Mangueira é uma mãe, e a criança é o seu amanhã, Alcione vem coroada em um palácio verde e rosa e cercada de crianças
Sentada no seu devido trono, de rainha mangueirense, Alcione atravessou a Sapucaí, cercada de crianças, no carro “Meu Palácio tem Rainha”. O desfile da Estação Primeira de Mangueira, em homenagem à Marrom, foi encerrado com o carro inspirado na canção “Mangueira é uma Mãe”, representando a própria trajetória de Alcione na escola, sendo esta uma filha que não nasceu no morro, mas que foi acolhida como parte da comunidade. Como uma mãe, ampara que os seus frutos e busca desenvolver o Amanhã através de sua cultura e tradições do samba.
Alcione foi fundadora da Mangueira do Amanhã, a escola mirim, além de que sempre foi muito envolvida socialmente com a escola, promovendo diversas ações sociais com as crianças do morro.
No carro em que a homenageada veio, radiante e com uma coroa na cabeça, as crianças estavam em volta dela, além de esculturas que representavam crianças. O carro era um grande palácio verde e rosa e brilhante, um típico castelo de contos infantis. A essência da Mangueira estava naquela alegoria, as crianças simbolizavam o amanhã da Mangueira. Foi nesse palácio que as crianças contaram ao site CARNAVALESCO a emoção de desfilar ao lado da grande homenageada da Mangueira.
“Ai, meu coração está batendo tão forte e eu estou sentindo que eu vou chorar também, perto de uma deusa dessas! Ai, eu estou nervosa, eu vou chorar muito. Eu adoro as unhas dela”, disse a Dara Lima, de 9 anos e componente da Mangueira do Amanhã.
O Adriano Silva, de 12 anos, veio em cima do carro da Alcione representando o Serginho do Pandeiro, passista ilustre da Verde e Rosa que faleceu em novembro do ano passado.
“A sensação de estar aqui é muito boa, estou achando tudo maneiro, legal e divertido. Estou imitando o Sérgio do Paneiro, é a minha primeira vez na Mangueira, mas na Mangueira do Amanhã já foram várias”, contou o garoto.
“Ai, eu estou um pouco nervosa, pois eu gosto muito da Alcione e é a minha primeira vez na Mangueira, eu amo a música dela, ouço desde criança”, contou Dora Andrade, de 17 anos.
A Pérola Negreiros, também componente da Mangueira do Amanhã, que desfilou no carro ao lado de suas duas primas, a felicidade do momento era imensa.
“Ai, gente, eu estou muito feliz. É tanta emoção que eu estou sentindo que eu vou chorar. Sempre ouvi Alcione em casa. A minha música favorita é aquela que virou moda no TikTok, mas tem que me prender, tem que seduzir, adoro essa”, contou Peróla.
Saudando o Divino Espírito Santo, baianas da Mangueira representaram elo entre Alcione a mãe
Trazendo a fantasia “A crença no Espírito Santo”, as baianas da Mangueira desfilaram pela Sapucaí fazendo uma referência a ligação de Alcione, a grande homenageada da verde e rosa, com sua mãe e com as práticas religiosas e populares do Maranhão. A representação mais popular da terceira pessoa da Trindade, a forma de uma pomba branca, foi um dos destaques da fantasia, que estava em tons de branco e dourado, para exaltar o Divino. Além do símbolo na saia das mães do samba da Mangueira, haviam detalhes que remetiam aos raios normalmente encontrados na representação do Espírito Santo aqui no Brasil, conforme explicou a escola. Além disso Mayra Aleta, de trinta e nove anos gostou muito do figurino deste ano, ressaltando a leveza: “Absolutamente espetacular, representa nossa alma, nossa alma de guerreira e eu acho que é isso que a gente vem com esse espírito de brilhar muito na avenida e ela tá leve pra gente brincar e fazer um belíssimo carnaval”. A baiana, que está na Verde e Rosa desde 2017, gostou muito da saia deste ano: “Definitivamente meu destaque foi essa saia branca e dourada que eu achei um arraso”.
Silvinha Poderosa, baiana da escola há dezesseis anos, se maravilhou com a fantasia, ressaltando o significado da mesma: “Não tá pesada, pelo menos pra mim. Tá bem confortável e, assim, nós somos o divino Espírito Santo e o divino Espírito Santo ajuda a gente em tudo, tudo nessa vida”. Moradora de Petrópolis, a baiana de cinquenta e dois anos gostou muito da fantasia ter vindo bem completa e leve: “Amei a fantasia toda. Eu acho que ela tá completa, tá lindíssima, maravilhosa. Falar de Mangueira, meu amor, meu coração é Verde e Rosa. Então, assim, eu acho que o amor maior nem deixa a fantasia pesar”.
“Olha, ela está lindíssima, eu achei que a gente fosse ter algum problema porque ela tem muitos acessórios, mas não, está linda e está suportável, está muito linda, acho que a Mangueira tem tudo para ganhar um dez na ala de baianas”, se divertiu Nina Amaceto, de sessenta e quatro anos, que há cinco desfila como baiana na escola. Ela gostou muito da relação da fantasia com o sagrado: “Eu gostei daqui, tem umas pombas. Elas representam o Espírito Santo, e aí vem com mais umas pombas aqui, que eu achei assim Divino mesmo”.
Freddy Ferreira analisa a bateria da Vila Isabel no desfile
Um ótimo desfile da bateria “Swingueira de Noel” da Unidos de Vila Isabel, comandada por mestre Macaco Branco. Uma conjunção sonora de destaque foi exibida. Com equilíbrio, boa equalização e um andamento bastante confortável, é possível dizer que houve uma fluência rítmica absoluta entre todas as peças do ritmo da Vila, garantindo um desempenho acima da média na Sapucaí.
Na parte de trás do ritmo da Vila, uma afinação de surdos preciosa foi percebida. Bem pesada e inserida no DNA musical da bateria da Vila Isabel. Marcadores de primeira e de segunda foram firmes e precisos. Surdos de terceira eficientes e sólidos contribuíram ao ritmo. As caixas de guerra com toque reto estiveram impecáveis, enquanto taróis com a genuína levada de partido alto foram primorosos, ressoando por toda a pista. Complementando de forma luxuosa os médios, um trabalho estupendo do naipe de repiques merece exaltação. Fazendo ritmo os repiques foram coesos, mas os solistas durante as bossas foram simplesmente espetaculares.
Na cabeça da bateria da Vila, um naipe de cuícas privilegiado se exibiu com segurança. Uma ala de chocalhos bastante poderosa tocou interligada a um naipe de tamborins de imensa profundidade técnica. Pela Avenida, os tamborins da Unidos de Vila Isabel pareciam um só tocando, de tanta coesão e pulsação rítmica semelhante.
Bossas extremamente ligadas ao histórico samba da escola do bairro de Noel conduziram a musicalidade da “Swingueira”. Os arranjos musicais, praticamente intuitivos, ajudaram a impulsionar a obra de Martinho da Vila e embalar os componentes tanto em canto, como em evolução e dança. Mesmo simples, as paradinhas se mostraram funcionais e práticas, conduzindo apresentações firmes em julgadores.
Na primeira cabine (módulo duplo), uma apresentação de inegável qualidade foi feita, com fluência entre os naipes e bossas precisas. Já na segunda cabine, outra exibição enxuta e consistente foi realizada. No último módulo, mais uma apresentação segura e eficiente, mesmo com as caixas de som próximas ao julgador estando ligadas e com volume elevado. Um desfile que demonstrou disciplina musical da bateria da Vila Isabel, o que impactou em equilíbrio sonoro e boa fluência entre naipes, com um andamento cadenciado. Um grande desfile da bateria da Vila, dirigida por mestre Macaco Branco.
Reedição de ‘Gbalá’ conduz Vila Isabel a desfile impecável, com canto explosivo e comissão de frente emocionante que credenciam escola ao título
Por Luan Costa e fotos de Nelson Malfacini
A Unidos de Vila Isabel foi a terceira escola a passar pela avenida na noite de desfiles do Grupo Especial. Conduzida pela força e emoção da reedição de Gbala, a escola entrou na avenida com uma sucessão de quesitos bem defendidos e entrou na briga pelo campeonato. A força do enredo se provou a medida que a escola avançou na Sapucaí, assim como samba atemporal de Martinho da Vila que foi defendido com valentia pela comunidade, o início do desfile foi avassalador, emocionante e impactou o público presente. A comissão de frente trouxe a figura de Oxalá, o criador da humanidade, e as crianças, que representam a esperança deste mundo. Porém, o grande destaque da noite foi a técnica de desfile aliado a um canto explosivo. O único senão ficou por conta de falhas no efeito de luzes durante apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira.

Apresentando o enredo “Gbala – Viagem ao Templo da Criação”, desenvolvido pelo carnavalesco Paulo Barros, a azul e branca recontou a história ancestral sobre a esperança de Oxalá pelas crianças. A agremiação terminou sua apresentação com 68 minutos.
Comissão de Frente
A comissão de frente coreografada pela dupla Alex Neoral e Márcio Jahú foi intitulada “Pra salvar a geração, só esperança e muito amor!”. A apresentação foi repleta de emoção, bom gosto visual, surpresas e utilização excepcional da luz cênica da Sapucaí. O enredo foi sintetizado de maneira exemplar, a apresentação expôs as mazelas do mundo, trouxe a representação de Oxalá e as crianças que são a esperança.

O início foi marcado pela presença de Oxalá doente e perturbado por aqueles que insistem em destruir, uma criança, que representou todas as crianças do mundo, encontrou Oxalá sendo perturbado por esses seres destrutivos e, através da sua inocência e do seu amor, livra o criador de seus algozes. Os emissários da destruição abandonam seu caminho, dando espaço ao florescer da criança. Todas as apresentações mexeram com o público, que foi ao êxtase com a presença das crianças.

Mestre-sala e Porta-bandeira
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas inovaram mais uma vez na Sapucaí, se no ano passado houve uma troca de roupa em frente aos jurados, no desfile desta noite, eles utilizaram uma fantasia com leds, eles iniciaram a apresentação com efeitos de iluminação que mostraram como a desordem está se sobrepondo à humanidade e à criação de Oxalá.

Porém, durante a apresentação, essa desordem foi substituída por uma iluminação dotada de poder e energia, passando, assim, a reproduzir uma espécie de centelha da esperança. A mudança de cor foi o ponto alto da apresentação, porém, um problema técnico fez com que a calça de Marcinho passasse apagada pelos setores seis e 10. A dança dosou a intensidade de Marcinho, com a delicadeza de Cris, a dupla, em plena sintonia, passou pela avenida com muito vigor e movimentos arriscados, mas que foram bem executados, como a pegada de bandeira invertida realizada pelo mestre-sala.

Enredo
A Vila Isabel levou para avenida a reedição do enredo “Gbala – Viagem ao Templo da Criação”, originalmente concebido em 1993 por Oswaldo Jardim, dessa vez teve a assinatura de Paulo Barros. O enredo contou uma história ancestral na Sapucaí, de fácil entendimento e com leitura clara, ele foi pautado sob a ótica das religiões de matriz africana: no início do tempo, o deus supremo Olorum delegou para o seu assistente Oxalá que ele criasse os homens. O mundo precisava de alguém que pudesse zelar por essa criação pelo mundo, como a gente conhece: as folhas, as plantas, os animais e as águas do mar. Mas, depois de algum tempo, o homem passou a tratar mal aquilo que ele deveria cuidar. Os orixás reuniram crianças de todo mundo para que elas pudessem ir ao templo da criação.

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Alegorias e Adereços
O carnavalesco Paulo Barros derramou novamente toda sua criatividade e talento na concepção do conjunto alegórico da azul e branca, ao todo, foram para a avenida seis alegorias e dois tripés, todas as características que fizeram do carnavalesco uma referência no quesito estiveram presentes nos carros da Vila, criatividade, surpresas, efeitos cênicos, elementos humanos, tudo contribuiu para a excelência visual.

O primeiro tripé apresentou o título do enredo e o símbolo da Unidos de Vila Isabel, a alegoria que abriu os caminhos foi intitulada “Quando acaba a criação, desaparece o criador”, ela retratou o caos e a ganância, dividido em dois chassis, o carro impactou ao simular um incêndio em plena avenida. A segunda alegoria, “E a inocência entrou no templo da criação…”, a alegoria apresentou alguns seres fantásticos habitantes do Templo. Na sequência, o tripé “O mundo fantástico das águas” transportou o público para o fundo mar, ao maior estilo Paulo Barros, uma grande baleia se movimentada no centro tripé e peixes adornavam, causando um ótimo efeito.

A terceira alegoria, “A natureza e seus encantos”, teve referência ao filme Moana. A alegoria que retratou a criação do homem foi aguardada por todos e entregou um ótimo conceito na avenida, sem componentes, o carro foi todo preenchido por manequins. O penúltimo carro, “Omolu – O valor da cura do corpo e do espírito” trouxe componentes coreografados encenando um ritual de cura e saúde com passos característicos do orixá. Para finalizar, a escola apresentou o carro “O sagrado batismo”, representou o sagrado batismo das crianças nas águas do Templo da Criação.

Fantasias
A Vila Isabel levou para a avenida 28 alas, característica de Paulo Barros, a fácil leitura dos figurinos foi mais uma vez observada, assim como efeitos especiais, como o visto na ala de abertura, “Fogo que Devasta as Florestas”, em que os componentes carregavam leques que simulavam a chama. Em detrimento do luxo, as fantasias da escola priorizam materiais alternativos, mas que em nada tirou o brilho do conjunto. A fantasia “Terra, Planeta Lixo”, “Cavalos Marinhos” e “Estrutura Muscular” são exemplos do uso de materiais que fizeram com que a leitura fosse clara.

Harmonia
Se existia alguma dúvida de que o samba reeditado de 1993 seria capaz de levar a comunidade a ter um canto explosivo neste carnaval, a resposta veio logo nos primeiros versos entoados pelo intérprete Tinga. O ritmo inicial foi avassalador, a escola entrou na avenida demonstrando um vigor impressionante, ao longo do cortejo o que se viu foi uma escola extremamente feliz, com o samba na ponta da língua e cantando com intensidade. A bateria “Swingueira de Noel” teve a missão de fazer com que o samba atendesse as características atuais de desfile e fez com maestria, a tão elogiada parceria com o carro de som comandado por Tinga mostrou mais uma vez que segue intacta.

Samba-Enredo
A obra original de Martinho da Vila tinha um grande desafio neste carnaval, apesar de ser um clássico do carnaval carioca, a reedição do mesmo poderia ser um risco, visto que o quesito samba-enredo mudou ao longo dos anos, porém, a avenida teve o prazer de presenciar novamente o hino imortalizado desta vez na voz de Tinga. Por ser um samba mais curto, havia o temor de que ele pudesse cansar, visto que a repetição seria maior, na verdade, a obra passou de forma avassaladora e mostrou que é atemporal.

Evolução
A Vila Isabel passou pela avenida tecnicamente perfeita, do início ao fim foi um desfile sem erros, a escola passou pela avenida com muita desenvoltura e organização, as alas, em sua totalidade estavam muito compactas e os componentes evoluíram com extrema organização, mas sem perder a espontaneidade. O único senão ficou por conta de um espaço maior que o normal em frente a bateria durante a apresentação da mesma no setor três.

Outros Destaques
A rainha de bateria Sabrina Sato veio representando a corrente sanguínea, a apresentadora que possui enorme identificação com a comunidade da Vila passou pela avenida aclamada pelo público.
Mangueirenses relatam emoção em homenagem para Alcione
Atravessar a Sapucaí homenageando uma baluarte do Brasil já é emocionante, quando essa baluarte é também da sua escola, a emoção transborda e haja concentração. Os componentes da Mangueira contaram ao site CARNAVALESCO a emoção de homenagear Alcione em vida e a relação de cada um com sua obra.
A voz de diversas canções de amor que emociona o Brasil há décadas, Alcione é uma unanimidade artística, todos conhecem ou, ao menos, sabem cantarolar um refrão da Marrom. Com os componentes do desfile da Mangueira, não é diferente.
Para a Cristiane Tuti, que está estreando na Sapucaí e tem ‘Meu Ébano” como música favorita da Alcione, a emoção de pisar na Sapucaí pela primeira vez e homenageando a cantora, é dobrada:
“Eu sou paraense, sou nordista, moro no Rio de Janeiro há 23 anos, mas é a primeira vez que eu vou desfilar na Sapucaí. Então a emoção é dobrada, estando com a Marrom e na Sapucaí pela primeira vez, eu espero que eu seja pé quente para ela. Estou com a expectativa 100%, extremamente nervosa, mas a escola está muito bonita, está muito alegre. E homenagear a Marrom é sempre muito especial. Então eu espero que realmente a gente venha com o pé quente e a gente leve esse título junto com a Marrom para a Mangueira”.
A Elma Prudencio quase desistiu de desfilar este ano, mas quando descobriu que a Alcione seria enredo, ela logo se rematriculou na ala e veio desfilar.
“Ah, eu amo a Alcione. Eu amo todas as músicas dela. Eu vivo ouvindo a Alcione. Eu ia desistir, não ia desfilar esse ano. Mas quando falou da homenagem a Alcione, eu decidi imediatamente renovar a matrícula e estar aqui hoje. Estou com muita expectativa para a vitória da escola, porque as escolas que passaram ontem, só duas que achei que desfilou direitinho. Então eu acho que a Mangueira vai ganhar com a Alcione, a minha loba, minha música favorita dela”, disse a doméstica de 65 anos.
“Estar aqui hoje, com esse enredo, é tudo de bom, porque a Alcione é um ícone dentro da nossa escola, é uma força maior, é uma mulher empoderada, e isso nos faz refletir, que não é cor, mas sim atitude. Então a minha expectativa é a melhor possível, já que estamos aqui para isso, defender não somente a verde e rosa, mas a pessoa que é a Alcione, ou seja, a gente vai homenagear alguém que já nos homenageia há muito tempo. É uma retribuição”, disse a comerciária Eliane Nascimento, de 61 anos, que tem “A Loba” como música favorita da cantora homenageada.
Para o componente do abre-alas, Glauco Mendes, de 30 anos, estar presente nesta homenagem em vida para a Alcione é um misto de sensações.
“Nesse exato momento, o meu coração não sabe se pula, se para, se grita, se chora, é uma emoção tremenda. A Mangueira é uma escola de tradição, uma escola onde eu tenho família, uma escola onde eu tenho amigos, parentes, irmãos, uma escola que me acolheu. Eu sou mega fã da Mangueira e falar da Alcione é brabo. Não tem aquele que não chore com a Alcione, já chorei muito ouvindo “Uma Nova Paixão”, disse o profissional do samba.
Com problemas sociais atuais, abre-alas da Vila Isabel retratou o adoecimento do criador
Com o enredo “Gbalá – Viagem ao templo da criação!”, a Unidos de Vila Isabel foi a terceira agremiação a desfilar na Marquês de Sapucaí na noite desta segunda-feira de Carnaval. O abre-alas da escola foi batizado de “Quando acaba a criação, desaparece o criador”. Dividido em dois chassis, ele retratou o caos do mundo em meio aos problemas sociais e ambientais que, no contexto do enredo, adoecem Oxalá.
Ao topo da primeira parte, magnatas de diversos setores da elite celebravam um farto banquete, enquanto na plataforma inferior, os pobres estavam em meio ao acúmulo de lixo excessivo – os restos – produzidos por quem estava acima. A abertura marcou o início e o tema central do samba-enredo de Martinho da Vila, como explica o carnavalesco Paulo Barros.
“O samba descreve que Oxalá está doente porque a sua criação adoeceu. O abre-alas retrata alguns dos males do planeta, mostrando o porquê do planeta estar doente. O material dele é uma base extremamente trabalhada para o sentido carnavalesco. Em resumo, é o ambiente de Oxalá, mas que está meio desgastado – já que no nosso enredo ele está adoentado. É um problema social, que é o rico e o pobre em meio a essa desigualdade – não só do Brasil, mas no mundo inteiro. E isso também causa o desgaste da natureza”, explica Paulo Barros.
No topo da pirâmide, o ator e circense Vinícius Daumas, 50 anos, representou um empresário do agronegócio em meio ao farto jantar. Segundo ele, a alegoria destacou o topo da pirâmide social brasileira e levou para a avenida uma crítica fundamentada no samba e no enredo.
“É um grande jantar, que tem pessoas do agronegócio, empresariado, milionários – os magnatas lá no topo. Enquanto a elite está lá em cima jantando, quem está embaixo come os restos. Iniciamos o desfile mostrando para a sociedade o que fizemos com o nosso mundo e o adoecimento de Oxalá em vista do que a sua criatura fez com a humanidade. O Paulo Barros foi genial, porque já começa o desfile dando um ‘soco no estômago”, disse Vinícius.
Já o segundo chassi da alegoria retratou os danos ao meio ambiente, como a floresta em chamas – um dos motivos para o adoecimento do criador. Na parte de trás do carro, os contornos de uma fábrica simbolizavam os impactos causados pelo consumo desenfreado. Composição do chassi, a influenciadora digital Anna Retonde, 25 anos, representou o fogo das queimadas.
“Representa um mundo ainda triste, perdido e marcado pela desigualdade social. Nós somos a chama desse fogo que queima a floresta. No topo, as pessoas com muito dinheiro. O conjunto mostra o mundo ainda triste e a alegoria está muito linda e retratou muito bem esse início do enredo”, contou.
Comunidade da Vila Isabel exalta trabalho de Paulo Barros
O carnavalesco Paulos Barros apresentou, nesta segunda-feira (12), no segundo dia de desfiles do Grupo Especial do Rio, mais um Carnaval com a Unidos de Vila Isabel. O artista refez seu enredo de 1993, denominado “Gbala – Viagem ao Templo da Criação”, realçando o importante papel das crianças para criar um futuro melhor.
“O Paulo capricha muito nos desfiles que ele produz para a Vila”, avaliou Rosane Guimarães, ela desfila na agremiação há 16 anos e defende o artista: “O trabalho está lindo. precisamos focar nas crianças, é preciso educar, é preciso dar conhecimento para que a gente tenha um país sem preconceito, sem racismo, sem sexismo, longe de todas essas mazelas que a gente vem sofrendo ao longo dessas últimas gerações”
A narrativa retoma uma antiga lenda, interpretada pelas lentes das religiões de matriz africana, onde Olorum, a entidade máxima, confia a Oxalá a tarefa de moldar os seres humanos nas origens do mundo. Essa nova criação demandava cuidadores para suas belezas naturais, tais como a flora, a fauna e os oceanos.
“Eu estou muito feliz com o trabalho. Acho que a gente vai alcançar um bom resultado, com um enredo muito claro, muito didático e eu estou muito feliz com isso”, avaliou o carnavalesco da escola.
A comunidade também se sente satisfeita com o trabalho do artista. Segundo os componentes, Paulo Barros cuida muito dos “detalhes” e é “perfeccionista”.
“Quando você vê os carros acesos, aí você entende porque o Paulo Barros é o Paulo Barros. É por causa da importância dele, e como ele trabalha com os detalhes”, avaliou Guilherme Salgueiro, de 40 anos. Ele desfila na agremiação há 24 anos.
Com o decorrer do tempo, a humanidade deixou de cumprir seu dever de proteger essas dádivas. Frente a esse descuido, os orixás convocaram crianças de várias partes do planeta para se dirigirem ao templo da criação.
O carnavalesco também recebe elogios dos novos na escola. Daniela Costa é de São Gonçalo e ficou apaixonada com o enredo e o trabalho do artista na azul e branco. “Eu estou encantada pelo enredo. O que eu estou vendo aqui está perfeito. O Paulo está mostrando que as crianças, realmente, têm potencial de mudar o mundo”, avaliou.
Durante o desfile, a agremiação exibiu a esperança depositada por Oxalá nas crianças, buscando sensibilizar o público da Sapucaí com a conservação do meio ambiente e a necessidade de lutarmos pela casa que todos dividimos.
Freddy Ferreira analisa a bateria da Portela no desfile
Um bom desfile da bateria “Tabajara do Samba” da Portela, sob comando de mestre Nilo Sérgio. Um ritmo autenticamente portelense foi produzido, com o ressoar único das caixas da Majestade do Samba ecoando por todo o cortejo. Bossas potentes e integradas ao enredo foram exibidas com precisão. Uma conjunção sonora de bastante equilíbrio foi exibida e com um andamento confortável.
Uma bateria portelense com sua tradicional afinação de surdos mais pesada foi percebida. Marcadores de primeira e segunda tocaram com firmeza e segurança. O peculiar balanço das terceiras da Portela impulsionou a parte de trás do ritmo. Complementando os médios, repiques coesos tocaram integrados a um naipe de caixas de guerra consistente, com sua genuína batida rufada ecoando pela pista.
Na cabeça da bateria, uma ala de cuícas de qualidade musical se exibiu junto de agogôs eficientes. Um naipe de chocalhos de excelente técnica tocou conectado a uma ala de tamborins de valor sonoro, que contribuiu com bom volume. Congas ainda ajudaram tanto em ritmo, quanto tendo participação luxuosa nas bossas com toques afros.
Bossas intimamente vinculadas ao belo samba-enredo da Águia de Oswaldo Cruz e Madureira foram exibidas. Com profundidade musical inquestionável, os arranjos eram pautados pelas variações melódicas e adequaram de forma magnífica o tema de vertente africana da maior campeã do carnaval à sonoridade da “Tabajara”. O leque de paradinhas, mesmo não sendo extenso, se mostrou cirúrgico, graças a pressão e a musicalidade alcançada. Nuances rítmicas foram notadas na caída da segunda da obra, assim como na entrada do refrão principal, demonstrando uma indiscutível versatilidade rítmica da bateria da Portela.
A exibição na primeira cabine (módulo duplo) foi muito boa, arrancando aplausos dos jurados e causando certa ovação popular. Já na segunda cabine, uma apresentação segura foi realizada, mas sem o mesmo impacto energético do primeiro módulo. No último módulo de jurado, uma apresentação potente foi realizada, para encerrar com o clima lá no alto o bom desfile da “Tabajara do Samba” da Portela, dirigida por mestre Nilo Sérgio.
