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Tricampeões! Bruno Leite e Ricardinho Olaria vencem samba da Unidos de São Lucas para o Carnaval 2027

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Sétima escola a desfilar no Grupo de Acesso II, a Unidos de São Lucas valorizou compositores nascidos e criados no bairro em que está sediada pela terceira vez consecutiva. Na Festa Julina da agremiação, que também teve a final de samba-enredo para o Carnaval 2027, realizada na tradicionalíssima quadra da instituição, na rua Carminha, no Parque São Lucas, Bruno Leite e Ricardinho Olaria sagraram-se tricampeões de fato e de direito na instituição. A canção composta por eles embalará o desfile de “N’Kodya – O Poder Supremo Africano”, desenvolvido pelo carnavalesco Danilo Dantas. Sempre presentes em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO entrevistou personagens importantes da agremiação após a escolha do samba-enredo campeão.

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Tricampeões em foco

Com sambas elogiados há anos, a Unidos de São Lucas deu, pela terceira vez consecutiva, a oportunidade para que dois compositores nascidos e criados a poucas ruas da quadra da escola vencessem a eliminatória interna da instituição. Apesar disso, cada uma das vitórias tem nuances muito distintas, de acordo com Bruno: “Cada ano oferece um desafio diferente através do enredo que a escola decide contar. Esse ano, é um tema denso, que nos deu a dificuldade de seguir com a nossa receita: escrever sambas com a identidade do povo, da nossa comunidade, sambas leves, sambas de Grupo de Acesso II. A gente sabe que o tema mais denso pode te induzir a escrever um samba-reza, o que, para uma comunidade de Acesso II, talvez não seja uma boa ideia, já que a gente conhece o canto da comunidade. A gente partiu para uma linha de samba mais simples, com linguagem popular, que a comunidade pudesse aprender fácil e pudesse chegar lá no dia cantando muito”, comentou.

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Ricardinho comemorou a sintonia que a canção teve com a sinopse: “A gente pensou muito na linha de escrita, e na hora que a gente começou a ler a sinopse e as ideias vieram. A gente conseguiu transportar a ideia do carnavalesco, pelo que eu senti”, disse.

Sambistas e amigos

Quando perguntados se o fato da parceria ser formada por apenas duas pessoas é um trunfo, Bruno voltou a destacar que o processo de composição vai mudando conforme o tempo passa: “A nossa receita foi mudando ao longo do tempo. A gente foi mudando a forma de fazer e ajustando para chegar nesse formato que nos trouxe o tricampeonato aqui na São Lucas. Mas, para além disso, o que a gente tem de diferente na parceria é que nós somos amigos pessoais: a gente está sempre junto, para além do samba. A gente compõe samba de meio de ano, eu sempre estou na casa dele, ele sempre está na minha casa e o samba é um complemento dessa relação”, contou.

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Ricardinho comemorou a celeridade com que cada questão é resolvida entre os dois compositores: “Além de a gente ser amigo e a gente ser honesto um com o outro, respeitar a opinião alheia, a gente resolve tudo rápido. Não é uma firma, resolve rápido os dois. A gente consegue fazer com que as nossas ideias sejam mais transparentes na hora de resolver o problema”, disse.

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Preferências

Curiosamente, os dois compositores têm trechos prediletos diferentes. Bruno começou explicando: “A saída do samba é diferente! Vem pedindo licença para a mãe África, vem incentivando a comunidade: ‘Sob as bênçãos da Mãe África, vai São Lucas’, que é uma abordagem diferente do começo do enredo. Ao invés de fazer uma referência à África, a gente está pedindo licença a ela para contar essa história densa que é esse enredo”, afirmou.

A capacidade de transformar a dor em algo mais suave foi comemorada por Ricardinho: “Eu gosto bastante do refrão do meio, porque é um tema triste e a gente teve uma solução bem leve para ele”, disse.

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Tricampeões

Além do desfile de 2027, Bruno Leite e Ricardinho Olaria também venceram as eliminatórias da Unidos de São Lucas para o desfile de 2025 (“Ijexá”) e 2026 (“Meu tambor é ancestral, heranças e riquezas de um povo…um Brasil de festas pretas!”).

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Presidente e amigo

Ao ser perguntado sobre o que achava da obra vencedora da eliminatória, Adriano Freitas, popularmente conhecido como Nanão, presidente da Unidos de São Lucas, fez questão de destacar que separa o auto do autor: “Referente a Ricardinho e Bruno, se eu falar como o Adriano Nanão, eles são meus amigos de infância, crescemos juntos. Agora, se eu falar como o presidente da Unidos de São Lucas, eu estou falando com duas pessoas extremamente competentes, mas que já tomaram muita pancada, que já perderam muito samba aqui. Os caras estudaram como a escola funciona, procuraram entender a ideia da escola e procuraram uma coisa que é muito importante: ouvir o carnavalesco, que é quem cria tudo. O êxito é esse: nós atendemos a todos da mesma forma. O Everton, nosso Diretor de Carnaval, atendeu a gente durante uma madrugada toda. Foram passadas todas as mesmas informações. Alguém sempre vai sorrir e alguém sempre vai chorar nessas condições. Os caras, mais uma vez, pelo terceiro ano, acertaram. Isso é muito bom, porque é um samba completo, é um samba bom, a comunidade abraçou e a gente tem certeza que vai ser mais um Carnaval, independente do resultado, muito bom para a escola”, comemorou.

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Coração aberto

Estreante na Unidos de São Lucas em 2027, Danilo Dantas fez questão de elogiar todos os finalistas da eliminatória, a ponto de destacar que o bom nível do concurso fez aumentar o número de canções na noite decisiva: “Gostei do nível dos finalistas, e até por isso que a gente trouxe quatro: a gente não conseguiu ter a noção exata de como o samba funciona na voz do povo, com a bateria tocando. Eu cheguei aqui com uma certeza: eu não sabia o samba que iria ganhar. Eu mal tinha uma ideia formada, porque eu gostava de cada um pouquinho. Todos extraíram um pouquinho do que é a história do enredo, e ganhou o que a comunidade gostou mais. A São Lucas tem se notabilizado nos últimos anos por trazer bons sambas, de vir com um dos melhores sambas do grupo. Em 2027 não vai ser diferente”, prometeu.

Sucintos

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Dois dos grandes nomes da parte musical da Unidos de São Lucas, curiosamente, são pessoas de poucas palavras. Um deles é Tuca Maia, intérprete da agremiação: “Mais uma grande final de samba-enredo, com quatro maravilhosos sambas. O couro comeu e o melhor venceu. Eu não queria ter a responsabilidade de escolher entre essas canções, mas foi legal e com a casa cheia”, comemorou.

Andrew Vinícius, mestre da Bateria USL, destacou o quanto a canção escolhida une o bom gosto e as exigências do regulamento: “Gostei do samba, ele é muito bom. Ele está explicando muito bem o enredo, é um samba simples de se entender e que tem uma melodia muito bonita”, comentou.

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Opinião de quem dança e defende

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Unidos de São Lucas não se furtou a falar sobre as obras, em especial a campeã. Erick Sorriso fez questão de cumprimentar os poetas: “O nível das últimas eliminatórias da São Lucas já vem surpreendendo, e no ano passado já foi uma competição bem acirrada. Nesse ano, não foi fácil, não. Eu quero, inclusive, dar parabéns aos compositores, que vêm fazendo obras maravilhosas”, agradeceu.

Já Victória Devonne destacou o quanto a final de samba-enredo da agremiação já entrou para o calendário pessoal dela: “Eu sou suspeita para falar: toda a final de samba-enredo da São Lucas, para mim, é o melhor evento que tem no ano. É competição, eram quatro sambas muito bons, a torcida está aqui para animar a festa, a gente fica muito ansioso para saber quem é que vai ser campeão até mesmo porque a gente também fica dividido por gostar um pouquinho de cada samba. O samba que entrou para a gente nesse ano vai ser executado da melhor forma e a gente vai, se Deus quiser, subir a São Lucas novamente”, finalizou.

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Evento cheio

Com barracas típicas de festa junina, a escola realizou até mesmo uma quadrilha com os presentes antes do esquenta da Bateria USL, vencedora do Estrela do Carnaval (organizado e concedido pelo CARNAVALESCO) de melhor bateria do Grupo de Acesso II em 2026. A noite também teve novidades: Karol Silva foi apresentada como Musa da Ala Musical, enquanto o novo terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da agremiação agora é Marcos Sever e Maria Fernanda Bispo.

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Antes da despedida do samba de 2026 e, obviamente, do anúncio da canção vencedora da final, todas as obras concorrentes se apresentaram. O primeiro foi o Samba 03, de autoria de Maurício Rocha Jr., Rodrigo Atração, Neuber André, Glauco do Cavaco, PH, Capuava ABC, Enzo Dhirie, Ygor Dla Sant e Michel Salim. A apresentação teve destaque para o final da primeira estrofe da canção, que optava por fazer versos que não tinham rimas, agradando a quem ouvia. Outro destaque era o refrão do meio, composto por dois versos que se repetiam; e que, por consequência, se repetiam quatro vezes em um curto espaço de tempo, facilitando o canto.

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Logo depois veio o Samba 04, o campeão da eliminatória. Tal qual a canção anterior, a faixa não apresentava o nome da escola no refrão de cabeça, o que sempre chama atenção. O trecho sinalizado, por sinal, se encerrava com o verso “Abrindo caminhos pra ser campeão”, o que traz o desejo da agremiação e uma mensagem religiosa forte muito associada ao orixá Exu e que estará presente no enredo. A segunda estrofe do samba, muito melódica, também agradou com os versos “Será que o guardião levou embora?/Será que está no céu de Angola a brilhar?”, com rimas que se completam em outros trechos do excerto.

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O Samba 02, composto por Victor Rangel, Alessandro Tiganá, Juninho, Herval Neto, Leandro Neguinho, Matheusinho, Daniel Paixão, Jonathan Tenório, Renne Barbosa, Neném do Banjo, Duh Romão, Thiago da Mágia e Gigi da Estiva, apostou em um refrão principal bastante popular e de fácil canto. Ao contrário dos adversários, a canção tinha assimilação mais rápida e com poucas palavras em iorubá. O destaque era o refrão do meio, com versos mais longos e de melodia bastante valente.

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Por fim, o Samba 01, escrito por Gleison Santana, Fernando Ripol, Alessandro Lopes e Victor Chagas, chamou atenção logo que a ala musical subiu ao palco, com rostos novos para quem não vai à Unidos de São Lucas com frequência, e que enchiam de esperança sobre a chance de renovação no microfone. Outra aposta foi na primeira estrofe mais extensa e bastante descritiva, com diversas palavras em iorubá, contrastando com a segunda enxuta e com versos mais longos, sem tantos espaços de respiro para os intérpretes.

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Estácio repatria Luana Bandeira para o carnaval do centenário: ‘Muito mais do que sambar’

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Fotos: Mariana Santos/CARNAVALESCO

‘A saudade apertou’ e ela voltou: Luana Bandeira retornou à Estácio de Sá como musa para o desfile em comemoração ao centenário, em 2027. A musa foi apresentada na feijoada deste sábado, na quadra da Estácio. De passista a rainha de bateria da escola, a sambista tem uma trajetória completa na agremiação do Morro de São Carlos. Foi descoberta em um bloco de carnaval em Santa Teresa e se tornou passista da Estácio. Chegou ao posto de rainha em 2012, onde permaneceu até sua saída, em 2017. Defensora da cultura e do ofício do passista, a musa garante que a maturidade adquirida ao longo dos dez anos longe da escola fez diferença para lidar com seu trabalho.

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“Naquela época eu ficava chateada com algumas coisas, porque não é fácil estar aqui. Ainda hoje o samba não é visto como um trabalho, mas a gente doa o nosso trabalho para a escola. Quando alguns combinados não eram cumpridos, eu ficava irritada. Foi isso que aconteceu comigo. Hoje tenho mais maturidade para lidar com essas questões e para conversar melhor. Acho que isso faz toda a diferença”, avaliou.

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A experiência como musa chega para chancelar sua trajetória como sambista na escola do coração e provar que a trajetória de uma mulher no samba não tem ‘prazo de validade’.

“Parece que as mulheres do samba têm um tempo determinado, mas não têm. Nosso amor pela escola, pelo pavilhão e pela arte do samba é infinito. Comecei aqui aos 17 anos, saindo do Bloco Badalo de Santa Teresa. Fui passista, musa, rainha, fiquei dez anos afastada e hoje estou de volta. Acho que isso mostra para as mulheres que elas não devem desistir. Nunca é impossível voltar a fazer aquilo que você ama e onde se sente pertencente. Eu me sinto pertencente a esse chão. Hoje estou muito feliz por rever tantas pessoas da minha época e receber o mesmo carinho. É muito mais do que sambar, é defender uma cultura. Nossos ancestrais sofreram muito para que a gente pudesse estar aqui hoje”, afirmou.

A escola está se preparando para um carnaval especial. O ‘Berço do Samba’ celebra os 100 anos de história no Carnaval em 2027, e o convite para reintegrar o time surgiu em meio à gravação de um documentário sobre a trajetória da escola.

“Me convidaram para fazer um documentário sobre o centenário da escola. Eu já estava aqui gravando quando encontrei o presidente e falei que fazia parte da história da Estácio. Ele respondeu: ‘Minha filha, vamos voltar’. Eu disse: ‘Claro’. A gente combinou e deu tudo certo. Tenho certeza de que vamos defender essa escola da melhor forma possível”, contou.

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Um centenário no Carnaval não acontece todo dia, e nem é para qualquer um. A Estácio é a segunda escola a passar pela Sapucaí comemorando os 100 anos de existência, e Luana garante que a forte comunidade do Morro de São Carlos pisará na Avenida com garra para fazer de 2027 um ano de celebração dupla: do centenário e do título que levará a escola de volta ao Grupo Especial. A musa compartilha um spoiler dado pelo carnavalesco Marcus Paulo: sua fantasia trará um significado especial.

“Ele me deu um spoiler. Ainda vamos marcar um dia, porém ele falou que vai ser algo que tem muito a ver com a minha história. Já estou ansiosa para o dia de ganhar a fantasia!”, compartilhou.

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O ‘Velho Leão’ forjou lendas do Carnaval, como Luana Bandeira e mestre Ciça, compartilharam a dedicação a duas alvirrubras em suas trajetórias: Estácio e Viradouro. Luana foi musa da campeã do Grupo Especial de 2026 e hoje é destaque performático. Familiarizada tanto com a bateria ‘Furacão Vermelho e Branco’ quanto com a ‘Medalha de Ouro’, a artista se sente pertencente às duas agremiações.

“É diferente, mas tem muita similaridade, porque o Ciça também é cria da Estácio, estou em casa. Para mim, a bateria da Estácio e a da Viradouro são as melhores. Não é porque eu estou lá, mas porque todo mundo é cria daqui, do Berço do Samba”, explicou.

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Anitta confirma convite para ser rainha de bateria da Mocidade, mas admite que pode recusar o posto

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Foto: Reprodução/Instagram

A definição sobre a presença de Anitta como rainha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel no Carnaval 2027 ainda não foi tomada. Em entrevista coletiva concedida neste sábado, antes da apresentação da turnê “Ensaios da Anitta”, em Lisboa, Portugal, a cantora confirmou que foi procurada pela escola, mas afirmou que continua avaliando o convite e não descarta a possibilidade de não aceitar a função. De acordo com a artista, o convite representou um grande reconhecimento, principalmente pelo carinho que nutre pela agremiação de Padre Miguel.

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“De fato, eu fui convidada e me senti extremamente honrada. Fiquei pensando bastante, demorei muitos meses pensando, porque é uma coisa que eu quero muito e sou muito fã da MocidadeEu gosto de me dedicar em tudo o que faço. Esse cargo de rainha é um cargo em que você precisa estar lá sempre, você tem que estar se dedicando. E eu aceitar a coisa e não estar fazendo o que acredito que tem que ser feito como rainha, eu não sei se acho justo. A gente ficou pensando, então ainda não confirmamos nada. Talvez isso não vá acontecer, por conta de realmente eu achar que deveria ter mais tempo para me dedicar”, comentou Anitta.

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Se confirmar sua participação, será a estreia de Anitta como rainha de bateria no Carnaval. Apesar disso, sua história com a Mocidade não é recente. Em 2016, a cantora atravessou a Marquês de Sapucaí como musa da verde e branca e, desde então, demonstra publicamente sua admiração pela escola.

Análise: confira como foram os oito sambas classificados no primeiro corte da Estácio de Sá para o Carnaval 2027

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Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

A Estácio de Sá realizou, na última sexta-feira, seu primeiro corte de sambas na eliminatória para a escolha da obra que irá embalar o desfile da escola em 2027. Onze parcerias se apresentaram em uma noite de boas exibições, e oito seguem para a próxima semana de disputas. As parcerias de Negreth, Jean da Cruz e Ian Araujo foram eliminadas. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre a passagem dos sambas classificados.

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Parceria de Alexandre Naval: O samba de Alexandre Naval, Daniel Gonzaga, Marlene Povão, Clairton Fonseca, Marquinho Paloma, Ricardo Construção, Hugo Fiscal, André Alho, Jeferson do Estácio, Guga Martins e Ailson Picanço apresentou um refrão principal de bastante força e letra aguerrida: “Nasci pra vencer demanda nesse chão que me criou, celeiro de bambas, meu grande amor, oh São Jorge padroeiro vem trazendo todo orun, chegou o berço do samba, não é qualquer um”. O trecho mostrou um bom rendimento em todas as passadas. A primeira parte da obra apresentou variações melódicas de boa qualidade, como no trecho “um ponto firmado, cantado, pra um orixá… samba de sambar, um preto vencendo no asfalto não dá pra parar… deixa falar”. A segunda parte é mais curta, e a melodia casa bem com a poética do trecho. Os versos “pedi ao céu pra colorir, estrelas vermelhas brilhando no alto do morro” são o maior destaque. Pitty de Menezes comandou o samba com a categoria habitual, e a obra abriu a noite em grande estilo.

Parceria de Claudio Russo: O samba de Cláudio Russo, Gustavo Clarão, Júlio Alves, Thiago Daniel, Magrão do Estácio, Adolpho Konder, Laura Romero, Binho Teixeira, Juliana Madi, Tinga, Hugo Bruno e Marquinhos Beija-Flor foi defendido por Tinga e Vandinho Pires. A dupla comandou um desempenho de bastante pujança e empolgação durante as três passadas. O refrão principal, “deixa falar quem quiser, deixa falar ancestral, sou a primeira, acabou, ponto final, é centenário o maior dos sentimentos, eu sou Estácio antes do meu nascimento”, une uma letra de fácil assimilação com uma melodia que joga a obra pra cima. A primeira parte do samba relata o surgimento da agremiação e tem ótima fluência melódica. A segunda parte é outro destaque da obra, com versos muito bem construídos, como “a voz de um pássaro cantor e um Bicho Novo bailando sutil”, lembrando o célebre mestre-sala e um dos fundadores da então Unidos de São Carlos. Uma passagem quente durante toda a apresentação.

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Parceria de Claudinho Raiz: A obra de Claudinho Raiz, Fernandão, Niquinho Azevedo, Nego Wando, Sérgio das Merces, Cecília das Merces, Emanuel Apoteose, Berg Responsa, Irani Montenegro, Guarda Kuhn, Crenilda de Castro, Gabriel Amaral, Marvel Balassiano, Claudinho do Pagode e Anderson Benson teve como intérpretes Ito Melodia e Wic Tavares. Ito, no seu estilo, esquentou a passagem do samba, que teve um bom desempenho, principalmente nas duas primeiras passadas. O refrão principal teve um rendimento contagiante, com os versos “quem vem lá, é a Estácio de Sá, deixa falar, a inspiração, sou raiz, comunidade, tenho um leão tatuado em meu coração, berço do samba embala a minha emoção”. A melodia mostrou menos variações, sobretudo na segunda parte, apesar de sustentar bem na primeira, com versos como “as damas da noite enamorei à luz da lua, encontrei novas moradas e o batuque continua”. Na última passada, o samba teve uma leve queda, voltando a subir no refrão.

Parceria de Samir Trindade: O samba de Samir Trindade, Jeiffer, Deiny, Deco, Victor Rangel, JP Figueira, Ricardo Castanheira e Gabriel Aganett foi cantado por Tiganá. A obra obteve um ótimo rendimento, calcado em uma letra mais narrativa na primeira parte, culminando em um excelente refrão central: “mãe baiana iluminada, hoje eu sou o teu espelho, quem tem capa encarnada tem sangue branco e vermelho”. A segunda parte é mais emocional, uma declaração à instituição centenária. A melodia passeou por um lirismo e embalou perfeitamente o samba, sem perder força durante sua apresentação, com pontos de destaque como os versos “me perdoe se eu chorar, te amo tanto, me coloco aos seus pés, sigo teu manto”. Uma boa apresentação de um samba muito bonito.

Parceria de Diego Nogueira: A obra de Diego Nogueira, Batista Coqueiral, Júlio Page, Luciano Fogaça, Cecília Cruz, Osmar Fernandes, Juninho do Estácio, Cláudio Altamirano, Rian Rodrigues, Argentina Caetano, Paulinho ZC, Max Toledo, Gilsinho da Vila, Vânia Moraes, Rafael Almada, Leandro Netto e Danielzinho foi defendida por Dowglas Diniz. O samba apresentou uma melodia bastante funcional e mais convencional, com alguns momentos interessantes, como a subida no refrão central: “quem vem lá, quem vem lá, um pavão tão lindo e a Estação Primeira, vem de lá, vem de lá, Paulo da Portela e a Vizinha Faladeira”. A letra tem uma característica mais descritiva do que poética, em trechos como “olha a Estácio chegando, deixa explodir a emoção, canta estaciano, de Bicho Novo a Marlene Pavão”. O refrão principal, “sou Estácio de Sá, do santo guerreiro, cria do São Carlos, cria de terreiro, quilombo maior, igual ninguém viu, primeira escola do nosso Brasil”, teve ótimo funcionamento, e o samba como um todo passou bem.

Parceria de China do Estácio: Wantuir e Vitor Cunha cantaram o samba de China do Estácio, Filipe Medrado, Cláudio Mattos, Oliveira, Jonathan Tenório, Herval Neto, Kaê Destri, Marcelo Maguila e Grassano. Um samba construído em tom maior, apesar de algumas variações melódicas. A letra é muito bonita, calcada em um refrão principal poético que passou muito bem durante a apresentação, com os versos “quem deixa falar a voz do coração, faz do samba procissão no axé do terreiro, se for matar-me de amor, deve lembrar que eu sou Estácio, filho de Jorge Guerreiro”. Essa poesia está presente em boa parte da obra, permeando a narrativa. A segunda parte acaba soando um pouco menos criativa, mas o samba teve um desempenho forte durante as três passadas.

Parceria de J. Batista: Igor Pitta comandou o samba de J. Batista, Jair do São Carlos, César Nascimento, Regina Barcelos, Orlando Júnior, Carlos Dapoza e J. Palhinha. A obra conseguiu uma passagem agradável, com um bom rendimento do seu refrão principal: “sou eu a primeira escola, deixa falar quem quiser, Estácio, reduto de bambas, o verdadeiro berço do samba”. A melodia se mostrou redonda, com variações simples, mas que sustentaram o rendimento do samba. A letra seguiu a simplicidade, sendo mais descritiva, sem momentos de maior destaque poético.

Parceria de Gabriel Machado: O samba de Gabriel Machado, Diego Thekking, Iverson Mendes, Allyson Elias e Waguinho Melo teve Tem-Tem Jr. no microfone principal. A obra fechou a noite com uma passagem de muito bom nível, mostrando uma primeira parte bastante inspirada, fugindo de versos mais batidos, como no trecho “linho branco nas vielas, um marafo nos bordéis, dedilhando poesias, na mesa parceiros fiéis”. O forte refrão central, “firma o ponto, na encruza a fogueira clareia pra Ogum, meu rancho marcha chamando o luar, companhia de malandro é a lua cheia, batuqueiro sobe a caixa, é samba de sambar”, manteve o bom padrão. Já a segunda parte teve um rendimento aquém, apesar de bonitos versos como “paixão centenária não é desengano, sangue vermelho é o orgulho de ser estaciano”. No geral, foi mais uma boa apresentação.

Leia a sinopse da Em Cima da Hora para o Carnaval 2027

Enredo: LUZIA PINTA – DA CALUNGA GRANDE AOS CALUNDUS DE CURA

ech 2027

 

 

 

 

ARGUMENTO

Os saberes ancestrais guardados e protegidos ao longo do tempo são a chave para a compreensão dos mistérios e da verdade que envolve um ou mais povos.

Luzia Pinta, a menina escravizada, sequestrada de sua terra e introduzida no modelo de escravidão praticado durante o Brasil Colonial, em pleno século XVIII, é certamente um dos grandes pilares de sustentação destes saberes. Tendo em sua origem raízes centro-africanas-ocidentais e da nação Angola de onde, certamente, aprendeu a cultuar e legitimar seus antepassados.

Sua história é guiada pela prática do Calundu, um sistema cerimonial que envolve dança, canto, ritmos e incorporações de modo a proporcionar cura e alento. Muito provavelmente teria sido uma das primeiras manifestações espirituais e de reconexão com a ancestralidade do povo preto vivente em solo brasileiro. Nela se apresentou outras formas de celebração, incorporando outros saberes e ritos já existentes aqui, numa tentativa única de preservar os seus mistérios ancestrais.

Ao tornar-se calunduzeira, curandeira e rezadeira, preserva e reverencia a sua ancestralidade, com a continuidade do matriarcado, fundamentando e valorizando todas aquelas que vieram antes, e como tais, dignas de honra e celebração.

Enfrentou o julgo do opressor sob o cárcere da cruz. Dignificou sua raiz e transcendeu, deixando um legado imaterial de serviço, respeito, memória ancestral, identidade e pertencimento. Tornando-se referência para os que ainda precisam lutar pela reconstrução da história e da memória do povo preto neste país.

Sob a luz desta espiritualidade a história de Luzia Pinta, é também a história do povo preto e parte essencial no entendimento sobre o calundu no Brasil. E não importa o tempo que se demorou, ela ganhou nova vida, reforçando o sentindo de origem e continuidade.

JUSTIFICATIVA

Os apagamentos e os esquecimentos históricos perpetuados ao longo do período em que a escravidão era uma realidade no Brasil, fizeram muitas vítimas, entre elas, Luzia Pinta. Seu nome ficou escondido entre registros antigos que vieram à luz tanto no Brasil quanto em Portugal.

Luzia Pinta tornou-se personagem principal na pesquisa de muitos estudiosos, seja em busca de respostas sobre o período em que viveu, o papel da mulher escravizada ou forra que ascende nesta sociedade, sua saga e relevância histórica e espiritual, seja pelo entendimento sobre as práticas inquisitoriais ou ainda para compreender a manifestação dos calundus em seus ritos e celebrações praticados no Brasil.

Sua história é um farol para todos que vivem à mercê do medo e do preconceito, celebrando suas conquistas, priorizando sua cultura e sua liberdade. Sendo ainda mantenedora e promotora dos saberes ancestrais e da exaltação do matriarcado. Mantendo sua missão atuante ao se manifestar em tantas outras mulheres que, na história do seu povo, foram farol, alicerce, colo e afeto mediante tantas lutas que se fizeram e fazem valer.

Vivenciar Luzia Pinta e os Calundus é reverberar o sentido de pertencimento, liberdade e a religiosidade neste Brasil, experienciando o pulsar da vida que flui da sua força e da sua dignidade em honra a toda a ancestralidade.

Ao se inspirar nos diversos estudos, artigos e livros que retratam Luzia Pinta, a Em Cima da Hora evidencia e valoriza o trabalho destes historiadores e pesquisadores que se debruçam sobre o passado trazendo à luz histórias esquecidas em que a ancestralidade se apresenta. A mesma em que as escolas de samba estão inseridas, perpetuando o legado do seu povo também.

Salve Luzia Pinta e os calundus do Brasil!

SINOPSE

“- Para onde você vai?”
“- Para onde? Eu não sei.”
“- Vá embora logo, porque brevemente haverá de voltar.”

Eram tempos difíceis. Guerras, conflitos e escravidão.

A paz banida daquela terra nunca a conheceu.

Estar entre os vivos e os mortos fazia parte da sua sina.

Até o dia em que se encantou e, ancestralizada, se achegou por aqui.

Me chamo Luzia Pinta, foi assim que segui denominada desde que na Bahia aportei. Meu testamento é a vida que vivi. Minha herança é a mesma que herdei na Angola em que nasci e, até onde pude, me criei. E foi naquele tempo, sob o tormento da aflição, que por volta dos doze anos, determinaram meu destino. Do pouco que me lembro trouxe na bagagem da memória a família que o tempo levou. Cativa, atravessei a calunga grande e nela sentia que parte de mim renascia, fazendo-se presentes diversos kilundus que nessa jornada me acompanharam mesmo quando ainda não os entendia.

A força de Temba-Ndumba me conduziu para além da dor e desolação. E neste cenário de desesperança, meu pertencimento deu a dimensão de que tudo o que me formou transcendia no meu existir.

Sua jornada se ancora entremundos.

Desde as visões que teve ainda menina e as dúvidas que perseguiu.

Onde velhas anciãs, rios e caminhos se cruzavam.

Até os pontos de transição em que teve de enfrentar.

Seja nas correntezas dos rios que te puseram a percorrer.

Ou no peso de ouro que se valeu para pagar a liberdade que tanto almejou.

Cheguei pelas bandas das minas e, margeando o Rio das Velhas, que me pus a perceber que ali estaria presa minha alma, à sombra da amargura e do sofrimento que atravessariam meu corpo. Percorri as ruas e ladeiras de Sabará e região, fazendo do ganho a ponte para a minha liberdade; o mesmo sustento como de tantas outras assim como eu. Ali teve início meu ato de missão.

Calunduzeira me tornei, adivinhadeira e curandeira também. Alcunhas pelas quais o povo me tomou. Povo, que por muito tempo cuidei, os mesmos que as boas relações sustentaram em nome da liberdade para praticar meu calundu. Mas que um dia me trairiam sob o pavor da inquisição.

Na mistura plural das origens que pulsam nesse imenso Brasil.

Um calundu abrasileirado ela criou, à revelia de qualquer comparação.

Heranças africanas, saberes do negro da terra que ela também usaria.

A sua vestimenta podia ser como a de um anjo ou seguir “à moda turquesa”.

Um véu de penas descia pelas costas quando se punha a curar.

Com seu penacho e penduricalhos, seu corpo era conduzido.

Ao transe em que se envolvia através do som dos tambores.

Onde o Pau Santo e a raiz de Abutua atuavam como garantia.

E em outros ritos se valia do poder das ervas, unguentos e beberagens.

Até o dia em que não pôde mais praticar calundu.

Isto seguiu, até quando deixou de ser a Xinguila, a Sacerdotisa ancestral.

Se tornando aos olhos da cruz a feiticeira.

Tudo o que fiz foi seguir o que diziam os ventos de adivinhar, afinal, como me foi dito ainda menina, seria a voz de Deus. E sob intercessão de Nossa Senhora, Santo Antônio e São Gonçalo, rezei, benzi, bani a aflição e a angústia de quem não sabia a quem mais recorrer. Foi assim que meu caminho construí, por longos anos à vista de toda aquela gente. De senhores a doutores, padres e ouvidores, o meu fazer não era segredo. Mas, tempos sombrios eu vi chegar e sob o julgo da inquisição fui levada. Tudo o que construí, sinônimo de minha história, ruiu.

Deixei para trás as celebrações aos meus antepassados nas cerimônias dos calundus que, do meu jeito, pratiquei em honra aos meus ancestrais. De certo que eles permaneceram comigo por onde fui, até mesmo durante os açoites, torturas e julgamentos. E quando a tudo isso não sucumbi, vi aflorar a ira do meu inquisidor. Condenada, degredada e impedida de voltar aos meus lugares, a memória me trouxe a grande calunga e o seu limiar entre os vivos e os mortos em seu fluxo contínuo entre desaparecer e se eternizar.

Sob a guarda do tempo ela se encantou.

Para que, eternizada, fizesse valer a sina dos ancestrais.

Os calundus que tanto manifestou foram o esteio e camuflagem.

Para outros novos saberes que nesta terra se puseram a enraizar.

Do povo de Ketu, veio florescer o Candomblé naqueles Calundus de Tia Adetá.

Disfarce inicial para que na Barroquinha, Casa Branca fosse a pioneira.

Cabulas, macumbas, entre matas e cidades, ritos e rituais.

Ampararam quem ao invisível prestou devoção.

Onde saberes plurais se encontraram e se manifestaram.

E o sentir e o experienciar ganharam espaço e outras interpretações.

A umbanda talvez tenha o fundamento principal.

Que faz dela herdeira direta dos calundus praticados no Brasil.

Saberes ancestrais, entrelaçados com encantados que estiveram neste chão.

Comungando sob o elo primordial de ser fonte de cura e de alento.

Por via de uma ancestralidade que se encruza para além do tempo.

Eu percebo que eu e os calundus transcenderam o tempo sob o limite da vida e da morte e outros elos espirituais, através do encanto que minha sina determinou. E, quando finalmente me “encontraram”, me encantei outra vez, saída das manchas da escravidão, das páginas empoeiradas da inquisição, no Brasil e em Portugal. E, além de mim, vi ramificar os saberes, as identidades e pertencimentos, principalmente, quando outra mulher é a escolhida para proteger e preservar os mistérios ancestrais, lançando luz sobre a obscuridade do passado onde tentaram nos apagar e nos deixar esquecidas.

Sou apenas a mulher que um dia seguiu o chamado. Sendo canal, tal qual aquela mulher que benze, a que reza, a que cuida, a que ministra ervas e raízes, a que se inicia nos preceitos e a que se torna mãe de santo. Sou parte também daquelas que se mantêm na luta por dignidade, liberdade e respeito; um signo da representatividade ao testemunhar a preservação do matriarcado ancestral, fruto do legado que faz valer a missão que elas acolheram e, por continuidade, quem sabe um dia, se encantarão também.

O que eu não sabia, meus ancestrais me ensinaram.

A velha anciã que um dia me guiou se foi. Hoje, a anciã sou eu!

Luzia Pinta é fonte a se beber, é saber profundo.

Mistério que aos poucos vem sendo decifrado.

Admirando a vida que os calundus lhe fizeram percorrer.

Desde a calunga grande e transitando pela escravidão.

Nesta sua saga, sina ou missão, numa vida dedicada ao bem e ao sagrado.

Sendo referência de real poder, amparada pelos saberes ancestrais.

Fazendo o Brasil te exaltar e todo o mundo conhecer.

O legado de mais uma mulher preta do nosso passado.

Carnavalescos: Cahê Rodrigues e Rodrigo Almeida
Pesquisa e Texto: Anderclébio Macêdo

REFERÊNCIAS

COSTA, Hulda Silva Cedro. Umbanda, Uma Religião Sincrética e Brasileira. PUC – Goiás. 2013.

DAILBERT JR., Robert. Luzia Pinta: experiências religiosas contro-africanas e Inquisição no século XVIII. Religare, V.9, n. 1. 2016.

FERREIRA, Elisangela Oliveira. O Santo de sua terra na terra de todos os santos: Rituais de Calundu na Bahia Colonial. Universidade do Estado da Bahia. 2016.

LIMA, Douglas. Libertos, patronos e tabeliães: a escrita da escravidão e da liberdade em alforrias notariais. Belo Horizonte: Caravana Grupo Editorial, 2020.

MARCUSSI, Alexandre Almeida. Cativeiro e Cura – Experiências Religiosas na Escravidão Atlântica nos Calundus de Luzia Pinta, séculos XVII e XVIII. USP – 2015.

MOTT, Luiz. O Calundu-Angola de Luzia Pinta – Sabará 1739. Revista do Instituto de Arte e Cultura, Ouro Preto, n. 1, p. 73-82, dez. 1994.

NOGUEIRA, André. Os Calundus e as Minas Gerais do século XVIII. ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009.

NOGUEIRA, Guilherme Dantas. Tradição Calunduzeira: um conceito diaspórico. Dossiê Gênero, memória e cultura. Arquivos do CMD, Volume 8, N.2. Jul/Dez 2019.

NOGUEIRA. Guilherme Dantas. NOGUEIRA. Nilo Sérgio. Seu Cangira, deixa a gira girar: a cabula capixaba e seus vestígios em Minas Gerais. Revista Calundu – vol. 1, n.2, jul-dez 2017.

PAULA, Eduardo de. Luzia de Soledade – Vítima da Inquisição em Sabará. Blog Sou Sabará.

PRADO, Andreza Silva. Um outro olhar sobre a repressão sofrida pelos Calundus no Nordeste e Sudeste do Brasil: séculos XVI a XVIII. Revista: Em favor da igualdade racial. Rio Branco – Acre. V. 4. N. 2. Pg. 18-32. 2021.

RAMOS, Argemiro Afonso. Luzia Pinta – A Mulher que Enfrentou a Inquisição no Brasil. Ouro Preto. Caravana Grupo Editorial. 2025.

SANTOS, Nágila Oliveira dos. Do Calundu Colonial aos primeiros Terreiros de Candomblé do Brasil: de culto doméstico à organização político-social-religiosa. Revista África e Africanidades. Ano 1, n. 1. 2008.

SILVA, Paula Maria Fernanda da. O Histórico das Religiões Afrobrasileiras: do Calundu à Umbanda. II Colóquio Internacional de História – UFCG. 2010.

SILVEIRA. Renato da. Do Calundu ao Candomblé. Salvador, 2014.

SOUZA, Laura Mello. Revisitando o Calundu. USP. 2002.

Acadêmicos do Tatuapé divulga samba-enredo para homenagear Congo-Kinshasa; ouça

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A Acadêmicos do Tatuapé anunciou por meio das redes sociais da escola, o resultado das eliminatórias de samba-enredo da agremiação. O Samba 01, composto por Marcio André, Thiago Morganti, Thiago Meiners, Claudio Mattos, Shumacker, Wilson Mineiro, Herval Neto, André Valencio, Vitor Roblanco, Aranha Wilpz, JP Orlow e Tubino, foi o vencedor para embalar o desfile de “Congo Kinshasa: O Coração da África, a Herança Viva de um Povo que Resiste ao Tempo”, assinado pelo carnavalesco Wagner Santos. Ainda de acordo com a azul e branca, o lançamento oficial do samba acontecerá no dia 08 de agosto, na quadra da escola – e com presença da reportagem do CARNAVALESCO. Confira a letra do samba-enredo e, abaixo, ouça a obra vencedora:

ANTES DO DIA NASCER, NZAMBI ESTAVA POR LÁ
O VENTRE DA TERRA, MEU BAOBÁ
ZAMBIAPUNGO NA LINHA DE KANDA
MANICONGO EM SABER DE NGANGA
ERA VIDA EM ÁFRICA
LIVRE E GUIADO POR DIKENGA
UM REINO DE MEMÓRIAS ANCESTRAIS
QUE FAZ DA LUTA SUA PRÓPRIA LIBERDADE
FORJA SUA IDENTIDADE
DA SAVANA E DAS RIQUEZAS NATURAIS

LEGADO MARCADO EM COR.. KINSHASA
HERANÇA VESTIDA NA ALMA… KUBA KAUBÉ
NA RUMBA EMANA ENERGIA DO TAMBOR
BAKONGO PROJETA O SEU VALOR

CONGO, TEU AXÉ ME BATIZOU
MESMA LUTA, MESMA DOR… VIBRA ANCESTRALIDADE
AMOR QUE TRANSCENDE O GRAMADO
NA CONGADA E NO REISADO, AFRICANIDADE
KIKONGO, EM CADA PRETO DO MEU TATUAPÉ
CORRE O SANGUE NGOLO QUE DEIXOU
TEU TEMPERO COM MAIS SABOR
E O ATABAQUE CHAMOU
VEM BENEDITO, MÃE SENHORA E PRETO VELHO
DE ARUANDA, VÔ MARIA E PAI JOÃO
QUEM RISCA PEMBA NO TERREIRO DE UMBANDA
ACREDITA NA ESCOLA DA EMOÇÃO

CONGO É CONGO Ê, CONGO DÌSA SARAVÁ
Ê CONGO Ê… PRA CANJIRA COMEÇAR
SE TEM BATUQUE NA MACAIA E NA MIRONGA
SEGURA A TATUAPÉ… KIZOMBA!

Leia a sinopse do enredo da Vigário Geral para o Carnaval 2027

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Foto: Divulgação/Vigário Geral

 

 

 

 

Prefácio

Passeando pelos trilhos da história, descobrindo novas e significativas memórias, o som do sino anuncia a chegada do transporte que se tornou parte da cultura contemporânea. Nosso pavilhão torna-se o bilhete de embarque para que um Vigário sonhador delire neste carnaval.

Sonhos delirantes, saudades do passado, ancestralidade viva, que faz dos caminhos percorridos destinos levados aos braços de todos os sambistas, que sabem que, nesta trajetória, irão redescobrir a Estação Felicidade.

Cantem e sambem! O carnaval hoje desembarca na Sapucaí. É ele imperial, como o início da história que iremos contar. É ele boêmio, como a localidade mais conhecida de todo este passeio, que fez de seus arcos o cenário perfeito para admirarmos. É ele a grande festa que evoluiu, que brincou e fez marchinha, posteriormente fazendo samba para malandro bom dançar.

É ele, o bonde, a descarregar nossa gente na avenida mais famosa, na avenida dos sonhos, onde tudo é possível e tudo ganha vida. Na alegria de um folião, chegou o “Bonde da Vigário”, festejando o direito de uma comunidade de ser feliz!

No bonde da alegria. Partiu! Vigário Geral.

“A mulher do padeiro
Trabalhava noite e dia
Ê ê ê ê, ê ê ê ê ê ê ê
E viajava só no Bonde de Alegria
Cantava e pulava
E o padeiro não sabia”

(Joel e Gaúcho)

Sinopse

Em uma terra tropical, o futuro chegou transportando a corte de um imperador. Nesse mesmo tempo, um vigário motorneiro e seu condutor viram despertar o embrião de uma cidade maravilhosa.

Nosso passeio começa em 1859, no Rio de Janeiro, quando o Barão de Mauá, conhecido por ser um dos pioneiros da industrialização brasileira, incentiva a instalação dos bondes na capital do Império. Foi apresentado, então, um sistema simples, puxado por animais, que, a princípio, fazia seu trajeto entre o centro da cidade e o bairro de São Cristóvão, localidade importante, pois ali ficava o então Palácio Imperial.

Era o tempo de um Brasil comandado pelo imperador Dom Pedro II, qual, entre bananas e abacaxis, via a modernidade chegar à sua nação com orgulho e admiração. A modernidade aventurava-se em meio à natureza que emoldurava o lugar. E foi sobre trilhos e sem motor que ali estava ele, o bonde, iniciando sua jornada.

Diferente, ousado e puxado, na maioria das vezes, por jumentos, era uma “gambiarra” moderna que atravessava as ruas em meio a escravos, vendedores de frutas e toda a sociedade local, que se identificava e via naquela “máquina” um vislumbre dos dias futuros.

Mas, para que esse futuro se tornasse realidade, o Rio precisava ser modificado, modernizado.

Aqui, nesta parte de nosso passeio, embarcamos um dos heróis de nossa história: André Rebouças.

André foi um engenheiro negro, amigo pessoal e defensor do regime do então imperador Dom Pedro II. Figura respeitada na então “corte tropical”, atuou entre 1840 e 1889, participando de projetos de infraestrutura e, principalmente, de obras de abastecimento de água. Sua atuação e suas ideias foram fundamentais para a modernização da então capital imperial brasileira. Não foi ele o projetista das linhas, mas contribuiu para a melhoria das ruas e da circulação urbana, favorecendo a expansão organizada destas, por meio de suas obras e de sua visão à frente do tempo, tornando as vias da cidade adequadas para a circulação dos transportes coletivos.

O tempo passou e novas linhas foram implantadas. O Império caiu, mas o bonde resistiu.

Dessa resistência, ele evoluiu: passou a ser movido a vapor e, posteriormente, à eletricidade, ligando o subúrbio às partes mais importantes da estrutura social carioca. Tornou-se símbolo maior de uma gente que possuía um gingado diferente a qual, malandramente, soube fazer de um meio de transporte o sinônimo de toda uma esfera social.

— Bem-vindos à Lapa! — Disse o vigário motorneiro.

E, se a Lapa é o cenário perfeito para que este passeio embarque mais personagens, destacamos aqui que, da Lapa até Santa Teresa, o bondinho, como é chamado, encantou gerações. Passeou pela história e deu vida aos famosos Arcos da Lapa, a qual nada mais eram do que um aqueduto colonial mais tarde adaptado para o trânsito dos bondes.

Na Lapa, o bonde testemunhou a malandragem, viu a chegada de marinheiros e transportou belas mulheres que encantavam o mundo, o mesmo mundo, que adentrava o Brasil pelo porto carioca. Entre nossos ilustres passageiros, reverenciamos Madame Satã, que, entre uma aventura e outra, utilizava os bondes como refúgio para escapar das perseguições policiais.

— Hora de partir! — Disse o vigário motorneiro.

E, com toda essa riqueza social, despedimo-nos desse cenário que hoje, entre copos, brindes e toda a boemia, faz do bonde um forte elemento da identidade cultural de nossa cidade.

Memórias que vêm, memórias que vão. Sentimento de saudade de um tempo que se foi. Das caixas de ferramentas, responsáveis pela manutenção de tantos bondes, restam sucatas.

Preservar a memória e valorizar o braço forte de todos aqueles que trabalharam ou ainda hoje trabalham por um sistema de transportes digno para toda a população é preciso. Com carinho, lembramos daqueles que um dia conduziram a memória, visando à resistência social e cultural coletiva desse meio de transporte.

Mas nem tudo ficou no passado. Nosso passeio ainda nos leva à última e mais charmosa de todas as estações.

Bem-vindos à Estação Carnaval!

Nas ruas, a festa é geral, mas, sobre os trilhos, não existe nada igual. Alegria, euforia e descontração. Entre fantasias e batalhas de confete e serpentinas, lá estava ele, circulando pela cidade e levando um bando de foliões para onde quisessem ir.

As marchinhas eram o carro-chefe musical, em um tempo em que o carnaval brincava consigo mesmo, quando até mesmo a mulher do padeiro foi lembrada. O bonde se “travestia” e tornava-se o “Bonde da Alegria”, que, ironicamente, passeava por São Cristóvão, o mesmo chão de onde um dia partiram os primeiros bondes.

Os blocos de rua exibiam uma variedade de fantasias, e a cidade era tomada pela verdadeira essência da festa carnavalesca. O vigário motorneiro então rendeu-se a toda aquela agitação e, na placa de destino à frente daquele vagão, escreveu sutilmente a palavra “Alegria”, imortalizando uma das passagens mais singelas e verdadeiras do carnaval carioca.

História e imaginação, passado e futuro. Seria o bonde o precursor do VLT? A resposta vem do próprio vigário que, encantado, leva seu bonde até a Marquês de Sapucaí, onde recebe o pavilhão da escola que leva seu nome, honrando o povo que o ama e representando uma comunidade que luta, resiste e celebra a felicidade, expulsando as mazelas da vida e pulando, divertidamente, o carnaval.

E é com essa energia e embarcados na história, que convidamos todos a se tornarem foliões, para pular e sambar neste dia, revivendo o famoso Bonde da Alegria, que chega soando o sino da saudade pelos trilhos do coração, mostrando a força de uma comunidade que atravessa a avenida, chegando de bonde e fazendo, mais uma vez, a verdadeira festa aos olhos de uma cidade ainda mais maravilhosa.

CARNAVALESCOS
PULUKER E ROBSON GOULART

ENREDISTA
FELIPE D. MARINHO

Leia a sinopse da São Clemente para o Carnaval 2027

Enredo: “CRIALOGIA – GAMBIARRA À BRASILEIRA”

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Foto: Divulgação/São Clemente

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

“… A capacidade de criação é um dos motores da vida humana, muito pelo que produz externamente, mas mais ainda pelo que é capaz de devolver ao criador. Poucos prazeres se igualam ao se deparar com o fruto da própria criação, seja uma ideia, um produto, uma ação”.
Marcelo Melo

“Crialogia – Gambiarra à Brasileira”, é um enredo que nasce de inspiração duplamente feminina: os livros “Jacuba é Gambiarra” (2017), e “Quem não tem Cão, Caça com Gato: Estudando a Gambiarra” (2024), duas obras literárias de autoria da professora Sabrina Sedlmayer, acadêmica da Faculdade de Letras da UFMG; e o título do enredo “Onisuáquimalipanse” (2017), ideia genial da mestra carnavalesca imortal Rosa Magalhães, que transborda criatividade ao inventar uma palavra original abrasileirada, ou como ela mesma dizia, uma onomatopeia inspirada numa frase em francês, para nomear um projeto carnavalesco.

Por definição, segundo o dicionário, gambiarra é um substantivo feminino que significa “solução improvisada, provisória ou engenhosa, para resolver um problema imediato, ou para remediar uma situação de emergência utilizando os materiais disponíveis; remendo; improvisação; reflexo da criatividade e capacidade de adaptação; termo correspondente a ‘desenrascanço’, utilizado na Língua Portuguesa falada em Portugal”.

Para além das definições e significados atribuídos à expressão, gambiarra é sobre a criatividade enquanto combustível e ferramenta propulsora de sobrevivência brasileira. No imaginário popular coletivo, o tal jeitinho brasileiro de fazer as coisas, que é a maneira como o nosso povo miscigenado, plural e diversificado reflete essa mistura de etnias, cores, artes, saberes e sabores através da nossa capacidade nata, cheia de entusiasmo, para se reinventar.

Da junção de “cria”, termo associado a criação, criar, criatividade, criador; e o sufixo “logia”, que significa “estudo detalhado, tratado, teoria, ciência, discurso, dissertação”, a criação da expressão “crialogia”. Palavra pensada e inventada segundo “as fontes de nossas próprias cabeças”, justamente com a intenção de ilustrar essa nossa aptidão natural para buscar caminho e solução, resolvendo quaisquer problemas e imprevistos com originalidade, só no talento; e por que não, fazendo graça, fazendo festa, celebrando a liberdade que é aprender a rir de si mesmo, sem perfeccionismo e sem amarras, mesmo porque, alegria é resistência, e a essência das fanfarras.

Essa gambiarra de alma clementiana é costurada com fios de um bordado precioso, onde a própria construção do enredo em si, é uma autêntica gambiarra de conhecimentos intelectuais, populares e estéticos, onde a Academia e a Escola de Samba confeccionam, de mãos dadas, um desfile que apresenta a soberana arte de se reinventar em linguagem de Carnaval.

JUSTIFICATIVA

“… Lá de onde eu venho, quando falta, a gente inventa. Se quebra, a gente ajeita, conserta. Se não tem, a gente cria. Chamam de gambiarra, mas isso sempre foi tecnologia de sobrevivência. Dizem que é jeitinho, mas às vezes, é o único jeito. Num país onde falta tanto, a criatividade sempre sobrou. Porque gambiarra não é só remendo, é reinvenção. É transformar o pouco, em possibilidade. No Brasil, a gente não espera a vida dar certo; a gente dá um jeito”.
Raphael Lavor

A escolha do enredo perpassa diretamente pelo zelo de criar, desenvolver e executar, com comprometimento, um projeto carnavalesco inédito, original, com temática atemporal, que simultaneamente fosse capaz de agregar, retratar e honrar a identidade do Pavilhão, sendo a São Clemente uma Agremiação popularmente conhecida por apresentar em seu DNA, temáticas que propõem reflexão social embebida de autenticidade, ousadia, irreverência e bom humor; usando a arte para impactar pessoas.

Se o argumento e a fundamentação são os pilares que contextualizam a sucessão de acontecimentos e desdobramentos da narrativa, é essencial pontuar que o Bem-Te-Vi desempenha o papel de narrador-personagem do enredo, sendo o seu voo o fio condutor que guia a abordagem, e esse direcionamento não é casual: deve-se ao fato de que o termo gambiarra é associado ao pássaro devido ao processo de feitura de seus ninhos, grandes e esféricos, construídos com a utilização de materiais inusitados, que são encontrados fartamente em áreas urbanas, tais como gravetos, linhas de pipa, pedaços de sacos plásticos, barbantes, arames, tecidos, ou mesmo fiação de postes; ou seja, uma autêntica gambiarra esculpida pela natureza.

Na região do bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, a ave cuja penugem contrasta tonalidades de amarelo e preto – cores símbolo da Escola, é presença ilustre nos galhos das árvores, na sacada das janelas, na fiação da rede elétrica, sendo vista como um vizinho amigo, que faz companhia aos habitantes locais, coroando o dia com a alegria de suas aparições e ao revelar o seu potente topete de milhões.

Além disso, o passarinho – que tem esse nome pois o seu canto é o anúncio vocalizado de um bom presságio, daí ser chamado de mensageiro – é associado à Exu, o Orixá da Comunicação entre o mundo material (Ayê, a Terra) e o mundo espiritual/imaterial (Orum, o céu); divindade que é a força motriz que coloca a energia em movimento e abre os caminhos para a criação.

O título “Gambiarra à Brasileira” faz alusão ao nome de um possível prato de comida, pois são necessários muitos ingredientes para preparar uma gambiarra carnavalesca que sirva um banquete capaz de saciar a fome de informação e cultura, cujo conceito é apresentado não somente enquanto improviso diante da escassez, mas como método e traço identitário do Brasil. De modo que crialogia, se dá quando as ideias em ebulição revolucionam o pensamento, e uma explosão de criatividade resulta em criação.

O desfile apresentará o enredo edificado em três setores, a saber:
 Setor 01: Gambiarra da Herança Cultural Ancestral
 Setor 02: Inventos e Uso Prático das Gambiarras – Criatividade e (Re)Solução
 Setor 03: O Carnaval e a Gambiarra dos Folguedos, Festas e Fanfarras

Diante de todos os apontamentos e considerações expostos acima, de maneira didática e sintetizada, é com esta proposta que esperamos cumprir a missão de levar para a Avenida um enredo com informações tecidas e reforçadas consoante um viés histórico, cultural, antropológico, literário e estético, sob um olhar leve e lúdico, repleto de verbetes e expressões populares, de modo que o desfile se transforme em palco para reflexão social, associada a entretenimento e descontração, onde ecoa a voz da nação.

SINOPSE

Bem-Te-Vi!!!

Meu chamamento ecoa no tempo em espiral. O que foi, o que é, e o que será se encontram nas encruzilhadas continuamente. Quem precisa de solução tem pressa, e eu sou a força motriz que impulsiona o movimento e abre os caminhos para a realização. É no meu ninho que a conexão invisível entre o Ayê e o Orum faz morada. Trago o dinamismo para onde há vida, fazendo o fluxo de energia circular e se transformar em algo novo, único, original. O pássaro mensageiro anuncia: Crialogia – Gambiarra à Brasileira, é um convite para apreciar uma degustação de brasilidade.

A boca que tudo come tem fome: mastiga as informações, saboreia o conhecimento, e expele um invento. Fome daquilo que nutre, fome de saber, fome de superar, resolver; apetite voraz, capaz de devorar o prato para saciar a fome do Brasil.

No caldeirão histórico-cultural, a mistura de raízes dá um caldo étnico que exala herança e ancestralidade, oriundas da miscigenação de povos indígenas originários, brancos europeus colonizadores, e negros africanos escravizados e seus descendentes, endossando o nosso sincretismo religioso, para deleite antropológico de riqueza imensurável.

O som dos atabaques determina o ritmo desse encontro entre tambores e tribos, embebido de Fé, tradições, conceitos, fundamentos, preceitos e Axé. Mas com o decorrer dos fatos, aprendemos que “nem tudo o que reluz é ouro”, há mazelas na formação do arquétipo do povo brasileiro, e o precário não pode ser romantizado, nem inventivamente transformado em solução. O processo de aculturação que nos foi imposto iteralmente usurpou o nosso ouro, e assim, passamos a usar a inventividade para resistir, existir.

Aprendemos que criar a própria realidade é uma forma de salvação, porque ser criativo na escassez é uma necessidade.

Há quem diga que ter uma nova ideia é como observar uma galáxia particular recém-descoberta, mas o tempo para desfrute e apreciação é relativo… Enquanto uns, amadores inspirados, usam a lógica do “preciso resolver isso agora” para fazer gambiarras domésticas restritas, sem ferramentas adequadas ou técnicas específicas, outros, inventivos inspiradores, se revelam inventores de feitos coletivos transformadores, porque ousaram lapidar seus inventos até atingir excelência.

Assim, surgiu a máquina de escrever, oriunda do desejo de otimizar e padronizar o registro da palavra; o rádio, viabilizando comunicação instantânea acessível em massa, propagando em ondas, notícias e canções; o avião, que deu asas à imaginação, e realizou o sonho do Homem de voar, livre, lá nas alturas; a radiografia, máquina desenvolvida para ver os ossos, que ao fotografar a sombra do esqueleto, foi chamada de bruxaria, como se captasse a alma do corpo, mas na verdade, é instrumento fundamental para diagnóstico, um grande feito para a medicina.

“Quem não tem cão, caça com gato”, diz o ditado popular. Se faltar o faro do conhecimento prévio necessário, a gente ativa o instinto da intuição. Porque no jogo da vida real, é fundamental encontrar luz na escuridão e saber jogar com as cartas que se tem na mão. Criatividade é chama que ilumina o impulso para a ação. Foi assim, que desenvolvemos a arte de fazer do limão não só uma limonada, mais caipirinha, docinho, mousse, bolinho, temperar a carne de porco e colocar por cima do salaminho.

A gente se vira – às vezes, revirando as pálpebras, mas se vira – se revira, dá um jeito, pulando de galho em galho, quebrando galho, serrando tronco, fazendo malabarismo, correndo a gira, equilibrando os pratinhos, mas resolve. Ufa!!!

As mães, chefes de família, muitas vezes solo, mas não sozinhas, parecem ter se tornado especialistas nessa coisa de apesar das adversidades, encontrar uma saída quando tudo parece perdido. Talvez isso seja mesmo um superpoder, desenvolvido no ventre de quem tem a capacidade de se transformar em abrigo, morada e alimento, para gerar um novo ser.

Gente, que pra ser gente, precisa da gente… Desde o berço, na solidariedade comunitária, para olhos atentos, é possível enxergar poesia e um estranho deslumbramento na dificuldade travestida de memória afetiva: o varal de bambu com pregadores quebradiços na lage, titubeando com o soprar dos ventos; a TV apresentando a transmissão, reparada por um embolado de palha de aço na ponta da antena; o chinelo de dedo com a tira remendada por um prego atravessado; as brincadeiras de criança que driblam o sufoco com futebol de chapinha e bola de meia, cenário que remete a uma trama de laços emocionais. A criatividade brasileira começa no território. Se não tem as manhas, não entra não!

Nas ruas, becos e vielas da favela, o retrato realista das gambiarras que nascem do improviso criativo, quando a vida apresenta senso de urgência em busca de opção e solução; em meio às pipas que cortam o céu e desenham manobras no ar, rabiolas enroscadas no emaranhado de fios e cabos que conduzem luz e internet, onde repousa um par de tênis arremessado, que por vezes remete a um pedido socorro e sorte, por parte de quem já perdeu o chão e o norte.

“Calce os meus sapatos e trilhe o meu caminho”… Falar de meritocracia sem falar de privilégios, é ignorar a insana realidade da desigualdade social exacerbada, onde o lobo se alimenta da ambição atroz. No caos de quem vive na corda bamba entre o descaso e o
improviso, meninos fiéis, moleques crias geniais, criam oportunidades mandando o passinho, armados de livros e instrumentos musicais. Na comunidade e na periferia, a gambiarra da vida cotidiana revela os sintomas de resistência diante da precariedade, é a vida pulsando marginal à discrepância, representada pela flor que brota ao romper a aridez do asfalto, pra lembrar que é sobre viver, e não só sobreviver.

A criatividade também existe para criar alegria. Nos dias em que a rotina flerta com o abatimento, o desânimo e a tristeza, possivelmente como mecanismo de sobrevivência ou defesa, aprendemos a inventar uma espécie de felicidade provisória para nos alegrar e combater o apoquento; pequenas doses de prazer, ainda que temporariamente, mesmo que tenha prazo de vencimento iminente. Segundo o brilhante escritor Luiz Antônio Simas, “a gente se reinventa para viver a festa através de frestas de encantamento”.

No Brasil, a nossa alegria é estratégica. Temos o privilégio de vivenciar uma cultura que o mundo inteiro fica fascinado, tenta decifrar os nossos hábitos e costumes, mas só quem nasceu e vive aqui consegue sentir na pele: que é a nossa capacidade de atingir o estado de congraçamento enquanto contragolpe do infortúnio, do revés e da miséria. Se gambiarra é essa combinação de um monte de coisas reunidas, coladas, aglomeradas, costuradas, sobrepostas, ajuntadas, que viram uma espécie de “troço ou treco

resolutivo”, a gambiarra das fanfarras reúne um conjunto de folguedos populares nacionais capazes de proporcionar catarse coletiva e redenção da população, produzindo beleza e êxtase com aquilo que o sistema descarta.

São manifestações artísticas diversas e multifacetadas, que reúnem música, dança, fantasias, adereços, maquiagem… Uma autêntica “bagunça organizada”, artifício para combater toda a forma de falta, fome e vazio, onde impera um clima festivo de avesso da ordem, que agrega pessoas para momentos destinados a curar as agruras a baixo custo e simplesmente desfrutar o existir. Saber ser fortaleza, e escancarar o riso apesar das dores, é genialidade atrevida, e uma das mais belas formas de traduzir o que significa ser.

Porque as festas populares são brechas que possibilitam a reconstrução do sentido coletivo de vida onde esses sentidos foram historicamente dilacerados. Os blocos de rua e suas invencionices, com uma multidão de foliões fervendo na pista, todo mundo junto e misturado, miscelânea de suor, glitter, brindes e beijos; a sátira inteligente e caricata dos bonecos gigantes de Olinda, engenhosidade que ganhou as ladeiras da cidade, coloridas pelo girar das sombrinhas ao som do frevo; o batuque do Maracatu, que carrega a coroa na cabeça e o tambor no peito, cortejando a negritude; o Afoxé, Axé benzedeiro difundido a partir do terreiro; a galera atrás do trio elétrico, literalmente pulando que nem pipoca, dentro e fora das cordas; o espetáculo criado pelos artífices das Escolas de Samba, que insistem em colorir o mundo com uma aquarela especial, porque enxergam o tanto que há de Sagrado nessa festa dita profana.

O Carnaval é a maior crialogia já inventada pelo Brasil!!! É uma virada de chave que abre portas e propicia a reconstrução de sociabilidade e coletividade, outrora inviabilizada; se apropria da sabedoria da escassez, e nos coloca diante da necessidade de nos (re)inventar. Na Avenida onde os sonhos ganham vida, evidencia-se a capacidade de transformação e adaptação, tal qual camaleão. Em meio a um mar de rosas, gente simples ganha status de personalidade, e corpos encantam ao som do Samba, onde a malandragem reina, de braços abertos, a olhar por nós.

Bem-Te-Vi!!!
A São Clemente vem aí!!!

Carnavalesca: Annik Salmon
Enredista: Bianca Behrends

Gaviões da Fiel faz junção de dois sambas para fazer a gira na casa de Ogum no Carnaval 2027

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Por Pedro Ribeiro e Will Ferreira

Para fazer uma gigantesca celebração de religiões afro, os Gaviões da Fiel ousaram na final de samba-enredo da escola, realizada na última sexta-feira. Com cinco sambas na disputa, a diretoria da escola optou pela junção de dois sambas: o de número 01 no concurso, composto por Grandão, José Rifai, Luciano Costa, Sukata, Dentinho do Morro, Fadico, Marcelo Paschoal JB, Gabriel Lima, Alex Biro, Morganti, Oliveira, Neck e Andrezinho; e o 12, de autoria de Cláudio Russo, Luiz Antônio Simas e Chico Poeta. A música será a responsável por embalar o desfile de “É Noite de Gira na Casa de Ogum”, assinado pelos carnavalescos Julio Poloni e Rayner Pereira. Presente em todos os grandes eventos que envolvem as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO conversou com nomes importantes da escola para saber mais sobre a obra e como a canção caiu no gosto dos Gaviões da Fiel. Nem um dos três autores do Samba 12 estavam presentes no evento.

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Fotos: Pedro Ribeiro e Will Ferreira/CARNAVALESCO

A parceria responsável pelo Samba 01 é, por si só, uma junção – e fez questão de deixar isso claro até mesmo citando o texto-base para a composição do samba: “Antes de falar da sinopse do Julio e do Rayner, vou dar um passo um pouquinho atrás. Nós fizemos uma junção esse ano com a parceria do Grandão. Eu, o Luciano e o Fadico já tínhamos uma parceria de longos anos. O Grandão não precisa nem falar, é uma referência máxima. Mas, no ato da sinopse, da explanação do enredo, ficou muito claro que eles almejavam uma noite de gira. Como é chegar num terreiro de umbanda, desde uma varrição ou de uma defumação. Isso foi trazendo inspirações para a parceria como um todo. Embora ali tenha os católicos, tenha evangélicos, tenha quem é da macumba, a gente caiu dentro da sinopse e estudou. Procuramos fazer aquilo que a gente entendeu de poesia, baseado em toda a religiosidade que a escola pedia”, destacou Alex Biro.

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O compositor destacou que o processo de criação passou pela criação de diversos trechos, filtrando o que tinha ainda mais destaque: “A nossa parceria é pura bomba atômica! Quando a gente acha que a primeira está boa, surge uma outra ideia. Mas esse samba, especificamente, aconteceu muito naturalmente. Ele aconteceu basicamente em três ou quatro encontros. A letra foi passada por uma avaliação dentro da escola”, comentou.

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Alex fez questão de exaltar um dos parceiros de parceria – que também foi ouvido pela reportagem: “O Luciano é mais antigo de casa e é muito criterioso. Ele é um cara muito meticuloso, ele analisa com os anos de Gaviões e fala que algo funciona ou não. Às vezes dá certo a opinião como um todo, como aconteceu esse ano, graças a Deus. Mas, às vezes, existe divergência na parceria. É democrático, é óbvio. Aí a gente tenta casar a música com a letra e com a história, dentro do respeito e do sincretismo das religiões. Tem toda uma crença, tem algo muito especial pra você seguir. Não adianta você começar de trás para frente, tem todo um respeito às entidades e aos orixás. E surgiu, aconteceu”, destacou.

Como resposta, Luciano Costa pontuou que o cuidado com a religião afro norteou o processo de composição e que a inspiração veio naturalmente: “Um ano é sempre diferente do outro. Para esse samba aqui, nós conseguimos fazer uns cinco refrões e umas três primeiras até chegar nessa daí, que era a mais correta num termo que se fala de umbanda. Como se abre, como se prossegue e como se termina a umbanda. Uma gira, na verdade. E deu nisso aí. A maioria gostou, ganhou porque também foi aceito aqui na quadra, pela comunidade do Gaviões”, comemorou.

Indagados pela reportagem, ambos não hesitaram em citar a parte favorita da composição: “A parte favorita é unânime na parceria: ‘a umbanda clareou, foi mandinga e oração/Cai por terra o inimigo que mexer com o gavião’. É uma preparação para o refrão, é um bis”, explicaram.

Mandatários satisfeitos

Fábio Câmara, popularmente conhecido com Fantasma, vice-presidente dos Gaviões da Fiel, defendeu a junção proposta pela agremiação: “Todos os sambas tinham algumas partes que se destacavam. A junção facilita o trabalho para ser o resultado que a gente espera. Se eu falar para você que um é melhor que o outro ou que uma parte é melhor que a outra, é um pouco injusto. Cada um tem um destaque especial. Juntando os dois dá o resultado que a gente espera”, comentou.

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Ele próprio destacou que a decisão não foi simples de ser tomada: “Quando fecha a salinha, as discussões sempre são acaloradas porque sempre a gente busca o melhor para os Gaviões da Fiel. Como conclusão, o resultado foi para o nosso povo, para a nossa comunidade. A gente decidiu pela nossa comunidade aquilo que mais chamou atenção. Trouxemos para a discussão e conseguimos fazer a junção de dois sambas bons que vão trazer um bom resultado para nós”, prometeu.

Da sinopse para a prática

A dupla de carnavalescos dos Gaviões mostrou-se satisfeita não apenas com os finalistas, mas com todo o processo de eliminatória de samba-enredo. Rayner começou: “A gente se surpreendeu com a quantidade de sambas que a gente recebeu. A grande maioria atendia além do que a gente pediu na sinopse. Isso é um motivo de orgulho, e é o motivo do porquê fizemos uma final com mais do que a gente queria inicialmente. É o resultado de que todo mundo entendeu e todo mundo acreditou na proposta que a gente tem para apresentar dentro da avenida”, comentou.

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Julio seguiu a mesma linha: “A gente tinha cinco grandes sambas na final e isso não é conversa para ser mais específico. Acreditamos que qualquer um dos cinco está pelo menos no top cinco dos melhores sambas do Carnaval. Estamos muito felizes, muito orgulhosos por termos uma feliz missão para cumprir aqui hoje. A gente está muito tranquilo porque os cinco sambas nos atendiam, os cinco estavam dentro do enredo, os cinco eram baitas sambas e tinham a potência que a gente preza para o desfile. Os sambas escolhidos a gente já sabe que vão sair daqui como uma única grande obra – e, com certeza, será o samba que a gente precisa para impactar o Anhembi em 2027”, comemorou.

O processo de escolha de samba-enredo dos Gaviões, de fato, chamou atenção de todo o universo do Carnaval paulistano. A começar pelo número de obras inscritas: vinte e sete, tido como de uma abundância rara. A escola costuma levar três sambas para a final; mas, dado o alto número de inscritos e a qualidade de muitos deles, a decisão contou com duas canções a mais.

Diretoria abrindo caminhos

Celso Ribeiro, um dos diretores de Carnaval dos Gaviões, destacou quais foram as solicitações que a escola fez para os compositores: “A gente fez alguns pedidos para as parcerias. A começar que era para seguir pela linha da umbanda mesmo, porque é o samba e porque é uma religião brasileira. Permitimos que algumas coisas entrassem nos sambas porque é uma religião que vem da África, embora ela tenha surgido aqui no Brasil. Hoje, temos um pouco dessa mistura, e, por isso, pedimos que entrasse no sincretismo da religião e que fosse um samba totalmente voltado para a umbanda. Eles podiam misturar pontos das entidades e saíram essas obras de arte. Nós tínhamos cinco obras de arte de verdade e escolhemos duas delas para nos representar”, destacou.

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Voz da Fiel feliz

Intérprete dos Gaviões da Fiel desde 1985, Ernesto Teixeira mostrou-se satisfeito com os cinco finalistas: “Primeiramente, positividade para todo mundo aí que está nos lendo. Todos os sambas que foram para a final estavam muito bem elaborados: cada um com um detalhezinho diferente. As apresentações mostraram aquilo que veio nas gravações. Eu estou muito feliz aqui. Tenho certeza que as duas obras que gente escolhei darão um grande samba para o ano que vem”, comentou.

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Ao ser perguntado sobre os cuidados para cantar uma canção que terá palavras em religiões africanas, Ernesto foi além e pontuou que outras questões também são importantes para se observar: “São vários detalhes: a questão da tonalidade, a questão da dicção. Mas, se tiver que cantar um samba em mandarim, nós cantamos também, não tem problema. É só trazer, a gente vai ensaiar e vamos levar para a avenida. Não tem sido nenhuma dificuldade cantar palavras em iorubá”, tranquilizou.

Mestre de bateria com ideias

Comandante da Ritimão, bateria dos Gaviões da Fiel, mestre Ciro Castilho destacou que já está com a cabeça fervilhando: “A gente já tem bastante coisa em mente. A gente tem uma ala que às vezes é timbau, às vezes vai de tambor. Esse ano vai ser tambor, vai ser macumba pura, mesmo. A gente vai trazer muita coisa legal. Muito toque característico e as ideias já começam depois de hoje. Com os sambas escolhidos, a gente já vai para a casa com a mente ‘a milhão’. Vamos para cima!”, energizou-se.

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Riscando desde o primeiro momento

Primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira dos Gaviões da Fiel, Wagner Lima e Carolline Barbosa deixaram claro que já estão pensando tal qual participantes de um ato religioso: “A junção dos sambas vai trazer a cultura e a religião afro para dentro da pista de uma forma diferente, em formato de uma gira, mesmo. E, pensando no regulamento, a gente tem que trazer alguma coisa coreográfica que remeta ao tema. Não vou contar muitos spoilers da nossa coreografia, mas sim, pretendemos colocar alguma coisa para estar dentro do universo da umbanda e dentro da religião”, contou Carol, misteriosa.

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Ao falar do enredo, Wagner aproveitou para fazer o gancho com o clube que tem os Gaviões como principal torcida organizada: “Esse enredo a gente vive no dia a dia dos Gaviões, que é Corinthians, São Jorge, Ogum. É como a Carol disse, algumas coisas na avenida a gente tem que pincelar em cima do enredo. Imagine uma gira que tenha danças dentro dessas giras. E algumas danças serão colocadas sem tirar de vista o critério de julgamento”, explicou.

Evento completo

Como costuma acontecer em eventos especiais na quadra dos Gaviões da Fiel, o Bom Retiro estava tomado por corinthianos. O próprio acesso à final foi feito em um espaço anterior ao portão da quadra: no meio da rua Cristina Tomás, e não já na esquina com a avenida Presidente Castelo Branco, onde está localizada a quadra. Tudo para dar mais conforto à comunidade, em um recuo com food trucks e espaço ao ar livre.

Um DJ animava a Fiel até a Ritimão começar o esquenta, com cortejo e saudação ao pavilhão. O departamento de casais, a Harmonia Guerreira, a Velha Guarda, as Baianas, o Departamento Cênico, a Comissão de Frente, as Passistas, a Ala das Crianças e as Destaques de Chão se apresentaram em momentos pré-determinados. Também houve espaço para a execução do Hino do Corinthians (algo tradicional na quadra), a entrega do pavilhão de enredo ao segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira e a lembrança de sambas históricos dos Gaviões da Fiel.

Sambas marcantes

O primeiro samba a se apresentar foi o 01, um dos vencedores da eliminatória. A apresentação chamou atenção pela ausência de refrões cortando estrofes, com um falso refrão antes do refrão da cabeça e o restante da obra corrida, sem repetições. Algumas das palavras finais também não tinham rimas próximas, o que aumentava o impacto da apresentação e agradava ouvidos mais atentos.

O seguinte foi o Samba 03, da parceria de Samir Trindade, Leo Trindade, Marcelo Silva, JB Oliveira, Deco, Masterson Alves, Márcio Keleque e Armandinho do Cavaco. A repetição de alguns versos bem característicos de enredos afro, como “Ê aruanda” e “Ê ciganinha” cativou torcedores, bem como o verso “chegou a hora de ser campeão”, lembrando das boas colocações dos Gaviões da Fiel nos últimos anos (quarto em 2024, terceiro em 2025 e segundo em 2026), além de rememorar que o último título do Grupo Especial da Torcida Que Samba veio em 2003.

O segundo samba vencedor, o de número 12, foi o terceiro a se apresentar. A primeira estrofe longa, com catorze versos, contrastou positivamente com a segunda, com dois versos que se repetiam logo após o refrão do meio. O refrão de cabeça, curto e com três “saravá” em dois versos, também trouxe ótima impressão para quem acompanhava a exibição.

O Samba 07, composto por Mc Hariel, Minuettos, Renato do Pandeiro, Rica Leite, Luciano Rosa, Cacá Mascarenhas, Eduardo Regianno, Vini, Beto Cabeça, Portuga, Alves, Rafa Cria, Imperial, Biro e Willian Tadeu, chamou atenção logo de cara pela presença maciça de torcedores na quadra. O verso inicial do refrão de cabeça, “toca o xequerê”, fazia a quadra cantar um trecho do samba que, ao contrário de outros tantos sambas-enredo, tinha execução mais longa que o normal. A segunda estrofe, bastante extensa, acabava com o verso “Vai passar o terremoto Gaviões”, frase muito utilizada por Alexandre Domênico Pereira, o Alê, presidente da agremiação.

Por fim, o Samba 23, de autoria de Nelsinho Velha Guarda, Diego Nicolau, Nando do Cavaco, Dom Alvaro, Caio Ricci, Guinê, Bruno Galasso e André Filosofia, tinha como destaque o refrão do meio bastante enxuto e simples de se cantar, que fazia com que a comunidade comprasse a ideia da obra. A segunda do samba, com as saudações características de diversos orixás, aproximava quem era de religiões afro; e o falso refrão antes do refrão de cabeça mexia, em especial, com a escola protegida por Ogum, chamando-o de “guia da casa”.

Leozinho Nunes relembra desafio após perda de Gilsinho e celebra sintonia com a Tom Maior para 2027

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Foto: Pedro Ribeiro/CARNAVALESCO

O ciclo do Carnaval 2026 foi profundamente doloroso para a Tom Maior. A perda de Gilson da Conceição, o Gilsinho, intérprete oficial de 2022 até seu falecimento, em setembro de 2025, abalou o cotidiano da quadra e do barracão. Nesse contexto árduo, coube a Leozinho Nunes assumir essa responsabilidade gigantesca no desfile de 2026 e seguir com a escola para 2027. O talentoso intérprete conversou com o CARNAVALESCO sobre sua chegada à Tom Maior, os desafios e a sintonia com a escola.

“Eu cheguei aqui, a escola estava triste com a perda do Gilsinho, como eu sou um cara irreverente, eu pensei: poxa, eu preciso tocar fogo para a galera vir comigo. Eu descia do palco. Falava com um; falava com outro; a galera foi me abraçando, e a escola deu toda a estrutura para minha evolução”, disse.

O carnaval paulistano possui seus detalhes, histórias e curiosidades. Na Tom Maior, o presidente Carlos Alves e o mestre de bateria, Mestre Carlão, possuem o número de CPF idêntico. Para a ala musical, isso pode ser uma vivência exclusiva para quem trabalha com a folia, e o intérprete contou ao CARNAVALESCO como está sendo essa experiência.

“É inédito! Ele é um cara excepcional, que trabalha muito; incansável! Ele gosta de ensaio. Por ele, era ensaio todo dia”, brinca.

Desde a apresentação do enredo “Eu Sou o Pão da Vida”, a Tom Maior intensifica o desenvolvimento do projeto para o Carnaval 2027. O tema, que percorre história, religiosidade, cultura, política e simbolismos, mantém viva a expectativa da comunidade, principalmente após o excelente desfile de 2026, quando Chico Xavier foi levado à avenida. Integrado ao trabalho que vem sendo desenvolvido pela escola, Leozinho Nunes comentou ao CARNAVALESCO o que espera para o próximo desfile:

“A gente fez um belíssimo desfile, mas infelizmente ficamos em 6º lugar. Eu acho que a gente merecia um pouquinho a mais, mas Deus sabe o que faz. A gente vai trabalhar muito para conquistar voos maiores”, finaliza.

A demonstração de alegria e vitalidade do intérprete é um exemplo de postura na ala musical e energiza toda a comunidade depois de tudo o que enfrentou. O carnaval cura, e o casamento entre Leozinho Nunes e a Tom Maior já superou a etapa de ser promessa ou algo promissor. É uma realidade.