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Carlos Junior é o novo intérprete oficial da Acadêmicos de Niterói

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Foto: S1 Fotografia/Divulgação

A Acadêmicos de Niterói já tem uma nova voz para o Carnaval de 2027. A azul e branca da Cidade Sorriso anunciou Carlos Junior como seu intérprete oficial para o próximo desfile na Marquês de Sapucaí. O cantor é o primeiro nome confirmado na equipe da escola, que será a quinta agremiação a desfilar na sexta-feira de Carnaval pela Série Ouro.

Com 26 anos de carreira, Carlos Junior começou no samba como passista e, depois, ritmista. Como intérprete, iniciou sua jornada no Carnaval de São Paulo em 1999, ao compor sozinho seu primeiro samba e ser contratado para cantá-lo na avenida. Em sua trajetória, foi campeão diversas vezes em todos os grupos do Carnaval de São Paulo.

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Tem passagens por Império de Casa Verde, Camisa Verde e Branco, Tom Maior, Mancha Verde, Mocidade Unida da Mooca, Vai-Vai, Tucuruvi e Rosas de Ouro, onde completará quatro anos no Carnaval de 2027. No último Carnaval, cantou na cidade de Rio Claro pela Escola de Samba Samuca, que conquistou o título após dez anos. Também foi intérprete da Prova de Fogo, escola campeã do Grupo 2 da UESP em 2026, e estreou na Sapucaí pela Em Cima da Hora.

“Estou muito feliz pela possibilidade de estar mais um ano na Marquês de Sapucaí e em uma escola que tem a arte e a coragem como identidade, missão e mensagem. Mesmo diante de um resultado adverso, a Acadêmicos de Niterói virou uma marca histórica no carnaval brasileiro e em alguns cantos do mundo”.

O novo intérprete ainda reforçou a felicidade de cantar em uma escola com uma comunidade forte após o desfile de 2026.

“O fato de poder servir a uma comunidade tão forte e emancipada como esta me deixa extremamente feliz e certo de que uma porta enorme está aberta novamente. Neste momento, só tenho gratidão a Deus, ao nosso presidente Wallace Palhares, ao nosso presidente de honra e a toda a comunidade por fazer parte deste time, levando amor ao nosso povo. Que venha 2027, porque quem for contra vai chorar. Tudo acontece no tempo de Deus. Finalmente chegou a minha hora, e espero, com a graça de Deus, corresponder à expectativa. Fogo neles”.

Salgueiro anuncia inscrições gratuitas para disputa de samba-enredo de 2027

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Foto: Divulgação/ Thaynara Andrade Salgueiro

A principal novidade anunciada para a disputa de samba-enredo do Salgueiro para o Carnaval 2027 foi a gratuidade das inscrições das obras concorrentes. Para o presidente André Vaz, a medida deve ampliar a participação dos compositores.

“É um enredo especial para o Salgueiro e para o carnaval. Confio na capacidade dos compositores do Salgueiro e de que eles vão nos entregar o melhor samba do Carnaval 2027”, afirmou.

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O diretor de carnaval, Wilsinho Alves, falou que a escola fez adaptações na disputa e cita que o concurso deve começar no dia 8 de agosto e a final será no dia 12 de setembro.

Salgueiro 2027: leia a sinopse do enredo

Unidos da Ponte mergulha na ancestralidade indígena e resgata a história de Tibira do Maranhão para o Carnaval 2027

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Foto: Divulgação

A Unidos da Ponte oficializa sua proposta artística para o Carnaval de 2027 levando para a Marquês de Sapucaí a diversidade sexual e de gênero presente nos povos originários, com o enredo “TYBYRAS”. Idealizado pelo carnavalesco Nícolas Gonçalves, o tema tem pesquisa do enredista Cleiton Almeida e propõe um mergulho profundo na história do Brasil para refletir sobre a diversidade sexual e de gênero que sempre existiu entre os povos indígenas, muito antes da imposição dos modelos binários ocidentais.

O enredo estabelece uma ponte entre o passado histórico e a luta contemporânea. O ponto de partida é o relato de 1614 do capuchinho francês Yves D’Évreux sobre o episódio de Tibira do Maranhão, um indígena tupinambá executado por missionários pela acusação de “sodomia”, tornando-se a primeira vítima fatal documentada da homofobia e transfobia no território brasileiro.

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Para o carnavalesco Nícolas Gonçalves, o desfile será uma celebração da liberdade e uma resposta direta às tentativas de apagamento histórico.

“Com ‘TYBYRAS’, a nossa escola assume o compromisso de dar luz a uma memória que tentaram silenciar por séculos. Não vamos apenas contar a história de Tibira; vamos mostrar que a nossa ancestralidade é plural, diversa e que a luta pela liberdade dos nossos corpos é, também, uma luta pelo nosso território. É um enredo que transborda vida, resistência e a potência de uma cultura que floresce apesar de toda violência imposta”, contou.

Identidade visual e parceria com Auá Mendes

A construção estética do desfile conta com a assinatura da multiartista e designer Auá Mendes, mulher trans, bissexual e indígena do povo Mura. A arte desenvolvida por ela integra a face de Tybyra à fauna e flora brasileiras, elementos que representam a extensão de sua identidade, mesclando símbolos da cultura indígena com as bandeiras dos movimentos sociais dissidentes de gênero.

Além da identidade visual, Auá desenvolveu um novo brasão temático para a Unidos da Ponte para 2027. A peça promove um encontro de etnias e culturas, apresentando uma releitura da coroa tradicional da agremiação, agora concebida como um manto tupinambá.

O enredista Cleiton Almeida reforça a relevância social da escolha.

“A Unidos da Ponte cumpre um papel muito importante ao dar luz à existência de Tibira, hoje reconhecido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Celebramos tantas outras pessoas indígenas que viveram e vivem o prazer de suas naturezas e que continuam lutando pela liberdade de seus corpos e de seus territórios, é isso que queremos mostrar com o nosso enredo.”, afirmou.

Ana Itikawa é a nova rainha de bateria da Imperatriz da Paulicéia

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Foto: Divulgação/André Ferruchi

A Imperatriz da Paulicéia apresentou sua nova Rainha de Bateria para o carnaval de 2027. Ana Itikawa reinará à frente dos ritmistas da bateria “Swing da Paulicéia”, comandados pela Mestra Rafa. Será a estreia da beldade na agremiação, que desfila pelo Grupo de Acesso 2 no Sambódromo do Anhembi, no carnaval de São Paulo.

Já conhecida na folia paulistana, Ana já foi rainha de bateria da Pérola Negra, é Madrinha de bateria do Bloco da Coruja do Vila Izabel e já foi musa da Unidos de São Lucas. Com experiência na passarela, Ana chega para abrilhantar ainda mais o desfile da escola, que tem como enredo “Ideval, Dom Marcos e Paulistinha – Os Poetas da Paulicéia”.

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“É uma honra estar à frente da bateria Swing da Paulicéia, ao lado da primeira mestra do carnaval de São Paulo. Chego com toda humildade nesse chão, recebendo o carinho da comunidade e segmentos para que possamos construir uma linda história. Contem comigo, para juntos, irmos em busca deste campeonato” – revela Ana.

A escola será a 4ª agremiação a desfilar no sábado, dia 30 de janeiro de 2027.

Gêmeos Jefferson e Jackson comandarão a bateria da Independente da Praça da Bandeira em 2027

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Foto: Divulgação

Para o Carnaval de 2027, a Independente da Praça da Bandeira terá os gêmeos Jefferson e Jackson como mestres de bateria da “Terremoto”. Jefferson foi renovado pela agremiação e seguirá para o seu segundo ano no comando da bateria. Já Jackson chega para reforçar a liderança dos ritmistas.

Jackson Ferreira ingressou no Carnaval aos 5 anos de idade, na escola de samba mirim Pimpolhos da Grande Rio, onde atuou como mestre de bateria durante dois anos. Também foi diretor de bateria da Grande Rio e da Inocentes de Belford Roxo, e atualmente exerce a função de diretor de bateria da Acadêmicos de Vigário Geral.

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Jefferson tem passagens como mestre de bateria pela Pimpolhos da Grande Rio e por alguns blocos de Duque de Caxias, como “Plante uma Muda” e “Unidos da Laureano”. Atualmente, também é diretor de bateria da Acadêmicos de Vigário Geral.

“Estamos focados em trabalhar muito e conquistar a nota máxima para ajudar a escola a alcançar o tão sonhado título e voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído”, finaliza o mestre.

Samba da Volta desembarca na Mangueira para celebrar a força das rodas de samba cariocas

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Foto: Divulgação/Lofrena Salum

O samba vai ecoar ainda mais forte no coração da Verde e Rosa. No próximo dia 14 de junho, a partir das 17h, a quadra da Estação Primeira de Mangueira abre suas portas para receber mais uma edição do Samba da Volta, projeto que vem se consolidando como um dos principais encontros de valorização da cultura do samba no Rio de Janeiro.

Em um dos palcos mais simbólicos da história do gênero, o Palácio do Samba será cenário de uma grande celebração da música, da memória e da identidade brasileira. A roda promete reunir sambistas, compositores, amantes da cultura popular e diferentes gerações em torno daquilo que une o povo carioca há mais de um século: o samba.

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Mais do que uma apresentação musical, o Samba da Volta propõe uma experiência de encontro. Um espaço onde a tradição dialoga com o presente, onde os clássicos dividem espaço com novas interpretações e onde a alegria coletiva reafirma a potência do samba como instrumento de pertencimento, resistência e celebração.

“A Mangueira tem como missão preservar, valorizar e difundir a cultura do samba. Receber o Samba da Volta em nossa quadra é fortalecer esse compromisso, reunindo diferentes gerações em um espaço que respira história, tradição e pertencimento. Ficamos felizes em abrir as portas do Palácio do Samba para um projeto que celebra as raízes do nosso gênero musical e contribui para manter viva essa manifestação cultural tão importante para o Brasil”, destaca Guanayra Firmino, presidenta da Estação Primeira de Mangueira.

Com um repertório que passeia por grandes clássicos e sucessos que marcaram gerações, a roda reafirma a importância da preservação das tradições do samba, homenageando compositores, intérpretes e personagens fundamentais para a construção de um dos maiores patrimônios culturais do país.

Sobre o Samba da Volta
Nascido em 2021, nas ruas do Centro do Rio de Janeiro, o Samba da Volta surgiu de forma espontânea, reunindo amigos e amantes do samba em encontros marcados pela simplicidade e pelo afeto. O que começou como uma roda despretensiosa rapidamente ganhou força, conquistou um público fiel e passou a ocupar diferentes espaços da cidade sem abrir mão de sua essência.

Hoje, o projeto se consolida como um importante movimento de valorização da cultura popular, promovendo encontros que fortalecem vínculos comunitários, preservam memórias e ampliam o acesso ao samba. A cada edição, o Samba da Volta reafirma a capacidade do gênero de reunir pessoas, contar histórias e criar experiências carregadas de emoção, identidade e pertencimento.

Serviço
Samba da Volta na Mangueira
14 de junho (sábado)
A partir das 17h
Quadra da Estação Primeira de Mangueira – Rua Visconde de Niterói, 1072
Ingressos disponíveis no Sympla

Casa da Tia Ciata abre programação cultural gratuita de junho

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Foto: Divulgação

A programação de junho da Casa da Tia Ciata movimenta a Pequena África com experiências gratuitas que celebram a memória e as raízes da cultura afro-brasileira. No dia 14, a instituição preparou um roteiro na Região Portuária que une história e celebração. As atividades começam às 11h com o Caminhos de Ciata, percurso guiado pelo Circuito de Herança Africana, que tem como eixo a trajetória da matriarca, importante liderança negra e referência fundamental para a construção cultural, política e social da população negra na cidade. Durante o trajeto, o público conhece de perto os marcos históricos do território e a atuação de personagens essenciais para a preservação das heranças africanas presentes na formação da cultura brasileira.

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A imersão cultural continua com o Samba da Cabaça, que ganha uma edição especial em celebração ao Dia dos Namorados, a partir das 14h, na Rua Tia Ciata, 235. O encontro é uma homenagem à cultura afro-brasileira e celebra tradições que Tia Ciata ajudou a preservar e difundir. Sua casa na Cidade Nova foi palco de encontros culturais que reuniam músicos como Pixinguinha, Donga e João da Baiana, e é reconhecida como berço do primeiro samba gravado, Pelo Telefone (1916/1917).

Ao longo do mês de junho, a instituição oferece uma agenda cultural diversificada com oficinas de capoeira, jongo, gastronomia e a oficina Leitura e Vivências. Ainda em junho, ocorre a estreia da Oficina de Empoderamento da Mulher Negra, voltada à discussão sobre ancestralidade e redes de apoio. As oficinas de empoderamento e de gastronomia tradicional contarão com tradução em Libras.

SERVIÇO

Programação Cultural e Formativa da Casa da Tia Ciata – Junho

14/06 (Domingo)
11h00 – Caminhos de Ciata (Ponto de encontro: Rua Camerino, 5)
14h00 – Samba da Cabaça (Endereço: Rua Tia Ciata, 235)

11/06, 18/06 e 25/06 (Quintas-feiras)
14h00 – Passeio Aula (Ponto de encontro: Rua Camerino, 5)
15h30 – Oficina de Empoderamento da Mulher Negra com Libras (Endereço: Rua Camerino, 32)

20/06 (Sábado)
08h30 – Caminhos de Ciata (Ponto de encontro: Rua Camerino, 5)
10h00 – Oficina de Jongo (Endereço: Rua Camerino, 32)
11h00 – Oficina de Capoeira (Endereço: Rua Camerino, 32)

23/06 (Terça-feira)
14h00 – Caminhos de Ciata (Ponto de encontro: Rua Camerino, 5)
15h00 – Oficina Leitura e Vivências (Endereço: Rua Camerino, 32)
15h40 – Oficina de Gastronomia Tradicional com Libras (Endereço: Rua Camerino, 32)

Velha-Guarda do carnaval carioca é celebrada em solenidade na Câmara Municipal

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Foto: Divulgação

O samba pede passagem para celebrar aqueles que mantêm viva a tradição e a essência do carnaval carioca. Os integrantes da Velha Guarda da Botafogo Samba Clube e da Associação da Velha Guarda das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (AVGESRJ) foram homenageados na Câmara de Vereadores com moções de reconhecimento na noite da última quarta.

Estiveram presentes na solenidade Sandro Lima, presidente da Botafogo Samba Clube; Almir Frank Teixeira, presidente da ala da Velha Guarda da escola; Jorge Ferreira, vice-presidente da Associação; e o locutor carnavalesco Marcelo Pacífico. A iniciativa da homenagem foi do vereador Leonel de Esquerda (PT).

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A velha guarda é formada pelos membros mais antigos das escolas de samba, carregando consigo a memória e um sentimento que resiste ao tempo. Em geral, reúne sambistas que dedicaram grande parte de suas vidas à agremiação, frequentando ensaios, desfiles, rodas de samba e atividades da comunidade.

Para o vereador Leonel de Esquerda (PT), a homenagem é uma forma de reconhecer a importância do Carnaval como fenômeno popular. “Estamos homenageando quem vem se dedicando à cultura brasileira há décadas. São pessoas que construíram uma história de amor ao samba e irão deixar um legado para as futuras gerações. O Rio tem o melhor Carnaval do mundo graças a essa paixão”, destacou.

Confira a sinopse do enredo 2027 da Lins Imperial

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LALÚ DE OURO – um Rei Coroado na Folia
Autor: Kitalesi (Arnaldo Roque)
Revisão: Mateus Pranto
Pesquisa, Desenvolvimento, Enredo: Kitalesi (Arnaldo Roque) e Mateus Pranto

Onde começa um caminho? No primeiro passo ou naquilo que já se traz nos pés? No Velho Pernambuco, do berço ao porto, nele, o destino. Fui chão de outras terras, bem ali, onde o mundo se organizava em cortejo: entre reis e rainhas, entre cantos e passos marcados, faziam-se presentes as memórias do passado. Não como lembrança, mas como força viva que conduzia cada gesto. Era o maracatu que ensinava: no estandarte, a direção; na calunga, o espírito; nas alfaias, o pulso que guiava o corpo. A experiência do território se fundia à minha. Tudo falava. Tudo tinha lugar. Tudo tinha sentido.

Um dia, bradei Adeus — Estrela Brilhante. Adeus — Nação Elefante. E carregado das memórias do meu velho Pernambuco, parti. Encarando as águas frente a frente, fui também onda. Mar. Travessias. Transformação. De uma margem a outra, o mundo se revirava, e eu com ele. Fui criado baiano por Salvador. Na Bahia de todos os caminhos, mais uma vez, o mundo se desenhava em movimento.

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Ainda moço, conheci o estaleiro e, na lida em que o chão se firmava sob os pés, aprendi mais que o trabalho. Aprendi o valor da organização coletiva, do tempo partilhado e da coordenação. O fazer pedia medida, ritmo e acordo. Mas era na rua que a vida se expandia. Entre tabuleiros e ganhadeiras, vi de perto as nossas grandes Iás organizando a circularidade da vida, o sustento e a presença pública do gesto de liderança. Com elas, compreendi que estar na rua era também saber conduzir, negociar e permanecer.

Fui me refazendo em outros ritmos.

Todo janeiro, os ranchos de reis saíam em desfile, com papéis e funções em uma sequência que se encadeava em narrativa. Mais que ver, aprendi a ler o movimento e os espaços de sentido: de cada gesto, uma função; de cada passo, um lugar no todo. Nas veredas que se abriram, o conhecimento seguia em ritmo e canto. Das chulas do Recôncavo às rodas que se faziam na terra batida, a palavra se dizia em improviso; da capoeira às macumbas, dos sambas às festas, soube o jogo, o desvio e a resposta. Sem saber, já trazia em mim tudo aquilo que ainda pisaria em outro chão. Encruzilhada. E, novamente, travessia.

Parti. Da Bahia, deixava o estaleiro que me viu chegar e, junto a um grupo de malungus, fui em busca de novos rumos na Baía de Guanabara.

Atravessei mais uma vez o mar.

Aportei em julho de 1892. Do alto da Pedra do Sal, olhos atentos avistavam os navios que se achegavam ao Rio Antigo. Lá de baixo, no cais, olhando pra cima, percebi o sinal: uma bandeira branca, marca de Oxalá, indicando a presença de gente amiga. No alto do morro, as casas das tias. Ali, toda aquela gente que chegava era acolhida, onde se oferecia abrigo, comida e descanso, até que cada um pudesse se aprumar. Foi de frente para o mar que essa gente preta, preta como a terra, assentou a própria história. Diante dos olhos de Iemanjá, ergueu-se a pequena África. No Rio, um pedaço baiano.

E eu, Rei. Coroado na Folia.

Mala à cabeça, parti morro afora e busquei abrigo com o baiano Miguel Pequeno, a poucos metros dali, no beco João Inácio. Em tempos em que o corpo preto era vigiado e o samba, suspeito, precisei proteger a mim e aos meus… Comprei patente, fiz-me tenente, e mais tarde, capitão da Guarda Nacional. Não por vaidade, mas por estratégia: uma forma de abrir passagem e de garantir presença. Consegui. Criei meios de interceder para manter vivo o verbo da roda onde queriam silêncio. E assim, fui criando laço, firmando nome. Ainda rapaz, assumi lugar entre a minha gente e, no terreiro de João Alabá, um dos mais respeitados da cidade, fizeram-me ogã. Lalú de Ouro.

Nos fundos da Barão de São Félix, o tempo era outro. Batuque e reza se encontravam, temporalidade e corpo se misturavam. Tinha kizomba, tinha fundamento. Tinha o som — sempre o som — dos tambores atravessando noites a fio. Não cessava. Do couro batido ao sopro que rasgava o ar, da palma que marcava ao coro que respondia. Donga, João da Baiana, Pixinguinha… Era a música um modo de existir, fazendo da rua um corpo sonoro em movimento.

No pedaço que também era de Ciata, o canto ganhou forma de cortejo, e os becos se vestiram de alegria. No verso e improviso, fui fazendo da voz caminho e das vielas poesia, dizendo também o que nem sempre queriam ouvir. Dei meus primeiros passos nesse modo de expressão que, logo, tomaria forma e nome. Anos depois, já afastado de antigos companheiros… Nesse tempo, a história se fez. Foi ali que a brincadeira virou legado — e eu mesmo tratei de contar como foi:

“Em 6 de janeiro de 1893, estava eu no botequim do ‘Paraíso’, na rua Larga de São Joaquim (hoje Marechal Floriano Peixoto), entre as ruas da Imperatriz e Regente, em companhia de vários baianos que costumeiramente ali se reuniam, quando lembrei-me da festa dos Três Reis Magos que na Bahia se comemorava naquele dia. Estavam presentes o Luiz de França, o Avelino Pedro de Alcântara, o João Câncio Vieira da Silva, e eu propus então a fundação de um rancho. Passando a ideia em julgado, ali mesmo eu dei o nome de “Rei de Ouro”! Na mesma hora, no armarinho de um turco fronteiro ao botequim, comprei meio metro de pano verde e meio metro de pano amarelo e fiz um estandarte no estilo da Bahia, para os ensaios. Ninguém mais descansou. O pessoal saiu avisando que à noite havia ‘um chá… dançante’ em minha casa. (…) Às tantas da noite reuni o pessoal e disse qual o fim daquela brincadeira e então ficou definitivamente fundado o rancho, o primeiro rancho carioca. (…) Nunca se tinha visto aquilo, aqui no Rio: porta-bandeira, porta-machado, batedores.”

E de tudo isso eu fui precursor! No desenrolar dos cortejos, a elegância se fez presença, em meio a giros, mesuras e passos marcados. O corpo aprendia a cortejar a bandeira e a sustentar o rito da apresentação. Assim foi. No terceiro ano, fundei o Rosa Branca. No ano seguinte, fiz nascer o Botão de Rosa. Mais adiante, em 1899, dei forma ao rancho A Jardineira, que já no carnaval seguinte saiu às ruas, levando adiante o modo novo de brincar que a gente vinha fazendo crescer. Os ranchos davam novos sentidos à brincadeira, em que o riso, o gesto e o jogo do corpo diziam mais do que parecia. E foi assim que erguemos a nossa glória, com disciplina, beleza e invenção. Fizemos da avenida um palco, onde em cada estandarte levantado, a revelação da memória viva de uma história que veio antes de nós.

E eu, Rei. Coroado na Folia.

O sagrado e a matéria se encruzilhavam, a cidade aprendia outro compasso. Muita coisa ganhava caminho. Gente chegava, gente se formava, gente saía dali pronta. Foi nesse território que muitos nomes se fizeram e, hoje, são herdeiros de um tempo que não se perdeu, mas se espiralou. Cada qual à sua maneira, levando adiante o que ali se gestava: o samba, o cortejo, a palavra, o corpo e a rua. Nosso lugar de criação e reinvenção. E o que se firmava não ficava — se encantava. Espalhava-se em gesto, em canto, em forma de ser no mundo. Era passagem. O que nascia como experiência, seguia adiante como discurso.

Dali se fez Heitor dos Prazeres, herdeiro e guardião de memórias desenhadas no samba e na vida. Traço, ritmo e roda se encontravam como forma de narrar um tempo que seguia pulsando. Nessa mesma cadência, Ismael Silva fez do ritmo identidade, enquanto o professor Paulo da Portela transformou organização em escola.

Mais adiante, o chão seguiu vivo em outras vozes. O tempo seguiu seu curso, mas não rompeu o caminho. Em outras gerações, o fazer se reinventou, e, na avenida, ganhou nova forma de condução. Foi assim que Laíla fez do desfile linguagem ao (re)organizar o espetáculo sem romper com a raiz, enquanto o griô João Banana sustentou, na palavra e na presença, a continuidade do que ali se firmava, mantendo viva a chama de um fazer que não se encerra, mas se renova.

E se tantos caminhos se abriram, foi porque antes alguém ensinou a atravessar. No meio de todos eles, sigo eu. Não como começo. Como fundamento. O passado se levanta no presente e, na Lins Imperial, há de ser eu e nós, chão de muitos, canto de todos. Caminho que se reinscreve na avenida e no povo, como prática, como memória e como continuidade.

Eu, pra sempre, Rei. Coroado na Folia!

REFERÊNCIAS
ACERVO SOCIOAMBIENTAL. Povos indígenas no Brasil: documentação histórica e socioambiental. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/03L00030.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO (FAPESP). Uma história do samba: as tias e o avô do samba. Disponível em: https://namidia.fapesp.br/uma-historia-do-samba-as-tias-e-o-avo-do-samba/241298. Acesso em: 4 maio 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Como um valentão criou uma nova forma de pular o carnaval. Disponível em: https://temas.folha.uol.com.br/100-anos-de-samba/a-historia-que-a-rua-escreveu/como-um-valentao-criou-uma-nova-forma-de-pular-o-carnaval.shtml. Acesso em: 4 maio 2026.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Dossiê: Matrizes do samba no Brasil. Brasília: IPHAN, 2007.
LOPES, Nei. Dicionário social do samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
LIRA NETO. Uma história do samba. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
PAULA, Célia Regina Silva de. Práticas discursivas e identidade cultural no samba. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, [s.d.]. Disponível em: https://www.pplinuerj.com.br/sipos/administracao/tesesedissertacoes/documentos/DissertacaoCELIAREGINASILVADEPAULA2.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PEÇANHA, João Carlos de Souza. O samba como expressão de identidade nacional: cultura, política e memória. 2013. Tese (Doutorado em História) – Universidade de Brasília (UnB), Brasília, 2013. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/15715/1/2013_JoaoCarlosdeSouzaPecanha.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PERRAUT DA SILVA, Natan. Entre tradição e espetáculo: transformações nas escolas de samba contemporâneas. 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/bitstream/1/23273/2/Dissertação%20-%20Natan%20Perrout%20da%20Silva%20-%202024%20-%20Completa.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PORTAL TERRA. A origem do casal que representa uma escola de samba: mestre-sala e porta-bandeira. Disponível em: https://www.terra.com.br/amp/story/diversao/a-origem-do-casal-que-representa-uma-escola-de-samba-mestre-sala-e-porta-bandeira,0f412a364434a1c62cd6fa4c56fca7795muhvcmr.html. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PARANÁ (UNESPAR). O samba e suas dinâmicas musicais contemporâneas. Revista Vórtex, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/vortex/article/download/9676/7204/41499. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (UFBA). “Me chamo Elizeth Cardoso. Sou uma cantora brasileira.”: notas sobre a trajetória da Divina (1936–1965). Salvador: UFBA, [s.d.]. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/35002/1/“Me%20chamo%20Elizeth%20Cardoso.%20Sou%20uma%20cantora%20brasileira.”%20Notas%20sobre%20a%20trajetória%20da%20Divina%20%281936-1965%29.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF). O samba e a construção da cultura popular no Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, [s.d.]. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/906.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF). Carnaval, identidade e cultura urbana no Brasil. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, [s.d.]. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1806.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
LALÚ DE OURO – um Rei Coroado na Folia

Autor: Kitalesi (Arnaldo Roque)
Revisão: Mateus Pranto
Pesquisa, Desenvolvimento, Enredo: Kitalesi (Arnaldo Roque) e Mateus Pranto

Onde começa um caminho? No primeiro passo ou naquilo que já se traz nos pés? No Velho Pernambuco, do berço ao porto, nele, o destino. Fui chão de outras terras, bem ali, onde o mundo se organizava em cortejo: entre reis e rainhas, entre cantos e passos marcados, faziam-se presentes as memórias do passado. Não como lembrança, mas como força viva que conduzia cada gesto. Era o maracatu que ensinava: no estandarte, a direção; na calunga, o espírito; nas alfaias, o pulso que guiava o corpo. A experiência do território se fundia à minha. Tudo falava. Tudo tinha lugar. Tudo tinha sentido.

Um dia, bradei Adeus — Estrela Brilhante. Adeus — Nação Elefante. E carregado das memórias do meu velho Pernambuco, parti. Encarando as águas frente a frente, fui também onda. Mar. Travessias. Transformação. De uma margem a outra, o mundo se revirava, e eu com ele. Fui criado baiano por Salvador. Na Bahia de todos os caminhos, mais uma vez, o mundo se desenhava em movimento.

Ainda moço, conheci o estaleiro e, na lida em que o chão se firmava sob os pés, aprendi mais que o trabalho. Aprendi o valor da organização coletiva, do tempo partilhado e da coordenação. O fazer pedia medida, ritmo e acordo. Mas era na rua que a vida se expandia. Entre tabuleiros e ganhadeiras, vi de perto as nossas grandes Iás organizando a circularidade da vida, o sustento e a presença pública do gesto de liderança. Com elas, compreendi que estar na rua era também saber conduzir, negociar e permanecer.

Fui me refazendo em outros ritmos.

Todo janeiro, os ranchos de reis saíam em desfile, com papéis e funções em uma sequência que se encadeava em narrativa. Mais que ver, aprendi a ler o movimento e os espaços de sentido: de cada gesto, uma função; de cada passo, um lugar no todo. Nas veredas que se abriram, o conhecimento seguia em ritmo e canto. Das chulas do Recôncavo às rodas que se faziam na terra batida, a palavra se dizia em improviso; da capoeira às macumbas, dos sambas às festas, soube o jogo, o desvio e a resposta. Sem saber, já trazia em mim tudo aquilo que ainda pisaria em outro chão. Encruzilhada. E, novamente, travessia.

Parti. Da Bahia, deixava o estaleiro que me viu chegar e, junto a um grupo de malungus, fui em busca de novos rumos na Baía de Guanabara.

Atravessei mais uma vez o mar.

Aportei em julho de 1892. Do alto da Pedra do Sal, olhos atentos avistavam os navios que se achegavam ao Rio Antigo. Lá de baixo, no cais, olhando pra cima, percebi o sinal: uma bandeira branca, marca de Oxalá, indicando a presença de gente amiga. No alto do morro, as casas das tias. Ali, toda aquela gente que chegava era acolhida, onde se oferecia abrigo, comida e descanso, até que cada um pudesse se aprumar. Foi de frente para o mar que essa gente preta, preta como a terra, assentou a própria história. Diante dos olhos de Iemanjá, ergueu-se a pequena África. No Rio, um pedaço baiano.

E eu, Rei. Coroado na Folia.

Mala à cabeça, parti morro afora e busquei abrigo com o baiano Miguel Pequeno, a poucos metros dali, no beco João Inácio. Em tempos em que o corpo preto era vigiado e o samba, suspeito, precisei proteger a mim e aos meus… Comprei patente, fiz-me tenente, e mais tarde, capitão da Guarda Nacional. Não por vaidade, mas por estratégia: uma forma de abrir passagem e de garantir presença. Consegui. Criei meios de interceder para manter vivo o verbo da roda onde queriam silêncio. E assim, fui criando laço, firmando nome. Ainda rapaz, assumi lugar entre a minha gente e, no terreiro de João Alabá, um dos mais respeitados da cidade, fizeram-me ogã. Lalú de Ouro.

Nos fundos da Barão de São Félix, o tempo era outro. Batuque e reza se encontravam, temporalidade e corpo se misturavam. Tinha kizomba, tinha fundamento. Tinha o som — sempre o som — dos tambores atravessando noites a fio. Não cessava. Do couro batido ao sopro que rasgava o ar, da palma que marcava ao coro que respondia. Donga, João da Baiana, Pixinguinha… Era a música um modo de existir, fazendo da rua um corpo sonoro em movimento.

No pedaço que também era de Ciata, o canto ganhou forma de cortejo, e os becos se vestiram de alegria. No verso e improviso, fui fazendo da voz caminho e das vielas poesia, dizendo também o que nem sempre queriam ouvir. Dei meus primeiros passos nesse modo de expressão que, logo, tomaria forma e nome. Anos depois, já afastado de antigos companheiros… Nesse tempo, a história se fez. Foi ali que a brincadeira virou legado — e eu mesmo tratei de contar como foi:

“Em 6 de janeiro de 1893, estava eu no botequim do ‘Paraíso’, na rua Larga de São Joaquim (hoje Marechal Floriano Peixoto), entre as ruas da Imperatriz e Regente, em companhia de vários baianos que costumeiramente ali se reuniam, quando lembrei-me da festa dos Três Reis Magos que na Bahia se comemorava naquele dia. Estavam presentes o Luiz de França, o Avelino Pedro de Alcântara, o João Câncio Vieira da Silva, e eu propus então a fundação de um rancho. Passando a ideia em julgado, ali mesmo eu dei o nome de “Rei de Ouro”! Na mesma hora, no armarinho de um turco fronteiro ao botequim, comprei meio metro de pano verde e meio metro de pano amarelo e fiz um estandarte no estilo da Bahia, para os ensaios. Ninguém mais descansou. O pessoal saiu avisando que à noite havia ‘um chá… dançante’ em minha casa. (…) Às tantas da noite reuni o pessoal e disse qual o fim daquela brincadeira e então ficou definitivamente fundado o rancho, o primeiro rancho carioca. (…) Nunca se tinha visto aquilo, aqui no Rio: porta-bandeira, porta-machado, batedores.”

E de tudo isso eu fui precursor! No desenrolar dos cortejos, a elegância se fez presença, em meio a giros, mesuras e passos marcados. O corpo aprendia a cortejar a bandeira e a sustentar o rito da apresentação. Assim foi. No terceiro ano, fundei o Rosa Branca. No ano seguinte, fiz nascer o Botão de Rosa. Mais adiante, em 1899, dei forma ao rancho A Jardineira, que já no carnaval seguinte saiu às ruas, levando adiante o modo novo de brincar que a gente vinha fazendo crescer. Os ranchos davam novos sentidos à brincadeira, em que o riso, o gesto e o jogo do corpo diziam mais do que parecia. E foi assim que erguemos a nossa glória, com disciplina, beleza e invenção. Fizemos da avenida um palco, onde em cada estandarte levantado, a revelação da memória viva de uma história que veio antes de nós.

E eu, Rei. Coroado na Folia.

O sagrado e a matéria se encruzilhavam, a cidade aprendia outro compasso. Muita coisa ganhava caminho. Gente chegava, gente se formava, gente saía dali pronta. Foi nesse território que muitos nomes se fizeram e, hoje, são herdeiros de um tempo que não se perdeu, mas se espiralou. Cada qual à sua maneira, levando adiante o que ali se gestava: o samba, o cortejo, a palavra, o corpo e a rua. Nosso lugar de criação e reinvenção. E o que se firmava não ficava — se encantava. Espalhava-se em gesto, em canto, em forma de ser no mundo. Era passagem. O que nascia como experiência, seguia adiante como discurso.

Dali se fez Heitor dos Prazeres, herdeiro e guardião de memórias desenhadas no samba e na vida. Traço, ritmo e roda se encontravam como forma de narrar um tempo que seguia pulsando. Nessa mesma cadência, Ismael Silva fez do ritmo identidade, enquanto o professor Paulo da Portela transformou organização em escola.

Mais adiante, o chão seguiu vivo em outras vozes. O tempo seguiu seu curso, mas não rompeu o caminho. Em outras gerações, o fazer se reinventou, e, na avenida, ganhou nova forma de condução. Foi assim que Laíla fez do desfile linguagem ao (re)organizar o espetáculo sem romper com a raiz, enquanto o griô João Banana sustentou, na palavra e na presença, a continuidade do que ali se firmava, mantendo viva a chama de um fazer que não se encerra, mas se renova.

E se tantos caminhos se abriram, foi porque antes alguém ensinou a atravessar. No meio de todos eles, sigo eu. Não como começo. Como fundamento. O passado se levanta no presente e, na Lins Imperial, há de ser eu e nós, chão de muitos, canto de todos. Caminho que se reinscreve na avenida e no povo, como prática, como memória e como continuidade.

Eu, pra sempre, Rei. Coroado na Folia!

REFERÊNCIAS
ACERVO SOCIOAMBIENTAL. Povos indígenas no Brasil: documentação histórica e socioambiental. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/03L00030.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO (FAPESP). Uma história do samba: as tias e o avô do samba. Disponível em: https://namidia.fapesp.br/uma-historia-do-samba-as-tias-e-o-avo-do-samba/241298. Acesso em: 4 maio 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Como um valentão criou uma nova forma de pular o carnaval. Disponível em: https://temas.folha.uol.com.br/100-anos-de-samba/a-historia-que-a-rua-escreveu/como-um-valentao-criou-uma-nova-forma-de-pular-o-carnaval.shtml. Acesso em: 4 maio 2026.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Dossiê: Matrizes do samba no Brasil. Brasília: IPHAN, 2007.
LOPES, Nei. Dicionário social do samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
LIRA NETO. Uma história do samba. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
PAULA, Célia Regina Silva de. Práticas discursivas e identidade cultural no samba. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, [s.d.]. Disponível em: https://www.pplinuerj.com.br/sipos/administracao/tesesedissertacoes/documentos/DissertacaoCELIAREGINASILVADEPAULA2.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PEÇANHA, João Carlos de Souza. O samba como expressão de identidade nacional: cultura, política e memória. 2013. Tese (Doutorado em História) – Universidade de Brasília (UnB), Brasília, 2013. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/15715/1/2013_JoaoCarlosdeSouzaPecanha.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PERRAUT DA SILVA, Natan. Entre tradição e espetáculo: transformações nas escolas de samba contemporâneas. 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/bitstream/1/23273/2/Dissertação%20-%20Natan%20Perrout%20da%20Silva%20-%202024%20-%20Completa.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PORTAL TERRA. A origem do casal que representa uma escola de samba: mestre-sala e porta-bandeira. Disponível em: https://www.terra.com.br/amp/story/diversao/a-origem-do-casal-que-representa-uma-escola-de-samba-mestre-sala-e-porta-bandeira,0f412a364434a1c62cd6fa4c56fca7795muhvcmr.html. Acesso em: 4 maio 2026.
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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF). O samba e a construção da cultura popular no Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, [s.d.]. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/906.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF). Carnaval, identidade e cultura urbana no Brasil. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, [s.d.]. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1806.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.

Socorro Acioli conhece de perto o projeto da Tijuca e se encanta com releitura de sua obra

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escritoratijuca
Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Vestindo a camisa do enredo da Unidos da Tijuca, a escritora cearense Socorro Acioli participou do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no fim da tarde desta quarta-feira. O evento, mediado por Ramón Nunes Mello e Suzana Vargas, reuniu grande público e contou com a presença de integrantes da agremiação no Salão de Leitura da Biblioteca do CCBB. A escola marcou presença em peso: o diretor de carnaval, Gabriel Mello; o carnavalesco, Lucas Melato; o primeiro casal, Marcinho Siqueira e Cris Caldas; os enredistas, Thayssa Menezes e Leandro Thomaz; e as coreógrafas da comissão de frente, Bruna Lopes e Ariadne Lax, acompanharam o encontro dedicado à escritora de “A Cabeça do Santo”, obra que inspira o desfile do Carnaval 2027.

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No evento, a autora contou a trajetória do romance: a história nasceu de um recorte de jornal que vasculhava em busca de uma ideia para enviar ao escritor Gabriel García Márquez, cuja oficina, “Como Contar um Conto”, em Cuba, ela havia conseguido integrar em 2006.

Entre os recortes, encontrou uma matéria sobre uma estátua de Santo Antônio inacabada na cidade de Caridade, no Ceará. A cabeça da escultura havia ficado no chão por décadas, e o detalhe de que um homem, identificado como “vagabundo”, chegara a morar dentro dela foi o que lhe deu o personagem central do livro.

Acioli falou também sobre o contato com o universo do samba. “Hoje passei uma tarde vendo todos os recursos que a Tijuca está compondo e criando para contar a mesma história de uma maneira muito maior e muito melhor do que o que eu fiz”, disse. “O samba sabe contar história muito melhor do que a literatura. Na verdade, somos nós que temos que aprender com o samba e com a escola a contar história direito”.

O carnavalesco Lucas Melato se emocionou ao dirigir-se à autora. “Hoje, aqui na frente da Socorro, eu tenho a certeza da boa escolha e da excelente autora que a gente vai homenagear. É um privilégio levar a sua história para o maior espetáculo da Terra”, afirmou.

O encerramento contou com uma homenagem surpresa: o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Unidos da Tijuca, Marcinho Siqueira e Cris Caldas, apresentou-se para que Socorro Acioli pudesse reverenciar o pavilhão da agremiação. A noite foi encerrada com uma sessão de autógrafos, na qual o público recebeu dedicatórias em “A Cabeça do Santo” e em “Oração para Desaparecer”.