Enredo: LUZIA PINTA – DA CALUNGA GRANDE AOS CALUNDUS DE CURA

ARGUMENTO
Os saberes ancestrais guardados e protegidos ao longo do tempo são a chave para a compreensão dos mistérios e da verdade que envolve um ou mais povos.
Luzia Pinta, a menina escravizada, sequestrada de sua terra e introduzida no modelo de escravidão praticado durante o Brasil Colonial, em pleno século XVIII, é certamente um dos grandes pilares de sustentação destes saberes. Tendo em sua origem raízes centro-africanas-ocidentais e da nação Angola de onde, certamente, aprendeu a cultuar e legitimar seus antepassados.
Sua história é guiada pela prática do Calundu, um sistema cerimonial que envolve dança, canto, ritmos e incorporações de modo a proporcionar cura e alento. Muito provavelmente teria sido uma das primeiras manifestações espirituais e de reconexão com a ancestralidade do povo preto vivente em solo brasileiro. Nela se apresentou outras formas de celebração, incorporando outros saberes e ritos já existentes aqui, numa tentativa única de preservar os seus mistérios ancestrais.
Ao tornar-se calunduzeira, curandeira e rezadeira, preserva e reverencia a sua ancestralidade, com a continuidade do matriarcado, fundamentando e valorizando todas aquelas que vieram antes, e como tais, dignas de honra e celebração.
Enfrentou o julgo do opressor sob o cárcere da cruz. Dignificou sua raiz e transcendeu, deixando um legado imaterial de serviço, respeito, memória ancestral, identidade e pertencimento. Tornando-se referência para os que ainda precisam lutar pela reconstrução da história e da memória do povo preto neste país.
Sob a luz desta espiritualidade a história de Luzia Pinta, é também a história do povo preto e parte essencial no entendimento sobre o calundu no Brasil. E não importa o tempo que se demorou, ela ganhou nova vida, reforçando o sentindo de origem e continuidade.
JUSTIFICATIVA
Os apagamentos e os esquecimentos históricos perpetuados ao longo do período em que a escravidão era uma realidade no Brasil, fizeram muitas vítimas, entre elas, Luzia Pinta. Seu nome ficou escondido entre registros antigos que vieram à luz tanto no Brasil quanto em Portugal.
Luzia Pinta tornou-se personagem principal na pesquisa de muitos estudiosos, seja em busca de respostas sobre o período em que viveu, o papel da mulher escravizada ou forra que ascende nesta sociedade, sua saga e relevância histórica e espiritual, seja pelo entendimento sobre as práticas inquisitoriais ou ainda para compreender a manifestação dos calundus em seus ritos e celebrações praticados no Brasil.
Sua história é um farol para todos que vivem à mercê do medo e do preconceito, celebrando suas conquistas, priorizando sua cultura e sua liberdade. Sendo ainda mantenedora e promotora dos saberes ancestrais e da exaltação do matriarcado. Mantendo sua missão atuante ao se manifestar em tantas outras mulheres que, na história do seu povo, foram farol, alicerce, colo e afeto mediante tantas lutas que se fizeram e fazem valer.
Vivenciar Luzia Pinta e os Calundus é reverberar o sentido de pertencimento, liberdade e a religiosidade neste Brasil, experienciando o pulsar da vida que flui da sua força e da sua dignidade em honra a toda a ancestralidade.
Ao se inspirar nos diversos estudos, artigos e livros que retratam Luzia Pinta, a Em Cima da Hora evidencia e valoriza o trabalho destes historiadores e pesquisadores que se debruçam sobre o passado trazendo à luz histórias esquecidas em que a ancestralidade se apresenta. A mesma em que as escolas de samba estão inseridas, perpetuando o legado do seu povo também.
Salve Luzia Pinta e os calundus do Brasil!
SINOPSE
“- Para onde você vai?”
“- Para onde? Eu não sei.”
“- Vá embora logo, porque brevemente haverá de voltar.”
Eram tempos difíceis. Guerras, conflitos e escravidão.
A paz banida daquela terra nunca a conheceu.
Estar entre os vivos e os mortos fazia parte da sua sina.
Até o dia em que se encantou e, ancestralizada, se achegou por aqui.
Me chamo Luzia Pinta, foi assim que segui denominada desde que na Bahia aportei. Meu testamento é a vida que vivi. Minha herança é a mesma que herdei na Angola em que nasci e, até onde pude, me criei. E foi naquele tempo, sob o tormento da aflição, que por volta dos doze anos, determinaram meu destino. Do pouco que me lembro trouxe na bagagem da memória a família que o tempo levou. Cativa, atravessei a calunga grande e nela sentia que parte de mim renascia, fazendo-se presentes diversos kilundus que nessa jornada me acompanharam mesmo quando ainda não os entendia.
A força de Temba-Ndumba me conduziu para além da dor e desolação. E neste cenário de desesperança, meu pertencimento deu a dimensão de que tudo o que me formou transcendia no meu existir.
Sua jornada se ancora entremundos.
Desde as visões que teve ainda menina e as dúvidas que perseguiu.
Onde velhas anciãs, rios e caminhos se cruzavam.
Até os pontos de transição em que teve de enfrentar.
Seja nas correntezas dos rios que te puseram a percorrer.
Ou no peso de ouro que se valeu para pagar a liberdade que tanto almejou.
Cheguei pelas bandas das minas e, margeando o Rio das Velhas, que me pus a perceber que ali estaria presa minha alma, à sombra da amargura e do sofrimento que atravessariam meu corpo. Percorri as ruas e ladeiras de Sabará e região, fazendo do ganho a ponte para a minha liberdade; o mesmo sustento como de tantas outras assim como eu. Ali teve início meu ato de missão.
Calunduzeira me tornei, adivinhadeira e curandeira também. Alcunhas pelas quais o povo me tomou. Povo, que por muito tempo cuidei, os mesmos que as boas relações sustentaram em nome da liberdade para praticar meu calundu. Mas que um dia me trairiam sob o pavor da inquisição.
Na mistura plural das origens que pulsam nesse imenso Brasil.
Um calundu abrasileirado ela criou, à revelia de qualquer comparação.
Heranças africanas, saberes do negro da terra que ela também usaria.
A sua vestimenta podia ser como a de um anjo ou seguir “à moda turquesa”.
Um véu de penas descia pelas costas quando se punha a curar.
Com seu penacho e penduricalhos, seu corpo era conduzido.
Ao transe em que se envolvia através do som dos tambores.
Onde o Pau Santo e a raiz de Abutua atuavam como garantia.
E em outros ritos se valia do poder das ervas, unguentos e beberagens.
Até o dia em que não pôde mais praticar calundu.
Isto seguiu, até quando deixou de ser a Xinguila, a Sacerdotisa ancestral.
Se tornando aos olhos da cruz a feiticeira.
Tudo o que fiz foi seguir o que diziam os ventos de adivinhar, afinal, como me foi dito ainda menina, seria a voz de Deus. E sob intercessão de Nossa Senhora, Santo Antônio e São Gonçalo, rezei, benzi, bani a aflição e a angústia de quem não sabia a quem mais recorrer. Foi assim que meu caminho construí, por longos anos à vista de toda aquela gente. De senhores a doutores, padres e ouvidores, o meu fazer não era segredo. Mas, tempos sombrios eu vi chegar e sob o julgo da inquisição fui levada. Tudo o que construí, sinônimo de minha história, ruiu.
Deixei para trás as celebrações aos meus antepassados nas cerimônias dos calundus que, do meu jeito, pratiquei em honra aos meus ancestrais. De certo que eles permaneceram comigo por onde fui, até mesmo durante os açoites, torturas e julgamentos. E quando a tudo isso não sucumbi, vi aflorar a ira do meu inquisidor. Condenada, degredada e impedida de voltar aos meus lugares, a memória me trouxe a grande calunga e o seu limiar entre os vivos e os mortos em seu fluxo contínuo entre desaparecer e se eternizar.
Sob a guarda do tempo ela se encantou.
Para que, eternizada, fizesse valer a sina dos ancestrais.
Os calundus que tanto manifestou foram o esteio e camuflagem.
Para outros novos saberes que nesta terra se puseram a enraizar.
Do povo de Ketu, veio florescer o Candomblé naqueles Calundus de Tia Adetá.
Disfarce inicial para que na Barroquinha, Casa Branca fosse a pioneira.
Cabulas, macumbas, entre matas e cidades, ritos e rituais.
Ampararam quem ao invisível prestou devoção.
Onde saberes plurais se encontraram e se manifestaram.
E o sentir e o experienciar ganharam espaço e outras interpretações.
A umbanda talvez tenha o fundamento principal.
Que faz dela herdeira direta dos calundus praticados no Brasil.
Saberes ancestrais, entrelaçados com encantados que estiveram neste chão.
Comungando sob o elo primordial de ser fonte de cura e de alento.
Por via de uma ancestralidade que se encruza para além do tempo.
Eu percebo que eu e os calundus transcenderam o tempo sob o limite da vida e da morte e outros elos espirituais, através do encanto que minha sina determinou. E, quando finalmente me “encontraram”, me encantei outra vez, saída das manchas da escravidão, das páginas empoeiradas da inquisição, no Brasil e em Portugal. E, além de mim, vi ramificar os saberes, as identidades e pertencimentos, principalmente, quando outra mulher é a escolhida para proteger e preservar os mistérios ancestrais, lançando luz sobre a obscuridade do passado onde tentaram nos apagar e nos deixar esquecidas.
Sou apenas a mulher que um dia seguiu o chamado. Sendo canal, tal qual aquela mulher que benze, a que reza, a que cuida, a que ministra ervas e raízes, a que se inicia nos preceitos e a que se torna mãe de santo. Sou parte também daquelas que se mantêm na luta por dignidade, liberdade e respeito; um signo da representatividade ao testemunhar a preservação do matriarcado ancestral, fruto do legado que faz valer a missão que elas acolheram e, por continuidade, quem sabe um dia, se encantarão também.
O que eu não sabia, meus ancestrais me ensinaram.
A velha anciã que um dia me guiou se foi. Hoje, a anciã sou eu!
Luzia Pinta é fonte a se beber, é saber profundo.
Mistério que aos poucos vem sendo decifrado.
Admirando a vida que os calundus lhe fizeram percorrer.
Desde a calunga grande e transitando pela escravidão.
Nesta sua saga, sina ou missão, numa vida dedicada ao bem e ao sagrado.
Sendo referência de real poder, amparada pelos saberes ancestrais.
Fazendo o Brasil te exaltar e todo o mundo conhecer.
O legado de mais uma mulher preta do nosso passado.
Carnavalescos: Cahê Rodrigues e Rodrigo Almeida
Pesquisa e Texto: Anderclébio Macêdo
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