Enredo: “CRIALOGIA – GAMBIARRA À BRASILEIRA”

INTRODUÇÃO
“… A capacidade de criação é um dos motores da vida humana, muito pelo que produz externamente, mas mais ainda pelo que é capaz de devolver ao criador. Poucos prazeres se igualam ao se deparar com o fruto da própria criação, seja uma ideia, um produto, uma ação”.
Marcelo Melo
“Crialogia – Gambiarra à Brasileira”, é um enredo que nasce de inspiração duplamente feminina: os livros “Jacuba é Gambiarra” (2017), e “Quem não tem Cão, Caça com Gato: Estudando a Gambiarra” (2024), duas obras literárias de autoria da professora Sabrina Sedlmayer, acadêmica da Faculdade de Letras da UFMG; e o título do enredo “Onisuáquimalipanse” (2017), ideia genial da mestra carnavalesca imortal Rosa Magalhães, que transborda criatividade ao inventar uma palavra original abrasileirada, ou como ela mesma dizia, uma onomatopeia inspirada numa frase em francês, para nomear um projeto carnavalesco.
Por definição, segundo o dicionário, gambiarra é um substantivo feminino que significa “solução improvisada, provisória ou engenhosa, para resolver um problema imediato, ou para remediar uma situação de emergência utilizando os materiais disponíveis; remendo; improvisação; reflexo da criatividade e capacidade de adaptação; termo correspondente a ‘desenrascanço’, utilizado na Língua Portuguesa falada em Portugal”.
Para além das definições e significados atribuídos à expressão, gambiarra é sobre a criatividade enquanto combustível e ferramenta propulsora de sobrevivência brasileira. No imaginário popular coletivo, o tal jeitinho brasileiro de fazer as coisas, que é a maneira como o nosso povo miscigenado, plural e diversificado reflete essa mistura de etnias, cores, artes, saberes e sabores através da nossa capacidade nata, cheia de entusiasmo, para se reinventar.
Da junção de “cria”, termo associado a criação, criar, criatividade, criador; e o sufixo “logia”, que significa “estudo detalhado, tratado, teoria, ciência, discurso, dissertação”, a criação da expressão “crialogia”. Palavra pensada e inventada segundo “as fontes de nossas próprias cabeças”, justamente com a intenção de ilustrar essa nossa aptidão natural para buscar caminho e solução, resolvendo quaisquer problemas e imprevistos com originalidade, só no talento; e por que não, fazendo graça, fazendo festa, celebrando a liberdade que é aprender a rir de si mesmo, sem perfeccionismo e sem amarras, mesmo porque, alegria é resistência, e a essência das fanfarras.
Essa gambiarra de alma clementiana é costurada com fios de um bordado precioso, onde a própria construção do enredo em si, é uma autêntica gambiarra de conhecimentos intelectuais, populares e estéticos, onde a Academia e a Escola de Samba confeccionam, de mãos dadas, um desfile que apresenta a soberana arte de se reinventar em linguagem de Carnaval.
JUSTIFICATIVA
“… Lá de onde eu venho, quando falta, a gente inventa. Se quebra, a gente ajeita, conserta. Se não tem, a gente cria. Chamam de gambiarra, mas isso sempre foi tecnologia de sobrevivência. Dizem que é jeitinho, mas às vezes, é o único jeito. Num país onde falta tanto, a criatividade sempre sobrou. Porque gambiarra não é só remendo, é reinvenção. É transformar o pouco, em possibilidade. No Brasil, a gente não espera a vida dar certo; a gente dá um jeito”.
Raphael Lavor
A escolha do enredo perpassa diretamente pelo zelo de criar, desenvolver e executar, com comprometimento, um projeto carnavalesco inédito, original, com temática atemporal, que simultaneamente fosse capaz de agregar, retratar e honrar a identidade do Pavilhão, sendo a São Clemente uma Agremiação popularmente conhecida por apresentar em seu DNA, temáticas que propõem reflexão social embebida de autenticidade, ousadia, irreverência e bom humor; usando a arte para impactar pessoas.
Se o argumento e a fundamentação são os pilares que contextualizam a sucessão de acontecimentos e desdobramentos da narrativa, é essencial pontuar que o Bem-Te-Vi desempenha o papel de narrador-personagem do enredo, sendo o seu voo o fio condutor que guia a abordagem, e esse direcionamento não é casual: deve-se ao fato de que o termo gambiarra é associado ao pássaro devido ao processo de feitura de seus ninhos, grandes e esféricos, construídos com a utilização de materiais inusitados, que são encontrados fartamente em áreas urbanas, tais como gravetos, linhas de pipa, pedaços de sacos plásticos, barbantes, arames, tecidos, ou mesmo fiação de postes; ou seja, uma autêntica gambiarra esculpida pela natureza.
Na região do bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, a ave cuja penugem contrasta tonalidades de amarelo e preto – cores símbolo da Escola, é presença ilustre nos galhos das árvores, na sacada das janelas, na fiação da rede elétrica, sendo vista como um vizinho amigo, que faz companhia aos habitantes locais, coroando o dia com a alegria de suas aparições e ao revelar o seu potente topete de milhões.
Além disso, o passarinho – que tem esse nome pois o seu canto é o anúncio vocalizado de um bom presságio, daí ser chamado de mensageiro – é associado à Exu, o Orixá da Comunicação entre o mundo material (Ayê, a Terra) e o mundo espiritual/imaterial (Orum, o céu); divindade que é a força motriz que coloca a energia em movimento e abre os caminhos para a criação.
O título “Gambiarra à Brasileira” faz alusão ao nome de um possível prato de comida, pois são necessários muitos ingredientes para preparar uma gambiarra carnavalesca que sirva um banquete capaz de saciar a fome de informação e cultura, cujo conceito é apresentado não somente enquanto improviso diante da escassez, mas como método e traço identitário do Brasil. De modo que crialogia, se dá quando as ideias em ebulição revolucionam o pensamento, e uma explosão de criatividade resulta em criação.
O desfile apresentará o enredo edificado em três setores, a saber:
Setor 01: Gambiarra da Herança Cultural Ancestral
Setor 02: Inventos e Uso Prático das Gambiarras – Criatividade e (Re)Solução
Setor 03: O Carnaval e a Gambiarra dos Folguedos, Festas e Fanfarras
Diante de todos os apontamentos e considerações expostos acima, de maneira didática e sintetizada, é com esta proposta que esperamos cumprir a missão de levar para a Avenida um enredo com informações tecidas e reforçadas consoante um viés histórico, cultural, antropológico, literário e estético, sob um olhar leve e lúdico, repleto de verbetes e expressões populares, de modo que o desfile se transforme em palco para reflexão social, associada a entretenimento e descontração, onde ecoa a voz da nação.
SINOPSE
Bem-Te-Vi!!!
Meu chamamento ecoa no tempo em espiral. O que foi, o que é, e o que será se encontram nas encruzilhadas continuamente. Quem precisa de solução tem pressa, e eu sou a força motriz que impulsiona o movimento e abre os caminhos para a realização. É no meu ninho que a conexão invisível entre o Ayê e o Orum faz morada. Trago o dinamismo para onde há vida, fazendo o fluxo de energia circular e se transformar em algo novo, único, original. O pássaro mensageiro anuncia: Crialogia – Gambiarra à Brasileira, é um convite para apreciar uma degustação de brasilidade.
A boca que tudo come tem fome: mastiga as informações, saboreia o conhecimento, e expele um invento. Fome daquilo que nutre, fome de saber, fome de superar, resolver; apetite voraz, capaz de devorar o prato para saciar a fome do Brasil.
No caldeirão histórico-cultural, a mistura de raízes dá um caldo étnico que exala herança e ancestralidade, oriundas da miscigenação de povos indígenas originários, brancos europeus colonizadores, e negros africanos escravizados e seus descendentes, endossando o nosso sincretismo religioso, para deleite antropológico de riqueza imensurável.
O som dos atabaques determina o ritmo desse encontro entre tambores e tribos, embebido de Fé, tradições, conceitos, fundamentos, preceitos e Axé. Mas com o decorrer dos fatos, aprendemos que “nem tudo o que reluz é ouro”, há mazelas na formação do arquétipo do povo brasileiro, e o precário não pode ser romantizado, nem inventivamente transformado em solução. O processo de aculturação que nos foi imposto iteralmente usurpou o nosso ouro, e assim, passamos a usar a inventividade para resistir, existir.
Aprendemos que criar a própria realidade é uma forma de salvação, porque ser criativo na escassez é uma necessidade.
Há quem diga que ter uma nova ideia é como observar uma galáxia particular recém-descoberta, mas o tempo para desfrute e apreciação é relativo… Enquanto uns, amadores inspirados, usam a lógica do “preciso resolver isso agora” para fazer gambiarras domésticas restritas, sem ferramentas adequadas ou técnicas específicas, outros, inventivos inspiradores, se revelam inventores de feitos coletivos transformadores, porque ousaram lapidar seus inventos até atingir excelência.
Assim, surgiu a máquina de escrever, oriunda do desejo de otimizar e padronizar o registro da palavra; o rádio, viabilizando comunicação instantânea acessível em massa, propagando em ondas, notícias e canções; o avião, que deu asas à imaginação, e realizou o sonho do Homem de voar, livre, lá nas alturas; a radiografia, máquina desenvolvida para ver os ossos, que ao fotografar a sombra do esqueleto, foi chamada de bruxaria, como se captasse a alma do corpo, mas na verdade, é instrumento fundamental para diagnóstico, um grande feito para a medicina.
“Quem não tem cão, caça com gato”, diz o ditado popular. Se faltar o faro do conhecimento prévio necessário, a gente ativa o instinto da intuição. Porque no jogo da vida real, é fundamental encontrar luz na escuridão e saber jogar com as cartas que se tem na mão. Criatividade é chama que ilumina o impulso para a ação. Foi assim, que desenvolvemos a arte de fazer do limão não só uma limonada, mais caipirinha, docinho, mousse, bolinho, temperar a carne de porco e colocar por cima do salaminho.
A gente se vira – às vezes, revirando as pálpebras, mas se vira – se revira, dá um jeito, pulando de galho em galho, quebrando galho, serrando tronco, fazendo malabarismo, correndo a gira, equilibrando os pratinhos, mas resolve. Ufa!!!
As mães, chefes de família, muitas vezes solo, mas não sozinhas, parecem ter se tornado especialistas nessa coisa de apesar das adversidades, encontrar uma saída quando tudo parece perdido. Talvez isso seja mesmo um superpoder, desenvolvido no ventre de quem tem a capacidade de se transformar em abrigo, morada e alimento, para gerar um novo ser.
Gente, que pra ser gente, precisa da gente… Desde o berço, na solidariedade comunitária, para olhos atentos, é possível enxergar poesia e um estranho deslumbramento na dificuldade travestida de memória afetiva: o varal de bambu com pregadores quebradiços na lage, titubeando com o soprar dos ventos; a TV apresentando a transmissão, reparada por um embolado de palha de aço na ponta da antena; o chinelo de dedo com a tira remendada por um prego atravessado; as brincadeiras de criança que driblam o sufoco com futebol de chapinha e bola de meia, cenário que remete a uma trama de laços emocionais. A criatividade brasileira começa no território. Se não tem as manhas, não entra não!
Nas ruas, becos e vielas da favela, o retrato realista das gambiarras que nascem do improviso criativo, quando a vida apresenta senso de urgência em busca de opção e solução; em meio às pipas que cortam o céu e desenham manobras no ar, rabiolas enroscadas no emaranhado de fios e cabos que conduzem luz e internet, onde repousa um par de tênis arremessado, que por vezes remete a um pedido socorro e sorte, por parte de quem já perdeu o chão e o norte.
“Calce os meus sapatos e trilhe o meu caminho”… Falar de meritocracia sem falar de privilégios, é ignorar a insana realidade da desigualdade social exacerbada, onde o lobo se alimenta da ambição atroz. No caos de quem vive na corda bamba entre o descaso e o
improviso, meninos fiéis, moleques crias geniais, criam oportunidades mandando o passinho, armados de livros e instrumentos musicais. Na comunidade e na periferia, a gambiarra da vida cotidiana revela os sintomas de resistência diante da precariedade, é a vida pulsando marginal à discrepância, representada pela flor que brota ao romper a aridez do asfalto, pra lembrar que é sobre viver, e não só sobreviver.
A criatividade também existe para criar alegria. Nos dias em que a rotina flerta com o abatimento, o desânimo e a tristeza, possivelmente como mecanismo de sobrevivência ou defesa, aprendemos a inventar uma espécie de felicidade provisória para nos alegrar e combater o apoquento; pequenas doses de prazer, ainda que temporariamente, mesmo que tenha prazo de vencimento iminente. Segundo o brilhante escritor Luiz Antônio Simas, “a gente se reinventa para viver a festa através de frestas de encantamento”.
No Brasil, a nossa alegria é estratégica. Temos o privilégio de vivenciar uma cultura que o mundo inteiro fica fascinado, tenta decifrar os nossos hábitos e costumes, mas só quem nasceu e vive aqui consegue sentir na pele: que é a nossa capacidade de atingir o estado de congraçamento enquanto contragolpe do infortúnio, do revés e da miséria. Se gambiarra é essa combinação de um monte de coisas reunidas, coladas, aglomeradas, costuradas, sobrepostas, ajuntadas, que viram uma espécie de “troço ou treco
resolutivo”, a gambiarra das fanfarras reúne um conjunto de folguedos populares nacionais capazes de proporcionar catarse coletiva e redenção da população, produzindo beleza e êxtase com aquilo que o sistema descarta.
São manifestações artísticas diversas e multifacetadas, que reúnem música, dança, fantasias, adereços, maquiagem… Uma autêntica “bagunça organizada”, artifício para combater toda a forma de falta, fome e vazio, onde impera um clima festivo de avesso da ordem, que agrega pessoas para momentos destinados a curar as agruras a baixo custo e simplesmente desfrutar o existir. Saber ser fortaleza, e escancarar o riso apesar das dores, é genialidade atrevida, e uma das mais belas formas de traduzir o que significa ser.
Porque as festas populares são brechas que possibilitam a reconstrução do sentido coletivo de vida onde esses sentidos foram historicamente dilacerados. Os blocos de rua e suas invencionices, com uma multidão de foliões fervendo na pista, todo mundo junto e misturado, miscelânea de suor, glitter, brindes e beijos; a sátira inteligente e caricata dos bonecos gigantes de Olinda, engenhosidade que ganhou as ladeiras da cidade, coloridas pelo girar das sombrinhas ao som do frevo; o batuque do Maracatu, que carrega a coroa na cabeça e o tambor no peito, cortejando a negritude; o Afoxé, Axé benzedeiro difundido a partir do terreiro; a galera atrás do trio elétrico, literalmente pulando que nem pipoca, dentro e fora das cordas; o espetáculo criado pelos artífices das Escolas de Samba, que insistem em colorir o mundo com uma aquarela especial, porque enxergam o tanto que há de Sagrado nessa festa dita profana.
O Carnaval é a maior crialogia já inventada pelo Brasil!!! É uma virada de chave que abre portas e propicia a reconstrução de sociabilidade e coletividade, outrora inviabilizada; se apropria da sabedoria da escassez, e nos coloca diante da necessidade de nos (re)inventar. Na Avenida onde os sonhos ganham vida, evidencia-se a capacidade de transformação e adaptação, tal qual camaleão. Em meio a um mar de rosas, gente simples ganha status de personalidade, e corpos encantam ao som do Samba, onde a malandragem reina, de braços abertos, a olhar por nós.
Bem-Te-Vi!!!
A São Clemente vem aí!!!
Carnavalesca: Annik Salmon
Enredista: Bianca Behrends









