Enredo – A CABEÇA DO SANTO

JUSTIFICATIVA
“A Cabeça do Santo”, uma proposta de releitura da obra homônima de Socorro Acioli, é o enredo que a Unidos da Tijuca aposta para potencializar a narrativa do brasileiro sertanejo e nordestino no carnaval de 2027. Entendemos que a Marquês de Sapucaí é um espaço de desmistificação de visões estereotipadas a respeito dos elementos culturais da identidade nacional. Vale salientar que o livro, sucesso de vendas, é uma narrativa de realismo fantástico escrita a partir de uma história que só poderia acontecer no Brasil. Uma estátua foi construída, nos anos 80, para homenagear Santo Antônio. Porém, a cabeça do monumento foi construída longe do corpo, e nunca chegou a ser colocada no lugar, deixando a obra inacabada. O fato logo gerou grande discussão entre os moradores do lugar. Foi no município de Caridade, interior do Ceará, que um acidente de percurso virou uma história que despertou curiosidade de várias partes do nosso país.
Utilizamos o mesmo realismo fantástico como fonte para propor uma nova narrativa para Samuel, respeitando os recursos de narrativa da obra de Socorro. No enredo, a história é territorializada em Caridade, lugar onde, de fato, aconteceu a história do santo sem cabeça e da cabeça sem santo. Inserimos elementos da cultura local que representam a devoção dos moradores ao padroeiro Santo Antônio, particularidade que permite uma aproximação da ficção com a realidade, gerando também pontos de identificação dos caridadenses com o desfile e a jornada de Samuel.
SINOPSE
Céu de sonhos e estrelas, incerteza e firmamento sobre a cabeça daquele homem. Samuel, nome de profeta, mas com a inquietude de um cão. No terreiro de casa, tentava adormecer suas memórias. Insônia desinfeliz ou devaneio acordado? Lembranças que rasgam o véu do tempo, uma infância vivida no coração do sertão nordestino. “Filho, vá encontrar o seu destino”, dizeres que ainda ecoam ao pé do ouvido. No fundo, sabia que teria herdado de Mariinha, sua mãe, os olhos pequeninos, e também a coragem. Vitalina malfalada: aos olhos do povo, desonrada, mas aos olhos de Deus, a sua vida se assemelhava ao calvário vivido por outras tantas Marias. Abandonada por um rosto sem nome, desceu à sepultura levando consigo a esperança de quem nunca deixou de acreditar. Sem muito entender, Samuel esfregava a vista e enxergava. Era a besta-fera em pessoa num enlace com a noiva beata. Desfelicidade do passado, o vazio, a desesperança: o que a vida queria lhe dizer?
Não era lá homem de muitas crenças. Era difícil continuar acreditando. Tinha apenas uma esperança: o relicário que ganhou de mainha. Estavam ali Santo Antônio, Padre Cícero e São Francisco, a tríade sertaneja da fé. Era a lembrança da promessa. Antes da partida, ela pediu que acendesse uma vela aos pés de cada um, como quem quisesse pagar uma antiga dívida, agora herdada por Samuel. Peregrinar até Caridade talvez fosse o único jeito de encontrar as respostas sobre o seu passado. Levando na mala a saudade do ontem, o jovem vaqueiro partiu sem saber do amanhã.
A estrada não seria fácil. Quanto mais longe ficava o seu Juazeiro, mais perto estaria da sua verdade. No bolso esquerdo, o endereço de poucas palavras. No mesmo lado do peito, o vazio. Trocava de pele como quem quisesse mudar de vida. O sopro quente do sol a pino já começava a enganar a sua mente. Entre as andanças, ficou face a face com um andarilho no sertão. Seria Jesus testando a sua fé? Dizem as línguas que o nazareno peregrina pelas estradas empoeiradas do Ceará em busca de um pedaço de pão. Ao adentrar a escuridão, viu seus próprios medos refletidos na figura do cramulhão. A imagem sem rosto que sempre teve do seu pai, a dor sem nome, o abandono. Vade retro, coisa ruim! Enfrentou os assombros, os monstros de que ouviu falar quando criança. Quase teve um passamento no coração! Nessa história mal contada, até a mula perdeu a cabeça. Ameaçou rezar, mas lembrou da descrença que lhe tomava. Naquela afobação, adormeceu, viu clarear o dia. Lembrou do tempo em que sonhava ver o mar, para saber se era mesmo verdade essa história de que a água era salgada. Naquele instante, tudo era miragem. Diacho, o sertão virou mar!
Entre paisagens e visagens, dias e noites, Samuel andou tanto que em algum momento desacreditou que um dia pudesse chegar. Olhou para os lados e avistou: Caridade. Talvez fosse exatamente o que ele precisava. Sua chegança gerou o maior zum-zum-zum, era uma ruma de gente amontoada nas janelas das casas. Eita, povo fuxiqueiro! Também se falava de um Santo Antônio sem cabeça, ou seria de uma cabeça sem santo? Muitas são as tentativas de explicar esse causo, mas a verdade é que talvez só Deus saiba o motivo de tamanha peleja. Histórias que só poderiam acontecer no Brasil. Esteve em frente à casa de sua avó, no velho endereço, mas viu a porta de seu reencontro com o passado se fechar. Já era noite, precisava descansar. Brilhos no céu estrelado anunciavam os festejos do padroeiro: treze dias de devoção para o famoso santo casamenteiro. Na igreja matriz, barraquinhas, ex-votos e anjinhos. O traje colorido das crianças se misturava às bandeirolas que caíam das estrelas. Era junho, mês em que a reza se fazia par da festa. O arraiá do povo! Como podia aquela gente acreditar tanto? O cansaço não lhe dava muito tempo para pensar. Ao avistar uma gruta silenciosa, deixou o corpo repousar. Mal sabia ele que era na cabeça do santo que o seu sono fazia morada.
Despertou de um sono profundo, entre choros, súplicas e lamentos. Um alvorecer de vozes. Em meio ao caos, um canto inebriante acordou os seus pensamentos. Seria ainda o delírio de um mar no sertão? Pois aquela voz soava como um canto de sereia, de alguém que já teria sentido um dia a brisa que vem das águas. Olhou à sua volta e não teve fé em tamanha ironia: o sujeito desacreditado morou por uma noite dentro dos pensamentos do santo. Que diacho aquelas vozes queriam falar? Se essa era mesmo a mente aperreada de Toinho, ele deveria estar de saco cheio. Também, quem mandou ser casamenteiro? Ora, devia ser um verdadeiro martírio a vida do santo naquele lugar. Coitado, não tinha nem descanso nem dignidade. Era submetido a diferentes castigos: escondido no congelador, deixado de cabeça para baixo dentro de um copo e, quando não atendia aos pedidos, arrancavam-lhe o menino Jesus dos braços como forma de punição. Era chantagem emocional em nível celestial.
Se a simpatia era porta aberta para todo tipo de gente, a cabeça virou um templo de confissões. De tanto acompanhar a novela das devotas apaixonadas e o penar de Madeinusa, a mais fervorosa das vozes, virou mensageiro do santo. Se conselho fosse bom, não se dava, se vendia. E foi exatamente o que ele fez. Uma fila de mulheres se aprumou em frente à cabeça oca para escutar o que ele tinha a dizer. Já era praticamente um confidente delas. Sabia, pela sinfonia das vozes, o nome de cada um dos pretendentes e, juntando a fome com a vontade de comer, organizou casamentos como quem orquestrava um milagre. O altar de Caridade se encheu de véus e buquês. Um grande matrimônio popular!
Samuel não lembrava nem de longe aquele forasteiro liso que chegou à cidade. A fama, a bufunfa e o prestígio chegaram sob o jugo de Santo Antônio, como graça torta, dessas que se recebe sem nunca entender o preço. Mas tinha um buraco por dentro que nem toda fortuna do mundo dava conta de tapar. Um vazio danado, desses teimosos, que não obedecia nem a milagre. O bafafá sobre o cabra milagreiro só crescia. Seria ele um enviado dos céus ou um malandro aproveitador? Que heresia falar pelo santo sem nem ter fé na sua existência! Ou algo dentro de si teria mudado? Numa tomada de consciência, sentiu-se um grande pecador. Naquele dia, não fez atendimentos na cabeça. Greve do santo! Estava decidido a deixar tudo para trás e voltar para o seu velho Juazeiro.
Subiu ao Serrote e estava ali de frente com a estátua descabeçada. Procurou Padim Ciço, o milagreiro, lembrou da infância em sua terra natal. Viu São Francisco, o beato pregador, e foi como se passasse de novo por Canindé. Sentiu a presença de Mariinha e uma paz foi se espalhando no peito, feito chuva boa caindo em tempos de seca. Ali, no silêncio da própria alma, entendeu que aquela velha dívida enfim estava prestes a ser paga. Quando enfim se ajoelhou aos pés de Toinho, acendeu a última vela e desabafou sobre as sombras do passado, até ser surpreendido por uma voz: “Perdão, meu filho!” Oxe, agora o santo queria falar? Esfregou os olhos, custou a crer e viu um senhor cabrunco sair de dentro do corpo. “Eu não queria ter te abandonado, Samuel”, continuou a falar. A besta-fera agora tinha rosto: Manoel, seu pai. “É tudo culpa minha!”, revelou que, muito tempo atrás, mandou construir a cabeça maior do que deveria. Foi quando o filho abandonado percebeu que aquele era, na verdade, um cabra escambichado, carregado de culpa, e foi como se enfim se libertasse das injúrias do passado. Jurou nunca mais voltar ali, era hora da partida.
Samuel tinha se desfeito de tudo que conquistou com a ajuda do santo. Estava livre para voltar para casa, sua terra. Os pés se viraram para a estrada, quando ele ouviu novamente aquele canto de sereia como onda. Voltou atrás e finalmente encontrou Rosário. Reconhecia aquelas palavras: “Despedida. Coração. Mar. Saudade.” Entendeu ali que nem toda saudade precisa ser triste. O coração livre das sombras o fez abrir os olhos para a fé e a crença no amor. Lembrou de cada pedido recheado de devoção, da fé esculpida pelas mãos dos artesãos. Preces de barro, peito de couro, sonho talhado em madeira. O que um dia foi maldição para a cidade se transformou num grande símbolo de devoção.
“Você é o meu milagre, Rosário.” O milagre mora nas escolhas miúdas e nas grandes travessias, no amor que a gente decide sustentar mesmo quando tudo é aperreio, no perdão que desata nó antigo e devolve a esperança. Mora nas tradições que mantêm um povo de pé, firme como o chão do sertão, reinventando suas existências onde parecia não haver mais nada. Mora nas histórias que seguem sendo contadas. Histórias de gente teimosa, de gente que luta, que cai e levanta, que acredita, apesar de tudo, em dias mais bonitos, mais justos, mais vivos. Samuel entendeu que também fazia parte disso. Que sua caminhada não era só dele, mas de muitos que vieram antes e de tantos outros que ainda viriam depois. E que os milagres, estes moram na nossa coragem. Coragem de fazer diferente, de desafiar o destino já escrito, de romper com o que aperta e não deixa avançar. Coragem de escutar o próprio coração, mesmo quando se duvida que ele ainda more no peito. Coragem de partir, de recomeçar e até mesmo de ficar. Um povo que acredita é livre pra sonhar, e o tempo de sonhar é em cima da terra.
AGRADECIMENTOS
À Socorro Acioli e à Companhia das Letras; à Simone Tavares, à Sibelle Tavares, ao Junior Tavares, à Amanda Lopes, ao Matheus Belo e ao Thyago Belo; ao Mestre Chico Belo e ao Instituto Chico Belo; à Mestra Benedita Gomes; à Mestra Aucélia; à Mestra Maria do Ceo; ao Mestre Francisco Lopes e à Fundação Cultural Francisco Lopes; à Jamylly Souza e ao Carimídia; à TV Canindé; ao Pedro Mores, à Mariana Barros, ao Ivan Cangaço, ao Gustavo Fernandes e ao Kassyo Mikaelson; ao Padre Felipe Calisto e à Paróquia Santo Antônio, em Caridade; e ao Padre Gleidson Freitas e à Paróquia Nossa Senhora das Dores, em Campos Belos, nosso mais profundo agradecimento pelo acolhimento, generosidade, apoio e confiança ao longo desta pesquisa. Cada encontro, gesto e contribuição ajudou a construir, fortalecer e manter viva a beleza desse percurso coletivo.
Viva Santo Antônio!
Enredo e Pesquisa: Lucas Milato, Leandro Thomaz e Thayssa Menezes








