Apesar de um pouco comemorado sétimo lugar no carnaval carioca do ano 2000, a Estação Primeira de Mangueira jogou luz em um personagem pouco conhecido da história brasileira: o principal homenageado no desfile era Cândido da Fonseca Galvão, popularmente conhecido como Dom Obá, neto de Abiodum, chefe do Império de Oió. Militar, o personagem em questão ganhou notoriedade no Exército durante a Guerra do Paraguai – e, retornando à então capital federal, tornou-se amigo pessoal de ninguém mais, ninguém menos que D. Pedro II. Quase um quarto de século depois, a figura será novamente homenageada no carnaval no dia 03 de fevereiro, pela Unidos de São Miguel, primeira escola a desfilar no Grupo de Acesso II, com o enredo “Um príncipe negro na corte dos esfarrapados”.

Para verificar quais fatos serão contados sobre Dom Obá, o CARNAVALESCO visitou o barracão da escola do Extremo Leste paulistano e fez uma entrevista exclusiva com o carnavalesco Alexandre Callegari, que assina o desfile juntamente com Natanael Serra – afastado por motivos de saúde.

Inspiração na Mangueira?

Para muitos que acompanham carnaval, a primeira lembrança em relação ao personagem em questão é o já citado desfile da verde-e-rosa carioca. Para tentar se diferenciar da apresentação carioca, o profissional da Unidos de São Miguel fez uma escolha curiosa – o que ocasionou ao menos uma diferença bastante grande entre as duas exibições. “A minha grande surpresa foi, de fato, conhecer Dom Obá. Eu, particularmente, não o conhecia. Por mais que a Mangueira já tivesse feito um enredo dele lá atrás, eu, particularmente, não o conhecia. Comecei a fazer a pesquisa e, então, cheguei ao desfile da verde-e-rosa. Lembrei do desfile quando comecei a pesquisar, mas acabei não assistindo, até… não tive referência nenhuma dele. Lógico que ficamos com o samba na cabeça, mas acabei fazendo isso para não ter um sentimento de cópia ou de identidade com o enredo deles de fato. Por mais que seja um enredo que seja contado basicamente da mesma forma, já que se trata da mesma pessoa, ele pode estar sendo contado de uma maneira diferente. Tanto que, no desfile da Estação Primeira, os esfarrapados vêm na comissão de frente; no nosso, eles virão no final. Trago a parte do reinado africano na frente, por exemplo. Nesse sentido, portanto, ele está diferente”, pontuou.

A carnavalização do personagem na Tricolor do Extremo Leste buscará contar toda a existência de Cândido da Fonseca Galvão – com uma única exceção, na visão do carnavalesco. “A gente buscou trazer a vida de Dom Obá como um todo. Não vamos trazer pautado: embora esteja cronológico, não traremos a infância dele, por exemplo. Já traremos toda a parte do reinado africano, que é onde a cidade onde o avô dele era rei. O pai dele vem para o Brasil e ele nasce em Lençóis, na Bahia – e, aqui, ele se intitula príncipe. Traremos essa ancestralidade africana na avenida. Da segunda ala para frente, contaremos a vida dele, basicamente: já praticamente no Império, com todo o relacionamento dele com Dom Pedro II e como ele se torna o príncipe dos esfarrapados, como conta o nome do enredo”, explicou – já contando o apelido do homenageado.

Representação de uma comunidade engajada

Ao ser perguntado sobre o quanto a comunidade da agremiação, majoritariamente de um bairro que está localizado a longínquos vinte e oito quilômetros da Praça da Sé (marco zero de São Paulo), em uma viagem que costuma levar mais de uma hora de carro, Callegari destacou o quanto os componentes se identificaram com o enredo desenvolvido. “Eu estou indo em alguns ensaios, participo do cotidiano da quadra, já fiz algumas reuniões lá. Mesmo morando longe (moro em São Bernardo do Campo), tenho ido algumas vezes e conheço algumas pessoas da comunidade e da diretoria, vejo todos em eventos. Se pegarmos o fato de Gamboa ser uma cidade que juntava os excluídos do Rio de Janeiro, onde Dom Obá, com todo o processo de estar junto no Império, e se tornar voz desse povo… acredito que isso tem tudo a ver com a São Miguel. É um bairro afastado do Centro de São Paulo, e isso acaba trazendo a comunidade e a escola para dentro do Anhembi de novo, onde mostraremos esse enredo maravilhoso. A corte dos esfarrapados, quando eles saem em festa e mostram para a corte imperial que eles também são gente e estão ali, tem tudo a ver com o carnaval”, pontuou.

Como representar?

Para o desfile, a setorização da Unidos de São Miguel será bastante simples, buscando a comunicação rápida com o público, de acordo com Callegari. “Como estamos com duas alegorias e não temos uma divisão no meio (não temos um tripé, por exemplo), acabamos não tendo uma divisão de setores de fato. Se dividirmos, temos a ancestralidade africana até a primeira ala, juntamente com o reinado; depois, temos o meio da escola, com o nascimento de Dom Obá, a participação dele na Guerra do Paraguai e todo o envolvimento dele com a corte imperial e com Dom Pedro II; e a parte final é o Baile da Ilha Fiscal, o último de Dom Pedro, quando Dom Obá trouxe o povo de Gamboa, a Pequena África, e trouxe para o baile – alguns dizem que ele invadiu, outros dizem que não. No último carro, a ideia é mostrar a corte imperial se curvando para Dom Obá como o rei, mostrando que o reinado era dele na corte dos esfarrapados”, pontuou

Pouco após a entrevista, Renato Vitorato, presidente da agremiação, apareceu para trazer mais algumas informações. Buchudo, como é popularmente conhecido, antecipou que o final do desfile, na altura do segundo carro, terá uma grande surpresa para o público e para a comunidade. E, por fim, o mandatário destacou que a escola deve vir com cerca de oitocentos componentes.

De volta – e para fincar raízes

Dez anos depois, a agremiação volta a pisar no Anhembi. Após anos disputando grupos da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), entidade que organiza os desfiles de grupos inferiores na pirâmide do carnaval paulistano, a Unidos de São Miguel busca permanecer no principal palco da folia em São Paulo – em um projeto que já está sendo desenvolvido. “Acho que o grande trunfo da escola é o trabalho que está sendo feito de fato. É uma escola que subiu, ficou um bom tempo afastada do Anhembi, subiu com uma estrutura de escola da UESP e chegou ao Acesso II com bastante infraestrutura. As pessoas vão ver com bastante carinho e vão ter que começar a enxergar que a São Miguel veio pra ficar e para fazer um bom desfile e um bom carnaval. A comunidade está animada com o enredo e com o samba, ornou muita coisa, foi muito bacana tudo que aconteceu e vem acontecendo no nosso projeto. Não estamos adiantados no nosso barracão, mas estamos caminhando para que estejamos em um projeto muito bacana dentro do tempo correto para apresentar na avenida”, destacou.

Organização garantida

Durante a entrevista, Callegari aproveitou para elogiar a estrutura garantida pela Liga-SP para escolas dos grupos de acesso I e II, na região da Vila Guilherme, Zona Norte da capital paulista. “O espaço da Fábrica do Samba II é fundamental. Temos tudo aqui guardado, toda a estrutura com teto fechado. Sei que sairei tarde daqui e amanhã cedo chegarei com tudo aqui, sem problema com chuvas ou nada. É uma estrutura extremamente necessária para que a gente consiga colocar o carnaval na avenida no nível está sendo colocado em São Paulo hoje. Não só na Fábrica do Samba II, como na I, também. Falo isso pois vim de um carnaval pequeno, em São Bernardo, onde não tínhamos barracão e ficávamos alugando galpões. Muitas vezes não conseguíamos, porque ninguém queria alugar um espaço por dois ou três meses para desenvolver o carnaval. Esse espaço é fundamental para as escolas”, comemorou, fazendo uma comparação com a já citada cidade em que o carnavalesco reside, que não possui mais desfiles de escolas de samba.

Recados diversos

Falando sobre o trabalhão desenvolvido por ele no barracão da Unidos de São Miguel, Callegari aproveitou para relembrar toda a história que já possui na folia na Grande São Paulo. “Sou muito ativo, sobretudo na parte do trabalho de fato. Trabalho em um banco, e, fora de lá, desenvolvo meu trabalho no carnaval. Também tenho uma outra atividade, uma loja de e-commerce. Pra mim, é tudo muito corrido. Tenho um apoio gigantesco da minha família, que me dá muita força para cumprir com as minhas atividades. Desfilo desde os meus sete anos, trabalho desde os meus catorze em um barracão e sou carnavalesco solo desde 2008, nas escolas de São Bernardo. Tudo vem somando com o tempo, até que eu descobri que o carnaval é uma paixão gigantesca para mim, é um amor muito grande que eu tenho por tudo isso aqui. Não considero o carnaval um trabalho: eu percebi que, se eu trabalho em escolas pelo meu amor e pela minha paixão, eu trabalho muito melhor que se eu fizesse só por dinheiro ou alguma questão financeira”, relembrou.

Por fim, o carnavalesco aproveita para deixar um recado a todos que planejam assistir aos desfiles do Grupo de Acesso II, com entrada franca no Anhembi. “Peço para que todos compareçam no Anhembi e, quem estiver na arquibancada, eu tenho certeza que não vai se arrepender de ver o desfile da Unidos de São Miguel, que vai abrir o carnaval de todo o Brasil, nem mesmo o de nenhuma outra escola. O Grupo de Acesso II vai fazer uma noite maravilhosa, espetacular”, finalizou.