Apesar de um pouco comemorado sétimo lugar no carnaval carioca do ano 2000, a Estação Primeira de Mangueira jogou luz em um personagem pouco conhecido da história brasileira: o principal homenageado no desfile era Cândido da Fonseca Galvão, popularmente conhecido como Dom Obá, neto de Abiodum, chefe do Império de Oió. Militar, o personagem em questão ganhou notoriedade no Exército durante a Guerra do Paraguai – e, retornando à então capital federal, tornou-se amigo pessoal de ninguém mais, ninguém menos que D. Pedro II. Quase um quarto de século depois, a figura será novamente homenageada no carnaval no dia 03 de fevereiro, pela Unidos de São Miguel, primeira escola a desfilar no Grupo de Acesso II, com o enredo “Um príncipe negro na corte dos esfarrapados”.
Para verificar quais fatos serão contados sobre Dom Obá, o CARNAVALESCO visitou o barracão da escola do Extremo Leste paulistano e fez uma entrevista exclusiva com o carnavalesco Alexandre Callegari, que assina o desfile juntamente com Natanael Serra – afastado por motivos de saúde.
Inspiração na Mangueira?
Para muitos que acompanham carnaval, a primeira lembrança em relação ao personagem em questão é o já citado desfile da verde-e-rosa carioca. Para tentar se diferenciar da apresentação carioca, o profissional da Unidos de São Miguel fez uma escolha curiosa – o que ocasionou ao menos uma diferença bastante grande entre as duas exibições. “A minha grande surpresa foi, de fato, conhecer Dom Obá. Eu, particularmente, não o conhecia. Por mais que a Mangueira já tivesse feito um enredo dele lá atrás, eu, particularmente, não o conhecia. Comecei a fazer a pesquisa e, então, cheguei ao desfile da verde-e-rosa. Lembrei do desfile quando comecei a pesquisar, mas acabei não assistindo, até… não tive referência nenhuma dele. Lógico que ficamos com o samba na cabeça, mas acabei fazendo isso para não ter um sentimento de cópia ou de identidade com o enredo deles de fato. Por mais que seja um enredo que seja contado basicamente da mesma forma, já que se trata da mesma pessoa, ele pode estar sendo contado de uma maneira diferente. Tanto que, no desfile da Estação Primeira, os esfarrapados vêm na comissão de frente; no nosso, eles virão no final. Trago a parte do reinado africano na frente, por exemplo. Nesse sentido, portanto, ele está diferente”, pontuou.
A carnavalização do personagem na Tricolor do Extremo Leste buscará contar toda a existência de Cândido da Fonseca Galvão – com uma única exceção, na visão do carnavalesco. “A gente buscou trazer a vida de Dom Obá como um todo. Não vamos trazer pautado: embora esteja cronológico, não traremos a infância dele, por exemplo. Já traremos toda a parte do reinado africano, que é onde a cidade onde o avô dele era rei. O pai dele vem para o Brasil e ele nasce em Lençóis, na Bahia – e, aqui, ele se intitula príncipe. Traremos essa ancestralidade africana na avenida. Da segunda ala para frente, contaremos a vida dele, basicamente: já praticamente no Império, com todo o relacionamento dele com Dom Pedro II e como ele se torna o príncipe dos esfarrapados, como conta o nome do enredo”, explicou – já contando o apelido do homenageado.
Representação de uma comunidade engajada
Ao ser perguntado sobre o quanto a comunidade da agremiação, majoritariamente de um bairro que está localizado a longínquos vinte e oito quilômetros da Praça da Sé (marco zero de São Paulo), em uma viagem que costuma levar mais de uma hora de carro, Callegari destacou o quanto os componentes se identificaram com o enredo desenvolvido. “Eu estou indo em alguns ensaios, participo do cotidiano da quadra, já fiz algumas reuniões lá. Mesmo morando longe (moro em São Bernardo do Campo), tenho ido algumas vezes e conheço algumas pessoas da comunidade e da diretoria, vejo todos em eventos. Se pegarmos o fato de Gamboa ser uma cidade que juntava os excluídos do Rio de Janeiro, onde Dom Obá, com todo o processo de estar junto no Império, e se tornar voz desse povo… acredito que isso tem tudo a ver com a São Miguel. É um bairro afastado do Centro de São Paulo, e isso acaba trazendo a comunidade e a escola para dentro do Anhembi de novo, onde mostraremos esse enredo maravilhoso. A corte dos esfarrapados, quando eles saem em festa e mostram para a corte imperial que eles também são gente e estão ali, tem tudo a ver com o carnaval”, pontuou.
Como representar?
Para o desfile, a setorização da Unidos de São Miguel será bastante simples, buscando a comunicação rápida com o público, de acordo com Callegari. “Como estamos com duas alegorias e não temos uma divisão no meio (não temos um tripé, por exemplo), acabamos não tendo uma divisão de setores de fato. Se dividirmos, temos a ancestralidade africana até a primeira ala, juntamente com o reinado; depois, temos o meio da escola, com o nascimento de Dom Obá, a participação dele na Guerra do Paraguai e todo o envolvimento dele com a corte imperial e com Dom Pedro II; e a parte final é o Baile da Ilha Fiscal, o último de Dom Pedro, quando Dom Obá trouxe o povo de Gamboa, a Pequena África, e trouxe para o baile – alguns dizem que ele invadiu, outros dizem que não. No último carro, a ideia é mostrar a corte imperial se curvando para Dom Obá como o rei, mostrando que o reinado era dele na corte dos esfarrapados”, pontuou
Pouco após a entrevista, Renato Vitorato, presidente da agremiação, apareceu para trazer mais algumas informações. Buchudo, como é popularmente conhecido, antecipou que o final do desfile, na altura do segundo carro, terá uma grande surpresa para o público e para a comunidade. E, por fim, o mandatário destacou que a escola deve vir com cerca de oitocentos componentes.
De volta – e para fincar raízes
Dez anos depois, a agremiação volta a pisar no Anhembi. Após anos disputando grupos da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), entidade que organiza os desfiles de grupos inferiores na pirâmide do carnaval paulistano, a Unidos de São Miguel busca permanecer no principal palco da folia em São Paulo – em um projeto que já está sendo desenvolvido. “Acho que o grande trunfo da escola é o trabalho que está sendo feito de fato. É uma escola que subiu, ficou um bom tempo afastada do Anhembi, subiu com uma estrutura de escola da UESP e chegou ao Acesso II com bastante infraestrutura. As pessoas vão ver com bastante carinho e vão ter que começar a enxergar que a São Miguel veio pra ficar e para fazer um bom desfile e um bom carnaval. A comunidade está animada com o enredo e com o samba, ornou muita coisa, foi muito bacana tudo que aconteceu e vem acontecendo no nosso projeto. Não estamos adiantados no nosso barracão, mas estamos caminhando para que estejamos em um projeto muito bacana dentro do tempo correto para apresentar na avenida”, destacou.
Organização garantida
Durante a entrevista, Callegari aproveitou para elogiar a estrutura garantida pela Liga-SP para escolas dos grupos de acesso I e II, na região da Vila Guilherme, Zona Norte da capital paulista. “O espaço da Fábrica do Samba II é fundamental. Temos tudo aqui guardado, toda a estrutura com teto fechado. Sei que sairei tarde daqui e amanhã cedo chegarei com tudo aqui, sem problema com chuvas ou nada. É uma estrutura extremamente necessária para que a gente consiga colocar o carnaval na avenida no nível está sendo colocado em São Paulo hoje. Não só na Fábrica do Samba II, como na I, também. Falo isso pois vim de um carnaval pequeno, em São Bernardo, onde não tínhamos barracão e ficávamos alugando galpões. Muitas vezes não conseguíamos, porque ninguém queria alugar um espaço por dois ou três meses para desenvolver o carnaval. Esse espaço é fundamental para as escolas”, comemorou, fazendo uma comparação com a já citada cidade em que o carnavalesco reside, que não possui mais desfiles de escolas de samba.
Recados diversos
Falando sobre o trabalhão desenvolvido por ele no barracão da Unidos de São Miguel, Callegari aproveitou para relembrar toda a história que já possui na folia na Grande São Paulo. “Sou muito ativo, sobretudo na parte do trabalho de fato. Trabalho em um banco, e, fora de lá, desenvolvo meu trabalho no carnaval. Também tenho uma outra atividade, uma loja de e-commerce. Pra mim, é tudo muito corrido. Tenho um apoio gigantesco da minha família, que me dá muita força para cumprir com as minhas atividades. Desfilo desde os meus sete anos, trabalho desde os meus catorze em um barracão e sou carnavalesco solo desde 2008, nas escolas de São Bernardo. Tudo vem somando com o tempo, até que eu descobri que o carnaval é uma paixão gigantesca para mim, é um amor muito grande que eu tenho por tudo isso aqui. Não considero o carnaval um trabalho: eu percebi que, se eu trabalho em escolas pelo meu amor e pela minha paixão, eu trabalho muito melhor que se eu fizesse só por dinheiro ou alguma questão financeira”, relembrou.
Por fim, o carnavalesco aproveita para deixar um recado a todos que planejam assistir aos desfiles do Grupo de Acesso II, com entrada franca no Anhembi. “Peço para que todos compareçam no Anhembi e, quem estiver na arquibancada, eu tenho certeza que não vai se arrepender de ver o desfile da Unidos de São Miguel, que vai abrir o carnaval de todo o Brasil, nem mesmo o de nenhuma outra escola. O Grupo de Acesso II vai fazer uma noite maravilhosa, espetacular”, finalizou.


Em 1904, em uma nota de rodapé, o historiador Diogo de Vasconcelos, sem querer, incluiu uma lendária figura no imaginário cultural brasileiro: ele foi o primeiro a citar a história de Francisco Rei, citado no livro “História Antiga de Minas” pela forma que o imortalizaria: Chico Rei. A informação incluída na publicação dava conta que o afrodescendente era rei em uma tribo na atual região do Congo, foi escravizado, veio para o Brasil e conseguiu comprar a alforria própria e de outros companheiros, tornando-se uma figura digna de admiração no interior das Alterosas. Toda a história será revisitada no enredo “Meu Black é de Rei, Minha Coroa é de Chico. Chico Rei Entre Nós”, elaborado pelo carnavalesco Gleuson Pinheiro para a Camisa 12. Atualmente no Grupo de Acesso II, a agremiação será a sétima escola a desfilar no sábado, 03 de fevereiro.
Como já citado, a lenda em torno do personagem surgiu há pouco menos de cento e vinte anos – e, desde então, é muito citado na cultura brasileira. O carnavalesco contou que a ideia de um enredo sobre a lenda veio da própria escola, mas foi recheada com diversas referências – incluindo um dos desfiles de carnaval mais famosos de todos os tempos. Por fim, ele explica qual a grande mensagem que o desfile quer passar. “Quando surgiu a ideia de falarmos do Chico Rei, que veio da diretoria, pensei, logo de cara, que era uma história bastante conhecida. Por outro lado, como enredo, ele passou, como enredo, apenas uma vez em São Paulo. Todos se lembram do desfile histórico do Salgueiro [“Chico Rei”, 1964, vice-campeão], mas é apenas um desfile isolado. É um tema que está na cabeça de todo mundo, mas não tão explorado no carnaval quando comparado com outras temáticas. É uma história que todo mundo conhece um pouco, mas eu prefiro chamar de mito, não de história. A proposta da escola é, desde o início, contar o mito e fazer uma atualização, a escola pensava que tínhamos que falar de uma maneira diferente. Começamos com a história do Chico Rei propriamente dita e conhecida – ao menos a versão mais famosa, já que são algumas versões que existem. Depois disso, temos um conjunto de citações a episódios que poderiam ser interpretados como influenciados pelo Chico Rei, dentro da nossa proposta de enredo. Aí chegamos no encerramento, que tem muita inspiração no documentário ‘Chico Rei Entre Nós’, da Joyce Prado, e da música de mesmo nome, do Emicida. Esse é o mote do enredo: identificar a permanência ou o renascimento a todo tempo, em diversos momentos da história, da população negra e do ativismo negro, como ativismo político e intelectual. Acho que o grande ensinamento e mensagem desse mito é mostrar o poder do que é muitas vezes negado: a competência do negro para traçar estratégias e planos, fazer articulações”, explicou.
Doutorando pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e pesquisador acadêmico, Gleuson comentou que, apesar de ser uma história contada com frequência na cultura popular, há detalhes que o surpreenderam enquanto buscava história e informações do universo do personagem. “A gente tinha essa questão de achar que já conhecíamos a história, como o ponto alto – esconder o ouro no cabelo. Eu não sabia, por exemplo, que uma das versões contadas sobre o Chico Rei diz que tanto a esposa quanto a filha do Galanga (antigo nome dele, antes dele ser batizado) foram assassinadas e jogadas ao mar. Além de transportar o ouro em pó ou em partículas pequenas no cabelo, a organização da irmandade de Nossa Senhora do Rosário, que conseguiram comprar a alforria e construir uma igreja para a santa. É algo muito significativo no cenário de contar a história do negro como uma história limitada ao sofrimento da escravidão. Claro que temos que contar isso, não podemos esquecer. Falo como um homem negro: nossa história não se resume a isso. Queremos, também, passar para os nossos descendentes o orgulho dos nossos heróis, nossa capacidade de planejamento e etc”, pontuou.
Na visão de Gleuson, a comunidade da escola está satisfeita com tudo que foi apresentado – e ele, por sinal, comemora uma característica da agremiação. “A minha impressão é que a comunidade está gostando do enredo, sim. Estou de volta, me sinto muito bem em trabalhar aqui, e a Camisa 12 é uma escola que toca em temas com bastante relevância política – como as homenagens ao professor Milton Santos, a Adoniram Barbosa e aos professores. As atividades, questões sociais e redes sociais mostram que a comunidade está associando e discutindo esse tema, o que é muito positivo”, destacou.
Pouco depois de, superficialmente, comentar como estaria setorizado o desfile, Gleuson aproveitou para trazer mais detalhes sobre cada um deles. “Temos uma divisão que é quase que dividida entre a história propriamente dita do Chico Rei, no primeiro setor, e a atualização desse mito, no segundo e no terceiro. Tem dias que eu, inclusive, acho que temos dois setores, em outros não. Iniciamos com o ambiente em que Galanga foi sequestrado, no reino do Congo. Depois, já tratamos de Galanga batizado como Francisco, em Vila Rica. A história já é conhecida, o ouro no cabelo e a conquista da alforria. Esse setor acaba na construção da igreja de Santa Ifigêna – e aí se encerra Chico Rei coroado. Aí, passamos pela história dele renascendo em momentos da história do Brasil, como eventos histórias depois do século XVIII. Temos o quilombo do Quariterê, comandado por Tereza de Benguela, e outras passagens da história até o século XX, que são lutas pela abolição e até mesmo pós-abolição, pensando na conquista de direitos da população negra. O último setor, o do encerramento, fala da atualidade. Temos a homenagem a personalidades e ativistas negros – como o MNU (Movimento Negro Unificado) e outras entidades”, pontou.
A energia musical que se coloca ao tocar um instrumento numa bateria de escola de samba pode representar exatamente a intensidade que o ouvinte vai perceber o ritmo feito. Não é segredo de ninguém, por exemplo, que testemunhar uma bateria num desfile oficial ou mesmo ensaio técnico na Sapucaí é uma autêntica experiência sensorial.
Com 15 bailarinos e comandada pelo coreógrafo Sérgio Lobato, a comissão de frente tijucana mostrou uma coreografia entrosada e pontuava a letra do samba-enredo em diversos momentos. A equipe também exibiu a boa resistência de seus componentes. Ao lado da esposa, a também coreógrafa Patrícia Salgado, que também auxilia no comando da comissão, Lobato ressalta que para o quesito os ensaios de rua têm o foco de fortalecer a resistência e o entrosamento com os segmentos.
Apesar de ser o primeiro ano de parceria na Unidos da Tijuca, a experiência da porta-bandeira Lucinha Nobre somada ao talento e juventude do mestre-sala Matheus André prometem resultar em um belíssimo carnaval do pavilhão. O samba no pé de Matheus e o bailado de Lucinha, que dançam com muita conexão e sincronia, realçam ainda mais o brilho do quesito.
A contratação de Ito Melodia para o comando do carro de som mais uma vez se mostrou um diferencial para a boa execução do samba. Apesar da escola ainda não estar completa, o crescimento da obra entre os componentes tijucanos é bastante nítido – fruto, também, do trabalho desenvolvido em quadra pela direção de harmonia. Destaque para a ala 19, que seguiu até o fim do ensaio com o samba-enredo na ponta da língua.
O ensaio de rua começou às 21h50 e teve aproximadamente uma hora de duração. Apesar da rua estreita e com uma leve curva em determinado trecho, os componentes conseguiram aproveitar o treino e brincar carnaval. O diretor de harmonia da agremiação, Fernando Costa, ressalta que a evolução da Marquês de Sapucaí é diferente do local de ensaio, mas acredita que eles são importantes para o treino entre bateria e carro de som.
O entrosamento entre a bateria “Pura Cadência” e o carro de som da Unidos da Tijuca parece ser fundamental para a evolução do samba-enredo e seu bom desempenho. A parceria resultou em um verdadeiro show durante o ensaio de rua e contribuiu no fortalecimento do canto da comunidade, que se mostrou alegre. Ao final da apresentação, o intérprete Ito Melodia destacou o trabalho em conjunto da agremiação no ensaio desta quinta-feira.

A Mangueira emitiu um nota de pesar nesta sexta-feira, após a morte Valdir da Silva filho, componente da agremiação que faleceu nesta quinta-feira após passar mal no ensaio da agremiação. A causa da morte do mangueirense não foi divulgada.
Enredos nordestinos estão em alta no carnaval paulistano. Não será diferente com a X-9 Paulistana, que aposta na região do ‘povo arretado’ para voltar aos seus grandes momentos. A bicampeã da Zona Norte ocupou a sétima colocação no Grupo de Acesso I em 2023 e, pela primeira vez, foi rebaixada para o Grupo de Acesso II. A agremiação é conhecida por levar grande contingente de componentes aos seus desfiles. Encarar essa realidade é uma missão um tanto ingrata. Entretanto, com a força deste povo guerreiro somado à paixão da sua comunidade, a ‘Xis’ promete lutar pela reconquista dos seus lugares.
Armando Barboza conta um pouco sobre o enredo e diz que irá focar na parte da arte e principais aspectos culturais da região nordestina. O artista prontamente descartou abranger a política. “Esse enredo é uma ideia da diretoria. Eu faço parte da comissão de carnaval e é uma homenagem à Patativa do Assaré. Não vamos estar falando da parte política e da parte social, mas sim das vitórias, conquistas e logicamente dos lamentos e das alegrias dos nordestinos. O Patativa fala muita em sua obra dessa parte da alegria dos nordestinos de viver em sua arte e do artesanato que nós vamos explorar bastante também. Claro que vamos falar da comida, das suas festas, crenças, mas também dessa batalha. Será um carnaval diferenciado”, explicou.
Chamou atenção esse termo ‘nordestinado’, que não se encontra no dicionário, mas faz parte do título do enredo. Segundo Armando, isso quer dizer que é uma forma de dizer que o povo do nordeste não é o que se fala devido alguns preconceitos. Seria um combate à rótulos negativos. “Essa mensagem da X-9 seria como uma forma das pessoas se dirigirem ao ‘nordestinado’ como uma forma pejorativa, ruim no sentido como o nordestino ser uma pessoa mais preguiçosa. Mas na verdade, não. O sul e sudeste dependem muito da mão de obra deles. Vieram aqui para fazer o trabalho pesado e devem ser valorizados. Então essa palavra cita isso, dizendo que o nordestino não é nada disso que pintam por aí, até como alguns políticos citam a respeito. Mas não é isso. É um povo guerreiro e de vitórias”, declarou.
Como dito acima, enredos nordestinos estão sendo bastante apresentados no Anhembi. Porém, Armando contou que dentro da pesquisa do enredo, a comissão quis fugir do estereótipo e colocar coisas diferentes no desfile. “Foi uma coisa fascinante estar saindo daquela coisa onde muitas escolas falam a respeito, eles falam das mesmas coisas e mesmas homenagens. Estamos saindo um pouco disso e queremos mostrar uma coisa mais artesanal e construída de mão a mão para trazer essa coisa mais artística do nordestino. Estamos em construção para fazer uma coisa muito bonita, muito artesanal e diferente para a escola”, disse.
Patativa de Assaré por vezes foi conhecido como um poeta social. Barboza explica que uma pequena parte disso estará no desfile, mas a ideia mesmo é levar a região para o alto astral, mostrando principalmente sua cultura, mas respondendo algumas ‘tristezas’ que Patativa refletia em seus poemas. “O próprio poema é uma crítica política e social. Ele fala do sofrimento do nordestino, da falta de recursos e do descaso dos políticos com os nordestinos. Isso será falado no último carro, que é o do cordel. Mas a X-9 não quer se aprofundar nisso. Queremos uma resposta a esse lamento do Patativa com alegria, garra e luta. Não vamos explorar essa parte triste, e sim a criatividade, luta e batalha desse povo”, comentou.
Perguntado sobre trunfos e surpresas que a X-9 irá levar para a avenida, Armando disse que a comunidade aguerrida será o combustível para fazer a agremiação da Zona Norte voltar a respirar ares melhores. “Eu acho que o trunfo seria uma reviravolta da X-9 com garra, voltando com perseverança e muito trabalho. Eu poderia estar citando muitas coisas, como alegorias e fantasias, mas eu prefiro citar a garra e a vontade de vencer da X-9 Paulistana. A grande surpresa será com certeza a garra desse povo tão guerreiro, destemido e certo que vai fazer um grande desfile e certo de que vai voltar às grandes escolas do carnaval de São Paulo”, concluiu.
A Beija-Flor de Nilópolis está prestes a comemorar seu 75º aniversário no próximo dia 25. Em homenagem a essa ocasião histórica, o departamento cultural e social da agremiação, em parceria com o Instituto Beija-Flor de Nilópolis, anunciou uma série de eventos significativos para celebrar essa importante data.
O ensaio começou por volta de 21h40, teve uma hora de duração e contou com todos os quesitos. Os componentes desfilavam ao redor da quadra com balões nas cores da agremiação. No repertório, o carro de som cantou sambas que resgatam o passado da escola, como o “Torrão Amado”. O ensaio desta quarta-feira também marcou o retorno do intérprete Emerson Dias, que estava em viagem.
“Já participei de muitos ensaios aqui. É muito especial estar no morro do Salgueiro, onde tudo começou. Ainda mais para a gente, enquanto mestre-sala e porta-bandeira, que tem que trazer toda essa ancestralidade e história. Estar recebendo essa energia no terreiro do Salgueiro faz toda a diferença para o nosso trabalho. Acredito que a importância é trazer a comunidade de volta ao carnaval. O carnaval é do povo, não da elite. A elite é espectadora, mas quem faz o espetáculo acontecer é o povo. Estar dentro da comunidade para trazer o povo faz toda a diferença para o carnaval do Salgueiro”, afirma a porta-bandeira.
Brincar carnaval no Morro do Salgueiro se torna ainda mais especial para quem vive de perto a relação entre comunidade e escola de samba. Tia Glorinha, 77 anos, presidente da ala das baianas, está no segmento há 23 anos e diz que é salgueirense desde a barriga da mãe. Nascida e criada no morro, ela brinca: “Só saio daqui quando Deus quiser”. “Sou a quarta geração de baianas na família. Foi lá em cima que tudo começou. Se nós não valorizarmos, quem é que vai fazer isso? Tem que ter alguma coisa sempre. Isso contribui muito, também, para o nosso futuro”.
“Acredito que o Salgueiro nunca saiu de suas raízes. Temos esse momento aqui, mas a comunidade também desce para a quadra durante o ano inteiro. Sinto que há a necessidade de trazer para cá tudo o que há de melhor e que acontece fora do morro. O Salgueiro sempre teve dentro da quadra motivações para as crianças e adolescentes. Hoje é mais um momento de união. A comunidade precisava de um bom samba e um bom enredo, e agora estamos vendo a retribuição. Com certeza será um carnaval que vai ficar na história da escola”, afirma o carnavalesco.
“É uma energia forte, porque aqui é onde tudo começou. Estamos no meio da nossa comunidade. A energia aqui é diferente. Eu fiquei sem vir por dois anos: 2022, que estava grávida, e no carnaval seguinte, quando o Joaquim (filho) tinha acabado de nascer. É algo surreal e maravilhoso, estou muito feliz”, diz Viviane.
Buscando o fortalecimento das suas pastas, a Superliga Carnavalesca do Brasil acertou a contratação de Cosme Marcio para a Direção de Carnaval e Wagner Vella para a Direção Geral da entidade. Os profissionais, bastante experientes no carnaval, chegam para contribuir com sua expertise dentro da maior festa popular do país para os desfiles na Passarela do Povo.
“A minha expectativa à frente da diretoria é conjugar o binômio trabalho e experiência no carnaval. Quero ressaltar a minha honra em poder contribuir com uma grande instituição como a Superliga, que tem apresentado um trabalho exemplar e reconhecido em prol da base do carnaval carioca. Agradeço ao presidente Pedro Silva pela oportunidade, mantendo o meu compromisso de trabalhar duro, para fazer um lindo carnaval”, diz o novo Diretor Geral da entidade.