereço de cabeça. Alguns componentes perderam o “chapéu” durante o desfile, comprometendo a uniformidade visual da escola.
Alegorias
O carro abre-alas era uma espécie de “Fantástica Fábrica da Alegria”, repleta de cores, brinquedos infantis e engrenagens. A parte frontal da alegoria trazia um boneco de marionete vestido com as cores da escola. Nas laterais do carro, composições representavam os “Ingredientes da Alegria”. E na parte superior, havia um grande ursinho de pelúcia. A segunda alegoria da Vigário foi batizada de “O Circo”, e rende homenagem para uma das formas artísticas mais antigas da humanidade.

Artistas circenses das mais diversas especialidades (da equipe do Circo Palhaço Topetão) vieram no carro, interagindo com o público e distribuindo guloseimas. No entanto, algumas composições desfilaram com calçado normal. A alegoria trouxe ainda a velha guarda nas suas laterais. Por fim, o terceiro carro “A Felicidade que vem das páginas e das telas” simbolizou os heróis e personagens que ganham vida nos livros, filmes e jogos. No alto da alegoria, havia uma escultura do personagem Wood, do filme Buzz Lightyear.
Enredo
O enredo da Vigário Geral foi inspirado na obra de Roald Dahl, “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, sendo desenvolvido pelo trio de carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val. “A Fantástica Fábrica da Alegria” teve como fio condutor do desfile o garoto Samir, que vagueia buscando os divertimentos naturais da infância para driblar as dores da vida real. Assim como no livro de Roald (que depois virou filme), o menino de Vigário Geral encontra um bilhete premiado que lhe dá acesso a tal Fábrica da Alegria, onde ele pode brincar e viver momentos de felicidade.

A partir de então, a escola passou a recordar de clássicos brinquedos e brincadeiras que fizeram parte da infância de muita gente. Em seguida, o universo circense entrou em cena na avenida, trazendo toda a magia presente nos picadeiros. Em outro momento do desfile, a Vigário fez alusão aos personagens de filmes, livros, desenhos e jogos que fazem a cabeça da garotada de hoje em dia, cada vez mais conectada. Ao final da jornada, o menino Samir chega à avenida Marquês de Sapucaí para brincar o carnaval.
Outros Destaques
Égili Oliveira veio como a “Rainha da Alegria”, que com todo seu vigor, desenvoltura e samba no pé representou a fonte principal de energia da fábrica de alegria. Sua fantasia era extremamente colorida dos pés à cabeça, simbolizando a união das cores e energias em prol da felicidade. A atriz e professora de afro-samba arrancou aplausos por onde passava ao exibir toda a potência de seu samba no pé.

O quarto casal de mestre-sala e porta-bandeira, Josias Araujo e Sophia Canuto, levantou o público que assistia ao desfile da Vigário Geral. A dupla veio vestida de “Soldadinho de Chumbo e Bailarina de Papel”, em referência ao conto de Hans Christian Andersen. Na concentração, a agremiação tricolor esquentou com a música do “Balão Mágico”.
Destaques da Lins enaltecem homenagem da verde e rosa a Madame Satã
Em meio ao peso de fazer uma releitura do excelente desfile de Madame Satã no Carnaval de 1990, a Lins Imperial buscou contar as fases da vida de João Francisco dos Santos. Nesta pegada, o primeiro e o segundo tripé da escola de samba representavam o primeiro trabalho de João e a incorporação de Madame Satã, respectivamente. Em entrevista ao CARNAVALESCO, os destaques centrais Samille Cunha, Andrea Gaspareli e Meime dos Santos detalharam a importância de trazer esta releitura de enredo.
O primeiro tripé da Lins Imperial representou a Lapa e as casas de tolerância – um tributo às bonecas e às mariposas da região. Ele faz alusão à Pensão da Lapa, onde João conseguiu o seu primeiro emprego e conheceu o mundo boêmio. Nele, Andrea Gaspareli e Meime dos Brilhos vieram como destaque. Meime, que conheceu Madame Satã, falou sobre o sentimento de entrar na Avenida com a responsabilidade de carregar este grande enredo, além da importância de resgatar o nome de Madame Satã.
“Eu me sinto privilegiada, porque eu participei da história da Madame Satã quando trabalhei no Cabaret Casanova, na Lapa, e conheci ela pessoalmente. Por isso, eu me sinto muito honrada de estar aqui representando e fazendo parte deste enredo. Eu realmente fiquei muito feliz. Madame Satã é história. Muita gente pensa que ela foi travesti, mas ela não foi um travesti. Foi um marginal, mas um marginal que depois que saiu da Ilha Grande, se recuperou, fez teatro. Tem todo um legado e uma história. Por isso ela virou enredo”, contou Meime.
Meime destacou que é importante representar o nome de Madame Satã na Passarela do Samba. Ela lembrou que em 1989 a Beija-Flor, de Joãosinho Trinta, fez uma homenagem.
“Para mim, a representatividade de Madame Satã é muito importante. Até acho que as outras escolas bobearam para fazer essa homenagem antes – só Joãosinho Trinta que fez na Beija-Flor de Nilópolis em 1989 uma homenagem. As escolas de samba e os carnavalescos estudam bastante. Eles tinham a capacidade de fazer um bom enredo e uma boa história”, destacou.
O primeiro tripé também é uma homenagem à própria Meime dos Brilhos, que além de ter trabalhado com Madame Satã, foi dona de boate no tradicional bairro boêmio carioca. Destaque e inspiração do carro, Meime comentou sobre a reverência que recebeu da Lins Imperial.
“Como eu trabalhei muitos anos na Lapa, a Lins Imperial está me homenageando dentro do enredo de Madame Satã. Eu sou homenageada pela minha história na Lapa – por muitos anos eu comandei uma casa noturna lá. Por isso, eu me sinto dentro do enredo Eu estou sendo homenageada, então eu criei meu próprio ‘figurino’”, explicou.
Andrea Gaspareli, outro destaque do tripé, falou sobre a importância de Madame Satã para as travestis da época. Andrea representou as transformistas que trabalhavam na Lapa.
“Madame Satã era partideira e defendia todas nós travestis quando a polícia vinha nos castigar. Ela vinha e brigava. Madame Satã era ‘babado’.Hoje eu estou representando as transformistas e as travestis que faziam show na Lapa”, contou Andrea.
Para ela, sempre é importante defender causas. Andrea comentou sobre o papel da escola neste enredo e também lembrou que na época em que Madame Satã, mesmo com um preconceito maior do que o da atualidade, não deixou de lutar pelas minorias e pelos seus sonhos.
“Defesa em alguma coisa é sempre muito importante, principalmente do povo LGBT. Na época em que Madame Satã viveu não era tão liberal como hoje, mas ela já lutava por isso. O nosso grande prestígio e a nossa grande homenagem hoje é para essa grande figura que foi Madame Satã. Ela nos representou muito bem. A escola está completa e esse enredo tem tudo a ver. Vem para destacar que nós temos lugar na sociedade e no mundo, além de reivindicar que queremos carinho e respeito”, explicou.
Andrea destacou que o enredo da Lins Imperial tem o papel de destacar ainda mais a luta da comunidade negra e LGBTQUIA+, trazendo uma mensagem de paz, amor e respeito.. Ela lembrou que ainda há preconceito e precisa ser combatido no dia a dia.
“Acredito que ainda tem o que melhorar. Preconceito existe em tudo o que é lugar, mas, aos poucos, a gente vai chegando lá. Estou vindo com o maior privilégio, como ator e transformista que sou. A mensagem que queremos deixar é paz, amor e muito respeito pelas pessoas. Vivam a vida, porque ela é muito importante”, disse Andrea Gaspareli, que era destaque do primeiro tripé.
O segundo tripé da escola de Lins, “Um padê para Satã, representou as oferendas e incorporou Madame Satã, entidade dos seres das ruas, as bonecas e toda a população negra e LGBTQUIA+. Nele, Samille Cunha e Jorge Medeiros eram destaques do carro. O tripé tem imagens de Madame Satã, além da representação das oferendas. Samille Cunha, em entrevista ao CARNAVALESCO, destacou que o enredo surge em um momento de luta por direitos aos menos favorecidos.
“É um momento histórico não só para a escola, mas para o carnaval carioca. Estamos em um momento que se fala da luta LGBT contra o preconceito e a favor do direito das diferenças. O Edu (Carnavalesco), teve esse achado nessa frase poderosa que é ‘resistir para existir’. A gente traz esse grito que não é somente um enredo, mas um manifesto em favor dessas minorias. Eu me sinto extremamente orgulhosa, porque eu fui orientadora do Eduardo na graduação e ele sempre foi um pupilo. Quando ele falou que me queria representando um grande ebó para Satã, eu vim. A Lins Imperial já fez esse enredo lá na década de 90. Hoje é uma releitura com um olhar mais contemporâneo. Há uma liberdade de reconstrução desta personagem e uma reinvenção de uma tradição dos excluídos, das travestis e das putas da Lapa. No século 21, esse grito de resistência permanece. A gente está aqui para quebrar preconceitos e romper essa barreira”, enfatizou Samille.
Samille Cunha também detalhou o seu papel como destaque neste segundo tripé, além de explicar o que o carro representa no enredo da escola de samba: um padê para Satã.
“Satã, após o período em que esteve preso, vai para Ilha Grande, que está sendo representado no último carro. Mas aqui, neste tripé, está o alimento e o assentamento de Satã. Claro, é carnaval e a gente faz uma referência e uma leitura poética. Ele me pediu para fazer este ebó, que não é, necessariamente, um padê de Exu e sim um padê de Satã. Há uma ironia e um humor meio ácido. A gente traz no ebó de Satã a carne e o peixe, porque ele tinha um restaurante em Ilha Grande e era o alimento que ele servia. Hoje Satã é o nosso alimento e o alimento da Lins Imperial para, praticamente, abrir o carnaval carioca rumo ao especial”, falou.
Flávio Mello, presidente da Lins Imperial, representa Madame Satã na última alegoria da escola
Em seu terceiro e último carro alegórico, a Lins Imperial fez sua exaltação final de Madame Satã na Sapucaí. Tons de verde e rosa, as cores da agremiação, faziam parte da composição. Bandeiras com os nomes e rostos de outras grandes personalidades que fizeram história como representantes de uma resistência também estavam em evidência.
Na parte frontal da alegoria, diversos convidados do movimento negro e da comunidade LGBTQIA+ se mostravam emocionados. Rogéria Peixinho, de anos 50, encarou o desfile como uma comemoração. “É maravilhoso finalmente reconhecer uma figura que desbravou o mundo em tempos violentos. Para nós, Madame Satã é uma inspiração de resistência. Seguimos resistindo por ela e por nós. Hoje estamos aqui para comemorar a nossa visibilidade”, afirmou.
Cezar Nogueira, de 39 anos, compreende o enredo de forma histórica. “Saudar Madame Satã, contando sua história, reafirma ele como um personagem importante para as comunidades. É de uma grandeza esplendorosa”, citou.
Além dos convidados, a escola surpreendeu ao trazer seu próprio presidente, Flávio Mello, como destaque principal, representando Madame Satã. “Me sinto honrado em estar aqui”, comentou.
Quando perguntado sobre o intuito do carro na Avenida, respondeu ao site CARNAVALESCO: “É uma demonstração de força, fé e raça. Essa é a verdadeira superação de todos que foram renegados e excluídos”, completou.
Segunda alegoria da Lins Imperial quebra, mas componentes mostram confiança
Segunda agremiação da Série Ouro a desfilar na sexta-feira, dia 17 de fevereiro, a Lins Imperial levou para a Sapucaí a vida e a história de João Francisco dos Santos, a Madame Satã. Com o enredo “Madame Satã: Resistir para Existir”, o desfile ecoou as vozes de ativistas negros e da comunidade LGBTQIA+.
O segundo carro alegórico da escola, nomeado “A Lapa de Madame Satã”, pretendia mostrar sua figura quando foi coroada “rainha negra da boemia carioca”, como definiu o historiador americano James Green. Detalhes extravagantes representavam uma Lapa noturna, cheia de bares e acompanhada de um clima sedutor.
Para Greicy Darhk, de 33 anos, é gratificante homenagear uma pessoa que quebrou tantas barreiras numa época difícil. “Se não fosse por Madame Satã, talvez eu não estivesse aqui, vivendo plenamente como um homossexual. Ele foi preso, humilhado e até apanhou, então nos defendeu antes mesmo de nascermos”, afirmou.
Wellington Souza, de 57 anos, compreende a Lapa como a malandragem dos cariocas. “Lá, todos se encontram e se misturam. Preto, branco, pobre, rico… Quem vai lá vibra na mesma sintonia”, comentou.
Infelizmente, minutos antes do desfile começar, a barra de direção da alegoria quebrou. Impossibilitada de transitar pela Avenida, apenas a parte que seria acoplada pode encerrar o terceiro setor.
Os componentes do carro foram retirados às pressas, mas acompanharam o desfile do chão. Mesmo com o nervosismo que a situação ocasionou, a escola seguiu confiante, levando a força do enredo para a sua apresentação.
Freddy Ferreira analisa a bateria da Vigário Geral no desfile
A bateria da Acadêmicos de Vigário Geral fez um desfile muito bom, sob o comando de mestre Luygui. Num ritmo marcado pela pressão do impacto sonoro envolvendo os surdos, nos arranjos musicais plenamente integrados à melodia do samba-enredo da escola.

A cozinha da bateria contou com uma afinação de surdos grave, que deixava a bateria da Vigário particularmente pesada. Marcadores de primeira e segunda foram firmes e precisos. Os surdos de terceira deram um inegável balanço a “Swing Puro”, assim como caixas consistentes e repiques coesos auxiliaram de forma substancial no preenchimento da musicalidade.
A cabeça da bateria exibiu um trabalho privilegiado das peças leves. O naipe de agogôs tocou de modo sólido, pontuando a melodia do samba com sua convenção com qualidade. A ala de cuícas se apresentou corretamente, ajudando a complementar a sonoridade. Uma ala de chocalhos com nítido potencial musical tocou de forma atrelada e integrada a um naipe de tamborins profundamente técnico. O resultado permitiu que a musicalidade da parte da frente do ritmo da bateria da Vigário Geral fosse praticamente irretocável, diante de tamanha virtude sonora.
Viradas foram percebidas na segunda do samba e antes do refrão meio, auxiliando no dinamismo sonoro da bateria da Acadêmicos de Vigário Geral. Uma nuance rítmica envolvendo surdos complementou a versatilidade musical da bateria da Vigário, na primeira do samba. O arranjo curto, mas imensamente eficaz foi notado com a finalização de três tapas dos surdos em conjunto (Tum-Tum-Tum!), no verso “Teu sorriso encontrou essa fábrica de paz”. Outro movimento que exibiu versatilidade musical foi a virada do refrão do meio para a segunda do samba, que com um toque bem pontuado das caixas de guerra consolidou o ritmo propiciando posteriormente boa fluência entre os naipes.
A desafiadora paradinha do final da segunda do samba demonstrou bom gosto, sendo exibida pelos ritmistas sempre com alegria. A bateria diminui seu volume sensivelmente no trecho “lugar de fala”, enquanto nesse momento todos os ritmistas se abaixavam. No final do belo verso “A inocência é Mestre Sala e a vida é Porta-bandeira” todo o ritmo começa a se levantar enquanto efetua uma subida com aspecto progressivo, antes de finalizar a bossa com tapas ritmados, seguido de balanço de surdos e um molho incontestável do bom naipe de caixas de guerra. O arranjo musical do refrão principal era apresentado logo após esse, que termina com corte seco nos primeiros versos do estribilho.
A bossa do refrão principal começa com o surdo de primeira mais próximo do carro de som marcando o samba para os cantores. Em seguida, um tapa em conjunto de toda a bateria faz um efeito explosivo na palavra “escola”, que é acompanhado de um “Swing Puro” muito envolvente propiciado por caixas uníssonas e marcadores precisos, com um ritmo que fez jus ao apelido da bateria da Vigário. Os surdos são utilizados de forma a dar pressão no arranjo musical que permitiu sobretudo uma boa interação popular.
A melhor exibição da bateria da Vigário em frente a cabine de julgamento foi no segundo módulo, havendo uma boa recepção por parte do julgador, após uma apresentação irretocável. No primeiro módulo, de cabine dupla, a apresentação ritmicamente foi boa, mas acabou não dando tempo de exibir paradinhas exatamente em frente ao módulo, somente antes ou depois. O mesmo problema acabou sendo evidenciado no último módulo de jurado, onde uma exibição relativamente curta impediu a “Swing Puro” de curtir da maneira que merecia o grande sacode da bateria dirigida por mestre Luygui.
Tradição e resistência, as baianas do Arranco desfilam representando a herança do semba e as mães do samba
As baianas do Arranco de Engenho de Dentro serão a primeira ala a entrar na Marquês da Sapucaí neste primeiro dia de desfiles da Série Ouro. Elas passam pela Avenida representando as Mães do Samba, aquelas que trazem a herança do semba e deixam em evidência a ancestralidade para o carnaval. Elas estavam vestidas todas de branco, com detalhes de estamparia a geométrica e cabeça com um arranjo de capim dourado. Dentro da escola de samba, essas senhoras significam a tradição e resistência, segundo a coordenadora da ala Jennifer Christie de 40 anos.
“Elas são as matriarcas do samba, o simbolismo de Tia Ciata. Elas deixam um legado de resistência para todas as escolas de samba e tradição. Eu espero que a juventude saiba que ser baiana também é empoderamento feminino, luta, ancestralidade e combate ao racismo e machismo. É a força da mulher”, disse a coordenadora.
Com o passar dos anos, há a queda do interesse das pessoas em participar da ala. Jennifer acredita que isso é resultado da falta de renovação de pessoas, a crise econômica e os reflexos da pandemia de COVID-19. Para atrair mais mulheres para a ala das baianas, a coordenadora afirma que é necessário um trabalho de base, com crianças e adolescentes.
“É um trabalho de base. As escolas de samba precisam ir nas escolas de educação infantil ao ensino médio. Levar o grupo de baianas e explicar quem a Tia Ciata e o poder do matriarcado das mulheres do samba”, argumentou Jennifer Christie.
O amor por representar esse segmento é nítido para Damiana Pereira de 59 anos, que há cinco desfila como baiana. Ela diz se sentir flutuando ao “incorporar” a baiana através da fantasia. Para ela, as baianas vão além da idade.
“Baiana representa a bondade, a mãe, a prosperidade, a cultura de um povo. Todo que é de axé, de alegria e de saúde está nas baianas. Não é só a idade que transparece nas baianas, é o espírito da baiana que fica e fica o legado para as outras desfilarem com alegria e com amor”, comentou Damiana.
Já Noelma Luíza, de 58 anos, já é baiana de escola de samba há 10 anos, embora seja sua primeira vez no Arranco. Insulana, ela tem em si a vontade de desfilar no máximo de escolas possíveis representando o segmento. A desfilante acha importante um olhar mais atencioso às baianas pelas agremiações.
“Baiana é um segmento importante em toda escola, é a tradição e é o coração da escola de samba. Eu escolhi ser baiana por ser a oportunidade da época, eu queria desfilar pela Ilha. Eu agarrei com unhas e dentes e estou aqui há 10 anos nessa vibe de desfilar em várias escolas como baiana”, contou Noelma.
Sabedoria, carinho, simpatia e espírito maternal são características que Regina Dalva, de 71 anos, acredita que sejam as mensagens que as baianas passam para o carnaval. Ela relata que em casa não conseguiu converter suas filhas e netas em baianas, mas revela que várias companheiras de ala tem linhagem de baianas na família.
“Nós somos as mães do samba e elas estão bem representadas. As baianas que têm devem ser preservadas com muito amor e carinho, porque é paixão! Eu conheço muitas que tem mãe e filha baianas, desfilam desde pequena na ala”, disse Regina.
Freddy Ferreira analisa a bateria da Lins no desfile
A bateria da Lins Imperial fez um desfile que deixou musicalmente a desejar, sob o comando de mestre Átila. Alguns desajustes sonoros puderam ser identificados, fazendo com que a passagem do ritmo da escola do bairro da Lins de Vasconcelos ficasse aquém do que poderia ter sido apresentado.

A cozinha da bateria exibiu surdos de terceiras com desenhos rítmicos que buscavam dar balanço ao ritmo da bateria da Lins Imperial. Marcadores de primeira e segunda ditaram o andamento, mas poderiam ter tocado com mais leveza, pois o excesso de força às vezes causou certa oscilação rítmica no entorno. Caixas de guerra e repiques completaram a sonoridade dos médios de modo correto.
A cabeça da bateria contou com uma ala de cuícas consistente. Um naipe de tamborins dando bom volume a sonoridade foi percebido, efetuando uma convenção simples, mas de forma eficaz. Uma ala de agogôs que pontuou a melodia samba com seu toque deu valor sonoro à parte da frente do ritmo. A ala de chocalhos, lamentavelmente, não apresentou nível técnico semelhante as demais peças leves, exibindo alguns desencontros rítmicos e certa inconstância durante o percurso.
Como forma de dar dinamismo sonoro ao ritmo foi realizada uma subida de três mais elaborada, praticamente em todas as passadas na cabeça do samba enredo. O arranjo, que é auxiliado pelo balanço dos surdos de terceira em certo momento, ajudou na versatilidade rítmica da escola do bairro do Lins de Vasconcelos. Foi o arranjo musical exibido de forma mais sólida durante o desfile, demonstrando sua funcionalidade.
A escolha musical foi fechar a bateria no refrão do meio aproveitando a unidade sonora de tapas consecutivos envolvendo todas as peças em conjunto: um, depois dois (o popular Tum, Tum-Tum!).
A bossa da cabeça do samba foi a de narrativa rítmica mais extensa (paradinha longa). Usou a acentuação de repiques solistas, utilizando tanto repiniques, quanto repiques mor. Se aproveitando do impacto sonoro provocado pela pressão dos surdos junto às demais peças para consolidar o ritmo. A retomada é marcada evidenciando o grau de dificuldade elevado do arrajjo, que só é finalizado na segunda passada do refrão do meio. Ao longo do desfile, infelizmente apresentou irregularidade na execução da convenção.
Na segunda do samba foram executadas duas paradinhas, quase sempre apresentadas em sequência. No trecho “Quem nasceu pra enfrentar o furor das multidões” foi possível perceber um balanço de Xaxado, conectado ao que a música pedia, além de representar um acerto cultural, já que atrela a nordestinidade do homenageado à musicalidade da Lins Imperial.
Já a bossa do final da segunda foi marcada por tapas em conjuntos de todos os naipes, antecedendo um solo envolvendo ritmistas com timbal já no refrão principal, que ainda abaixavam. Após isso, o ritmo era retomado de forma ousada e desafiadora durante a segunda passada do estribilho, complementado pelo balanço dos surdos. Algumas inconstâncias puderam ser percebidas durante a apresentação da convenção, tendo sido irregular sua execução pela pista. Mesmo com deslizes, o movimento teve retorno interessante do público.
As apresentações nas duas primeiras cabines apresentaram irregularidades sonoras no momento da execução de bossas. Mesmo realizada de forma ligeira devido a problemas na evolução da escola, a apresentação no último módulo acabou sendo a mais consistente, mas também só foi executada a subida de três mais elaborada e não os demais arranjos musicais dos dois primeiros. O desfile da bateria da Lins Imperial de mestre Átila se mostrou infelizmente inconstante.
Freddy Ferreira analisa a bateria do Arranco no desfile
A bateria do Arranco do Engenho de Dentro fez um desfile próximo de correto na abertura da noite de sexta-feira, sob o comando de mestres Marley e Cabide. Uma bateria “Sensação” pesada, graças ao timbre mais grave peculiar da escola do Engenho de Dentro.

A cozinha da bateria exibiu uma afinação particularmente grave, inserida nas tradições da bateria do Arranco. Marcadores tocaram de forma firme e precisa. Surdos de terceira deram balanço ao ritmo, que ainda contou com caixas de guerra e repiques corretos que auxiliaram a preencher a musicalidade, mesmo diante da dificuldade sobressair os médios diante de uma bateria com considerável peso.
Já a cabeça da bateria apresentou um trabalho de virtude sonora. Uma ala de tamborins que tocou de forma coesa, fazendo um desenho rítmico seguindo as nuances melódicas da obra da escola. Uma ala de chocalhos de inegável qualidade musical foi notada, junto de cuícas de nítida técnica, dando leveza à parte da frente do ritmo. Completando as peças leves, os agogôs fizeram uma convenção rítmica explorando a melodia, complementando a sonoridade.
Como forma de buscar dar dinamismo sonoro ao ritmo, a escolha musical foi logo após a subida fechar a bateria rapidamente, retomando o ritmo logo em seguida, no final do trecho “Engenho de Dentro” no início da primeira do samba-enredo. A versatilidade também é demonstrada posteriormente, no trecho “Corpo Alufá” quando a bateria “Sensação” utiliza o mesmo recurso de corte seco, seguido dessa vez de dois tapas, para retomar o ritmo na sequência, destacando ainda mais a bela melodia e letra da cabeça da obra do Arranco. Uma virada na segunda do samba também deu impacto sonoro a bateria do Arranco. No verso “Salve Paulo, Heitor, Caetano e Madureira” os surdos de terceiras conduzem com balanço até o momento de virada, num acompanhamento de bom gosto musical.
A construção musical apresentada no final da segunda do samba mostrou a pressão aliada ao ritmo da bateria “Sensação”. O último verso antes do refrão principal é cantado em coro, após um corte seco, com as terceiras em seguidas chamando o ritmo de volta, numa concepção desafiadora, mas bem executada. A finalização da bossa ainda incluiu toques ritmados entre todos os naipes, com conclusão de três tapas consecutivos de todas as peças, dando um aspecto particularmente explosivo ao ritmo do Arranco do Engenho de Dentro.
A bossa da cabeça do samba é iniciada ainda no último verso do refrão principal, quando repiques fazem um toque chamando o ritmo para efetuar o arranjo musical. A batida explosiva, tanto na constituição, como na retomada, ficou por conta da participação dos surdos, com demais naipes marcando o ritmo na paradinha, contando ainda com tapas em conjunto para finalizar com impacto sonoro. A ousadia rítmica em sua constituição fez ser a bossa mais complexa e de alto grau de dificuldade de execução.
A paradinha de maior destaque foi a da segunda passada do refrão do meio. A sonoridade envolvendo um arranjo musical que mesclou ritmo e uma concepção que remetia à bateria da Mangueira foi o ponto alto da musicalidade do Arranco. Na primeira parte da bossa, as terceiras usaram duas macetas para consolidar o ritmo. Posteriormente, uma subida de tamborins marcou o ponto de virada para a levada mangueirense que a azul e branca do Engenho de Dentro exibiu. No compasso seguinte da subida, marcadores fizeram o toque da primeira marcação da verde e rosa, enquanto as terceiras usaram a intenção musical do surdo mor. A bossa muito bem pensada ainda possui uma finalização que é uma batida clássica da Estação Primeira, se revelando um acerto cultural que atrela a sonoridade apresentada ao enredo em homenagem a Zé Espinguela.
A melhor apresentação em cabine de jurado da bateria do Arranco foi no último módulo. Foi possível notar um leve desajuste sonoro envolvendo os surdos na apresentação do segundo módulo no momento da finalização da cabeça do samba, mas como foi sutil, talvez não seja descontado pelo julgador por falta de percepção sonora. Vale ressaltar que o som no início da pista estava inconstante, fazendo com que os julgadores do primeiro módulo tivessem que erguer o corpo para frente, na tentativa da melhor audição possível. A apresentação na primeira cabine transcorreu sem maiores problemas evidenciados da pista de desfile.

