Cubango traz a riqueza dos ancestrais africanos no abre-alas
Cantando “A voz da liberdade”, o Cubango prestou homenagem à Luiz Gama. Jornalista, escritor e patrono da abolição da escravidão no Brasil. A agremiação de Niterói abriu seu desfile trazendo toda a suntuosidade da nobreza africana, remetendo aos ancestrais do homenageado. O Reino de Benin foi o tema do carro abre-alas. Antes de ser atacado por colonizadores e traficantes de escravos, Benin chegou a ser um dos mais poderosos da costa oeste africana. Luiza Mahin, mãe de Luiz Gama, proveio dessa região. Ela pertencia à nação nagô-jeje, da tribo Mahi, que tem origem no Golfo do Benin, noroeste africano.
Paula Monteiro, estreante na Sapucaí, destacou a importância da representatividade no enredo da escola.

“A gente ta representando a questão da voz, da liberdade dos negros. Isso é muito importante pra gente, não só no meu âmbito, como negra, mas na sociedade em geral. O carnaval tem sido cada vez mais contador de histórias, principalmente de historias que a gente não conhece. Isso traz muito conhecimento pra gente, não só pra quem participa, mas também pra quem assiste. Trazer a importância de uma pessoa que não é muito falada, que ficou oculta em algum momento, é muito legal”, salientou Paula.
Para Felipe Soares, que desfile na verde e branco desde os 8 anos de idade, a emoção toma conta por se tratar de um tema tão profundo.

“Emocionante pra mim que sou Cubango nato, desde criança. Choro, me emociono em qualquer ocasião, ensaio… E esse enredo, Luiz Gama, fala muito sobre a nossa resistência, nossa cultura, nossa arte”, confessou.
As fantasias dos componentes do carro abre-alas eram em dourado, preto e branco, com detalhes em verde limão. No costeiro, penas douradas davam um ar luxuoso a indumentária, complementando o visual da ala das baianas, que veio a frente do carro. A alegoria remetendo ao Reino de Benin era grandiosa, sendo dois carros acoplados, muito bem acabados. Esculturas de máscaras africanas e dentes de sabre em tom marrom e cobre marcavam o estilo afro, contrastando com o verde do pavilhão da escola e os desenhos tribais na base do carro.
Felipe acrescentou que ficou muito feliz e honrado antes do início da apresentação da escola.
“A gente tem que mostrar que tiveram pessoas que lutaram, nomes que não são lembrados. A historia do Luiz Gama, pra nossa raça, é muito importante. A gente tem que gritar pro mundo e mostrar o que acontece de verdade”, finalizou.
Império Serrano compara surgimento da escola com desabrochar de um jardim

O Império Serrano levou para a Avenida o enredo “Lugar de mulher é onde ela quiser”, exaltando a força feminina da sociedade e homenageando grandes estrelas imperianas anônimas e também famosas. Como não poderia ser diferente, o tema do enredo estava presente em diversos setores começando já pelo abre-alas: ‘Imperianas presente! Serrinha é o meu lugar’
A alegoria, que representava um jardim, trouxe no seu topo a coroa que é símbolo da escola. Na parte inferior, flores verdes e amarelas que remetiam ao grande jardim do glorioso Império. Já na parte frontal, as damas da velha guarda eram os destaques.
Com algumas falhas no acabamento visíveis, a alegoria comparava o surgimento do Império Serrano ao desabrochar em um belo jardim cercado de mulheres imperianas que ali estavam representando as flores.
“O Império vem representando as mulheres, como minha mãe e minha tia que são imperianas desde sempre. Toda mulher é uma flor”, disse Iaraci Gomes, 61.
Renascer mostra que samba faz bem ao corpo, alma e coração

A Renascer encerrou seu desfile com um alerta: é preciso cuidar da saúde. Para passar a mensagem, a escola trouxe uma ala de passistas “plus size” que foi uma das atrações no desfile. A ideia era mostrar que o samba faz bem ao corpo, à alma e ao coração.
Vitória Cristina, de 23 anos, desfila pela primeira vez na Renascer. Ela conta que a ala ensaia desde novembro para fazer bonito na avenida: “Passamos por um treinamento especial para ganhar resistência, com muitos exercícios e caminhadas”.
A fantasia leve, que lembra um uniforme de enfermeira, permite a desenvoltura da passista. Francileia de Jesus, 39 anos, prometia evoluir com muito samba no pé.
“Alegria e alto astral temos de sobra”, conta. O que também não falta no desfile da Renascer é samba de qualidade: “Com um samba desses e uma bateria impecável, não tem como não se acabar na avenida essa noite!”, brincou a componente.
Segunda alegoria da Renascer mistura crenças, tradições e toda religiosidade brasileira
A segunda alegoria da Renascer de Jacarepaguá apostou em grandes esculturas para encantar a Marquês de Sapucaí. A figura central representava uma jovem negra, cercada por duas grandes esculturas indígenas e três imensos peixes multicoloridos. As laterais do carro eram são decoradas por muitos estandartes, feitos com mosaicos e pintados com extremo esmero. Havia ainda alguns anjos decorando a alegoria, além de muitas plantas artificiais, que conferem um aspecto florestal ao carro. Todos os detalhes representam o sincretismo, a mistura de crenças e culturas no Brasil.
Andréa Fernandes, 50 anos, desfilou vestida de “Influências Portuguesas”. Ela conta que ficou extremamente satisfeita ao encontrar a alegoria na concentração.

“Achei um trabalho deslumbrante. Esse caprichoso nos deixa com mais orgulho e garra para defender a escola”, conta a destaque que desfila nas alegorias da escola de Jacarepaguá há cinco anos.
Manuel de Jesus, 54 anos, também foi destaque da segunda alegoria da Renascer. Ele desfila na escola há 12 anos.
“Eu fiquei surpreso com a qualidade do trabalho deste ano. A minha expectativa para esse desfile era muito grande. Participo de todos os ensaios e, com a comunidade, eu me sinto muito mais forte para defender a escola. Sem a comunidade, o carnaval não sobrevive”, desabafou.
Jornal ‘Diabo Coxo’, de Luiz Gama, é destaque na Cubango

A Acadêmicos do Cubango foi a quinta escola a pisar na Marquês de Sapucaí no primeiro dia de desfiles das escolas da Série A. Ela retratou a trajetória do brasileiro Luiz Gonzaga Pinto da Gama, intelectual negro que foi líder abolicionista, jornalista e poeta. Entre suas muitas contribuições à história do Brasil está o ‘Diabo Coxo’, jornal publicado por ele e Ângelo Agostini que se destacou por utilizar caricaturas como estratégia para compreensão do povo. A décima sétima ala da agremiação de Niterói representou, de uma forma divertida, o jornal satírico de Luiz.
O periódico, que influenciou a educação política do povo com suas imagens que permitiam aos analfabetos entenderem sobre o que se passava na realidade da época, foi retratado pela escola com um ar lúdico e teatral. Os componentes vestiram uma bufante roupa brilhosa, em tons de vermelho, laranja e preto, com grandes chifres na cabeça.
O traje foi complementado com asas nas costas e um estandarte nas mãos. Destaque para este adereço, onde uma edição do ‘Diabo Coxo’ estava impressa, com suas caricaturas características, e adornada com elementos demoníacos como um rabo comprido e pontudo.
“A crítica contida na história da fantasia é importante. Fazer parte deste momento é maravilhoso. Eu adorei a fantasia, chama bastante atenção e causará comoção na Avenida”, disse o integrante Marcos César, de 42 anos. A componente Bárbara Diniz achou a fantasia muito bonita, uma ótima ideia da agremiação para representar o ‘Diabo Coxo’. “Ficou perfeito, dará muito impacto”, afirmou antes de passar pela Sapucaí.
Tons escuros e sombrios abrem desfile da Renascer de Jacarepaguá

Para causar impacto logo no início de seu desfile, a Renascer de Jacarepaguá apostou num visual inesperado. Tons escuros com predominância de roxo e azul. A primeira alegoria representava as práticas ocultas, como a bruxaria.
Priscila Vieira, 40 anos, e sua irmã Vanessa Vieira, 41, nutrem uma paixão especial pela agremiação. Em 2020, elas vieram vestidas como bruxas no abre-alas.
“Eu gosto muito de desfilar no chão, mas no abre-alas a gente vê a entrada da escola no setor 1, a vibração do puxador, é uma emoção diferente. A gente não espera que um desfile comece assim em tons escuro, mas está aprovado”. Priscila destacou os detalhes da fantasia, imperceptíveis para o público da avenida mas que traduzem o cuidado da escola na produção de seus figurinos. Pra conferir mais capricho ao figurino, foram inseridas até aranhas e outros insetos.
Vanessa, que sempre desfila acompanhada de sua irmã, destaca a importância do enredo da Renascer e a surpresa com abre-alas em tons escuros.
“Quando crianças, sempre íamos à benzedeira, então faz parte da nossa história de certa forma. Esse desfile lembra a nossa infância”, explicou.
Além das bruxas representadas pelas irmãs Vieira, o carro conta com grandes esculturas com aspecto distorcido e orgânico, figuras que causam forte estranhamento e impacto.
Pequeno Luiz Gama brilha na bateria da Cubango

“A Voz da Liberdade” foi o enredo que a Acadêmicos do Cubango levou para a Avenida, na noite desta sexta-feira, para contar a história do baiano Luiz Gonzaga Pinto da Gama, patrono da abolição da escravatura. Personagem importante na história do Brasil, o poeta, jornalista e advogado teve um papel marcante no Movimento Abolicionista. Quando criança foi vendido como escravo pelo próprio pai e, no desfile da Verde e Branco de Niterói ganhou destaque no coração da escola; o grande homenageado foi parar dentro da bateria ‘Ritmo Folgado’.
Renan dos Santos, de 10 anos, é morador da cidade do Rio de Janeiro, mas nutre uma grande paixão pela agremiação, no qual desfila desde 2017. Vestido com roupas sociais e uma cartola, o menino se transformou em um Luiz Gama jovem, que interagiu com a bateria ‘Ritmo Folgado’ e segurou um cartaz que dizia ‘Liberdade’.
“Sinto orgulho, muita felicidade em representá-lo dentro da escola. Não sou de Niterói, mas amo a Cubango”, disse Renan, quando questionado sobre o sentimento de fazer um papel tão importante no desfile da agremiação. Mestre Demetrius afirmou que fizeram muitos ensaios para que o momento acontecesse com perfeição na Avenida e essa participação agregou muita coisa à mensagem que a escola quis passar.
Os ritmistas comandados por Demetrius estavam vestidos como os escravos das minas de diamante, em uma fantasia com tons de azul e chapéus com pedras preciosas. Os componentes representaram o momento em que a exploração de minas no Brasil contagiou o mundo. A Acadêmicos do Cubango foi a quinta escola a desfilar na Marquês de Sapucaí, já na madrugada de sábado.
Tom Maior corre no final e sofre com evolução em seu desfile
Nesta sexta-feira, a Tom Maior realizou seu desfile para o carnaval de 2020. A escola veio numerosa e sofreu no quesito evolução. Algumas alas não se entendiam e alguns componentes se esbarravam. Outro ponto negativo foi a correria no final, a escola por pouco não estourou o tempo e passou no limite. A comissão de frente foi o quesito destaque. Os integrantes fizeram uma apresentação forte, onde falaram sobre o preconceito e a importância de resistir e lutar contra ele. A harmonia foi outro destaque, que repetiu o canto com clareza em seu desfile. A comunidade de Sumaré se apresentou em 65 minutos com o enredo “Coisa de Preto”. (Fotos de Magaiver Fernandes)
Comissão de frente
A ala veio representando os Griots, que são personagens folclóricos da África Ocidental. Os componentes vieram vestidos nas cores vermelho, laranja e amarelo, com pinturas no rosto na cor branca, típicas de um povo nativo da África. A comissão fez uma espécie de dança afro no início da apresentação aos jurados, os integrantes se separaram e acenaram para o público, depois se juntaram e levantaram um componente no alto, que cerrou o punho direito para cima, símbolo da resistência. No geral, a ala fez uma boa apresentação e notoriamente focaram em fazer uma comissão de frente voltada em sua maior parte, aos africanos que vieram para o Brasil.
Mestre-sala e Porta-bandeira
A dupla experiente, Jairo Silva e Simone Gomes, estava vestida com uma roupa amarela, vermelha e laranja. Aparentemente a vestimenta da porta-bandeira era mais leve, o que possibilitou que ela fizesse seus movimentos da forma desejada. Jairo acompanhou Simone e eles fizeram movimentos uniformes e dançaram de forma sincronizada em frente a torre que se localiza perto do recuo da bateria. Ao final do desfile, já na dispersão, Jairo Silva teve uma queda de pressão e passou mal, mas logo foi atendido e ficou tudo bem com o mestre-sala.
Harmonia
Repetindo os desempenhos dos ensaios técnicos, os componentes cantaram bastante, o intérprete Bruno Ribas e a obra de fácil entendimento e uma melodia marcante, ajudaram para isso, o que possibilitou os integrantes cantarem com clareza. Houve uma queda no último setor, mas no geral, a escola teve um desempenho satisfatório no quesito.
Enredo
O enredo da escola, “Coisa de Preto”, faz uma homenagem a todos os negros da história do Brasil. O tema tem um tom de crítica social também, como o julgamento aos racistas e a ideia de que o Brasil deve muito à raça negra, apesar do “não conhecimento” muitas vezes por parte da sociedade do país. Na avenida, nas fantasias e alegorias, nós vimos homenagens a grandes personagens negros da história da nação, como Mussum, Aleijadinho, Mano Brown, entre outros. A escola conseguiu mostrar em alguns pontos o que queria, mas em outros, a leitura ficou difícil.
Evolução
A escola sofreu um pouco nesse quesito. Em algumas alas ocorriam encontro entre os componentes, até pelos altos costeiros das vestimentas. Houve dois grande buracos, um em frente ao setor H, entre a comissão de frente e uma ala, outro já no final, entre o último carro e uma ala, e ambos estavam já na visão dos jurados. Outra penalização que a Tom Maior pode sofrer, foi pelo fato de ter corrido no final. A escola pode ser muito penalizada neste quesito, pois houve algumas falhas cruciais que são passíveis de punição.
Samba-enredo
A obra é uma das melhores do ano, foi cantada fortemente pelos componentes. Foi uma grande apresentação do intérprete Bruno Ribas, que fazia várias adaptações para ajudar na melodia. O samba também possibilitou que a bateria fizesse várias bossas, que levantou as arquibancadas, especialmente no setor B, com destaque para o arranjo feito na penúltima estrofe do samba, onde a bateria para, os componentes cerram os punhos para o alto e cantam o samba.
Fantasias
Praticamente todas as fantasias da escola representaram personalidades negras que fizeram sucesso pelo Brasil. Como citado acima, Mussum, Aleijadinho, Mano Brown são alguns dos homenageados. Outros personagens citados nas vestimentas, foram Alcione, Dona Ivone Lara, Milton Santos e muitas outras pessoas que fizeram parte da história do Brasil. A escola optou pelo uso de fantasias simples, que tenha fácil entendimento. Não houve erros na montagem das vestimentas, todos os componentes das alas estavam vestidos igualmente, sem fantasias danificadas também.
Alegorias e adereços
A escola obteve um conjunto alegórico regular, assim como nas fantasias, a agremiação optou por carros alegóricos de fácil leitura. O destaque foi para o abre-alas, sendo todo ele preenchido pela tonalidade laranja forte, que representa a diáspora negra, ou seja, toda a perseguição que os negros sofreram ou sofrem até hoje. Destaque também para o último carro, que simbolizou a luta por justiça, com uma escultura que representava a vereadora que foi assassinada, Marielle Franco.
Outros destaques
A bateria interagiu algumas vezes com a arquibancada, especificamente na penúltima estrofe do samba, onde a bateria realiza uma paradinha e os componentes cerram o punho para cima e cantam o samba junto com a escola. Tal atitude da bateria, arrancou aplausos do público no Anhembi.

