A Acadêmicos de Santa Cruz uniu toda a força da comunidade da Zona Oeste para homenagear a vida e obra do ator Milton Gonçalves, no enredo “Axé, Milton Gonçalves! No catupé da Santa Cruz”, desenvolvido pelo carnavalesco Cid Carvalho. Além da indiscutível relevância da estrela na história do teatro e do audiovisual brasileiro, a Santa Cruz procurou mostrar a origem do ator, das lembranças de sua cidade natal Monte Santo, em Minas Gerais, além dos personagens e trabalhos marcantes.
Por estar em recuperação de um AVC, ocorrido em fevereiro de 2020, o ator não conseguiu estar presente na homenagem. A família fez questão de pisar na Marquês de Sapucaí e explicou que nesse momento pós AVC, o ator precisa se poupar de esforços físicos excessivos. A designer Aida Gonçalves, filha do meio do ator ressaltou as características do ator que mais admira e que gostaria que estivessem presentes no desfile, como o gosto pelo conhecimento e a simplicidade.
“Existe um aspectos que a gente recebeu na nossa educação que é a simplicidade que ele levava a vida. Ele era o cara que estava desde a feijoada do Salgueiro até fazendo compras para casa. Esse aspecto é muito bonito. Fomos criados sobre essa égide da simplicidade. Nós tínhamos todas as enciclopédias, os livros e discos viviam espalhados pela casa. Estamos muito felizes. Hoje meu coração é metade Mangueira e metade Santa Cruz”, relatou a mangueirense.
Ligado a religião de matriz africana, os orixás e mitos aspectos da cultura de matriz africana são traços transversais da homenagem da Santa Cruz. A família acredita que esta abordagem do enredo se conecta muito com a personalidade de Milton, na perspectiva de transmitir um conhecimento novo para o público que desconhece a Umbanda e o Candomblé.
“Meu pai foi fazer segundo grau já com filhos e depois foi fazer faculdade. Meu Pai sempre transmitiu para gente a importância do conhecimento acima e tudo. E acho que um conhecimento que o público vai ter acesso hoje. A escola vem com um recorte afrodescendente muito bonito. Talvez as pessoas não entendam alguma palavra, alguma coisinha, mas a emoção que a gente está sentindo, esse legado, mais que a palavra em si vai ser transmitida”, explicou Maurício Gonçalves, filho de Milton, ator e roteirista.
Sem a presença do grande homenageado, os familiares optaram por desfilar na cabeça da escola, no setor que ilustra justamente as raízes ancestrais e da infância do ator.
Terceira escola a desfilar no segundo dia de apresentações da Série Ouro, a Estácio de Sá se destacou com a Comissão de Frente e o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Contudo, apesar do bom início, a escola perdeu força estética, cometeu erros em fantasia, que acabaram impactando na leitura do enredo. O último carro da escola também destoou dos dois primeiros pela simplicidade e acabamento ruim. A agremiação reeditou o enredo de 1995 em homenagem ao Flamengo, com título ‘Cobra Coral, Papagaio Vintém, Vestir Rubro-Negro, Não Tem Pra Ninguém’, e passou pela Sapucaí em 54 minutos. * VEJA FOTOS DO DESFILE
Fotos de Allan Duffes e Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO
Comissão de Frente
Coreografada por Ariadne Lax, a Comissão de Frente da Estácio de Sá trouxe o ‘Vestiário’ para a Avenida, com 15 componentes, sendo duas mulheres e 13 homens. A intenção dada pelo segmento foi de trazer o clima pré-jogo, de resenha e fé dos atletas antes de subir ao gramado. A coreografia pontuou o ato de vestir a camisa do Flamengo e o Rubro-Negro. O tempo todo de apresentação levou cerca de 1m45s.
Os componentes chegaram os com rostos pintados em Rubro-Negro e com roupas das mais diversas cores. O grupo teve coreografia bem sincronizada e com passos modernos virais das redes sociais. Em determinado momento, dão as costas rapidamente aos jurados e voltam vestindo as cores do Flamengo. Ao mesmo tempo, sobrevoa uma camisa vermelha e preta levada por um drone, na representação do ‘Manto Sagrado’. Ao fim, jogam bolas de futebol para as arquibancadas.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Feliciano Junior e Alcione Carvalho, vieram vestidos com a fantasia ‘Cobra Coral’, em alusão ao primeiro uniforme da história do Clube de Regatas do Flamengo. O nome do figurino também faz parte do enredo e do samba da escola. As roupas da dupla estavam mesmos tons, com vermelho, preto, laranja e prata. Em cerca de 1m50s, os dois apresentaram grande dança, com sincronia e sintonia nos olhares e gestos. O casal passou sem problemas nos módulos e levantou o público. Ao fim, Feliciano ainda fez o ‘Vapo’, gesto em ‘X’, no pescoço que foi popularizado pelo meia Gerson, ex-jogador do Flamengo.
Harmonia
A harmonia também foi um dos pontos fortes da passagem da escola pela Sapucaí. Todas as alas cantavam o samba, que já é entoado nas arquibancadas do Maracanã pela torcida há mais de duas décadas. As primeiras alas, como a ‘Grupo de Regatas’ e ‘Papagaio Vintém’ se destacaram muita força na voz. As arquibancadas também foram inflamadas pela escola e cantaram o samba.
Os carnavalescos trouxeram uma releitura do enredo, sob a ótica de um torcedor que estava na barriga da mãe no desfile de 1995. O personagem criado conta a história do desfile e representa a torcida, que é a principal homenageada na apresentação. Em um primeiro momento, a Estácio traz as origens do clube, desde o grupo de regatas, passando pelos esportes olímpicos do clube, até chegar ao futebol. No terceiro momento, a escola relembra os grandes títulos conquistados pelo Flamengo, principalmente no âmbito internacional. O desfile foi encerrado com uma grande ‘festa na favela’, como a torcida do Rubro-Negro canta após as vitórias no Maracanã.
Foi percebida a linha temporal proposta pelos carnavalescos, mas em determinado momento ficou confusa, principalmente por conta das fantasias, a diversidade de povos. Estes representavam os países onde o Flamengo conquistou título. O tripé ‘E Agora Seu Povo Pede o Mundo’, que tinham alguns ‘funko pops’ também ficou de difícil compreensão. Uma das alas, a ‘Os Rivais’, de número 17, deveria vir antes do segundo casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, porém no desfile, veio depois.
Evolução
A Estácio apresentou seus primeiros segmentos no primeiro módulo julgador, mas logo após o fim da apresentação, o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira avançou bastante e a ala das Baianas não conseguiu acompanhar, formando-se um pequeno buraco. Na sequência, porém, a escola manteve bom fluxo. Após a passagem pelo segundo módulo, a escola acelerou um pouco o passo sem necessidade e gastou um pouco mais de tempo no final e encerrou sem sustos.
Samba
Conhecido já há 27 anos, o samba já estava na ponta da língua de todos os componentes e arquibancada. O refrão foi bastante cantado, assim como o refrão do meio que tinha uma bossa do mestre Chuvisco e a parte ‘Encantou Estácio (Ó paixão), Paixão que Arde Sem Parar’. Do verso ‘O Céu Rasgou’ até ‘Enfeitada de luar’ a força do canto diminuiu, mas sem afetar o desenvolvimento da obra. O intérprete Serginho do Porto também fez grande trabalho no carro de som.
Fantasias
Como esperado, a Estácio trouxe em grande parte das alas, fantasias com foco no vermelho e preto. Já no primeiro setor, a ala das baianas veio, além das cores do clube, com tecidos diferentes em retalhos coloridos em alusão à costureira mãe do personagem principal. A segunda e terceira (Ourazul) ala contrastaram com o Rubro-Negro ao relembrar as primeiras cores do ‘Grupo de Regatas’, que era o amarelo e o azul. A partir da quarta ala, o vermelho e preto é predominante. A Estácio também levou para a Avenida fantasias com referências a continentes e países nos quais o Rubro-Negro conquistou títulos.
No entanto, apesar das primeiras alas se destacarem, problemas de figurino começaram a aparecer a partir da Ala 7, ‘Esportes Aquáticos’, onde faltaram partes da fantasia. As alas tinham bastante simplicidade nos materiais, principalmente do meio para o fim do desfile, com a ala ‘Os Rivais’, ‘Conquista da África’ e ‘A Favela Venceu’. As fantasias da composição do segundo carro também deixaram a desejar. Plasticamente, as alas iniciaram com muita beleza, mas a sequência da escola teve alguns problemas.
Alegorias
‘Paixão que Arde Sem Parar’, a primeira alegoria da Estácio de Sá levou as cores do Flamengo e da Escola, com bastante vermelho, preto e branco. O símbolo do clube apareceu logo na frente, e um urubu, mascote do clube, fechava a parte traseira do carro. O tradicional leão da escola também estava no abre-alas, que tinha o nome da agremiação perto do ‘CRF’ do Flamengo. Entre os destaques, se fez presente o ‘Urubu-Rei’, além de outras representações, como ‘A Grande Vitória’ e ‘Nação Rubro-Negra’. Imponente, o Leão tinha a bola de futebol nos pés e as cores e acabamento do carro chamaram atenção.
O segundo carro alegórico, ‘Campeão de Terra e Mar’ cortou um pouco do vermelho e preto trazendo o azul dos mares, onde o Flamengo teve as primeiras conquistas como grupo de regatas. E não nó nos oceanos, como também em outros esportes aquáticos. Contudo, referências ao Flamengo e suas cores também foram vistas, mas principalmente na parte traseira do carro. Fantasias de Netuno e Poseidon, seres mitológicos dos oceanos, foram vistas, além de alusões às conquistas aquáticas com figurinos de medalha de ouro, prata e bronze. Assim como a primeira, essa segunda alegoria também tinha imponência, bom acabamento e bonita plástica.
A última alegoria da Estácio de Sá é uma grande reverência à torcida, principalmente a da grande massa pertencente às favelas do Rio de Janeiro. Na alegoria estão presentes alguns grafites com versos do samba e gritos da torcida do Flamengo. Pinturas de torcedores também foram vistas. A alegoria trouxe variedade nas cores e a representação de uma grande comunidade. Fantasias como Camelôs, Motoboys e Funkeiras foram presentes para corroborar a ideia central do carro. Diferente dos dois primeiros carros, a última alegoria teve menor investimento, foi pouco carnavalizada, teve um acabamento deficitário e destoou visualmente.
Outros Destaques
Alguns ex-jogadores desfilaram pela escola, como Athirson, Nélio e Adílio, que era o destaque do tripé da agremiação. Personagens icônicos da torcida do Flamengo, como ‘Chapolin’ e o ‘Anjo Rubro-Negro’ desfilaram no último carro. Os músicos Xande de Pilares e Dj Marlboro também passaram na Avenida. Jack Maia esbanjou luxo e simpatia à frente da bateria, que veio com os rostos pintados e roupas nipônicas em referência ao título mundial do Flamengo em 1981, no Japão.
Banhada na ancestralidade negra, a Acadêmicos de Santa Cruz abusou do axé da cultura de matriz africana para estruturar a homenagem ao ator Milton Gonçalves no enredo: “Axé, Milton Gonçalves! No catupé da Santa Cruz”, de autoria do carnavalesco Cid Carvalho.
Inaugurando o segundo setor da escola, a alegoria de númeo 2, ” Nos livros, o conhecimento que liberta” impressionava não só pela beleza, mas também pelo simbolismo e significado. A Alegoria faz um link da paixão do homenageado pelo universo do conhecimento e dos livros e a grande senhora da sabedoria da cultura yorubá, o orixá Nanã.
Toda composta por tons de roxo e variações, a alegoria trazia uma grande escultura de Nanã e trechos com escritos de livros nas laterais. No entanto, além da bem acabada escultura, o destaque principal da alegoria fazia uma menção ainda maior à senhora do barro, uma legítima filha de Nanã na alegoria. Elaine ty Nanã comentou a satisfação de dar vida a representação da grande Mãe na avenida.
“É uma emoção tão grande que não tem explicação. Só sabe quem sente. Estou realizando o sonho de pisar na avenida. É sentir, vibrar e amar”, declarou a emocionada desfilante.
O convite para homenagem foi intermediado pelo mestre-sala da escola Mosquito e autorizado pela zeladora espiritual de Elaine. Extremamente importante em diversos cultos dentro do Candomblé, Elaine aproveitou o ensejo e ainda esclareceu algumas particularidades e características dessa yabá para os que não são tão familiarizados.
“Nanã é o orixá mais velho de todas as yabás. É ela quem moldou partir o barro o ser humano. é uma senhora muita velha que quase ninguém gosta de falar. Nós nascemos do barro e para o barro retornaremos”, pontuou.
Reeditando o enredo de 1995, a Estácio de Sá entrou na avenida contando a história e os títulos conquistados pelo Clube de Regatas do Flamengo. Com a temática “Cobra-Coral, Papagaio-Vintém, Vesti Rubro-Negro Não Tem Pra Ninguém”, desenvolvida por Wagner Gonçalves e Mauro Leite. A escola trouxe uma alegoria que representa a “Festa na Favela”.
Terceira alegoria da escola, ela veio recheada de vários flamenguistas que cantavam fortemente o cântico da torcida. Retratando a forte adesão que o clube possui com a população moradora de áreas periféricas. Com elementos da cultura pop art, a composição possui uma leitura estética urbana de fácil entendimento e um mosaico que trouxe toda a pluralidade do Flamengo. As esculturas da frente do carro alegórico eram motocicletas, algo que é muito comum de ser nas favelas.
Com a arte urbana representada no carro e também com referências ao time da Gávea, foi possível notar a emoção dos torcedores que estavam presentes na alegoria. A empresária Paula Alvarenga, de 29 anos, foi uma dessas pessoas. Desfilando pela primeira vez na escola, ela recebeu um convite especial do clube rubro-negro e não teve como recusar.
Influencer do clube, Paula conta como foi a experiência de desfilar nesse carro e o que representa essa oportunidade: “Poder representar um pouquinho dos torcedores do Flamengo, que são milhões, é muito importante. Eu estou muito emocionada de estar aqui, pois foi a minha primeira vez desfilando pela Estácio e esse enredo é a felicidade de todo flamenguista, já que agora foi adicionado mais alguns títulos”.
Vestida como motoqueira, a torcedora e também componente da alegoria, Kelly Medeiros, de 40 anos, é apaixonada pelo clube e pela escola vermelha e branca. Desfilando pela segunda vez na agremiação, a profissional de recursos humanos não conseguiu esconder a emoção. Com o enredo da escola em homenagem ao time de coração, ela relata o quão grata está por esse momento:
“É muito gratificante estar aqui novamente, depois desses anos sem entrar na avenida. E homenageando o meu clube deixa tudo mais feliz e emocionante. É surreal todo amor que sinto pelo Flamengo e, esse repeteco no enredo vai trazer muita sorte para a gente”.
O espírito carnavalesco é algo que sem dúvidas contagia todo mundo e com a torcida do Flamengo não é diferente. A alegoria tem se chama “Festa na Favela” justamente por conta de uma música cantada em todos os jogos do clube.
Magia, é algo que define o sentimento da analista de marketing, Júlia, de 23 anos. Para ela, desfilar no carnaval é mágico, pois é o que ama fazer. Juntar isso com o Flamengo é totalmente diferente do que já viveu e que não tem explicação. “ Sou muito fã do carnaval e acho essa festa linda. Poder representar a favela que é a origem de tudo, que representa a torcida do Flamengo é maravilhoso e fico arrepiada só de falar sobre isso. Esse time é minha vida e, é inexplicável tudo o que sinto. Agradeço muito ao clube e a Estácio por ter me dado essa oportunidade”, diz Júlia.
O desfile de 1995 da Estácio de Sá, foi memorável para todos que estavam presentes lá. Seja os torcedores, jogadores, funcionários e ídolos do clube, a passagem foi marcante e histórica.
Na época, o samba foi interpretado pelo ilustre Dominguinhos do Estácio e contou a história do time desde a fundação até o mundial de 1981. Para o desfile do carnaval de 2022, a escola reeditou o enredo. E também buscou se manter fiel ao que apresentou em 1995.
Com alas e alegorias que representavam toda a narrativa histórica e das conquistas de todos os títulos do clube até o momento. Em um tripé que representava “E agora seu povo pede o mundo de novo”, que retratou as conquistas internacionais do Flamengo.
Nesse tripé o destaque ficou por conta de Adílio de Oliveira Gonçalves, ex-jogador do Flamengo. O craque cedeu uma entrevista para o site Carnavalesco e emocionado, ele conta como é estar novamente desfilando pela Estácio de Sá.
“É muito legal, como se fosse a primeira vez de novo. Hoje estou aqui representando o clube e essa escola linda. Admiro muito o trabalho que eles fizeram e também o convite que recebi para desfilar novamente”.
É muito comum ver como a torcida do Flamengo enaltece os ídolos ilustres que passaram pelo clube. E o carinho deles com Adílio não é diferente, muitos deles sempre estão tietando o jogador, que adora esses momentos. Ele que é bem receptivo com todos, faz questão de tirar fotos e dar autógrafo para os fãs.
Uma história longínqua com o clube, para Adílio o time é a sua grande paixão. Ele deixa isso muito claro ao falar emocionado sobre o Flamengo e a relação que possui com a nação rubro-negra. “O Flamengo é a minha vida. Comecei a jogar lá quando tinha 6 anos e fiquei 24 anos no clube, várias homenagens. Eu sou testemunha em falar, porque estava num grupo maravilhoso e que deu algumas conquistas de troféus”, relata o ex-jogador.
Falando em título, o Mundial em dezembro de 1981 do Flamengo é histórico. Jogadores como Zico, Júnior e até mesmo Adílio estavam presentes nesse momento. O último inclusive foi que marcou o segundo gol que ajudou na conquista e ele comenta sobre esse título.
“Claro que o grupo era unido e que se ajudava e por isso tivemos muitas conquistas. O Mundial foi marcante para todos nós e para mim também, pois tive uma participação especial. Marquei o segundo gol que ajudou na nossa vitória e isso me dá muita satisfação de ser rubro-negro e também para trabalhar até hoje no clube”.
A bateria Cadência da Baixada fez uma boa apresentação, na estreia de Mestre Juninho. Uma bateria da Inocentes de Belford Roxo pesada, com afinação de surdos que amparou o ritmo de caixas e repiques sobre uma plataforma grave sólida. O bom balanço dos surdos de terceira foi notado. Um acompanhamento de peças leves que ampliou a sonoridade da cabeça da bateria, auxiliando na equalização.
Uma ala de tamborins firme e coesa, com quatro filas de ritmistas, o que para grupo de Acesso é praticamente um luxo. O naipe de chocalhos sincronizou corretamente o toque com os tamborins, além das cuícas que preencheram a musicalidade de modo consistente.
A paradinha de maior destaque, além de complexidade musical foi executada com terceiras usando duas macetas, fazendo referência sonora ao maracatu de baque virado, atrelando cultura musical ao enredo sobre a “Noite dos Tambores Silenciosos”. As bossas foram realizadas de forma correta nos módulos de julgadores.
Com enredo em homenagem ao Flamengo e toda sua nação rubro negra, não dá para deixar de fora a clássica rivalidade entre os clubes, o que fez com que a Estácio não deixasse de incluir essa “guerra” futebolística em seu desfile. A ala 17 da escola se chama “Os rivais”, e fez referência aos “antis”, também conhecidos popularmente por secadores, aqueles que torcem contra o time em qualquer oportunidade.
Apesar da homenagem ter sido responsável por tornar boa parte dos componentes presentes na escola neste ano flamenguistas, também foi possível encontrar torcedores apaixonados pela escola, que no momento se sacrificaram para homenagear um time não tão querido assim por eles.
Márcia Raposo, moradora do Estácio e tricolor apaixonada, contou em entrevista ao site CARNAVALESCO um pouco da sensação de estar desfilando em homenagem ao seu maior rival no futebol.
“Sou tricolor de coração, mas aqui no mundo do samba sou Estácio acima de tudo. Estar na ala “rivais”, me faz homenagear não só a minha escola, mas também de certa forma o meu time do coração. Qualquer rivalidade eu acho importante, cada hora um ganha, o importante é a disputa”.
Se encontramos rivais, também encontramos antigos rivais, que ocasionalmente acabaram se rendendo ao time, como foi o caso da Flaviana Rampine, de 35 anos. A moradora do Flamengo contou que sempre se titulou como botafoguense, mas que após conhecer seu namorado Thiago Sales, acabou “virando a casaca”.
Thiago também contou um pouco de sua relação com o Flamengo, seu time do coração. “Eu nasci botafoguense, apesar de gostar do Flamengo desde sempre. Sempre quis torcer, mas meu pai dizia que iria me deserdar”, brincou ao lembrar.
“Em 1992 no final do brasileirão, teve Flamengo e Botafogo, Flamengo foi campeão e ali eu não resisti, o amor falou mais alto. É fácil para quem é flamenguista falar sobre rivalidade, já que estamos sempre na frente. A rivalidade é bem prazerosa, até porque bem ou mal, ninguém chega perto”.
A quarta escola a adentrar a Marquês de Sapucaí nesse início de sexta-feira, trouxe em seu samba enredo “Axé, Milton Gonçalves! No Catupé da Santa Cruz!” uma homenagem ao ator Milton Gonçalves.
Milton é declaradamente um ativista do movimento militante negro, com isso, o enredo contou como uma forma de luta antirracista, para poder contar a história de vida e as barreiras que enfrentou no decorrer de sua carreira. Jane silva, desfilante há 8 anos, em entrevista ao site Carnavalesco, contou a importância desse enredo.
“Milton é sinônimo de talento e luta, é símbolo de amor e de vida. Importante trazê-lo à Sapucaí porque pudemos mostrar que a cultura brasileira também produz excelentes artistas.”
A sétima ala da Verde e Branca de Santa Cruz, apostou em cores vibrantes e fortes que vieram remetendo a Nanã, orixá feminino que tem relação com a do homem na Terra. Na vida de Gonçalves, representou o acolhimento quando ainda jovem foi trabalhar em uma livraria. Maria Helena, que desfila desde 1998, destacou alguns pontos da fantasia.
“Nós viemos trazendo uma peça importante na vida de Milton. O conhecimento é a fonte da vida, sem eles nós não seríamos nada. Conhecimento nunca é demais! O mais importante a destacar nessa fantasia é a leveza em que nos foi entregue. Apesar de representar um orixá de peso, nossa fantasia veio o mais leve possível.”
A Inocentes de Belford Roxo apresentou um belíssimo conjunto visual em seu desfile, com destaque para as fantasias, com cores variadas e bastante volume, a escola encantou visualmente, porém, a evolução deixou a desejar e pode comprometer uma melhor colocação da escola na apuração. Logo no início, o carro abre-alas apresentou dificuldades de se locomover pela avenida e ao menos dois buracos foram abertos, um no setor três e outro no último módulo de julgadores. Além do conjunto visual, a entrada da escola, com a comissão de frente e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira também se destacou no desfile. * VEJA FOTOS DO DESFILE
Fotos de Allan Duffes e Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO
Apresentando o enredo “A meia-noite dos tambores silenciosos”, assinado pelo carnavalesco Lucas Milato, a Inocentes de Belford Roxo levou para avenida um rito de preservação da tradição afro-brasileira, foi a segunda escola a cruzar a passarela do samba na segunda noite de desfiles da Série Ouro. A caçulinha da Baixada terminou sua apresentação com 54 minutos.
Intitulada “O elo entre os dois mundos”, a comissão coreografada bailarina Juliana Frathane, contou com um total de 15 componentes, 10 homens e cinco mulheres, eles representavam o Ritual do Pátio do Terço, que é quando os ancestrais são louvados e os mundos se ligam, a dança contou com fundamentos da celebração ritualística dos Tambores Silenciosos. A apresentação se dividiu em dois momentos. Em uma primeira fase, 14 componentes vestidos com uma belíssima fantasia toda em preto, representavam os brincantes e devotos que acompanhavam o ritual.
O ápice da coreografia se deu quando uma integrante surgia surgia de dentro do elemento cenográfico representando Oya, nesse momento, Nesse momento o público nas frisas e arquibancadas aplaudiram com bastante entusiasmo., os 14 elementos trocavam de roupa através de artifício construído na própria fantasia, e passavam a representar e homenagear os ancestrais louvados no pátio do Terço. No tecido branco da fantasia, foi possível ver estampadas figuras de pretos que foram importantes ícones na luta contra a opressão, o que causou bastante comoção do público. No geral, a comissão se apresentou sem nenhum erro nas cabines de julgamento, porém, vale ressaltar uma luz apagada no elemento alegórico.
O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Douglas Valle e Jaçanã Ribeiro, passaram com a fantasia significando “A penumbra da meia-noite”, eles representaram a grande troca de energia que há entre òrun-àiyé no horário da meia-noite. Desfilando juntos pelo segundo ano consecutivo, pode-se destacar os movimentos em referência a alguns orixás, como por exemplo: em um determinado momento da coreografia, o casal se separa e ao se encontrarem com olhar fixo no parceiro, promovem o encontro dos punhos cerrados fazendo clara referência para Xangô.
Douglas ainda teve alguns movimentos em referência aos terreiros de religiões de matrizes africanas, inclusive, quando no trecho “é o vento de Oyá que evoca egun” o mestre-sala mexe a mão fazendo a ventarola de Oyá, assim como Jaçanã teve movimentos que sugeriam inspirações em outros orixás. De destaque negativo, fica a apresentação de Jaçanã no primeiro módulo de julgadores, por conta do vento, a porta-bandeira parecia estar um pouco tensa, nos módulos seguintes não foi observado o mesmo nervosismo, no último módulo, o mestre-sala precisou se esticar um pouco para ajudar ela a desfraldar o pavilhão logo no início da apresentação.
A harmonia da escola se mostrou coesa do início ao fim, todas as alas cantavam o samba, porém, o momento de maior destaque ocorria nos refrões, principalmente “Ora iê iê, Ora iê iê, como é bonito minha mãe seu abebe”, o carro de som impulsionou o canto dos componentes, que além de cantar com vigor, pareciam estar se divertindo, as alas de maior destaque foram as do início do desfile, a primeira representando os Ogans, contou com brincantes muito animados, o mesmo foi visto nas alas seguintes, com destaque para a ala de passistas, que representavam as danças e sons dos escravos. No geral, a escola se apresentou de forma uniforme, não observado nenhuma ala cantando pouco, vale mencionar que na última ala, “Raiz ancestral”, um componente desfilou de máscara.
Enredo
O desfile se iniciava com uma saudação a Oyá, através da representação da cabeça de um búfalo logo a frente do abre-alas, o primeiro setor mostrou o tambor como a comunicação entre homem e os orixás, o segundo setor da escola representou a realeza africana e a terceira alegoria apresentou uma perspectiva acerca do Pátio do Terço, local que hoje é o grande palco da Noite dos Tambores Silenciosos. No geral, o enredo da escola, que é um dos mais densos deste ano, se mostrou de fácil compreensão, o carnavalesco Lucas Milato levou a história do povo preto com muita competência.
Evolução
A evolução foi o grande destaque negativo da escola e tem tudo para ser o quesito a sofrer as maiores penalizações na apuração oficial, logo no ínicio, o carro abre-alas sofreu para conseguir entrar na avenida, era possível ver o esforço além do normal dos empurradores, mesmo assim, um espaçamento ocorreu na primeira cabine de julgadores, o carro seguiu com dificuldades, mas um novo buraco só foi observado na altura do setor oito, esse porém, muito maior que o primeiro, seguiu até o setor 10, na última cabine de julgadores. Após a entrada da bateria no segundo recuo, outro buraco foi observado, a ala de passistas precisou correr para preencher o espaço, mas o carro que veio atrás não conseguiu acompanhar, abrindo um novo buraco.
Samba-Enredo
A obra da parceria de Cláudio Russo foi bastante elogiada nesse pré-carnaval, muito valente, o samba possui refrões potentes, o que permitiu aos componentes um canto forte, porém, esse canto não foi visto em outras partes do samba. O entrosamento do carro de som da escola, comandado por Tem-Tem Sampaio, Luizinho Andanças e Silas Leléu, somado ao bom desempenho da bateria, cadência da baixada comandada pelo Mestre Julinho, impulsionou o canto da escola.
Alegorias e Adereços
A escola apresentou um conjunto de alegorias de extremo bom gosto, apostando no uso de cores fortes, o carnavalesco soube usar o preto, como pede o enredo, mas sem pesar a escola, o abre-alas, “Tambores ancestrais”, visualmente era muito impactante, logo na frente uma grande cabeça de búfalo chamava atenção, o segundo carro fez referência aos cortejos de coroação dos reis, apesar de bonito, quando entrou, o carro arrastou na grade do setor e uma da esculturas sofreu um pequeno dano. Vale destacar o tripé “Espelho da Yalorixá”, com uma iluminação caprichada, ele passou muito bem toda a avenida, a iluminação também foi o destaque do último carro, “O velho endereço de novos tambores”, o jogo de luzes apresentados causou um impacto interessante.
Fantasias
A Inocentes apresentou um conjunto de fantasias muito bem desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato, as soluções encontradas por ele deram um visual muito bonito e impactante para escola, todas as alas eram extremamente volumosas, o uso de penas artificiais se mostrou uma opção, várias alas poderiam ser destacadas, mas vale o registro para íncrivel ala de baianas, representando Oya, a roupa, predominantemente branca, a roupa parecia ser leve, visto a boa evolução observada. No segundo setor destacaram-se a quinta ala, “Irmandade dos homens pretos” e a nona, coreografada, chamada “Realeza do congo”, no último setor, a ala dos Orixás arrancou bastante aplauso do público.
Outros Destaques
A bateria do mestre Julinho representou São Benedito, os 250 ritmistas da Cadência da Baixada realizaram bossas por toda a avenida, levantando o público. A rainha Natália Lage estava com uma fantasia muito bonita e esbanjou carisma.