O show da final da Grande Rio teve seu momento definitivo guardado para o final: a coroação de Anitta. O espetáculo foi construído como um rito de ancestralidade, pertencimento e reencontro. Anitta chegou ao palco olhando para os dois lados de sua origem, paterna e materna, e apresentou ao público a comunidade caxiense onde a mãe viveu por um tempo, chão que também integra sua própria ancestralidade. O show trouxe músicas, cenas e a estética audiovisual do álbum “EQUILIBRIUM”, em diálogo direto com as matrizes afro-brasileiras que atravessam o repertório mais recente da cantora.
Antes da coroação, Anitta pediu licença. Um bailarino representando Exu entrou em cena, dançou e abriu os caminhos para aquele reinado. Foi nas mãos da entidade, que também foi o enredo da Grande Rio de 2022, primeiro título da Tricolor da Baixada, que a cantora chegou ao momento máximo da noite. O samba, um dos mais cantados na quadra, ganhou a interpretação de Ito Melodia, novo intérprete da agremiação.
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
1 de 40
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
Para coroá-la, Anitta chamou Eloína dos Leopardos, apontada como pioneira na função de rainha de bateria. A escolha reforça o eixo do enredo e amplia seu alcance.
Pavilhão nas mãos de Anitta
Ao retorno do samba de Exu, entraram o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola, Taciana Couto e Daniel Werneck, dançando com o pavilhão. Anitta tomou posse da bandeira naquele instante.
Sankofa: pés no presente, olhos no passado
Em coletiva, Anitta resumiu a imagem que organiza o enredo: os pés fincados no presente, o peito projetado para o futuro e os olhos voltados para o passado, o pássaro Sankofa. A lógica se repetiu na estrutura do show: sambas de 1993 e 1994 e os sambas-homenagens a Tatalondirá e Zeca Pagodinho compuseram o olhar retrospectivo que espelhava a própria trajetória revisitada pela cantora.
Há reencontro dos dois lados dessa história. A Grande Rio se reencontra com sua trajetória; Anitta se reencontra consigo mesma e com a fé, tudo isso dentro de um enredo afro que dá corpo às imagens: o peito onde bate o coração, o tambor que pulsa em todos os animais.
Foi uma grande noite, um grande show e, sobretudo, uma oportunidade dupla: para Anitta, a chance de se reapresentar ao mundo do samba como artista brasileira; para a Grande Rio, a chance de alcançar a legião de fãs e seguidores da cantora.
Por Allan Duffes, Maria Estela Costa, Matheus Morais e Marcos Marinho
A Grande Rio definiu, na noite deste domingo, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o samba-enredo que levará para o Carnaval 2027. A escola escolheu a obra dos compositores Deré, Licinho Jr., Robson Moratelli, Rafael Ribeiro, Igor Federal e Gusttavo Clarão. Em 2027, a Tricolor levará para a Avenida o enredo “Sankofa Tabon, Os retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade”, de autoria de Antonio Gonzaga. A Grande Rio será a terceira escola a desfilar na terça-feira de Carnaval.
O presidente Helinho de Oliveira explicou que a Grande Rio chegou ao enredo de 2027 após conhecer a história e se encantar com a possibilidade de levá-la para a Sapucaí. Segundo ele, a escola chegou a avaliar outras possibilidades, inclusive com patrocínio, mas decidiu priorizar a proposta de Antonio Gonzaga.
“Conhecemos essa história maravilhosa e nos apaixonamos. Tínhamos até outras opções de enredo em vista, inclusive com patrocínio, mas decidimos abrir mão delas em favor deste tema por conta da riqueza do enredo”.
Após a escolha do samba, o dirigente destacou o sentimento de dever cumprido e afirmou que a disputa foi conduzida sem favoritismo.
Foto: Allan Duffes/CARNAVALESCO
“Sentimento de dever cumprido e de ter escolhido a melhor obra. Na Grande Rio, o samba ganha por conteúdo, sem favoritismo prévio. Mais uma vez, a escola dá uma demonstração de transparência: venceu a melhor composição, e o resultado está aí para todos verem”.
A definição do samba aconteceu poucos minutos depois de um dos momentos mais marcantes da temporada da Grande Rio: a coroação de Anitta como rainha de bateria da escola. Helinho lembrou que a cantora já frequentava a quadra da Tricolor antes mesmo de assumir o posto.
“A Anitta já frequentava a nossa quadra desde 2014. Com a saída da Virginia, o nome dela foi unanimidade entre a diretoria. Levamos a proposta até ela, que aceitou prontamente. É uma menina espetacular, com raízes em Caxias, e que já mostrou a que veio”.
Para o presidente, a Grande Rio terá novamente como objetivo a disputa pelo título e a valorização do carnaval. “O nosso compromisso é, mais uma vez, enaltecer o Rio de Janeiro e a cultura do carnaval. A Grande Rio entra na Avenida sempre para disputar o título, com a vontade máxima de ser campeã e de valorizar a nossa festa”.
Compositores celebram vitória
Um dos autores da obra campeã, Deré comemorou mais uma conquista na escola e destacou a importância da parceria construída ao longo dos anos.
Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO
“É uma emoção muito grande, mas eu tenho uma rapaziada que me ajuda muito. Eu já perdi três sambas, mas ganhei onze aqui. Sou o maior ganhador de sambas aqui na Grande Rio. Só agradecer”.
O compositor Robson Moratelli também comemorou a vitória na escola que acompanha desde a infância e destacou a relação afetiva com a Grande Rio.
Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
“É uma emoção muito grande estar ganhando aqui na minha escola, sou Grande Rio desde criança. Não tem preço. É uma emoção que vem da alma e de sangue. Com esse são cinco sambas aqui, é um momento de prestígio. Representa imensamente na minha vida. Sou apaixonado pelo samba e pela Grande Rio, minha escola do coração e que carrego marcada no corpo. Vencer uma disputa aqui é o equivalente a fazer um gol na final da Copa do Mundo e ser campeão pela Seleção Brasileira. Essa conquista e essa escola significam tudo para mim. Concorro na disputa de samba da Grande Rio desde 2006. De lá para cá, este é o meu quinto título na escola. Gosto muito do trecho: ‘Ó, estrela… Estrela de toda negrura na bandeira… A Grande Rio traz de Gana a bravura!’. E também da passagem: ‘Será… Que leva a luta dos malês, será? Será que tudo que se fez para libertar o povo preto nessa terra que me há, doutor…’. É uma obra belíssima”.
O compositor Licinho Jr. também destacou o alto nível da disputa deste ano, que contou com diferentes parcerias de compositores experientes e teve, inclusive, a participação de Anitta em uma das obras concorrentes.
Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
“Representa muito. A Grande Rio conta atualmente com um quadro de compositores extremamente renomados. Disputamos com obras de alto nível, inclusive com a parceria da Anitta na competição. Vencer em uma disputa tão qualificada tem um significado enorme para nós. Trata-se de um belo enredo. A nossa parceria estava há três anos sem vencer na escola e, graças a Deus, fomos contemplados neste ano. É uma emoção e uma satisfação gigantescas conquistar mais esta vitória. Esta é a minha sétima vitória na escola. A passagem ‘Ó, estrela, estrela de toda negrura…’. O refrão principal é a parte que mais me toca: é muito forte, emocionante e tem a capacidade de contagiar e levantar todo o público na Avenida.
Como passaram os sambas na final
Parceria de Henrique Bililico: Abrindo a final, a parceria de Henrique Bililico mostrou uma boa apresentação comandada por Tem-Tem Jr. e Charles Silva, em que a constância da obra foi um destaque, mantendo a torcida e outros torcedores da escola na quadra cantando firme durante o tempo de apresentação, com destaque para os momentos dos refrões e da segunda do samba. A condução dos intérpretes foi muito boa ao longo dos 20 minutos.
Parceria Ailson Picanço: Segunda da final, a obra teve Lissandra Oliveira como a principal voz no palco, conduzindo de forma muito tranquila a apresentação. A parceria passou um pouco menos animada do que a anterior, destacando-se a primeira do samba, especialmente versos como “Preto não nasceu pro cativeiro/Meu candeeiro é lua de África/Em cada luta o corpo dança/Deve ser por isso que balança o mar”. Os refrões também foram pontos altos da apresentação, animando bem alguns componentes que estavam pela quadra.
Parceria de Deré: Comandada no palco por Juan Briggs, a parceria de Derê teve uma excelente apresentação, empolgando muitos torcedores presentes na quadra. Com um samba muito bem estruturado e poético, chamou a atenção a primeira do samba durante seu tempo de apresentação, tanto melodicamente quanto pelos versos, especialmente os que vêm antes do refrão do meio da composição, além dos próprios refrões, que cumpriram bem sua função, em especial o principal, em que a explosão ocorre muito forte.
Parceria de Anitta: Contando com Wantuir e Igor Vianna à frente da apresentação, a parceria demonstrou muita força durante seu tempo no palco. Com a presença de Anitta cantando durante boa parte do samba, ficou em alta com muitos componentes cantando forte a obra, que também se destacou pela melodia, em especial a primeira do samba e as repetições com estrutura melódica de refrão no meio do samba, que se destacaram durante a apresentação. O refrão principal, com referência a um dos sucessos recentes da cantora, também foi bem explosivo durante a noite.
COMPOSITORES: DERE, LICINHO JR., ROBSON MORATELLI, RAFAEL RIBEIRO, IGOR FEDERAL e GUSTAVO CLARÃO
SANKOFA !!
EM SUAS ASAS VOU BUSCAR MINHAS RAÍZES
A TRAVESSIA NÃO APAGA CICATRIZES
EU SOU HISTÓRIA, OURO DE MÃE, NEGRO ANCESTRAL
AVE SAGRADA!!
AINDA ME LEMBRO DO NAVIO AGOURENTO
A DOR DO MEU PRIMEIRO ATRAVESSAMENTO
VENCI O DRAMA, EU SOU A TRAMA ATEMPORAL
RETORNO NO CAMINHO DAS MARÉS NO ENTORNO… OUTRO SENTIDO, OUTRO VIÉS SERÁ… QUE LEVO A LUTA DOS MALÊS, SERÁ?
SERÁ… QUE É TUDO QUE SE FEZ PRA LIBERTAR?
O POVO PRETO NESTA TERRA QUE ME ADOTOU
UM SOL À FRENTE, BORDADO “KENTE”
EKOME FEEMO!!
MEU OLHAR MAREJOU, MAREIA
NO ENCONTRO QUE NYAME ABENÇOOU
O CLARÃO DA VELHA LUA CHEIA
NA PEDREIRA DO MEU PAI XANGÔ
NO BRILHO DO POVO AKAN, ADINKRA SIMBOLOGIA
CONHEÇO DA GENTE IRMÃ, SABOR E SABEDORIA
TABON EU ME SINTO EM CASA
TABON EU VIM PRA FICAR
O AMOR ACENDEU A BRASA
COM ASAS EU QUIS VOAR
LIBERDADE AO SOM DO AGBÊ
LIBERDADE NOS PALMOS DESTE CHÃO
MEUS FILHOS IRÃO ERGUER O TEMPO DE REPARAÇÃO
MEUS FILHOS IRÃO ERGUER UM PAÍS COM A GANA
DA FORÇA AFRICANA E CHAMAR DE NAÇÃO
OH, ESTRELA ! ESTRELA DE TODA NEGRURA
NA BANDEIRA, A GRANDE RIO
TRAZ DE GANA A BRAVURA!!
A final de samba-enredo da Grande Rio para o Carnaval 2027 teve neste domingo um dos momentos mais aguardados da temporada: a coroação de Anitta como rainha de bateria da escola. Em uma quadra lotada em Duque de Caxias, a cantora recebeu a coroa das mãos de Eloína dos Leopardos, referência histórica do carnaval carioca e apontada como pioneira na função de rainha de bateria. A cerimônia aconteceu antes da definição do samba-enredo que a Tricolor da Baixada levará para a Sapucaí em 2027.
A artista chegou ao novo posto deixando claro que compreende a dimensão simbólica da função e, principalmente, que não pretende colocar sua fama como cantora acima da comunidade que constrói o carnaval da Grande Rio. Durante a entrevista coletiva, Anitta afirmou que ocupar o posto exige respeito às tradições da escola e uma relação construída com quem frequenta a quadra e acompanha a bateria durante todo o ano.
“O carnaval tem seus costumes e tradições. É um mundo à parte. A pessoa pode ser minha fã, gostar do meu trabalho como cantora, mas isso não significa que vai me enxergar automaticamente nesse lugar. A gente tem que se colocar com muita humildade, entendendo que não é assim: ‘ah, porque sou cantora e o pessoal gosta de mim, vai gostar também nesse caso’. Não. A gente tem que fazer as coisas com respeito, entendendo o lugar aonde está indo. Tentei fazer tudo assim desde o início. Desde que conheci o mestre, falei: ‘Se vocês não estiverem contentes, fala comigo’. Para mim, o mais importante é que o pessoal da bateria esteja gostando, que o mestre esteja gostando, que o pessoal que já frequenta a quadra esteja gostando”, explicou Anitta.
A cantora fez uma distinção entre a força de seus fãs e a relação cotidiana construída pela escola com sua comunidade. Para ela, uma quadra cheia por causa de sua presença não necessariamente representa a aprovação de quem acompanha a Grande Rio durante todo o ano.
“Uma coisa é encher a quadra com meus fãs, que vão me acompanhar por onde eu for; outra coisa é o pessoal que vem para a comunidade sempre, independentemente da minha presença ou não. São essas pessoas que fazem a diferença no desfile. Quem tem que estar feliz são essas pessoas”.
Eloína dos Leopardos como símbolo da coroação
A escolha de Eloína dos Leopardos para entregar a coroa foi um dos pontos mais simbólicos da noite. Anitta contou que ficou surpresa quando soube da possibilidade e passou a pesquisar a trajetória da personagem que decidiu colocar no centro da cerimônia.
“Foi uma grande surpresa e acho que faz todo sentido. Eloína foi a primeira travesti que se colocou nesse lugar e abriu a porta não só para outras travestis, mas também para uma visibilidade artística. Ela já era uma artista, já lotava os lugares com seus shows, as pessoas adoravam assisti-la. Aí ela foi convidada para esse lugar de rainha sozinha à frente da bateria, e se desenvolveu tudo isso. Quis trazer a Eloína porque ela traz uma bandeira muito importante para este momento político que vivemos, de resistência para travestis e trans do Brasil. Gosto de trazer essas reflexões nos meus trabalhos”, comentou.
Ao explicar sua relação com o carnaval, Anitta também destacou o caráter histórico e social dos desfiles das escolas de samba. Para a cantora, compreender essa manifestação significa entender que os enredos e as apresentações das agremiações sempre estiveram relacionados a questões da sociedade.
“O carnaval, as escolas de samba, começaram num contexto político: os enredos sempre foram escolhidos para praticar alguma mudança na sociedade, para trazer alguma revolta ou necessidade do povo, para trazer reflexões que pudessem mudar politicamente a história da cidade, das pessoas, da política. Você tem que pesquisar o que está fazendo. Quando recebi o convite, quis saber, como em tudo que faço, toda a história: como isso começou, se transformou, cresceu, como é hoje.”
Preparação para ocupar a frente da bateria
A preocupação de Anitta com a preparação também apareceu durante a coletiva. Ela contou que, depois de receber o convite para ser rainha, procurou aulas específicas de samba para compreender as exigências de uma apresentação à frente de uma bateria.
“Quando fui chamada, primeiro fui fazer aulas de samba. Uma coisa é a gente sambar no dia a dia, como todo mundo do Rio samba. Vai no pagode, em uma quadra. Meu tio, que é da velha-guarda do Império Serrano, dizia: ‘Hoje vai ser o dia mais emocionante’. Ele me levava para a quadra do Império; outro tio, que era portelense, me levava para lá. Uma coisa é a gente sambar para curtir, achando que sabe; outra coisa é sambar nesse lugar de palco, diante das pessoas que assistem, tem mais exigência. Fiz aulas com a Mayara (Lima, do Tuiuti), com a Belinha (Delfim, da Viradouro) e também com a maravilhosa Ana Flávia, do Salgueiro, que foi queridíssima comigo. Quero marcar também com a Evelyn (Bastos, Mangueira) e com a Gaby, da Mocidade, porque acho que cada uma tem um truque especial para trazer”.
Coroação pensada para dialogar com o enredo
A cerimônia também foi construída pela própria Anitta a partir de pesquisas sobre outras coroações. A cantora contou que recebeu liberdade para pensar o formato da apresentação e decidiu que queria inserir fundamento e emoção no momento.
“Me disseram que eu podia fazer o que quisesse. Comecei a pesquisar coroações, a ver como cada pessoa escolhe a sua, e falei: ‘Quero fazer algo que traga fundamento, que traga emoção’”.
A apresentação incorporou elementos da trajetória artística da cantora e de sua turnê, ao mesmo tempo em que procurou criar uma conexão com o enredo da Grande Rio. A estrutura visual usada na cerimônia teve referências à turnê “EQUILIBIVM”. Anitta defendeu que a emoção poderia ocupar um espaço próprio na avaliação de um desfile.
“Acho que devia até ser criado esse quesito emoção, porque os desfiles emocionantes têm contado muitos pontos, na minha opinião, de quem assiste. Tenho visto que a emoção das pessoas sobre aquele tema, enredo, levanta a comunidade, o público. Sabia que estariam muitos fãs presentes e queria que eles se conectassem, que entendessem o link entre o meu álbum, minha carreira e o enredo da Grande Rio este ano, que tem tudo a ver: ancestralidade, retorno ao passado. Às vezes, quando você fala do enredo, parece que está falando do meu álbum, de tanto link que existe. Quis trazer essa energia, essa emoção para a quadra. Acho que hoje em dia muita gente opina sem buscar a história e o samba tem muita história para contar. Quando você olha para o passado, aprende muitas coisas para o futuro: para não errar, respeitar as pessoas, saber o fundamento de onde vem cada coisa”.
A relação construída com o mestre Fafá também ganhou destaque na entrevista. Anitta afirmou ter criado uma conexão imediata com o profissional e comparou a relação ao encontro com um irmão.
“Me conectei muito com o mestre. Pareceu, de cara, um irmão perdido, mais um irmão perdido que eu estava achando ali em Caxias. Não sei se vocês prestaram atenção na apresentação, mas minha mãe, quando veio da Paraíba, morou muitos anos numa comunidade, uma favela, antes de ir para Honório Gurgel e conhecer meu pai. Quando nos conhecemos, pensei: ‘Será que tenho outro irmão perdido?’ Já estávamos tendo ideias do que fazer de diferente, dessa conexão. No dia, colocamos a roupa igual, combinamos o ‘lookinho’ e tudo mais. Acho isso importante”.
A cantora também fez questão de estabelecer um limite para sua relação com o posto. Mesmo com a projeção de sua carreira, ela afirmou que não pretende se colocar acima das rainhas que a antecederam.
“Sempre falei para o mestre Fafá: ‘Se em algum momento você sentir que o pessoal da bateria não gostou tanto da minha vibe, eu não obrigo todo mundo a gostar de mim, me fala’. Não é desdém ao cargo, que eu amo e estou muito feliz nele, mas é no respeito de saber quem realmente importa nesse lugar. Eu não sou maior aqui do que as que vieram antes. Eu não fico muito comparando. Não faço comparações, porque, com arte, a gente tem que aprender desde cedo a não comparar, senão é fórmula do fracasso. Tento acrescentar o que acho que vai me fazer feliz”.
Agenda de shows não será obstáculo para o carnaval
A agenda internacional da cantora também foi um dos assuntos da coletiva. Anitta afirmou que houve muitas especulações sobre supostas exigências feitas por ela para assumir o posto, mas explicou que fez apenas um pedido à escola: garantir que pudesse participar do ensaio técnico.
“O pessoal fala muito de ‘exigências’ que eu fiz, mas, na verdade, só fiz um pedido, nem chega a ser exigência, para que entendessem o que era mais importante para mim: as datas. Falei: ‘Gente, precisamos entender se eu vou poder estar presente no ensaio técnico’, porque isso para mim é o mais importante do desfile, fazer o ensaio técnico perfeitamente. Só deixei anunciarem o show quando soubemos que a data poderia ser uma das últimas, porque aí eu teria tempo de fazer o show e sair a tempo. Já fiz isso muitas vezes na carreira, quem me acompanha há anos sabe: faço um show num lugar, pego o avião, vou para outro, faço outra coisa. Isso é normal na minha rotina”.
Encerrando o ano que garantiu a quarta estrela para a Viradouro, a escola apresentou um show de potência musical e saudação à memória ancestral em cada detalhe: do show ao samba escolhido, e até mesmo o convite carinhoso a um representante de cada escola de samba para aproveitar a noite na quadra, no conforto do melhor camarote da escola. Ao falar de memória, o show não poderia começar de outra maneira. A escola homenageou a cantora Débora Cruz, que faleceu em agosto deste ano, em uma versão delicada da música “Andar Com Fé”, de Gilberto Gil, entoada pelo carro de som da agremiação.
Em seguida, o show se iniciou com o bailado de Phelipe e Marcela ao som do samba-exaltação da escola, junto aos outros dois casais da escola, em um belo destaque aos três pavilhões. O repertório passou pelo samba de 1999, em homenagem a Anita Garibaldi, cantado a plenos pulmões pela quadra; o campeão “Arroboboi, Dangbé”, de 2023, também esquentou a quadra. Já o icônico samba de 2007, “A Viradouro vira o jogo”, também trouxe a musa Madu Fraga ao palco. Apesar de não haver grande teatralidade ao longo das apresentações, e de haver um foco maior em boas apresentações dos segmentos, as musas Madu Fraga, Carol Macharethe e Lore Improta performaram de forma interessante, integradas aos grupos coreográficos, por vezes surgindo em meio aos componentes, como grandes “divas”. Uma brilhante valorização para um dos melhores times de musas do carnaval, atualmente.
Os segmentos foram apresentados de forma concisa, incluindo um momento dedicado ao canto do time de Harmonia da escola, que pulava e cantava em frente ao palco ao som de “Orgulho de Ser Niterói”. A parte musical terminou com o show à parte do samba que rendeu o último campeonato da escola, em 2026. “Pra cima, Ciça” continua tão apoteótico quanto sua passagem na última segunda-feira de carnaval: Ciça emociona o público, comanda a bateria, é erguido pelos diretores de harmonia, e o canto explode na quadra, em festa.
A chave para 2027 virou de forma simples e simbólica: o “Griô”, que personifica o enredo na representação, entrou no palco lado a lado com o casal Phelipe e Marcela, e apertou a mão da representação de Ciça criança, parte da comissão de frente Estandarte de Ouro de 2026.
A montagem foi uma recriação enxuta do que foi apresentado na Noite dos Enredos, com algumas adaptações: elenco reduzido, novas imagens de telão, além da coreografia e movimentos de Ananse que interagiam com as imagens e frases. A performance, ao todo, se destaca pela forma como conseguiu transmitir toda a clareza da sinopse do enredo desenvolvido por Tarcísio Zanon e pelo enredista João Gustavo Melo, de forma ainda mais didática à comunidade. A narrativa traça um paralelo entre os Griôs da África Atlântica e as escolas de samba, que preservam e transmitem um conhecimento ancestral, através da palavra cantada ou falada.
No telão, a frase “tentaram silenciar os saberes, mas a memória persistiu” introduz um momento de exaltação à resistência cultural frente à colonização, trazendo representações de culturas diferentes. Processos pelos quais povos que estão além do Ocidente e do Norte Global passaram, e o próprio carnaval não escapou. Dessa forma, a performance se encerra com malandros representando as escolas do Grupo Especial, sambando ao som de sambas históricos de cada uma. Como uma personificação da Viradouro, Bellinha Delfim surge ao final, dançando junto ao grupo. Para selar a performance, bailarinas ergueram bandeiras com a arte de cada enredo que passará na Sapucaí pelo Grupo Especial em 2027, consolidando o papel de resistência cultural das agremiações.
Por Júnior Azevedo, Juliane Barbosa, Luiz Gustavo e Mariana Santos
A Unidos do Viradouro definiu, por volta das 5h30 deste domingo, o samba-enredo que levará para a Marquês de Sapucaí no Carnaval 2027, quando tentará conquistar o bicampeonato consecutivo do Grupo Especial. A parceria de Mocotó, Paulo César Feital, Inácio Rios, Igor Federal, Deja, Romério Duarte, André Quintanilha, Chanel, Ronilson Fernandes e Marcio André Filho venceu a final realizada na quadra da escola e terá a missão de transformar em canto o enredo “Griô”, desenvolvido pelo carnavalesco Tarcísio Zanon. A obra aborda a tradição dos contadores de histórias das populações da África Ocidental e a importância da oralidade na transmissão de memórias e saberes entre gerações. A proposta também estabelece conexões entre essa tradição, manifestações culturais e a formação das escolas de samba no Brasil. Campeã do Carnaval 2026, a Viradouro será a segunda escola a desfilar na terça-feira de carnaval, em 9 de fevereiro de 2027.
O presidente Marcelinho Calil explicou que a escolha foi construída a partir de uma avaliação técnica ao longo da disputa, mas destacou que o principal diferencial da obra vencedora foi a capacidade de traduzir musicalmente o enredo de Tarcísio Zanon.
“Minha alegria é imensa. A escola precisava de um samba foda, e tinha três. Obviamente, fazendo uma leitura técnica que foi sendo apurada ao longo do tempo, envolvendo quesitos e a voz do Wander Pires, tínhamos dois sambas espetaculares e um que era o enredo. Simplesmente, ele era a existência do próprio enredo. Ele conseguia fazer com que a gente fechasse os olhos e imaginasse o enredo, imaginasse o Griô, a escola na Avenida”, revelou.
A posição de desfile no Carnaval 2027 também foi comemorada pelo presidente, que considera o horário favorável para a escola defender o título. “É extremamente favorável. Este último ano foi a Vila. A gente lembra como estava a Avenida nessa segunda escola de terça. Avenida quente, extremamente receptiva ao que a escola foi apresentar. Posição excelente”, afirmou Calil.
Marcelinho terminou projetando uma Viradouro ainda mais forte na tentativa de conquistar novamente o título. “A Viradouro vem mais forte do que nunca para o bicampeonato, acho que muito mais forte do que 2022 e 2025, que foram as nossas defesas de título. Uma posição excepcional, e vem para botar fogo naquela Avenida, sem dúvida alguma. E tem quesito, samba, história, estrutura, peso e chão para ganhar mais uma vez”, garantiu.
Compositores celebram a vitória
A vitória teve um significado especial para Mocotó. O compositor volta a vencer uma disputa na Viradouro após uma sequência de sete títulos consecutivos entre 1996 e 2002. Agora, chega ao oitavo samba campeão na escola.
“Essa conquista representa muita coisa. É uma emoção muito grande. Ainda mais na minha escola, que está correndo atrás da quinta estrela. E eu, por felicidade, posso ter essa colaboração com a Viradouro. Eu sou um verdadeiro griô: tenho 40 anos de educação e 55 anos de samba. Apesar de um monte de vitórias anteriores, quando vem mais uma vitória, sempre soma. O coração tem que ficar com uma alegria maior do que a anterior. Tenho certeza absoluta, com todo respeito às coirmãs, vamos em busca da quinta medalha”.
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
O compositor também lembrou a longa espera até voltar ao topo da disputa. “É o meu oitavo samba. Eu ganhei sete sambas consecutivos na Viradouro: em 1996, 1997, 1998, 1999, 2000, 2001 e 2002. No restante dos anos, eu vinha sempre batendo na trave, mas dizendo que uma hora a bola ia bater na trave, tocar nas costas do goleiro e entrar. E olha, aconteceu exatamente isso”, festejou Mocotó.
Entre os diferentes momentos da obra, Mocotó apontou o refrão central como seu trecho preferido. “É o refrão do meio. É a coisa mais linda do mundo e é muito gostoso de cantar. É um ‘doce de leite’. Acredito que foi ele que trouxe a vitória”.
O compositor PC Feital também comemorou a conquista e revelou ter vivido uma das noites mais emocionantes de sua trajetória. O compositor chegou à quarta vitória na Viradouro. “Há muito tempo acho que eu nunca me emocionei tanto, como me emocionei hoje. A Viradouro é uma escola querida. O que eu posso dizer é que estou com uma felicidade absurda, uma disputa mais do que honrada, porque a Viradouro é isso, acho que é a disputa mais justa que tem. O meu trecho preferido do samba é o refrão central que cita as crianças ao redor do griô, é perfeito”, comentou Feital.
Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO
A conquista também teve um significado familiar para Ronilson Fernandes. O compositor lembrou que seu pai venceu uma disputa de samba na Viradouro em 1981 e afirmou que a vitória representa uma homenagem a ele.
“Essa vitória hoje, para mim, é uma dedicação ao meu pai, que ganhou o samba aqui em 1981. E agora, 45 anos depois, eu, como filho, para mim é uma felicidade enorme estar aqui sendo campeão, com esse enredo maravilhoso, nessa escola do meu coração, que é a Viradouro”.
Show na final
Encerrando o ano que garantiu a quarta estrela para a Viradouro, a escola apresentou um show de potência musical e saudação à memória ancestral em cada detalhe: do show ao samba escolhido, e até mesmo o convite carinhoso a um representante de cada escola de samba para aproveitar a noite na quadra, no conforto do melhor camarote da escola. Ao falar de memória, o show não poderia começar de outra maneira. A escola homenageou a cantora Débora Cruz, que faleceu em agosto deste ano, em uma versão delicada da música “Andar Com Fé”, de Gilberto Gil, entoada pelo carro de som da agremiação. *LEIA AQUI O TEXTO COMPLETO SOBRE O SHOW NA FINAL
Como passaram os sambas na final
Parceria Lucas Macedo: Tinga e Charles Silva comandaram a apresentação do samba de Lucas Macedo, Rafael Gigante, Hélio Porto, Dudu Nobre, Vinicius Ferreira, Orlando Ambrosio, Miguel Dibo, Jefferson Oliveira, Yannick Nobre e Cabeça do Ajax. A parceria trouxe uma torcida com muitas bandeiras, dando um aspecto pulsante e de movimentação durante a apresentação, que largou forte, com os intérpretes deixando o canto para a torcida em vários momentos da obra, sobretudo no refrão principal, “I ni Baraji Djeliba Griô…”, que teve um grande desempenho, passando com muita força durante toda a exibição. Após a entrada da bateria, o palco assumiu completamente o comando e conduziu uma passagem aguerrida, apesar de alguns momentos de irregularidade, como na primeira parte da obra. O refrão central, “na encruza africana, a rima, que um velho soprou, o verbo em movimento, sabedoria no tom balafon e korá, eu caminhei no tempo”, tem uma divisão melódica no canto que marca os versos, se destacando na apresentação. Com o andar das passadas, o samba teve uma ligeira queda, se sustentando nos refrãos e no início da segunda parte, momentos em que a melodia permeia o samba com maior inspiração. A recepção da quadra foi positiva, porém modesta.
Parceria de Claudio Mattos: Pitty de Menezes defendeu a obra de Claudio Mattos, Renan Gêmeo, Anderson Lemos, Manolo, Bertolo, Silvio Mesquita, Wilson Mineiro, Marcelo Adnet, André Braga e Thiago Meiners. Muitos fogos na entrada da parceria, que largou com a força anímica de Pitty, que jogou o refrão principal para a torcida, recebendo o apoio também de outras pessoas presentes na quadra. O refrão, “Kawô, meu pai Kawô, reina Xangô, chão da justiça pra honrar toda memória, em cada pele de tambor, ensinamento, sou Viradouro, nasci pra fazer história”, tem uma alternância interessante de tons, que contribuíram para o trecho passar de forma sedutora, levantando a quadra. A primeira parte se destaca em sua melodia, rendendo com bastante força, sobretudo nas primeiras passadas. O refrão central, “Quando o Korá ecoou foi mandinga, Oriki, Bambará, malinquê, balafon se mistura ao tambor, Orin pra cada sangue e dinastia, pra espalhar o sentimento de um griô”, funciona como uma gira e, apesar da baixa no tom, não enfraqueceu o canto e foi outro trecho de destaque. A segunda parte, que exalta as escolas de samba como os griôs do presente, é muito feliz na narrativa. Sobretudo, o samba se mostrou muito estável, não tendo uma queda mais significativa em momento algum da apresentação, mostrando sua qualidade com êxito. O samba teve boa recepção ao fim da exibição.
Parceria de Mocotó: Leozinho Nunes e Juan Briggs foram as vozes principais do samba de Mocotó, PC Feital, Inácio Rios, Igor Federal, Deja, Romério Duarte, André Quintanilha, Chanel, Ronilson Fernandes e Márcio André Filho. Mais uma parceria com muitos fogos na largada e uma torcida mais numerosa que em semanas anteriores. A primeira passada foi magnética, com um canto fortíssimo dos seus torcedores, acompanhado de boa parte da quadra, principalmente no lindo refrão central, “Eu fui griô a luz de um baobá, contando histórias de emocionar, em volta dele mais de mil crianças, a cantar lembranças ao som do Korá”, que conta um ponto central do enredo com uma sutileza e beleza poética incríveis, além de uma melodia que casa perfeitamente com o que é contado. A segunda parte é o ponto de maior atenção, já que a melodia possui menos variações de destaque, mas segurou muito bem na apresentação. O refrão principal é mais enérgico, com os versos “Ê Kaalê, Ê Kaale ô, Ziri Ziri Namu, Kouyaté, ê Kaalê ô, ê Kaale ô, a Viradouro é sangue de griô”, e passou com a força que o trecho possui. Foi a passagem que mais resposta obteve do público, com segmentos reagindo com empolgação. Uma apresentação que potencializou os pontos altos do samba em todas as passadas. O samba campeão de um griô para os griôs, escolha justíssima pelo que se viu na quadra.
Compositores: Mocotó, Paulo César Feital, Inácio Rios, Igor Federal, Deja, Romério Duarte, André Quintanilha, Chanel, Ronilson Fernandes e Marcio André Filho
AGÔ BATE PALMA DE MACUMBA
PRA SAUDAR DONO DA RUA
VIRA O CORPO NO TERREIRO
VENTRE QUE MOLDOU O FUNDAMENTO
E O VÉU RODEIA O TEMPO ESSE VELHO FEITICEIRO
QUANDO ANANSE BORDOU OS FIOS DE PRATA
COLOCOU NA CABAÇA O DOM DO SABER
O TOM DA PALAVRA, A FORÇA E O PODER
DO IGBÁ QUE SE QUEBROU
PELO MUNDO ESPALHOU
NA VOZ DOS MANDINGAS SE FEZ POESIA
LINDAS MELODIAS E CANTOS DE AMOR
EU FUI GRIÔ A LUZ DE UM (NUM) BAOBÁ
CONTANDO HISTÓRIAS DE EMOCIONAR
EM VOLTA DELE MAIS DE MIL CRIANÇAS
A CANTAR LEMBRANÇAS AO SOM DO KORÁ
LÁGRIMAS
CAEM PELO MAR DO ESQUECIMENTO
RITUAL OPRESSOR
ÁFRICA
TRADUÇÃO DE TODO ENSINAMENTO
CARREGO NA MINHA COR
VERBO ETERNIZADO
É ALVO ACERTADO CONTRA A MALDADE
SAGRADO É GUARDAR OS SEGREDOS
PRO MUNDO SABER
DANÇA DE JONGO EMBALA MEU PONTO
TAMBOR DE CONGO FAZ ACENDER
OUTROS ENREDOS QUE UM DIA TERÃO DE NASCER
SAMBA ESCOLA VIVA ENTIDADE
ARQUIVO DA MEMÓRIA PRETA
GRITO Á ANCESTRALIDADE
Ẹ KÁALE! Ẹ KÁALE! Ô
ZIRI ZIRI NAMU, KOUYATÉ
Ẹ KÁALE! Ẹ KÁALE! Ô
A VIRADOURO É SANGUE DE GRIÔ
A Grande Rio realiza, neste domingo, a partir das 12h, a grande final do concurso de samba-enredo para o Carnaval 2027. O evento acontece na quadra da escola, em Caxias, e terá uma programação especial, com roda de samba-enredo comandada por Ito Melodia e convidados, além da apresentação oficial de Anitta como nova rainha de bateria da agremiação.
Quatro obras chegam à final na disputa pelo samba que embalará o desfile da Grande Rio na Avenida em 2027: Ailson Picanço & cia; Henrique Bililico & cia; Anitta & cia; e Deré & cia.
A programação começa com a roda de samba de Ito Melodia e convidados. Em seguida, haverá a coroação de Anitta como rainha de bateria da escola. Logo após terá início a apresentação dos sambas finalistas. Aqueles que não puderem comparecer poderão assistir à final pelo canal oficial da RioCarnaval, no YouTube.
Em 2027, a Grande Rio levará para a Avenida o enredo “SANKOFA TABON, Os retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da liberdade”, de autoria de Antonio Gonzaga.
SERVIÇO
Final do concurso de samba-enredo da Grande Rio
Data: domingo, 20 de setembro
Horário: a partir das 12h
Local: Quadra da Grande Rio – Caxias
Atrações: Roda de samba-enredo com Ito Melodia e convidados; final do concurso de samba-enredo; coroação de Anitta como rainha de bateria.
Ingressos: à venda pelo Guichê Web
O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, visitou as obras da Fábrica do Samba Rosa Magalhães, neste sábado, em São Cristóvão, na região central. Localizado na Rua Francisco Eugênio, próximo à antiga Estação Leopoldina, o novo espaço vai reunir 14 galpões para abrigar as escolas de samba da Série Ouro, além de oferecer áreas de lazer, eventos e convivência para toda a população.
“As obras estão muito avançadas e estamos com a previsão de entregar em breve os primeiros quatro barracões. A gente se comprometeu com o Grupo de Acesso do Carnaval para que começasse a entregar os barracões de quem precisa mais, das escolas que estão com menos infraestrutura para poder montar o seu carnaval. Nós estamos muito felizes com o resultado e já, já vamos ver a Fábrica do Samba totalmente concluída”, disse o prefeito Eduardo Cavaliere.
As estruturas dos galpões estão em construção com execução de instalações prediais, levantamento de alvenarias e serviços de impermeabilização, além da execução de estruturas metálicas e pintura de proteção contra incêndio.
Estão ainda em andamento trabalhos de instalação de venezianas na área externa; redes elétricas, hidráulicas e sanitárias. No terreno, avançam serviços de terraplanagem e de canalização do rio que passa pelo local. Quatro galpões estão em fase de conclusão, do 5 ao 8.
Cada um dos 14 galpões das escolas de samba da Série Ouro terá cerca de 1,6 mil metros quadrados e será equipado com oficinas de pintura e resinagem, ateliês de costura e depósito de fantasias e esculturas, além de área para modelagem de carros alegóricos.
O térreo funcionará como garagem para até quatro alegorias por escola, o primeiro pavimento abrigará o refeitório e o segundo pavimento será destinado à confecção de fantasias e adereços. O projeto inclui ainda elevador de carga com capacidade para uma tonelada, elevador social, banheiros, vestiários, refeitório e sistema de combate a incêndio.
Além dos galpões, o complexo de 33 mil metros quadrados contará com uma praça, quiosques, áreas de estar e um prédio administrativo. Os galpões também contarão com ventilação e luz natural.
Por Juliane Barbosa, Luiz Gustavo, Maria Estela Costa e Marcos Marinho
Mais uma noite para entrar para a história da Rainha de Ramos. Nove vezes campeã do carnaval carioca, a Imperatriz Leopoldinense definiu, já na manhã deste sábado, em sua quadra de ensaios, em Ramos, na Zona da Leopoldina, o samba-enredo que será levado à Marquês de Sapucaí em 2027. A presidente da Imperatriz, Cátia Drumond, anunciou no palco da agremiação a parceria formada por Me Leva, Thiago Meiners, Gabriel Coelho, Herval Neto, Bernardo Nobre e Guilherme Macedo como a grande campeã da disputa de samba-enredo. Em 2027, a Imperatriz será a quarta escola a desfilar, encerrando a noite de segunda-feira de Carnaval, em 8 de fevereiro. A agremiação levará para a Avenida o enredo “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, em busca do décimo título de sua história.
Após a escolha do samba, Cátia Drumond destacou a característica que espera da obra ao longo da preparação para o desfile. “O samba é guerreiro, para cima. Essa é a característica que a Imperatriz vem trazendo desde 2023. É nesse caminho que a gente está e é nesse caminho que a gente vai continuar”, disse.
A presidente também avaliou positivamente a posição de desfile definida para a escola. A Imperatriz será a última agremiação a pisar na Sapucaí na segunda-feira. “A análise é a melhor possível. A gente caiu numa posição e no dia que a gente queria, acho que não podia ser melhor. A Imperatriz tem chances verdadeiras de trazer o título para Ramos”, afirmou Cátia.
Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO
Cátia também fez uma avaliação do modelo de disputa de samba adotado pela escola e voltou a defender a obra que conduziu o desfile de 2026, alvo de críticas durante a temporada.
“O modelo de disputa é praticamente o mesmo do ano passado. O samba desse ano (2026) foi criticado, mas eu acho que foi um samba guerreiro, que atingiu o que a Imperatriz precisava. Hoje, aonde a gente chega, é o samba do Ney que cantam é um dos sambas mais cantados. Não sei até que ponto o samba é ruim. Por que é ruim? Eu acho que o samba tem que servir a escola dentro da Avenida, e o meu samba serviu. Quem não gostou, não posso fazer nada”.
Compositores celebram vitória
Um dos compositores do samba vencedor, Gabriel Coelho comemorou mais uma conquista na escola e destacou a pressão após a disputa do ano anterior.
“É uma sensação maravilhosa. No ano passado venceu uma junção de sambas e enfrentamos muitas críticas. Neste ano, tivemos que mostrar ainda mais o nosso valor, a nossa capacidade e a vontade de fazer samba para a Imperatriz, que é a nossa escola. Agora, o meu maior desejo é que a comunidade abrace essa obra, que o samba se torne o hino da escola e que seja motivo de pura alegria na busca por mais um título”.
Compositor Gabriel Coelho. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Gabriel chega à quarta vitória em disputas de samba-enredo na Imperatriz. O compositor também venceu com os enredos sobre Lampião, em 2023, Cigana, em 2024, e Ney Matogrosso, em 2026.
“Inicialmente, o meu sonho era assinar apenas um samba na escola e hoje já contabilizo quatro vitórias. Estou extremamente feliz e realizado. Agora é hora de celebrar, aproveitar e vivenciar esse momento”.
Entre os versos da composição, Gabriel destacou o trecho “Meia-noite, meia-noite”, que antecede o refrão principal.
“A minha parte favorita é o trecho ‘Meia-noite, meia-noite’. Ele constrói um certo suspense e logo em seguida deságua no refrão principal, que é uma verdadeira explosão. Tenho certeza de que esse momento vai contagiar a Sapucaí inteira”.
Também campeão, o compositor Bernardo Nobre ressaltou a força cultural e espiritual do enredo desenvolvido pela Imperatriz para 2027.
“Representa demais. A Imperatriz trará um enredo com uma energia espiritual e cultural muito singular para o próximo ano, exaltando o Maracatu, a força do Recife e do povo negro recifense. Para nós, foi uma honra compor este samba em homenagem a Dona Júlia, Dona Santa, Eudes e ao Maracatu Nação Porto Rico. Estamos imensamente gratos pela escola ter escolhido a nossa obra. Agora é ‘Oiá, Oiá, Laroyê, Oiá, Balé’”.
Compositor Bernardo Nobre. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Esta é a segunda vitória de Bernardo na Imperatriz. “Este é o meu segundo título. Venci no ano passado, com o enredo sobre Ney Matogrosso, e retornei neste ano em uma nova parceria, contando novamente com o Gabrielzinho, que ao lado do Zé Katimba, é um dos maiores compositores vivos da história desta casa. É uma alegria imensa estar ao lado dele e ter a oportunidade de levar a nossa Imperatriz para a Avenida pelo segundo ano consecutivo”.
Bernardo apontou o refrão do meio como seu trecho preferido da composição. “Acredito que a maioria das pessoas mencione o refrão principal, mas sou apaixonado pelo refrão do meio. É o momento em que retratamos o ritual de reencantamento da boneca, algo simplesmente fantástico. A energia, o ritual, a galinha de angola, a farinha, o sangue no couro é uma parte que pega na veia”.
O compositor Herval Neto também celebrou a conquista e destacou o nível da disputa dentro da escola.
Compositor Herval Neto. Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO
“Não existe vitória fácil numa escola como a Imperatriz, onde tem tantos bons compositores da casa. É minha segunda vez concorrendo na Imperatriz e minha primeira vitória. Eu sou Imperatriz e essa conquista significa demais para mim. Meu trecho preferido é o refrão central da galinha d’angola, é espetacular”.
O compositor Lico Monteiro também comemorou a conquista e destacou a continuidade da parceria que já havia vencido a disputa no ano anterior.
“A mesma sensação do ano passado. Ganhar um samba na Imperatriz tem explicação: com essa parceria de amigos, a gente conseguiu construir esse grande samba. Muito obrigado, Imperatriz, por acreditar nessa obra, por deixar a comunidade abraçar essa obra. Graças a Deus, Deus foi fiel e a gente saiu daqui campeão”.
Lico lembrou que a parceria voltou a se reunir para a disputa de 2027 e agora se juntou ao grupo liderado por Me Leva.
“Eu ganhei no passado junto com essa mesma parceria. A gente se juntou este ano com a parceria do Me Leva, agora em 2027. Com todo respeito a todas as obras, mas a gente foi muito feliz. Imperatriz está aí, viva! E vamos para a luta ganhar esse carnaval”.
Imperatriz reencanta a si mesma em show da final
O show que fechou a apresentação da Imperatriz na quadra abriu no ritmo certo: a bateria “Swing da Leopoldina”, sob o comando de mestre Lolo, entrou com suas já conhecidas paradinhas e reservou um momento especial para uma paradinha de baque dedicada ao maracatu de baque virado, com direito a passistas em cena. Um início que já anunciava o tom de diálogo entre tradições que marcaria toda a apresentação. * SAIBA AQUI COMO FOI O SHOW COMPLETO
Como passaram os sambas na final
Parceria de Josimar: Pixulé cantou o samba da parceria de Josimar, Carlos Kind, Diego Jorge, PC do Rio, Kleber Di César e Robert Farrow. A obra, de melodia dolente sobretudo na primeira parte, apresenta variações muito interessantes que conduziram uma forte apresentação nas duas primeiras passadas sem bateria. Com o passar da apresentação, o desempenho se assentou, mas se manteve em um nível forte. O refrão central, “Gira aê calunga, boneca morada do Egun no Ayê, gira aê calunga, boneca morada no Egun no Ayê, no encanto do criador, Porto Rico perguntou, Dona Júlia, cadê você?”, tem uma estrutura envolvente e ousada, saindo do lugar-comum melódico e se destacando. A segunda parte é mais convencional e não segurou o desempenho durante as passadas, mesmo com o bom trabalho de Pixulé e seus apoios, que tecnicamente defenderam com categoria o samba. Ainda assim, o trecho arrefeceu a pegada até o fim da exibição, mesmo com um crescimento na narrativa do enredo. O refrão principal, “Tem macumba e maracatu segunda-feira, tem macumba e maracatu segunda-feira, no toque do meu tambor, as bênçãos do candomblé, Imperatriz axé”, completa cronologicamente o enredo e teve um bom rendimento em toda a apresentação. Um desempenho de boa qualidade que não mexeu tanto com a quadra.
Parceria de Me Leva: Igor Sorriso, Igor Vianna e Grazi Brasil comandaram o samba de Me Leva, Gabriel Coelho, Bernardo Nobre, Guilherme Macedo, Herval Neto e Thiago Meiners. A largada para o início da apresentação já foi de muita potência, com cada intérprete esquentando um trecho da obra. Quando o samba largou, o que se viu foi uma primeira passada inebriante, envolvente e categórica, com cada verso soando como um rito. Sobretudo o excelente refrão central, “É galinha d’angola, farinha, é sangue no couro, sassanha pra folha de boldo, copo d’água, fumaça e acaçá, foram três dias de resguardo no roncó, feitiço que corta nó pra boneca reencantar”, que gera a imagética de um ritual e possui um magnetismo que chama o canto, além de ser muito gingado, teve grande desempenho durante toda a apresentação, acompanhado pelas palmas de parte do público. Ao todo, a composição tem cinco bis, mas isso não travou o samba, que fluiu muito bem e potencializou seus pontos mais fortes. O refrão principal, “Oyá Oyá, ê Lari ô Oyá balé, Oyá Oyá, ê Lari ô Oyá Balé, que meu ogã evoque um ponto de macumba, pra ganhar a rua a Imperatriz do candomblé”, manteve a força da obra. O samba sustentou com firmeza até o fim, realizando uma ótima apresentação e fazendo jus à qualidade que possui, principalmente na impecável narrativa do enredo. O samba campeão da Imperatriz mostrou suas credenciais.
Parceria de Hélio Porto: Tinga e Charles Silva foram as vozes principais da obra de Hélio Porto, Miguel Dibo, Antônio Crescente, Orlando Ambrosio e Marcelo Viana. Um samba que vinha se apresentando muito bem em todas as fases e, na final, corroborou com mais um desempenho de alto nível. As duas passadas sem bateria foram de uma pressão absurda, com a maior adesão da quadra na final, sobretudo nos refrãos. Quando a bateria entrou de primeira, o samba pareceu ter uma queda, mas logo se arrumou e seguiu a forte toada. O refrão central, “Desce do orun, fiz teu trono, Dona Santa, na boneca guardo Egum, Awre Awre brilha no Ayê, calunga de embuia que babá mandou fazer”, joga o canto lá no alto e foi o ápice da apresentação. A melodia é muito valente e não se arrasta, tendo variações de bastante qualidade, como no refrão “tem vela acesa, couro em sangue, copo d’água, a cantiga, tira a mágoa, veste branco no roncó, okan e cabra e galinha pra ofertar, rastilho, fumaça, acaçá, quem vai pra rua não vai só”, trecho que também acerta em retratar o ritual de limpeza e retorno à vida espiritual de Dona Júlia. Charles, Tinga e os apoios trabalharam bem as nuances melódicas e os pontos de maior potência, resultando numa apresentação redonda durante os vinte minutos.