Compositores: Me Leva, Thiago Meiners, Gabriel Coelho e Herval Neto, Bernardo Nobre e Guilherme Macedo
É BAQUE VIRADO DO CONGO, CORTEJO DE COROAÇÃO
ESSA LOA TRAZ MISTÉRIOS DE UMA HISTÓRIA FEITA À MÃO
DESDE O TEMPO QUE OURO É MARFIM
A NOBREZA NASCEU EM MIM
E DESFILA O SEU ESPLENDOR
LÁ NO RECIFE QUANDO A CORTE INVADE A RUA
ABRE CAMINHO PRA FALAR DE DONA JÚLIA
DONA SANTA SUBIU PRO ORUN, A CALUNGA INCORPOROU
TEM MISTÉRIO A MANDINGA QUE SEU FILHO ASSENTOU
Ô BABÁ… NA IMBUIA, O EGUN DA RAINHA
EPA BABÁ…. NA MADEIRA, O ORI DE OXALÁ
AO PARTIR SEU PAI DE SANTO FOI GUARDADA EM DESENCANTO
ONDE A VIDA VIRA CONTO, QUEM SUMIU, SE FEZ ACHAR
NAS TRADIÇÕES DO XAMBÁ, RETORNA SEU ILÊ
E O RITUAL VAI NOVAMENTE COMEÇAR
É GALINHA D´ANGOLA, FARINHA, É SANGUE NO COURO
SASSANHA PRA FOLHA DE BOLDO
COPO D´ÁGUA, FUMAÇA E ACAÇÁ
FORAM TRÊS DIAS DE RESGUARDO NO RONCÓ
FEITIÇO QUE CORTA NÓ PRA BONECA REENCANTAR
DAMA DO PAÇO LEVOU PRO BAQUE DAS ONDAS
PARTIU DO PINA UM CORTEJO A DESFILAR
E NUM SILÊNCIO QUE TUDO DIZIA
OS TAMBORES CANTARIAM POR QUEM FOI, MAS VAI VOLTAR
MEIA NOITE, MEIA NOITE… EU VI A TERRA TREMER
SENHORA DÁ PASSAGEM PRO POVO DO ORUN DESCER
(SENHORA DÁ PASSAGEM PRO POVO DESCER PRO AYÊ)
OYÁ OYÁ… Ê LARI Ô OYÁ BALÉ
OYÁ OYÁ… Ê LARI Ô OYÁ BALÉ
QUE MEU OGÃ EVOQUE UM PONTO DE MACUMBA
PRA GANHAR A RUA A IMPERATRIZ DO CANDOMBLÉ
Por Mariana Santos, Matheus Morais, Miguel Correia e Victor Busch
A União de Maricá definiu, na madrugada deste sábado, o samba-enredo que vai conduzir o primeiro desfile da escola no Grupo Especial. A obra assinada por Moacyr Luz, Rafael Gigante, Wanderley Monteiro, Babby do Cavaco, Vinicius Ferreira, Marcelinho Moreira, Jefferson Oliveira e Hélio Porto foi escolhida como vencedora da disputa e será o hino da agremiação no Carnaval 2027. O samba dará vida na Marquês de Sapucaí ao enredo “Utopia Brasil: Darcy Ribeiro”, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira. Primeira escola a desfilar no domingo de carnaval, em 7 de fevereiro, a União de Maricá levará para a Avenida a trajetória, o pensamento e os ideais de Darcy Ribeiro, antropólogo, educador e defensor dos povos originários. A proposta é apresentar a visão de Brasil sonhada por Darcy a partir de uma narrativa que dialogue com a realidade e os desejos do povo brasileiro. Para o presidente da União de Maricá, Matheus Santos, a escolha do samba representa uma etapa fundamental na preparação da escola para o novo desafio.
“O samba é primordial. O samba é a coisa mais importante depois da comunidade, antes da comunidade. Acho que o mais importante é isso: ter um ótimo samba para a gente poder brigar para permanecer no Grupo Especial e, quem sabe, voltar no Sábado das Campeãs”, afirmou o presidente Matheus Santos.
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Compositores celebram a vitória
Um dos autores do samba vencedor, Rafael Gigante destacou a ligação entre a obra, Darcy Ribeiro e a própria identidade de Maricá. O compositor, que chega à quarta vitória na União de Maricá, considera que o enredo tem uma relação direta com a cidade.
“A emoção é indescritível, porque quando a gente fala de Darcy, a gente fala um pouco da gente também. Fala um pouco do estilo de vida do maricaense, fala do espírito de luta, fala do espírito de coletividade do maricaense e do sonho que todo maricaense tem de almejar uma vida melhor”, afirmou.
Compositor Rafael Gigante. Foto: Matheus Morais/CARNAVALESCO
Rafael ressaltou ainda que a ideia de utopia apresentada no enredo encontra, na visão dele, um paralelo com a realidade vivida atualmente em Maricá.
“E que aqui na nossa cidade essa utopia já acontece, ela já é real, ela é possível. E aqui a gente pode sonhar e realizar. Então a gente falar de Darcy tem tudo a ver com a nossa cidade, tem tudo a ver com o nosso estilo de vida e com o que a gente pensa na vida”.
A conquista tem um significado especial para o compositor, que participou dos três sambas anteriores levados pela União de Maricá à Marquês de Sapucaí e agora estará novamente na Avenida, desta vez na estreia da escola no Grupo Especial.
“Essa é a minha quarta vitória aqui na União de Maricá. Eu tive a felicidade de compor os outros três sambas que a escola levou para a Marquês de Sapucaí. Tive na estreia, na Sapucaí, compondo os outros sambas do acesso e agora, graças a Deus, a oportunidade que a gente está estreando com a escola no Grupo Especial. Vamos em busca de um grande desfile, de um grande resultado para essa comunidade, que essa cidade merece”.
Entre os versos da obra, Rafael apontou um trecho que considera especialmente significativo. “‘Pra que todo favelado vá sonhar como Darcy’. Porque eu sou um favelado, eu sonhei, eu estou realizando meus sonhos. E Darcy inspira a gente a vencer, a educação, a sonhar e a realizar. ‘Pra que todo favelado vá sonhar como Darcy’. Vamos com tudo”.
Wanderley Monteiro destaca sintonia da parceria
Outro nome de peso da composição vencedora, Wanderley Monteiro também comemorou a conquista e ressaltou a relação construída pela parceria ao longo das disputas em Maricá.
“Cada vitória é uma experiência extraordinária. Vencer aqui em Maricá, onde temos composto sambas de excelente qualidade, é gratificante. A sintonia da nossa parceria tem sido precisa e faz com que o coração pulse cada vez mais forte. Já contabilizamos quatro vitórias nesta cidade, sendo esta a terceira que conquisto ao lado deste grupo”.
Compositor Wanderley Monteiro. Foto: Victor Busch/CARNAVALESCO
Para Wanderley, a força da obra está no conjunto da composição, construída especialmente para contar a trajetória de Darcy Ribeiro. “Sinceramente, a letra dedicada a Darcy Ribeiro é admirável do início ao fim; não há um trecho específico que eu destacaria, pois a obra é completa. Dedicamo-nos com muito afeto, buscando retratar com precisão a trajetória de Darcy. Por isso, aprecio cada verso e estou profundamente emocionado”.
Também integrante da parceria, Rafael Ferreira classificou a conquista como uma das mais importantes de sua trajetória. Morador de Maricá, o compositor destacou a relação afetiva com a escola e com o personagem que será levado para a Avenida.
Compositor Rafael Ferreira. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
“Emoção fora do normal. Primeira vez na minha vida que eu ganho quatro sambas, e em uma escola que é minha escola do coração. Também sou morador de Maricá, quarta vez, e nesse ano com Darcy Ribeiro. Um homem tão importante, um cara que me inspira, inspira a minha educação com meus filhos, inspira em muita coisa”.
Rafael também destacou a amizade construída entre os integrantes da parceria e demonstrou confiança no desempenho da obra na Sapucaí.
“Estou muito feliz pela parceria que a gente tem, a amizade que a gente construiu e, sobretudo, por esse samba que eu tenho certeza que vai dar certo na Sapucaí”.
Questionado sobre o trecho preferido, citou: “‘Tantas peles eu vesti, pra que todo favelado vá sonhar como Darcy’”.
Espetáculo na final
Fotos: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Através de um drone pairando no céu maricaense, o pavilhão da União de Maricá foi atraído pelas mãos da baiana da premiada comissão de frente de 2026 e entregue ao ‘Darcy Ribeiro’ da escola, encerrando oficialmente o ciclo campeão. Agora, a estreia no Grupo Especial se inicia oficialmente, de maneira simbólica. O ato selou o show de excelência artística de uma escola jovem, porém que denota que se conhece muito bem; pisa no chão ‘devagarinho’, mas com força. * LEIA AQUI O TEXTO COMPLETO DO SHOW DA ESCOLA
Como foram as apresentações na final
Parceria Moacyr Luz: Animada pela torcida e com refrão empolgante, a parceria de Moacyr Luz passou muito bem pela quadra de Maricá nesta final. Charles Silva e Matheus Gaúcho conduziram o samba com maestria, com grande resposta do povo também. Ao longo da apresentação, a obra demonstrou constância, se mantendo em alta e bem impactante, especialmente na segunda parte, onde, junto com os refrões, demonstrou a força da obra que chegou à final, com destaque para versos como “Vida, universidade, pra afastar toda / Maldade de moer gente de bem!”.
Parceria de Sandra Sá: A parceria fez uma apresentação tranquila, tendo Emerson Dias à frente do microfone, passando com menos empolgação. A condução de Emerson foi bem segura, porém a obra não cresceu ao longo do momento no palco, ainda que tivesse pontos positivos na segunda parte do samba, com alguns versos e uma melodia interessante em muitos momentos da obra. O refrão principal, apesar de bem animado, ficou bem repetitivo ao longo do tempo.
Parceria Jô Borges: Um samba muito poético, defendido por Wandinho Pires, teve uma apresentação muito correta e empolgante na final, mesmo com uma torcida não tão grande, mostrando a melodia e o eu lírico da obra como pontos de destaque, enquanto o refrão do meio foi um ponto mais negativo, não empolgando muito e ficando um pouco maçante após algumas passadas, mas que não tirou as boas partes do conjunto da obra.
Compositores: Moacyr Luz, Rafael Gigante, Wanderley Monteiro, Babby do Cavaco, Vinicius Ferreira, Marcelinho Moreira, Jefferson Oliveira e Hélio Porto
Desperta pra sonhar, menino
Na janela do Divino já raiou sua missão
Quando o Império é desatino
Utopia no destino cai na indignação
Do sacrário verde, fez morada sob o céu
Um quase originário, Kaapor e Kadiwéu
Atrevido pensamento
Contra o aprisionamento
No exílio opressor
Sua arma foi o livro
Permanece ainda vivo
Livre em cada educador
Ergue a Zambi um monumento
Nessa praça um fazimento
Coroando Rei Zumbi (Rei Zumbi)
Ao cortejo quilombola
Onde o samba faz escola
Avenida de Darcy
Boêmio, sedutor, é luz na cegueira
Um brinde aos amigos de luta e trincheira
Se é perfeita a forma mais concreta
Integral, nada discreta, a esperança nos mantém
Vida, universidade, pra afastar toda
Maldade de moer gente de bem!
Pra gente ser feliz, reforma o tal
Progresso
Fracasso é um sucesso quando fala o
Coração
Tantas peles eu vesti…
Pra que todo favelado vá sonhar como
Darcy
Meu país é Maricá, utopia mãe gentil
Nunca pare de lutar pra mudar esse Brasil
A vitória popular nessa pátria tão hostil
É educar um filho da mãe solo que pariu!
O show que fechou a apresentação da Imperatriz na quadra abriu no ritmo certo: a bateria “Swing da Leopoldina”, sob o comando de mestre Lolo, entrou com suas já conhecidas paradinhas e reservou um momento especial para uma paradinha de baque dedicada ao maracatu de baque virado, com direito a passistas em cena. Um início que já anunciava o tom de diálogo entre tradições que marcaria toda a apresentação.
Na sequência, o casal de mestre-sala e porta-bandeira Bruna Santos e Matheus Miranda esbanjou uma dança vigorosa. Bruna, em especial, confirmou por que sua chegada é considerada uma das grandes contratações da Imperatriz para este ciclo: a porta-bandeira dançou com uma presença que já parece pertencer à história recente da escola.
O bloco seguinte resgatou a Velha Guarda com “Liberdade, Liberdade”, um dos grandes clássicos da discografia leopoldinense, seguido pelos sambas “Brasil de Todos os Deuses” e “Só Dá Lalá”. A quadra respondeu com o fervor de quem canta de cor.
Outro momento aclamado foi a entrada da musa Carmen Mondengo, muito ovacionada, que sinalizou a virada do show. Ao som do samba de 2022, último desfile de Rosa Magalhães como carnavalesca da Imperatriz, antes do retorno de Leandro Vieira em 2023, Mondengo mostrou domínio total do samba no pé, encerrando simbolicamente uma era. A das sagas rocambolescas de Rosa.
Foto: Nelson Malfacini/Divulgação Imperatriz
A partir dali, o show passou a percorrer a trajetória das sagas contadas por Leandro Vieira à frente da escola: Lampião (2023), Cigana (2024), Oxalá (2025). Uma forma, segundo o próprio carnavalesco já afirmou em coletiva, de reconectar a Imperatriz às narrativas rocambolescas que caracterizaram a era Rosa, só que à sua maneira. O efeito é o de um show que se amarra internamente, costurando fases distintas da escola num mesmo fio narrativo.
Segundo o diretor artístico Felipe Nascimento, a construção do espetáculo parte justamente dessa narrativa pensada por Leandro Vieira. “O show sempre é montado com uma história que o Leandro sempre conta e pede pra fazer. Então a história que a gente veio trazendo foi a antiga Imperatriz, a nova Imperatriz, o macumbão e todo o ritual com o maracatu. Enfim, a passagem da bandeira pra Dona Júlia, e vamos começar o novo carnaval de 2027”, explicou.
De Oxalá, a apresentação seguiu para uma sequência de samba de roda com saudação a Zé Pilintra, reforçando a trajetória do malandro que migra de Alagoas para o Rio de Janeiro e se torna uma das figuras mais populares da cidade.
Diretor artístico Felipe Nascimento. Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO
O momento-chave do show, porém, veio em seguida: a retomada dos elementos apresentados na noite dos enredos, com a caixa escrita “frágil” e a boneca em seu interior. Ao som das cantigas de Exu, Xangô, Iansã e Nanã, os orixás dançaram em torno da boneca, promovendo seu reencantamento. Reencantada, ela seguiu em cortejo com a nação Leopoldinense.
Felipe Nascimento explicou que parte dos artistas que participaram desse momento foi contratada especialmente para o espetáculo, enquanto outros integrantes vieram diretamente da comunidade e do elenco da escola. “O pessoal dos orixás, que fizeram a noite do enredo e fizeram essa final, são bailarinos contratados. Mas o pessoal que fez o maracatu, toda a corte, todo mundo é da escola. O show que veio antes, são todos da escola”, afirmou.
Para o diretor artístico, a participação dos integrantes da própria Imperatriz também reforça a força artística existente na comunidade. “Como eu costumo dizer, desde quando eu cheguei aqui, o chão de Ramos é rico de talento. Tem muito talento, e eu só extraí, eu só moldei ali pra gente fazer esse grande show”, destacou.
O fechamento trouxe a imagem mais forte da noite: a entrega do pavilhão de 2027 de Ney Matogrosso, enredo de 2026, para a boneca Dona Júlia, num rito de passagem simbólico entre o carnaval de 2026 e o de 2027. O samba de Ney, muito celebrado pela quadra, encerrou a apresentação em clima de expectativa.
A construção do espetáculo também evidencia a importância das finais de samba como espaço de apresentação dos talentos da própria escola. Para Felipe, esses momentos permitem que profissionais e integrantes da comunidade tenham visibilidade antes mesmo da chegada do desfile.
“Essas finais dão oportunidade pras pessoas que são do chão da escola aparecerem, terem visibilidade. Ela dá oportunidade pra nós que estamos chegando agora mostrarmos nosso trabalho. E é cansativo demais pra gente, mas é prazeroso, é gostoso — porque depois é uma correria”, contou.
O diretor artístico ressalta ainda que a rotina das finais permite uma experiência que o próprio desfile, pela velocidade e pela dimensão da apresentação, nem sempre proporciona. “O carnaval, no desfile, passa em uma hora, uma hora e dez, e a gente não consegue curtir tanto quanto curtiu esses momentos. As finais são muito importantes pra mostrar os talentos, pra mostrar as pessoas que não têm visibilidade”, afirmou.
Felipe encerrou destacando o papel desse processo na revelação de novos talentos dentro da escola. “Eu costumo dizer que ela puxa muito antes, a gente começa muito cedo, mas é uma coisa que tá sendo primordial pra mostrar talentos”, concluiu.
O show da Imperatriz parece encenar a própria lógica de continuidade da escola: a construção de uma saga a partir de suas próprias sagas, a era Rosa dialogando com a era Leandro Vieira, o velho enredo entregando o pavilhão ao novo, a boneca que se reencanta como síntese de um processo que a escola vive, literalmente, em cena.
Através de um drone pairando no céu maricaense, o pavilhão da União de Maricá foi atraído pelas mãos da baiana da premiada comissão de frente de 2026 e entregue ao ‘Darcy Ribeiro’ da escola, encerrando oficialmente o ciclo campeão. Agora, a estreia no Grupo Especial se inicia oficialmente, de maneira simbólica. O ato selou o show de excelência artística de uma escola jovem, porém que denota que se conhece muito bem; pisa no chão ‘devagarinho’, mas com força.
A começar pelo repertório, que, em seus 12 anos, ressalta os campeões “100Sacional! Um Maxixetico e Rebolativo Baile”, de 2018; “Eu Sigo Nordestino”, que os levou ao Grupo Ouro em 2023; e marcas de sua trajetória no grupo de acesso: “O Esperançar do Poeta”, de sua estreia, em 2024; “O Cavalo de Santíssimo e a Coroa do Seu 7”, de 2025; e o campeão de 2026, “Berenguendéns, Balangandãs”. Os sucessos receberam transições ou reproduções completas de covers das canções “Eu Sou da Lira, Não Posso Negar”, “Baianá”, dos Barbatuques, e outras. O trabalho musical fortalece e enriquece a coletânea enxuta apresentada.
A ideia de transformar a trajetória da escola em um espetáculo começou a ser construída cerca de três meses antes da apresentação. Diretora artística da União de Maricá, Kellyn Rosa explicou que o trabalho foi sendo lapidado até chegar ao formato apresentado na final. “O show foi idealizado há uns três meses e hoje a gente conseguiu realizar ele, lapidar de uma forma muito maravilhosa e especial. Eu acho que o ápice do show foi a ‘passagem’ do enredo”, afirmou.
Diretora artística da União de Maricá, Kellyn Rosa
A ‘passagem’ citada por Kellyn ganha força justamente no momento em que o pavilhão da escola é conduzido pelo alto e entregue ao personagem que representa Darcy Ribeiro, simbolizando o encerramento de um ciclo e a entrada da União de Maricá em uma nova etapa de sua história.
Segundo a diretora artística, a concepção do espetáculo nasceu a partir de uma ideia apresentada pelo presidente Matheus Santos. “Nosso presidente Matheus Santos, com essa cabeça dele maravilhosa, com ideias maravilhosas, passou o que ele sentia no coração e a gente concretizou hoje. Acho que foi uma noite muito especial. A ideia é fazer o enredo, ele está em casa, é o que eu quero. Exatamente. Ele falou, bateu o pé: ‘Eu quero’. Vamos pensar de uma forma que fique bonito, emocionante, como tudo que a Maricá faz”, explicou.
Por outro lado, o time artístico deu tom de espetáculo à performance da final. Coreografias elaboradas e executadas com limpeza, forte presença e entrega de todos os componentes, reforçadas pela caracterização primorosa, como se fosse um pedaço de um desfile oficial, diretamente da Sapucaí para a quadra.
A construção desse elenco, porém, começou antes da montagem definitiva do espetáculo. O grupo passou por um processo de seleção e preparação que se estendeu por meses, reunindo os artistas que participaram da apresentação. “Estamos há quatro meses fazendo audições, chamando a galera para participar, tanto na Noite dos Enredos também. Essa mesma galera que está com a gente há quatro meses, ensaiando e elaborando para que hoje aconteça dessa forma linda e mágica”, destacou Kellyn.
O resultado desse trabalho aparece em diferentes momentos da apresentação. A Ialorixá, apresentada na abertura do show ao invocar Ogum, surge com figurino volumoso e elaborado, complementado por lentes brancas nos olhos, dando um ar transcendental à cena.
Também as representações de ‘Pombagiras’, que performam durante o samba de 2025, preenchem a cena e entregam rosas aos componentes. São elementos que reforçam a preocupação da direção artística em transformar cada passagem do repertório em uma cena própria, sem perder a conexão com a história da escola.
Outro forte momento é a “ópera dos malandros”, em que os passistas masculinos riscam o chão, sobem em mesas cênicas e terminam com o intérprete Zé Paulo Sierra protagonizando o momento, saudando a malandragem.
Vale destacar que a rica comissão de frente de 2026 não é deixada de lado e é valorizada à altura de sua qualidade. O grupo performou na apresentação do samba e marcou a passagem do ano de 2026 para 2027 de forma merecida, estabelecendo uma ponte entre o ciclo que se encerra e a nova fase que começa para a União de Maricá no Grupo Especial.
A Unidos do Viradouro realiza neste sábado, 19 de setembro, a partir das 21h, a grande final da disputa de samba-enredo para o Carnaval 2027. Três parcerias chegam à decisão, que acontece na quadra da escola, no Barreto, em Niterói. A noite contará ainda com apresentações do Samba de Caboclo e do elenco-show da agremiação.
Estão na final os sambas de Mocotó e cia. (Samba 01), Cláudio Mattos e cia. (Samba 13) e Lucas Macedo e cia. (Samba 15). A ordem de apresentação será definida por sorteio às 23h, no próprio dia da decisão. A numeração das obras não representa a sequência em que serão apresentadas.
A disputa definirá o samba-enredo que será levado pela Viradouro para a Marquês de Sapucaí em 2027, como trilha do enredo ‘Griô’, desenvolvido pelo carnavalesco Tarcísio Zanon.
O enredo aborda a tradição dos contadores de histórias de populações da África Ocidental e a importância da oralidade na transmissão de memórias e saberes entre gerações. A proposta também estabelece conexões entre essa tradição, manifestações culturais e a formação das escolas de samba no Brasil.
Três parcerias na decisão
Mocotó chega à terceira final consecutiva na Viradouro e destaca a trajetória vitoriosa que construiu na escola. O compositor esteve em sete finais consecutivas e venceu todas, com sambas que marcaram a história da agremiação, entre eles ‘Luz! Trevas! A explosão do Universo’, de 1997, ‘Orfeu’, de 1998, ‘Anita’, de 1999, e ‘Sete Pecados’, de 2001.
Foto: Vinícius Ximenes/Divulgação Viradouro
“Eu curti grandes momentos na Viradouro. Estive em sete finais consecutivas e venci todas, com sambas que explodem na quadra até hoje, como ‘Luz! Trevas! A explosão do Universo’ (1997), ‘Orfeu’ (1998), ‘Anita’ (1999) e ‘Sete Pecados’ (2001). Mas hoje, pela terceira vez seguida participando de uma final, sendo a segunda disputando com os mesmos compositores, não existem palavras para descrever. É uma felicidade muito grande!”, afirmou.
Cláudio Mattos também chega à sua 12ª final na Viradouro, desde 2012. Cria da escola desde os tempos da categoria Mirim, o compositor ressaltou a exigência do processo de escolha.
“Chegar de novo a uma final da Viradouro é uma emoção que não dá para se acostumar. Essa é a minha 12ª, desde 2012, e o sentimento é o mesmo da primeira vez. Sou cria dessa escola desde os tempos da Mirim, aprendi tudo lá dentro. O compositor que chega até o fim de uma disputa sabe que passou por um filtro duríssimo, porque a Viradouro tem um nível de exigência superalto, que cobra samba bem feito, respeito ao enredo e ao público. É uma honra estar mais uma vez disputando essa final, tendo amigos em todas as parcerias e confiando demais no processo de escolha da escola”.
Lucas Macedo, por sua vez, disputa sua sétima final na escola e destaca a relação construída com a Viradouro e o fato de as três parcerias serem formadas por compositores ligados à agremiação.
“É uma honra estar na minha 7ª final na escola do meu coração. Tudo é muito diferente. Acho que a Viradouro é, literalmente, uma escola de samba que olha, forma e faz pelos seus. Essa coincidência de ser a mesma final do Carnaval 2026 é o reflexo da valorização e do acolhimento. Isso é importante e nos motiva a entregar sempre o melhor. Vai ser uma noite linda, memorável e histórica, com três parcerias de viradourenses apaixonados”.
Serviço
Grande Final de Samba-Enredo da Unidos do Viradouro
Data: 19 de setembro de 2026
Horário: a partir das 21h
Local: Quadra da Unidos do Viradouro
Endereço: Avenida do Contorno, 16 — Barreto, Niterói
Entrada: R$ 50
Vendas: na quadra
Informações e camarotes: (21) 2828-0658
A Unidos de Santa Bárbara promoveu no último sábado uma noite cheia de novidades para sua comunidade. A festa de reinauguração da quadra, que passou por uma reforma, teve a participação da Dragões da Real, e foi o momento perfeito para a escola da Zona Leste colocar em sintonia com sua gente, os ineditismos do Carnaval 2027. O enredo e o samba já eram de conhecimento público há pelo menos três meses. “Laroyê Pombogira. Salve a Força da Mulher!” virou samba-enredo nas mãos dos compositores Jorginho Soares, Edivaldo Gonçalves e André Ricardo; e embora o samba já existisse, apenas neste dia ele ganhou vida, ao ser apresentado pelo primeira vez diante da comunidade.
Presentes na festa, Jorginho Soares e Edivaldo Gonçalves contaram ao CARNAVALESCO sobre a construção e a responsabilidade de escreverem um samba impactante, religioso, feminino, atual e poderoso, ou melhor, poderosa como ‘a força da mulher’. Sobre a importância da centralidade feminina na escola e na escolha do enredo para 2027, Edivaldo Gonçalves comentou o sentido político da obra, que a partir da Pombogira, abrange a defesa de todas as mulheres.
“Nós vivemos um tempo obscuro. As mulheres sofrendo com uma onda de feminicídios, e vários outros preconceitos. Isso não é de hoje. Isso já acontece há muitos anos. E a importância de escrever isso, como homens, é abraçar essa causa, e fazer parte dessa união com as mulheres, porque o que está acontecendo não pode continuar”, posicionou.
Compositores Jorginho Soares e Edivaldo Gonçalves
Para Jorginho Soares, a ligação feminina que envolve a escola da Zona Leste paulistana é umbilical, transcendental, política e histórica: “A origem de Santa Bárbara, que foi fundada no terreiro de candomblé de mãe Helena; Mãe Helena foi fundadora da escola. Ou seja, a escola foi fundada por uma mulher, a escola leva o nome de uma mulher; de uma santa. E a entidade que rege a escola também é mulher. Olha a força da mulher enraizada. A gente fala que ‘nem mesmo o fogo da Inquisição queimou o encanto e a feitiçaria’. Eles tentaram, mas não conseguiram. Falamos do seu ‘Tranca’, que é o guardião de todas elas, sem citar o nome dele. A gente fala do ventre sagrado, portal sagrado, o ventre da vida, a luz da jornada. E na segunda do samba, falamos de Margarida, ‘O sangue na terra brotou Margarida’, uma mulher chamada Margarida que morreu lutando pela causa. Maria da Penha cuidou da ferida. Quando falamos ‘Não é não. Vê se aprende a me respeitar. Quem manda em mim sou eu’, é uma defesa das mulheres que lutam. Um bloco de mulheres que lutam contra tudo isso que está acontecendo. E temos uma ala que também luta contra o feminicídio, chamada ‘Laço Branco’. O enredo é todo bem amarrado”, explicou.
O que se viu na quadra da agremiação, quando o samba foi entoado, mostrou uma assertividade incrível por parte dos compositores, porque o samba foi de fato, muito bem recebido pelo povo do Itaim Paulista. Jorginho Soares revelou uma confidência do dia em que samba foi criado: “Foi tudo aqui antes da reforma da quadra. E um ritual que deu certo o ano passado no samba do seu Zé. Na hora que o presidente perguntou se estávamos prestes a começar a escrever o samba, ele acendeu uma vela, colocou uma cachacinha, nós fizemos o samba no tempo de uma vela pequena. Fizemos no tempo de uma vela no pé da entidade, que é a dama da noite; quem rege a escola. Colocaram um champanhe para ela e acendemos uma vela um pouquinho maior. E no tempo da vela, nós fizemos o samba juntamente com o André Ricardo. Depois, alteramos uma única palavra”, revelou.
Quadra reformada e tradição mantida: liderança feminina
A presidente da escola, Cássia Lima, esteve presente para reinaugurar a quadra. Com vitalidade, energia e acolhimento ímpares, ela mapeou a luta que levou a concretização, literalmente, da reforma do espaço. Além disso, a ‘Tia Cássia’, como é chamada pelos componentes, fez questão de afirmar a simbiose do Carnaval 2027, com a tradição feminina e ancestral que a Unidos de Santa Bárbara sustenta.
Presidente da escola, Cássia Lima
“Foi um processo que começou em 2007, quando queríamos muito esse espaço. Em 2018, nós fomos agraciados pela lei. Agora, em 2026, conseguimos a reforma com o apoio de muitas pessoas; é o sonho da casa própria. Estamos desde novembro do ano passado nessa luta. A gente é de um terreiro. Nós, gestores de agremiações e gestores culturais, temos a obrigação de fomentar o empoderamento feminino. Não apenas na questão da oratória, mas na questão de realmente fazer isso acontecer. Nós estamos com um enredo que fala das nossas ancestrais, das Pombogiras, e dos direitos de as mulheres decidirem o que querem. Todos nós temos essa essência feminina de trabalhar e batalhar. Esse enredo é focado nisso. Você falar da sua ancestralidade e do seu DNA, é uma responsabilidade muito grande. A Santa Bárbara sempre foi uma escola na qual a mulher é muito protagonista. Aqui no fundão da zona leste, o último bairro e uma escola periférica. Com todas as diferenças sociais, culturais e econômicas que a gente tem aqui, a escola vira um gueto e um quilombo dessas mulheres. Através da escola, elas têm voz”, reforçou.
Agora é no Anhembi!
Após o vice-campeonato em 2026 no Grupo Especial de Bairros da UESP, a Unidos de Santa Bárbara garantiu seu retorno ao Grupo de Acesso 2 para o Carnaval 2027, o que significa retornar ao Sambódromo do Anhembi. O desafio e o sarrafo aumentam, inclusive, porque a responsabilidade regulamentar do Grupo de Acesso 2 é da LIGA-SP. Assim sendo, as balizas para a escola do extremo leste paulistano serão outras. Responsável direto por um dos quesitos de avaliação, o diretor de harmonia, Ronnie Ribeiro, fez sua projeção sobre o que muda com a novidade Anhembi a vista.
Diretor de harmonia, Ronnie Ribeiro
“Um desafio grande. Mas graças a Deus, temos uma equipe que vem trabalhando bastante. Desde o resultado, a gente já vem estudando o regulamento, porque mesmo ele sendo renovado todo ano, já estamos estudando o do ano passado como base, e assistindo os desfiles do Acesso 2. Estivemos lá no Anhembi para fazer esse laboratório. É um trabalho diferente. O Anhembi é um pouco mais aberto, e o público fica um pouco mais distante. Assim, a escola vai trabalhar bastante o canto porque será um desafio enorme; tanto na questão Evolução, como Harmonia. Nossa equipe vem se renovando, uma galera jovem chegando, e estudando bastante para colocar esse carnaval na pista”, projetou.
Para Marcos Paulo, integrante da direção de carnaval, a iluminação do Sambódromo do Anhembi eleva a exigência aos detalhes, acabamentos e coreografias, porque tudo está na luz e na lupa: “Tínhamos uma pequena experiência de Anhembi. Descemos (para o Grupo Especial de Bairros) alguns anos atrás e tivemos muita dificuldade para nos adaptarmos a rua. É um Carnaval totalmente diferente. No Anhembi é muito lindo e maravilhoso. Como lá há muita claridade e visibilidade, o trabalho de corpo é muito grande. Estamos pegando pesado em canto, desenvoltura, ensaios específicos de alguns setores. Graças a Deus estamos com alas já fechadas, onde fazemos alguns ensaios por semana para poder fazer o geral no sábado. Sábado é nosso show; para todo mundo chegar lá e brilhar. É pegar no canto até o fim. Essa é a nossa estratégia”, elaborou.
Marcos Paulo, integrante da direção de carnaval,
Do enredo para o samba
A festa de reinauguração da quadra invadiu a madrugada. Discreto e atento, o carnavalesco responsável pelo Carnaval 2027, Jair Souza, dividiu em detalhes sua visão artística, e sobretudo cultural, para arquitetar o enredo. Segundo ele, trazer a religiosidade afro-centrada nas pautas sociais femininas era indissociável.
Jair Souza, carnavalesco
“O enredo surgiu com uma vontade que eu tinha de falar e homenagear a mulher, mas de uma forma diferente. Eu li um livro que falava de damas, e eu queria fazer algo assim. Com a ligação espiritual que a escola tem com Exu, Pombogiras e Orixás, e por ser uma escola que nasceu dentro de um terreiro de Candomblé, e cultuar sua ancestralidade até hoje, nós resolvemos homenagear a mulher de uma forma em que, a Pombogira traz a sua força, seus conselhos e sua sabedoria para uma melhor vivência no mundo. Esse é o texto do enredo. Além disso, dentro do enredo do Zé Pilintra, quando a escola foi vice-campeã, e subiu para o grupo de acesso; dentro desse enredo, o guia espiritual da escola falou que tinham mais dois; para eu me inspirar nesse que eu fiz do Zé Pilintra, e fazer o da mulher. Dali, eu consegui absorver a informação sobre o que a escola precisava para o próximo desfile. Seguindo o conselho espiritual da entidade que conduz a escola, e seguindo uma vontade que eu já tinha, a presidenta já queria abordar essa resistência feminina. São muitos casos de feminicídio; muita notícia negativa, aqui e no mundo, de violência praticada contra as mulheres. Nós resolvemos fazer um enredo em que a mulher grita ‘Quem manda em mim sou eu’. Um enredo em que a mulher grita querer socorro, mas ela também grita que é poderosa e conquistadora. Um enredo que vai homenagear o ventre feminino, as profissões e as orixás femininas. A partir do momento que uma escola aqui já cultua a sua ancestralidade com Pombogiras e Exus, fica mais forte, fica mais bonito, mais fácil e mais gostoso de desenvolver. E falar ‘Não é não’ é mais do que necessário. A escola vai procurar trazer essa energia forte da mulher em forma de poesia, e homenageá-la da forma que ela merece”, elucidou.
Sobre correlacionar o samba-enredo com a estrutura técnica do desfile, Jair disse que o trabalho dos compositores foi exemplar, e que os ajustes que o samba provoca no desfile estão dentro da normalidade: “Sempre tem uma adaptação; uma ala que estava ‘aqui’, mudou para ‘ali’, ou uma adaptação de um casal que era ‘isso’, virou ‘aquilo’. Toda escola passa por isso e pela adaptação da sinopse junto ao samba. Tudo para que seja melhor compreendido na avenida”, amenizou.
Na Unidos de Santa Bárbara, é mestra!
O empoderamento feminino mencionado pela presidente ‘Tia Cássia’, é uma realidade no Itaim Paulista. O coração da escola, a “Ritmo Tempestade” é comandada por uma mulher, a mestra Bia. O preparo da batucada para 2027 está a todo vapor, e a Mestra comentou o que têm planejado.
Mestra Bia
“A bateria do Santa Bárbara vai levar a 155 BPM (batidas por minuto). Estamos trabalhando nas bossas em cima do enredo, que pede bastante macumba. Mas infelizmente, a gente não tem atabaque, e improvisaremos com nossa bateria. Vamos deixar a bateria um pouco mais grave e vamos jogar os repiques para fazerem o balanço. As caixas também terão suas frases. A expectativa está bem legal. A bateria já está ensaiada. Quero trabalhar em cima do regulamento, sem ultrapassar para não perder lá na frente. Eu quero ser bem centrada e trabalhar com o que a gente tem. E vai dar certo”, garantiu.
A respeito da importância do samba-enredo, e da legitimidade que a escola lhe concede, a mestra também avaliou os dilemas de desigualdade de gênero na função, o machismo, e a simbologia que seu trabalho representa: “É difícil o pessoal aceitar. Mas só a gente, com a nossa garra, independência, a gente vai e corre atrás. É isso que eu faço aqui na bateria de Santa Bárbara. E aqui, graças a Deus, eu consigo impor o respeito e consigo trazer o pessoal para o meu lado. Graças a Deus, todo mundo me respeita. É óbvio que no começo foi muito, muito difícil; mas hoje em dia, é tranquilo, ainda tem um outro que não aceita, mas aí não tem o que ele fazer”, estabeleceu.
As mulheres vão soltar a voz!
A recepção da escola com o samba-enredo foi bastante calorosa. Além do enredo em sintonia com a proposta cultural, os intérpretes Jorginho Soares e Elci Souza trazem uma energia muito genuína a escola; um sentimento de verdade. Após a festa, a intérprete Elci Souza, dona de um grave potente, disse o quanto cantar esse samba significa para ela: “Isso mexe bastante comigo, porque eu sou da religião desde os meus 7 anos de idade. Cantar minhas referências, o que eu acredito e a energia. O samba é um chão de terreiro. Não tem como a gente não fazer essa homenagem maravilhosa”, destacou.
Intérpretes Jorginho Soares e Elci Souza
De volta como intérprete ao berço que conhece desde 2007, Jorginho Soares, fez questão de enaltecer o olhar, o protagonismo e o talento de Elci Souza. O cantor e compositor fez uma análise técnica sobre o encaixe do canto, timbre e características das vozes, e garantiu que o Carnaval 2027 da Unidos de Santa Bárbara será das mulheres: “A gente fez um estudo antes. Só que a Elci, ela é contralto, e já canta um pouco mais grave. Eu, por ter um timbre numa extensão de tenor, canto um pouco mais agudo. O tom tem uma notinha ou outra que fica um pouquinho mais espetada para mim, como tem uma notinha ou outra que para ela vai ficar mais grave, mas nada que a gente não alcança. E esse ano, principalmente por conta do enredo, nossa ideia é trazer uma ala com mais mulheres. A minha intenção era ter uma ala inteira de mulheres, mas como nosso presidente, e até por toda a questão espiritual, disse que eu precisava estar, aí talvez a gente traga um homem ou no máximo dois, mas a maioria será feminina. Até esse tom, que é um pouquinho mais agudo, também vai fortalecer para elas”, defendeu.
Mestre-Sala também é novo!
Samba-enredo novo, uma Liga nova, local de desfile novo, pavilhão novo e quadra reformada. O que mais faltava? Um dos momentos mais marcantes da noite foi a revelação do novo mestre-sala da agremiação, Hugo Oliveira, que comporá o primeiro casal ao lado de Walesca Alves. Segundo Hugo, os trabalhos inciados recentemente entre eles, nasceram com uma boa sintonia: “a gente iniciou os trabalhos agora e criamos um bom envolvimento, e criando bastante expectativa. A dança casou bastante entre eu e a Walesca”, afirmou.
Hugo Oliveira e Walesca Alves
Em um enredo tão fundamental para aquilo que a escola foi, é e defende, a porta-bandeira falou sobre a preparação da coreografia na escola e sua visão sobre essa ‘macumba feminina’ que a Santa Bárbara propõe: “A gente tem uma preparadora, a Dani. Ela está trabalhando comigo já tem um tempinho. Estamos trabalhando desde maio. Como a gente teve a troca de mestre-sala, e o Hugo chegou agora, estamos organizando a coreografia, mas é ela quem está montando a maioria da coreografia desse enredo sobre a Pombogira. É um enredo para fortalecer e empoderar as mulheres”, concluiu.
A comemoração dos 53 anos da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP) reuniu sambistas e representantes do carnaval de São Paulo em uma celebração marcada pela história e pela valorização das agremiações que fazem parte da trajetória da entidade. Diversas personalidades estiveram presentes, entre representantes de segmentos das escolas de samba, integrantes de ligas de outras praças de desfiles, autoridades e representantes do poder público, ex-presidentes da entidade e profissionais da imprensa. Realizado no bairro da Mooca, o evento de gala contou com diversas atrações voltadas ao samba. A celebração reforçou o crescimento da entidade nos últimos anos, assim como o aumento de sua visibilidade. Os desfiles promovidos pela UESP já são uma realidade em termos de grandeza e, agora, a “mãe” de todas as escolas de São Paulo vem conquistando o devido reconhecimento. O CARNAVALESCO conversou com o presidente Nenê Teixeira, que falou sobre diferentes questões relacionadas à entidade.
Para Nenê, completar 53 anos é motivo de muito orgulho e merecia uma grande celebração. “É bacana ver tantos sambistas reunidos em um único local para comemorar os 53 anos da UESP. São 53 anos de história, de muitas conquistas e honrarias. Precisávamos fazer uma festa à altura dessa trajetória”, afirmou.
Todas as escolas que nascem, obrigatoriamente, passam pela UESP, disputando as divisões de bairros. A entidade é responsável por formar essas agremiações e colocá-las no mundo, e o presidente comparou essa relação ao papel de uma família na formação de seus filhos. “Somos o berço. E, com o berço, temos um carinho muito grande. É como o sentimento de um pai que cria o filho para o mundo. A gente oferece educação, carinho e estrutura para, depois, permitir que ele siga sua própria vida. Esse é o sentimento que temos em relação às escolas que passam pela UESP”, explicou.
Maior espetáculo de bairro
Nenê enalteceu a característica dos desfiles promovidos pela UESP. Diferentemente das grandes estruturas de Sambódromo presentes em diversas capitais, a entidade desenvolveu, há muito tempo, um modelo de carnaval realizado nos bairros. “Nós fazemos diferente: montamos um Sambódromo no bairro. Por isso, dizemos que o nosso desfile de escolas de samba e blocos carnavalescos, com concurso, é o maior desfile de bairros do mundo”, destacou.
Parceria com o poder público
O presidente também falou sobre a importância da relação entre o carnaval e o poder público. Para ele, a aproximação é fundamental para fortalecer as manifestações culturais e ampliar o trabalho desenvolvido por todos que fazem carnaval. “Não tem como desvincular a política do samba, do carnaval e dos desfiles de escolas de samba e blocos carnavalescos. Nós fazemos um trabalho em prol da sociedade, assim como os políticos também trabalham em benefício da sociedade. Por isso, precisamos caminhar alinhados. São pessoas fundamentais para ajudar a fortalecer e alavancar o carnaval de São Paulo”, ressaltou.
UESP e Liga-SP cada vez mais próximas
A aproximação entre a UESP e a Liga das Escolas de Samba de São Paulo também foi ressaltada pelo presidente. Segundo Nenê, as entidades deixaram para trás um período de maior distanciamento e passaram a trabalhar em busca de objetivos comuns. “Esse trabalho começou com o presidente Sidnei. Entendemos que não dava mais para manter aquele clima de animosidade. As entidades não poderiam continuar distantes. Agora, com o presidente Tomate, estamos cada vez mais próximos. Ele é um grande parceiro e um grande amigo. Estamos entendendo que, de mãos dadas, em um processo de aliança, todos temos a ganhar”, celebrou.
Para o dirigente, a união é fundamental para que o carnaval mantenha seu espaço diante de outras manifestações culturais. “Quando ficamos separados, perdemos espaço para outras formas de cultura. E, naturalmente, precisamos respeitar todas as manifestações culturais. Mas, quanto mais estivermos unidos e interligados, melhor será para o carnaval”, disse.
Mudança no calendário dos desfiles
Para o próximo carnaval, a UESP também prepara uma mudança importante em seu calendário de desfiles. A entidade manterá parte da programação no fim de semana que antecede o carnaval, mas terá atividades também durante os dias oficiais da folia.
“Este ano, a UESP está mudando os dias dos desfiles. Continuaremos desfilando uma semana antes do carnaval, no sábado e no domingo que o antecedem. Além disso, teremos o desfile do Grupo Especial de Bairros na segunda e na terça-feira de carnaval. É muito bom ter o CARNAVALESCO conosco fazendo essa cobertura. Para nós, é um grande privilégio contar com vocês na segunda e na terça-feira de carnaval”, finalizou.
A sexta-feira promete em Ramos e toda Zona da Leopoldina do Rio. Nove vezes campeã do carnaval carioca, a Imperatriz Leopoldinense realiza em sua quadra, a partir das 21h, sua grande final para a escolha do samba-enredo que irá para a Marquês de Sapucaí em 2027. Das 27 parcerias inscritas no concurso, apenas três chegam à etapa decisiva: Josimar e cia (Samba 04), Hélio Porto e cia (Samba 05), e Me Leva e cia (Samba 07).
Com a expectativa de quadra lotada e uma noite repleta de alegria e emoção, onde contará com apresentações especiais dos segmentos da escola, num super show preparado pela direção artística da Rainha de Ramos, as vendas de ingressos para a decisão se esgotaram em apenas duas horas, reflexo do sucesso e da qualidade do trabalho realizado pela escola nos últimos anos.
A presidente Catia Drumond destaca o retrospecto da disputa na escola, até a escolha dos sambas finalistas, neste momento tão significativo para a Imperatriz.
“Chegamos num dos momentos mais importantes de todo o processo de construção de um Carnaval, que é a escolha do hino que vai representar a nossa escola na Sapucaí. Tivemos uma safra espetacular, com todos os sambas com totais condições de vitória. E agora chegamos à final, onde nela somente um vai se sagrar o campeão. São 3 sambas incríveis, com a força e a ancestralidade que o nosso enredo pede. Que vença o melhor e fica aqui a minha gratidão e boa sorte”, afirma a presidente.
Idealizador do enredo “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia”, o carnavalesco Leandro Vieira, rumo ao seu quinto carnaval consecutivo na verde, branco e dourado, também celebrou a importância do processo da competição e o belo trabalho de todas as obras que participaram, até a chegada à decisão.
“É uma alegria pra quem ‘enreda’, ouvir um samba e, contemplando à arte alheia, enxergar a beleza criativa de um caminho narrativo transformado em música. Em tempos onde tudo é esvaziado pelo papo da disputa do ‘quem vai ganhar ou perder’, festejo os compositores que enredaram cantando aquilo que eu enredei escrevendo lá no princípio e, de maneira inspirada, fazem seguir adiante uma das mais belas tradições das escolas de samba: a de contar uma boa história na boca do povo que canta”.
A ordem de apresentação dos sambas finalistas será definida por sorteio no dia da grande final, e cada uma das parcerias terá 20 minutos no palco.
Em busca do 10º campeonato de sua história, a Imperatriz Leopoldinense será a quarta escola a desfilar no Carnaval 2027, encerrando a noite da segunda-feira (08/02).
SERVIÇO:
Final de samba-enredo Carnaval 2027 do G.R.E.S Imperatriz Leopoldinense
Data: 18.09 (sexta-feira)
Horário: a partir das 21h
Endereço: Quadra de Ensaios LPD- Rua Professor Lacé, 235- Ramos