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Série Barracões: Tijuca se desprende de alegorias humanas e alas coreografadas, apostando em estética mais artesanal

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Do desfile histórico de 2004 com o carro do DNA, passando pelos anos dourados sobre o comando de Paulo Barros, mas se mantendo em carnavais sem o artista, como 2007, 2008, 2015 e 2016, a presença do efeito visual de carros com grande quantidade de componentes sempre marcou a trajetória da Unidos da Tijuca neste século. Desde 2016 sem frequentar o desfile das campeãs, a escola parece ter decidido dessa vez realizar mudanças que possam acarretar em resultados mais positivos. A contratação do carnavalesco Jack Vasconcelos, terceiro colocado em 2020 com a Mocidade, pode ser um aceno em uma busca por uma estética diferente em 2022.

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O artista está produzindo “Waranã – a reexistência vermelha” e recebeu a reportagem do site CARNAVALESCO no barracão para conversar sobre suas ideias para o desfile deste ano. Jack acredita que uma mudança na forma de concepção da plástica da Unidos da Tijuca será um grande trunfo para este carnaval.

“É o conjunto. É uma estética diferente de Tijuca, sem muita alegoria humana, de alas coreografadas que a Tijuca está acostumada, as pessoas vão ver uma Tijuca diferente do que estão acostumadas. Muito mais artesanal. No processo de construção do carnaval, é um carnaval que literalmente uma peça não é igual a outra, tudo muito manual de verdade. Os aderecistas estão trabalhando bastante desde o início do processo porque isso era de propósito. A gente não queria algo que fosse padronizado, a estética do desfile é toda no conceito de ser uma grande ilustração, o enredo é no formato de conto”, revela o carnavalesco estreante.

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O artista explica que a escola trará um estilo próximo da arte “Naif”, arte mais popular, mais autodidata. Jack entende que esse caminho que a escola está trilhando e se afastando um pouco de um tom mais coreografado, pode ajudar em uma evolução mais espontânea dos componentes. “É como se a gente estivesse abrindo um livro e vendo as imagens desse conto. E ele é todo desenhado, como o enredo fala sobre os olhos do Kahu’ê, sobre o seu olhar mais infantil, ele tem uma pegada plástica mais ingênua que versa até com arte Naif. O enredo todo tem esse conceito, então eu acho que isso já vai chamar muita atenção. E o fato também da Tijuca estar com a proposta de fazer um desfile mais solto. Em termos de harmonia, isso vai chamar bastante atenção”.

Enredo do presidente ganha a cara de Jack Vasconcelos

A proposta de apresentar na Sapucaí o conto do guaraná veio como sugestão do presidente Fernando Horta. Prontamente aceita pelo carnavalesco, Jack utilizou como inspiração dois capítulos da obra “Sehaypóri: o livro sagrado do povo Satarê-Mawé”, do autor Yaguarê Yamã, escritor originário do povo que também será homenageado no enredo, o Satarê-Mawé. O livro que também é ilustrado por Yaguarê, gerou inspiração para diversas ilustrações de carros e fantasias feitas por Jack.

“Originalmente foi uma sugestão do presidente da escola e ele me perguntou se seria um bom enredo, e aí eu disse que sim. E a gente partiu para pesquisa. O que mais me encantou de cara foi a própria lenda. A lenda do Saterê-Mawé, a origem do guaraná e como isso estava ligado diretamente à origem do próprio povo. Eu achei aquilo muito bonito, muito poético”, revela.

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Como já de costume em seus enredos, Jack não poderia deixar de trazer alguma questão importante para sociedade. Por isso, dentro da lenda do guaraná e da formação do povo Saterê-Mawé, haverá uma importante reflexão sobre a importância da preservação da cultura indígena.

“Eu achei pertinente também a gente trazer alguma questão indígena, trazer um pouco desse discurso para o nosso carnaval, porque eu acho uma pauta importante e de uma certa maneira o carnaval sempre versou sobre esses temas. Sempre foi uma linguagem que o carnaval ajudou a construir na cabeça do imaginário da população. Então eu acho que o carnaval historicamente tem um papel importante na preservação da memória da cultura indígena para os não indígenas”, explica o carnavalesco.

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Jack também indica que a preservação da natureza, da cultura indígena e de seus lugares de direito não vai ter um setor específico, mas estará presente durante todo o desfile.

“A gente tem uma parte do enredo que aborda essa questão, mas é uma questão que eu acho que está meio que dentro do enredo inteiro. Tem uma hora que ela fica mais evidente, mas o título de ‘reexistência’ não é à toa. A gente fala sobre esses modos que a gente acabou encontrando no decorrer da história de se reinventar, ou de se transformar durante o processo histórico para se manter. Quem ensina muito isso para gente é a própria natureza, o próprio ciclo de vida e morte, de como a natureza funciona, então, eu acho que ela nos dá o exemplo disso”, esclarece.

Produção do desfile é dedicada e inspirada em Oswaldo Jardim

Autor do inesquecível desfile de 1999 que rendeu o retorno ao Especial à Unidos da Tijuca, o saudoso carnavalesco Oswaldo Jardim terá sua produção artística como inspiração para a produção do carnaval de 2022 de Jack Vasconcelos. O carnavalesco estreante pela escola do morro do Borel explica como a estética de Oswaldo se relaciona com os seus próprios conceitos e estilos.

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“Ele é uma influência importante para mim. O Oswaldo tem uma pegada estética que me agrada muito e que me influenciou quando eu era ‘jovenzinho’ (risos), porque ele trazia um apelo visual muito forte. A cor dele chama muita atenção, ele se comunicava muito com a questão de cor e forma, e ele trouxe experimentos de outros lugares para o carnaval também, ele furou a nossa bolha de conceito do que é material de carnaval, por exemplo, ele conversou muito com as artes plásticas e isso sempre chamou a minha atenção”, revela.

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Jack aponta que as inovações estéticas trazidas por Oswaldo dialogam muito com a própria forma que o saudoso carnavalesco se coloca em relação ao desenvolvimento de seus enredos. “Essas outras possibilidades de comunicação sempre me emocionaram muito, e mais tarde eu fui entender que não era só isso, isso era uma consequência da própria narrativa dos enredos dele. Então, começava pelo jeito que ele abordava os enredos. E aí eu fui vendo uma proximidade do que eu acreditava de carnaval com o trabalho dele. E eu acho que a gente vai ver muito disso na Tijuca deste ano também”.

Fama de grande enredista e antecipação de produção estética nas sinopses

Bastante elogiado pelo desenvolvimento de seus enredos, Jack Vasconcelos procura não ficar melindrado por elogios e explica que costuma buscar uma forma de passar os temas da maneira mais entendível e simples para todas as pessoas que acompanham o desfile

“Eu procuro não pensar nisso. Quando eu recebo uma sugestão, por exemplo, nem todo enredo que a gente trabalha foi nossa sugestão inicial, isso é normal. Mas eu procuro olhar para o tema que me é sugerido e pensar em como eu conseguiria fazer com que ele chegasse para o entendimento das pessoas da melhor forma, da forma mais simples, porque as pessoas precisam entender aquilo que a gente está falando”.

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O carnavalesco esclarece que procura sempre já trabalhar a concepção visual de seus carnavais logo no início da produção do enredo, no desenvolvimento da sinopse, por exemplo. “Eu não sei como é o processo de criação dos meus colegas, ou dos enredistas, enfim, os processos são diferentes. Como eu estou acostumado a fazer os meus enredos, a fazer a minha pesquisa, eu não sei desassociar esse processo. Então, quando eu, por exemplo, lanço uma sinopse, eu já tenho o roteiro do desfile todo pronto, eu já sei as alas, o que elas querem dizer, o carro, o que vai ser, eu posso não ter os desenhos, mas eu já sei o que eles serão. Então, quando uma sinopse minha chega para o público, o público já sabe dos pontos que eu vou falar. Então, o compositor é a mesma coisa. Já tenho o desfile montado na minha cabeça e já sei como ele se comunica visualmente”, informa.

Nesse processo de produção visual em paralelo com produção inicial e escrita do tema, o carnavalesco explica que isso facilita até para que o artista possa dar o entendimento do desfile relacionando cada momento, cada sentimento que o setor quer passar para o público através da própria paleta de cores.

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“Eu penso quais os setores que vão ter cores mais fortes, qual o setor que vai ser mais suave, que dá uma ideia maior de conforto ou de linearidade, não tem conflito, o outro setor é mais conflitante, e eu já sei que ali vai ter umas cores mais fortes e mais chocantes entre elas. Até para passar essa ideia para o público. Mesmo com a fantasia longe, a pessoa já vai ver que tem uma guerra, ou que tem um confronto, uma coisa, ou outra ‘vibe’”, revela.

Preservação ambiental e dos povos indígenas pode ser grande mensagem deixada por este carnaval de Jack Vasconcelos

Jack é conhecido em seus últimos enredos por sempre trazer, dentro das histórias a serem contadas, uma grande mensagem para a sociedade. Em 2018 pelo Paraíso do Tuiuti havia a questão da escravidão e do trabalho análogo ao escravo ou desvalorizado que permanecia até os dias atuais. Em 2019, a crítica aos políticos e a corrupção, e ano passado, na Mocidade, no desfile sobre a Elza Soares, além de toda questão do feminismo e do protagonismo da mulher, que Elza já personificava por si mesmo, o carnavalesco trouxe a valorização dos professores, a pedido da cantora. Para 2022, nessa estreia na Unidos da Tijuca, o enredo sobre a lenda de surgimento do guaraná, também trará como pano de fundo a preservação ambiental e da memória da cultura dos povos indígenas. Com o desfile, Jack espera conseguir tirar da sociedade uma visão romantizada e muitas vezes distorcida dos povos nativos.

“Eu acho que a gente tocando as pessoas sobre a importância de se ter atenção, sobre o ataque que a cultura dos povos originários vem sofrendo principalmente neste período, só isso já estará valendo, eu já vou ficar muito feliz se as pessoas se ligarem que a gente está trazendo para as pessoas que é importante elas se ligarem, tirarem um pouco a questão indígena de um lugar idealizado, as vezes até romantizado, e trazer para o real, para o agora, para o contemporâneo, então, se as pessoas se ligarem nisso, já está de bom tamanho “, espera o carnavalesco.

Carnavalesco acredita que samba na boca do povo ajuda e rechaça barracão atrasado

Sendo festejado em todos os eventos que Wic Tavares e Wantuir apresentam, o “Waranã da Tijuca” fez muito sucesso neste pré-carnaval. A obra mais melódica tem encontrado boa aceitação entre os sambistas. Em geral, isto pode gerar mais expectativas e cobranças para a realização de um grande desfile e para um bom desenvolvimento de enredo e apresentação da parte plástica. Jack não acredita que isso aumente a responsabilidade, mas festeja e aponta o sucesso do samba-enredo como motivação extra para o trabalho.

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“Eu acho que ser aclamado antes do tempo como um dos melhores sambas e tal, massageia o ego da gente, dá uma alegria extra. Responsabilidade, tudo tem. Você fazer uma escola de samba já é uma grande responsabilidade, você já está botando o seu telhadinho de vidro de fora. O mais importante disso é ter um samba que a gente gosta de cantar, porque nem sempre o samba que se escolhe né…. (risos), mas a gente dá um jeito, a gente valoriza. Mas, esse é um samba que a gente ama, a gente canta com alegria, já dá um prazer de você está trabalhando no barracão sabendo cantar o samba, que a gente lá embaixo está trabalhando e cantarolando ele, sabe? Há um prazer com o samba que a gente canta, que a gente vai representar, e isso para mim é incrível”.

Aproveitando para falar sobre trabalho no barracão, houve muita conversa de que a Unidos da Tijuca estaria atrasada com seu barracão neste início de ano. O carnavalesco Jack Vasconcelos rebate esse discurso apresentando um planejamento da escola focado para abril e garantido que a Tijuca estará pronta e bonita no momento certo.

“Eu acho que todo mundo está atrasado porque o carnaval está atrasado. O carnaval não foi na data que tinha que ser. Então, essa questão de quem está atrasado já caiu por terra quando o pessoal pulou para abril. Então, essa questão não existe mais. Se tem gente trabalhando em algum barracão de escola de samba, a gente não pode dizer que alguém cumpriu o cronograma. Então a gente está ‘super’ tranquilo com isso. Não tem motivo para a gente correr, é uma bobagem, não tem premiação para quem acaba antes, se tivesse a gente já estava pronto”, encerra Jack.

Entenda o desfile

A Unidos da Tijuca levará para a Sapucaí, em abril, 5 alegorias, mais um tripé e um “pede passagem”, com 27 alas e cerca de 3200 componentes. O carnavalesco explicou um pouco de como estão divididos os setores da escola:

Primeiro setor: “Na entrada da escola a gente fala sobre os equilíbrios das forças positiva e negativa, que o enredo vai decodificar em Yurupari e Tupana, que fazem o equilíbrio de todas as coisas. A gente fala do equilíbrio, e como o enredo fala sobre ciclos, era importante a gente mostrar que as coisas não são só de um jeito”.

Segundo setor: “A gente fala sobre a lenda em si. Monã cria o Nusokén, que é o paraíso, o lugar idealizado, e aí a gente fala dos três irmãos, Yucumã e Ukumã’wató e a bela Anhyã-Muasawê, por quem os bichos são apaixonados, e quem consegue tocar ela que é a cobra, a engravida. E aí, quando ela fica grávida do Kahu’ê, os irmãos ficam varados de ciúmes dela, porque ela é a responsável pelo lugar, por ter o conhecimento da floresta nela. E isso cria uma inveja. E quando Anhyã engravida da cobra, os irmãos encontram um motivo para expulsá-la de lá”.

Terceiro setor: “Anhyã vai ter Kahu’ê fora dessa floresta encantada e nasce uma criança muito falante, muito feliz e espertíssima. E por ser uma criança muito esperta e curiosa, ela fica sabendo da castanheira sagrada dentro de Nusokén, onde eles não podem entrar mais, e ele vai querer comer a castanha dessa árvore. E ele entra em Nusokén, os tios ficam sabendo, e falam para o Yurupari, que é a força decodificada dentro do enredo como a força maléfica, e o Yurupari dá um ‘jeitinho’, se é que vocês me entendem, na criança”.

Quarto setor: “O Kahu’ê morre, a mãe aparece para levar o corpo do filho e Tupana manda ela tirar os olhos da criança e enterrar. E chorar em cima, regar com as lágrimas, e através disso o guaraná floresce. Desse guaraná ela faz o elixir”.

Quinto setor: “Ela rega onde está o corpo enterrado do Kahu’ê, e desse corpo que ela molha com esse guaraná nasce o primeiro Satarê-Mawé, e a tribo vem toda desse primeiro e depois o segundo que é o irmão, e começa a tribo a nascer desse elixir”.

Sexto setor: “A gente começa a falar desse povo, que é o povo do guaraná, que é um povo que cultiva o guaraná até hoje, essa reexistência vermelha tem a ver com a tribo, através do renascimento do Kahu’ê, uma coisa vai gerando outra, é uma ação ruim do Yurupari, que gerou uma coisa boa do Tupana, que gerou uma coisa maravilhosa que é uma outra tribo. E a gente fala de como Yurupari tenta perseguir ou reinar nessa floresta maravilhosa. E os ataques que as tribos sofrem, agora não só a Saterê-Mawé, mas como um todo, a cultura indígena e a gente reexistindo”.

Último setor: “A gente fala sobre essa natureza toda que dá um jeito de reexistir nisso tudo, por mais que se tenha queimada, garimpo ilegal, por mais que se tenha esses ataques as tribos e a cultura indígenas, essas tentativas de apagamento de memórias, ao longo da história, a gente dá um jeito, a natureza dá um jeito de renascer. E a gente fala também dessa reexistência que também acontece no plano espiritual, dessas entidades, desses caboclos, por que o Kahu’ê transcendeu, deu origem ao guaraná, que deu origem a tribo Satarê-Mawé e vai virar uma entidade. Hoje, onde acontece uma festa de criança, festa de Erê, o Kahu’ê está presente no formato do guaraná que é a bebida dessas festas”.

Ficha técnica do barracão:
Gerente de barracão: Pedro Veloso
Aderecista chefe: Laerte
Aderecista de carros alegóricos: Laerte
Projeto de alegoria: João Torres

Série Barracões São Paulo: Força de Carolina de Jesus é a mensagem do Colorado do Brás

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O site CARNAVALESCO visitou o barracão do Colorado do Brás e conversou com o carnavalesco André Machado, que explicou todo o desenvolvimento do desfile da escola para 2022. A agremiação irá para a avenida com o enredo “Carolina – A cinderela negra do Canindé”, uma homenagem que irá contar toda a história da escritora Carolina de Jesus.

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“Assim que eu entrei na Colorado, em uma reunião com o presidente Antônio (Ka), falei sobre as possibilidades de enredo, de Carolina de Jesus e ele queria saber a forma como eu iria contar, porque ele não queria coisas tristes na escola e eu mostrei e convenci que a gente não falaria de tristeza. Deu certo e a escola abraçou. Carolina Maria de Jesus nasceu pra mim há 7 anos atrás e, por ser um enredo que não tem patrocínio, demorou muito pra se tornar realidade”.

André Machado disse que se identifica com a história de vida da escritora e que o enredo ganhou mais verdade especificamente no Colorado. “Primeiro que eu me identifico muito com a história de Carolina de Jesus, porque eu já fui morador de favela. Quando eu li ‘Quarto de Despejo’, me emocionei algumas horas. Não sofri o que ela sofreu, mas eu me identifiquei. É um tema que eu sempre tive vontade de transformar em enredo, deu certo e teria que ser na Colorado, porque Carolina de Jesus viveu na favela do Canindé, que fica na área do Brás. Serviu até pro enredo ganhar mais verdade. Nada é por acaso. Eu desenvolvi o enredo em cima da palavra coragem, porque ela foi uma mulher corajosa. Mesmo passando fome, ela nunca desistiu”.

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O carnavalesco se aprofundou no enredo, deu mais detalhes e se mostrou otimista quanto à colocação da escola. “Falando do enredo em si, eu propus para a escola falar de uma forma bem lúdica, mas não deixando de contar a verdade sobre Carolina Maria de Jesus. A gente faz uma analogia com a história da Cinderela. No caso da Disney, a Cinderela trabalhava muito e encontrou uma fada madrinha, levou ela para o baile e se tornou a Cinderela por conta de um sapatinho que um príncipe levou até ela pra ser provado. Na história de Carolina, ela também trabalhou muito, batalhou a vida inteira, passou fome e por ser negra e favelada, demorou muito pra se tornar escritora, até ser reconhecida como tal. A fada madrinha dela, no caso, foi o Audálio Dantas. Um jornalista que apareceu na favela do Canindé quando ela estava sendo desapropriada e conheceu Carolina de Jesus, ela mostrou o livro que estava escrevendo, resolveu publicar e, o livro ‘Quarto de Despejo’, acabou se tornando o livro mais vendido da época. Foram 10 mil cópias em uma única semana e 100 mil cópias em 1 mês e Carolina passou a ser uma celebridade”, disse o artista, que emendou ainda:

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“Aí eu falo que foi a elite literária da época, porque vendeu mais que Jorge Amado e Clarice Lispector. Só que Carolina entendia muito de escrever, mas não entendia de matemática. Então, ela ganhou muito dinheiro, mas também perdeu na mesma proporção e as pessoas passaram a explorar ela. Engraçado é que a Carolina é passou a vida inteira sendo a negra escritora ou favelada escritora e a gente quer separar isso e colocar a escritora na frente. Ela sabe que foi negra, mas queria ser reconhecida como escritora, independente da cor. Essa é a mensagem que a Colorado quer passar e eu tenho muita fé que nós vamos chegar entre as cinco”.

Segundo André Machado, a força e inspiração para muitas mulheres, foram os vestígios de pesquisa que mais fascinaram o carnavalesco. “A força dela. Eu acho que ela serve de inspiração pra muitas mulheres. Tem uma passagem no livro dela ‘Quarto de Despejo’ que é muito triste, onde foram oferecidos ratos pra ela comer. E também por ser um enredo muito atual, falar da favela, dessa época de miséria reflete muito o que vivemos hoje. Principalmente pela quantidade de pessoas que estão nas ruas passando fome. Por exemplo, a gente liga a TV pra assistir um telejornal e vê pessoas na caçamba de lixo procurando ossos pra fazer uma sopa pra poder se alimentar. Isso a Carolina viveu e acho um enredo muito importante. Carolina é uma inspiração para tantas outras que estão catando papelão e que acreditam em um sonho. Ela deixou isso como um legado. Não importa de onde você venha, só tem que focar nos sonhos que você quer seguir e realizar”.

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O artista promete inovar na avenida e, nos revelou, que carro o abre-alas será feito inteiramente de papelão, onde foi o começo da história de Carolina. Para o carnavalesco, esse momento do desfile irá impactar o público no Anhembi. “Têm dois momentos dentro do nosso desfile que vão ser bacanas. Estamos trazendo algo novo. Carolina Maria de Jesus era catadora de papelão, então eu resolvi o nosso abre-alas ser feito todo de papelão. Um material que acho que nunca foi usado dentro do carnaval. Talvez cause estranheza nas pessoas quando verem no Anhembi antes dos desfiles, mas a ideia é essa. Fazer com que a matéria-prima de qual a Carolina sobreviveu, seja uma alegoria também. Tem uma aula que é a ‘catadores de papelão’, onde 90% da fantasia é feita de papel e papelão. A gente fez um trabalho de pesquisa, de resina para impermeabilizar bem esse material, porque em São Paulo está sempre chovendo”.

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Conheça o desfile

Setor 1
“No primeiro setor do desfile, eu faço uma analogia da Carolina de Jesus com a figura da libélula. Cientificamente, a libélula antes de se tornar libélula, é uma ninfa. Ela passa oito anos dentro d’água e depois ela vai subindo até virar uma libélula. Depois disso, ela morre em dois dias. Acho que a Carolina de Jesus foi isso. Ela passou a vida inteira trabalhando e, quando realmente ela conseguiu alcançar o que ela se propôs a fazer a vida inteira, ela morreu. Então, eu faço essa analogia com os arautos nessa abertura. Aí eu falo um pouco da ancestralidade da Carolina. Teve um avô escravo, que morava em Angola e veio pro Brasil como escravo”.

Setor 2
“Abro o segundo setor falando desse amor da Carolina pela literatura. Ela teve alguns problemas em Sacramento, onde ela teve o apelido de ‘Carolina do diabo’, por ter lido um livro de São Cipriano. As pessoas passaram a achar que ela fazia bruxaria. Com todo esse sofrimento dela e não podendo perambular pela cidade sem ser taxada como bruxa, ela resolveu ganhar o mundo e foi parar em Franca, fez uma passagem rápida em São Paulo, foi pro Rio de Janeiro e depois voltou pra São Paulo de vez pra trabalhar de empregada doméstica. Aí que começou a história dela de tristeza. Morou em albergue, chegou a catar papelão, até chegar na favela do Canindé com três crianças”.

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Setor 3
No terceiro setor a gente fala sobre a carruagem, o grande baile, onde ela foi aceita pela literatura como grande escritora. Eu começo a falar de tudo o que ela ganhou, fechando o nosso carnaval assim. Ela gravou um LP, ‘Quarto de Despejo’, título de cidadã paulista, de mãe preta. Ela começou a fazer tanto sucesso que o livro passou a ser peças de teatro e filmes”.

Setor 4
“O último carro continua falando desse legado de Carolina, o quanto ela inspira outras mulheres. E também o quanto ela era apaixonada pelo carnaval. O carro fala exatamente da Colorado entregando o sapato de cristal, que é o conhecimento dela sendo uma grande escritora”.

Ficha técnica
Alegorias: 4
Componentes: 1600
Alas: 19
Escultura e pintura – Jô
Decoração – Deivid
Equipe de serralheria – Bruno Limão
Marceneiro – Marcelo Carioca

Entrevistão com Iza: ‘Seria um sonho ficar muitos anos à frente da bateria da Imperatriz’

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Há dois anos fazendo parte também da família Leopoldinense, a cantora Iza se prepara para viver mais uma vez a experiência de pisar na Sapucaí à frente da Swing da Leopoldina, comandada por mestre Lolo. E, dessa vez, abrindo os desfiles do Grupo Especial. De volta à elite do carnaval, a escola vive um momento diferente, de muita organização, e de muita sinergia com a comunidade.

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Fotos de Nelson Malfacini

A presença de um ícone da música Pop, como a cantora Iza, é sinal dos bons ventos que sopram para o lado de Ramos. Mas, se engana quem acha que Iza é só mais uma artista se metendo no mundo das escolas de samba. Criada em Olaria, próximo a quadra da Imperatriz Leopoldinense, também pode-se considerar que a cantora é uma menina que saiu da comunidade, e a presença nos ensaios confirma além da simpatia, da simplicidade, muito samba no pé. Anos depois de ganhar o mundo, e fazer sucesso, ela está de volta também para ser exemplo para outras meninas da região de que é possível conquistar aquilo que sonha.

Em entrevista ao site CARNAVALESCO, durante ensaio na quadra da Imperatriz em Ramos, a cantora Iza falou sobre ser exemplo para as meninas do morro do Alemão e comunidades próximas a escola, sobre o sonho de permanecer no posto de rainha por muitos anos como outras referências, a alegria de voltar à Sapucaí depois de dois anos e a relação com mestre Lolo.

Você tem noção da sua importância dentro da escola, ou seja, muitas meninas do Complexo do Alemão sonham em ser uma Iza no futuro?

“Noção é meio complicado, mas eu fico muito feliz de receber perguntas como essa porque significa que alguém se inspira no meu trabalho, se inspira no que eu faço, com certeza, isso faz com que eu me sinta muito feliz de saber que o meu trabalho chega dessa forma para essa galera, que de certa forma me inspira muito também”.

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Você veio com a Imperatriz do Acesso para o Especial, o que representa esse momento?

“Nossa, é uma coisa louca, né? É uma emoção muito grande, por mais que eu tenha experiência com os palcos, mas a Sapucaí tem uma energia muito diferente. E, eu sei que desfilando dessa vez, abrindo esse desfile, nós somos os primeiros depois de tanto tempo com saudade da Avenida, realmente vai ser uma emoção que eu não sei, que eu ainda não senti. Mas, eu estou muito ansiosa para esse momento”.

O que você projeta sentir quando pisar na Sapucaí após dois anos sem desfiles?

“Muita felicidade, muita gratidão, porque significa que a gente venceu, né? Esse momento. E que a gente está de volta, que as coisas estão voltando, é uma promessa que as coisas estão voltando ao normal. E, isso é muito especial, a gente não está só longe da Sapucaí, e eu segurei os meus shows ao máximo, para ser coerente com tudo que eu vinha falando ao longo da pandemia. Era necessário esperar o momento seguro, e eu sinto que agora é o momento”.

A escola está transformada, vive outro momento, pensa em ficar muitos anos à frente da bateria e virar referência como foi a Luiza Brunet?

“Olha, isso seria um sonho, né? Mas, na verdade, quem vai dizer é essa escola que é incrível, que me abraçou com muito carinho, para mim seria um prazer, mas eu acho que isso não é uma coisa que possa afirmar, mas seria lindo”.

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A sua sinergia com o mestre Lolo parece que vocês se conhecem há anos. Como funcionou isso tão rápido?

“Eu fico muito feliz, na verdade é muito fácil lidar com o mestre Lolo, ele é um cara muito generoso, muito educado, muito talentoso e muito inteligente. É um ótimo guia, porque ele não está guiando só a bateria, ele me guia também, e isso é muito especial”.

O que esperar da fantasia da Iza no desfile de 2022?

“Olha, eu gosto muito de roupa, gosto de moda, gosto de fantasia, eu não posso revelar muita coisa, mas com certeza, a gente está se esforçando muito para entregar aquilo que a Imperatriz merece”.

O que você deixaria de mensagem para a comunidade da Imperatriz Leopoldinense?

“Ai meu Deus, agora é o momento, é um momento de retorno, é um momento de felicidade, de muita gratidão por fazer parte dessa escola. Então, o que eu acho que eu posso esperar é muita animação e muita felicidade de todos os componentes da comunidade que já vêm dando show em todos os ensaios, e eu tenho certeza que eles vão dar um show na Sapucaí também “.