Para fechar 2023 com chave de ouro, o Acadêmicos do Salgueiro decidiu subir o morro e celebrar com a comunidade. Na noite desta quarta-feira, a escola realizou na quadra do Raízes da Tijuca seu último ensaio do ano. A apresentação, que contou com o apoio em peso da torcida, também foi marcada pela gravação do clipe oficial da escola de samba para o próximo carnaval. A agremiação voltará aos preparativos do carnaval de 2024 no dia 4 de janeiro, quando vai realizar, na Rua Maxwell, seu primeiro ensaio de rua no ano.

Durante a gestão do presidente André Vaz, o tradicional encontro ocorre pelo menos duas vezes ao ano. Segundo ele, a Academia do Samba vai voltar ao morro, mais uma vez, em janeiro. Para Vaz, ensaiar no Morro do Salgueiro é um compromisso da escola com a comunidade e fortalece a agremiação na busca pela tão sonhada décima estrela.

“É uma importância muito grande. Nós temos esse compromisso com o Morro do Salgueiro para brindar tudo o que aqui ocorreu – a escola nasceu aqui. Este local só traz energias boas para que na virada do ano a gente possa ensaiar com mais gás e empolgação, visando o campeonato. As pessoas vão sentir a energia daqui”, diz o presidente da escola de samba.

O ensaio começou por volta de 21h40, teve uma hora de duração e contou com todos os quesitos. Os componentes desfilavam ao redor da quadra com balões nas cores da agremiação. No repertório, o carro de som cantou sambas que resgatam o passado da escola, como o “Torrão Amado”. O ensaio desta quarta-feira também marcou o retorno do intérprete Emerson Dias, que estava em viagem.

Com mais de uma década de Vermelho e Branco, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei Santos e Marcella Alves, acredita que ir ao Morro do Salgueiro representa o resgate da ancestralidade da escola. Para Marcella, voltar às origens é devolver o carnaval à comunidade.

“Já participei de muitos ensaios aqui. É muito especial estar no morro do Salgueiro, onde tudo começou. Ainda mais para a gente, enquanto mestre-sala e porta-bandeira, que tem que trazer toda essa ancestralidade e história. Estar recebendo essa energia no terreiro do Salgueiro faz toda a diferença para o nosso trabalho. Acredito que a importância é trazer a comunidade de volta ao carnaval. O carnaval é do povo, não da elite. A elite é espectadora, mas quem faz o espetáculo acontecer é o povo. Estar dentro da comunidade para trazer o povo faz toda a diferença para o carnaval do Salgueiro”, afirma a porta-bandeira.

Já para o mestre-sala Sidclei Santos, o ensaio é marcado não só pela ancestralidade, mas, também, pela emoção. “É uma emoção única. Quando chegamos aqui, pegamos aquele axé dos ancestrais que aqui estiveram. Eu falo emocionado, porque não peguei aquela época, mas parece que a gente revive isso. A torcida e os componentes acabam sentindo isso, que se torna um axé a mais para o Salgueiro. É algo que já virou tradição”.

Brincar carnaval no Morro do Salgueiro se torna ainda mais especial para quem vive de perto a relação entre comunidade e escola de samba. Tia Glorinha, 77 anos, presidente da ala das baianas, está no segmento há 23 anos e diz que é salgueirense desde a barriga da mãe. Nascida e criada no morro, ela brinca: “Só saio daqui quando Deus quiser”. “Sou a quarta geração de baianas na família. Foi lá em cima que tudo começou. Se nós não valorizarmos, quem é que vai fazer isso? Tem que ter alguma coisa sempre. Isso contribui muito, também, para o nosso futuro”.

Já o carnavalesco Edson Pereira ressalta que a agremiação possui diversos projetos voltados para a comunidade, e isso mantém o elo entre o Salgueiro e suas origens. Para ele, o bom momento com o chão da escola é uma retribuição do grande carnaval que a Vermelho e Branco promete levar para a Marquês de Sapucaí.

“Acredito que o Salgueiro nunca saiu de suas raízes. Temos esse momento aqui, mas a comunidade também desce para a quadra durante o ano inteiro. Sinto que há a necessidade de trazer para cá tudo o que há de melhor e que acontece fora do morro. O Salgueiro sempre teve dentro da quadra motivações para as crianças e adolescentes. Hoje é mais um momento de união. A comunidade precisava de um bom samba e um bom enredo, e agora estamos vendo a retribuição. Com certeza será um carnaval que vai ficar na história da escola”, afirma o carnavalesco.

Há 15 anos como rainha de bateria da Academia do Samba, Viviane Araújo conhece bem as origens da agremiação. De volta ao ensaio no morro após dois anos longe, por conta da gestação, ela também enfatiza o clima proporcionado pela conexão entre Salgueiro e comunidade.

“É uma energia forte, porque aqui é onde tudo começou. Estamos no meio da nossa comunidade. A energia aqui é diferente. Eu fiquei sem vir por dois anos: 2022, que estava grávida, e no carnaval seguinte, quando o Joaquim (filho) tinha acabado de nascer. É algo surreal e maravilhoso, estou muito feliz”, diz Viviane.

Com o apoio do torcedor e a força de seu chão, em 2024 o Acadêmicos do Salgueiro levará para a Marquês de Sapucaí o enredo “Hutukara”, do carnavalesco Edson Pereira, e será a terceira agremiação a desfilar no domingo de carnaval.