A quarta escola a desfilar na Marquês de Sapucaí homenageou o ator e diretor Milton Gonçalves. O primeiro carro retratou memórias de sua infância através da coroação dos reis negros e de suas raízes africanas, sob a proteção de Nossa Senhora do Rosário.
A primeira parte da alegoria representou o altar da Igreja Matriz de Monte Santo, cidade essa em que Milton Gonçalves nasceu. Era neste ambiente em que o também dublador assistia a coroação dos reis negros. Juntamente com os pés de café puderam remeter o trabalho árduo que sua família realizava na cidade mineira. Marco Aurélio, responsável pela alegoria, em entrevista ao site Carnavalesco, detalhou a alegoria.
“A parte da frente é a igreja em que o Milton morou, a do monte e veio representando as raízes ancestrais dele. Pudemos ver que por todo o carro temos características africanas. Mais a frente, nós mostramos os pretos velhos, que tiveram bastante presente na história dele.”
Em um segundo momento, o abre alas trouxe uma coroa em que faz referência ao símbolo da Verde e Branca de Santa Cruz. Contornando a parte inferior da coroa, apresentou o Oráculo de Ifá, porta voz dos Orixás. “Atrás veio mais uma característica forte da África que são os animais”, acrescentou Marcos.
A Inocentes de Belford Roxo levou para a passarela do samba o enredo “A meia-noite dos tambores silenciosos”, falando sobre as tradições afro-brasileiras que acontecem durante o carnaval pernambucano. Segunda a desfilar nesta noite de quinta-feira, a escola da baixada fluminense trouxe a ancestralidade do povo negro para celebrar a liberdade e a resistência africana.
A ala de passistas da Inocentes veio no segundo setor, sobre a realeza africana, representando as “Saudações ao rei”. Para saudar os reis pretos coroados, os escravos usavam o corpo como forma de expressão: dançavam e se entregavam ao som dos batuques.
A fantasia dos passistas era bem carnavalizada, repleta de cores e laços de fita. A roupa tinha a predominância de tons quentes, como vermelho e laranja, proporcionando um belo contraste com as fitas coloridas no costeiro dos componentes. Na cabeça, um chapéu da mesma tonalidade do restante da fantasia, que trazia ainda algumas penas brancas na parte superior.
Sônia Nunes, 37 anos, funcionária pública, é passista da Inocentes há cinco anos e elogiou a beleza e praticidade da fantasia: “O figurino é muito bom, leve, perfeito. Ótimo para a gente sambar, desenvolver bem e mostrar o nosso potencial, nas pernas, nos pés, no sorriso e cantando o samba-enredo”.
“Perfeita, leve. Suave para dançar, sambar”, declarou Diogo Moraes, 21 anos, bailarino profissional e passista da Inocentes. Jorge Diego, de 33 anos, foi mais um integrante da ala que se mostrou empolgado com a indumentária. “Achei a fantasia muito bonita e muito rica, super leve. Está bacana, gostei muito… Quase dois anos sem carnaval, então a ansiedade é muito grande. A saudade eu só vou matar quando tocar aquela sirene, soltarem os fogos…”.
A estreia de Mestre Átila na Lins Imperial foi regular. Alguns marcadores acabaram confundindo firmeza com excesso de força, principalmente nos surdos de segunda. O que ocasionou alguns desencontros e emboladas ao longo da Avenida. O problema se agravou próximo a entrada da bateria da Lins no segundo recuo, onde a bateria acabou atravessando o ritmo. Da pista de desfile foi possível perceber certos momentos de inconstância no som, até sendo notado um certo atraso.
O acompanhamento de peças leves auxiliou no preenchimento da musicalidade. Tamborins com bom volume e chocalhos corretos. Uma ala de cuícas dando valor sonoro a cabeça da bateria. A paradinha de destaque foi a do refrão do meio, quando os ritmistas viraram de frente para os jurados. O ritmo executado remetia à bateria da Mangueira, no enredo sobre o trapalhão mangueirense Mussum, cria da comunidade da escola do bairro do Lins de Vasconcelos.
A apresentação no primeiro módulo estava sendo realizada corretamente, quando a harmonia precisou puxar a escola para andar, prejudicando o final da apresentação. A melhor apresentação para os jurados ocorreu no último módulo, de cabine dupla. A nota negativa que merece ressalva é relativa ao excesso de pessoas com blusa escrito “bateria” na lateral da pista, que prejudicou a cobertura dos profissionais envolvidos, além de atrapalhar a própria galera do ritmo.
Segunda escola a desfilar na Sapucaí nesta noite de quinta-feira, a Inocentes de Belford Roxo apresentou o enredo “A meia-noite dos tambores silenciosos”, sobre um rito de preservação da tradição afro-brasileira, que ocorre anualmente no carnaval de Recife. Em desfile pelas ruas da capital pernambucana é celebrada a liberdade e os espíritos ancestrais ao silêncio dos tambores.
A agremiação da baixada fluminense trouxe para o seu desfile a entidade Oyá, na qualidade de Oyá Igbalé, que é ligada à ancestralidade e aos Eguns. Trata-se do primeiro orixá invocado na celebração retratada pelo enredo da Inocentes, estando presente na comissão de frente, na ala das baianas e no carro abre-alas.
O abre-alas da Azul, Vermelho e Branco trazia na parte superior da alegoria, uma caprichada escultura de Oyá Igbalé, toda vestida de branco. Na parte frontal, havia uma grande escultura da cabeça de um búfalo, que passou pela avenida do samba soltando fumaça pelas narinas.
O carro tinha a predominância da cor vermelha, possuindo nas laterais dez esculturas de dentes de marfim com um búzio nas pontas. O destaque central, Marcos Lerroy, veio com uma luxuosa fantasia branca e prateada simbolizando um babalorixá. O destaque mais acima, Satu Salgueiro, representava as borboletas de Oyá.
A alegoria, batizada de “Tambores para o ancestrais”, estava grandiosa e muito bem acabada. Reginaldo Gomes, presidente da escola, explicou ao site CARNAVALESCO que Oyá Igbalé é a entidade responsável por fazer a comunicação entre o aiyé (céu) e o òrum (terra), trabalhando com a energia das pessoas que já morreram.
As composições do abre-alas vieram em cima dos “queijos” laterais, que simbolizavam atabaques africanos, entre as esculturas de dentes de marfim, com uma fantasia dourada e vermelha, com muito glitter e alguns búzios. Na cabeça, uma coroa dourada com penas listradas em branco e preto dava um toque especial à fantasia delas.
Ana Lúcia, 46 anos, trabalha na prefeitura de Belford Roxo e confessou estar emocionada antes de entrar na Sapucaí. “Depois de dois anos, com tudo parado, com essa pandemia. Graças a Deus estamos voltando com força total, com muita garra, muita felicidade… É uma sensação inexplicável”.
A servidora pública Tatiane Nunes, 46 anos, também estava ansiosa para o desfile da Inocentes. Terceiro ano saindo pela escola, ela elogiou a temática do enredo e comentou a importância de se respeitar as mais diversas religiões. “Eu respeito todas as religiões, tenho a minha fé, independente de religião, eu acredito em todos”.
Se existe algum título que foi memorável não só para os torcedores do time, como também para a história do Clube Regatas do Flamengo, foi a vitória conquistada no Mundial de Clubes em 1981. Fazendo referência a este feito tão honroso, a bateria da escola presta homenagem através de seu figurino inspirado nos trajes japoneses, país onde o título foi concedido.
Em entrevista ao CARNAVALESCO, alguns ritmistas da escola, também torcedores apaixonados do clube, dividiram um pouco da emoção por terem desfilado em homenagem ao Flamengo.
“Foi uma sensação inexplicável! Além de eu ser muito estaciano desde que eu nasci, eu também sou flamenguista para caramba, por isso a emoção foi muito forte, mas quebramos tudo na Sapucaí”, contou Rodrigo Fernandes, parte dos tamborins da Medalha de Ouro.
O mesmo relato de emoção foi dado pelo ritmista Lohan, de 26 anos, responsável por tocar uma das caixas na escola.
“Sem explicação nenhuma, emoção muito grande. Quebramos tudo já ali no setor 1, é Estácio e Flamengo, não tem jeito, estou em casa”, desabafou.
O senhor Otair Mariano, de 60 anos, também integra a bateria na parte do repique. Flamenguista doente, também se mostrou bastante emocionado com a homenagem prestada pela escola ao seu time amado.
“Não tem nada melhor do que unir os dois amores da minha vida, Estácio de Sá e Flamengo. Estava com a mão coçando para voltar a tocar, porém melhor do que só voltar, é voltar tocando para o meu Flamengo”.
Após 10 anos sem pisar no solo sagrado da Sapucaí, a Lins Imperial abriu a segunda noite de desfiles da Série Ouro se destacando no geral em alegorias e fantasias, e contando de forma bastante leve a história do humorista Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum. Alguns pontos em evolução, como a abertura de alguns buracos, devem fazer com que a escola perca alguns décimos. A harmonia também esteve um pouco irregular com as alas cantando bastante o samba e outras nem tanto. Com o enredo “Mussum pra sempris – traga o mé que hoje com a Lins vai ter muito samba no pé”, a escola encerrou seu desfile com 55 minutos. * VEJA FOTOS DO DESFILE
Coreografada por Carlos Bolacha, a comissão de frente apresentou três figurinos diferentes, “Sambista da Lins Imperial”, “Os originais do samba” e “Kid Mumu da Mangueira”, todos representavam o ritmo de verdade que sempre esteve no morro. Pois Mussum nunca negou de onde veio carregando no nome, suas origens. A coreografia de avanço apresentava um passo malandreado, quando se iniciava a apresentação nos módulos, os bailarinos subiam no elemento cenográfico que representava ao mesmo tempo o morro do Lins e um palco. Na troca de figurinos, surgiam os originais do samba com ternos nas cores amarelo e preto. No final da apresentação, o homenageado surgiu no alto do morro com uma de suas paixões, vestido de Flamengo. Uma coreografia leve com algumas pequenas surpresas, como ponto negativo, a qualidade de acabamento do elemento cenográfico deixava a desejar um pouco.
O primeiro casal da Lins Imperial, Jackson Senhorinho e Manoela Cardoso, vestiu a fantasia ” A exuberante natureza do morro da Cachoeirinha” trazendo a paisagem da localidade na década de 1940, quando Mussum nasceu, conforme os relatos orais de moradores. Na apresentação nos três módulos, o vento era bastante intenso gerando algumas dificuldades para a porta-bandeira que quase chegou a enrolar a bandeira algumas vezes, mas segurou bem o desafio. A coreografia mais tradicional trazia a pontuação em alguns momentos de alguns poucos trechos do samba como “onde parecia um céu no chão” em que havia uma pequena referência para o alto.
O canto da escola foi irregular. No início, nas primeiras alas como “samba, inspiração de Carlinhos” cantavam pouco o samba, a partir da metade do segundo setor com as alas “LP dos Originais do samba”, ”Primeira Bienal do samba – Elis Regina, parceira de um bamba partideiro original”, e ainda “Cadê Tereza? Pega ela peru”, o canto melhorou. Depois, nos últimos setores havia alas com mais canto e outras com pessoas se limitando a cantar trechos como o refrão principal e o trecho que vem logo antes “Mussum… um trapalhão que inspira tanta gente”.
A Lins Imperial apresentou o enredo “Mussum pra sempris – traga o mé que hoje com a lins vai tem muito samba no pé”, com o objetivo de homenagear um de seus filhos mais ilustres. Se utilizando do “Poema de sete faces” de Carlos Drummond de Andrade, a escola pretendeu mostrar as diversas faces do multiartista Carlinhos, nome de batismo do eterno Mussum. O enredo foi contado de forma leve, com as fantasias tendo uma fácil leitura e bem irreverente como era o artista. No primeiro setor, “Da Cachoeirinha, lá vai Carlinhos ser estrela na vida!”, aludindo à conexão que há entre o humorista e a Lins Imperial. Já no segundo setor, “Carlinhos do Reco-Reco e o Sucesso dos Originais do Samba”, retratando sua paixão pelo samba. No terceiro Setor “Carlinhos da Mangueira e do Flamengo”, rememora a ligação do homenageado com a Estação Primeira de Mangueira e o Flamengo. Por fim, no quarto Setor “O Astro Mussum”, retrata a face humorística que ganhou a TV, o circo e o cinema. E no último setor, “Mussum Pra Sempris”, celebra Mussum eternizado nos corações e nas redes de muitos brasileiros.
Evolução
A evolução da escola teve alguns problemas de buraco, em frente ao primeiro módulo de julgamento houve um espaçamento quando a bateria de mestre Átila parou e a ala que vinha a frente avançou, chegando a contar a distância entre duas caixas do sistema de som da Avenida entre as duas partes da escola. Mais para o final, a escola chegou a evoluir de forma mais rápida quando passou do setor 8, também no final do desfile após apresentação da bateria no terceiro módulo de julgamento. Ainda assim, foi uma evolução bastante solta, com os componentes privilegiando o samba no pé e não formando fileiras tão rígidas. Destaque para as alas “escolinha do professor” e “os amigos trapalhões”.
Samba-enredo
Lucas Donato e Rafael Tinguinha fizeram sua estreia como intérpretes oficiais na Sapucaí cantando um samba bastante leve, irreverente que teve um bom andamento apresentado pela bateria de mestre Átila, estreante na escola que não deixou que a obra ficasse muito arrastada. Dos trechos mais cantados se destacaram o refrão principal e o trecho que vem logo antes e que começava em “Mussum o trapalhão que inspira tanta gente”. A utilização de expressões do contexto do humorista homenageado como “mé” e “pra sempris” foram uma boa sacada e interagiam com o público que se divertia.
Fantasias
Grande destaque do desfile da Lins Imperial, o conjunto de fantasias trouxe soluções estéticas de muito bom gosto, leves, de fácil entendimento e com materiais que reluziam e produziam um bonito efeito principalmente para quem olhava da arquibancada. Destaque para as baianas “Dona Malvina, mulher-referência de Carlinhos” que representavam justamente Dona Malvina, mãe de Mussum, trazendo a foto da matriarca . A bateria de mestre Átila “Um coração que pulsa em verde e rosa” fez uma referência ao coração apaixonado de Carlinhos pela Mangueira. Os compositores, departamento feminino e a velha-guarda vieram com o figurino intitulado “menestréis do reino das palavras de Carlos Drummond de Andrade “, fazendo alusão ao Carnaval de 1987 da Mangueira, último campeonato que Carlinhos participou pela escola. A ala de passistas “ o reino encantado de Monteiro Lobato” homenageou o título da Mangueira de 1967, o primeiro que Mussum esteve envolvido.
Alegorias
As alegorias estavam um pouco irregulares, ainda que se possa destacar a beleza do Abre-Alas “O Morro da Cachoeirinha, onde nasceu Carlinhos”, representando como o nome já diz o Morro da Cachoeirinha, uma das comunidades do Complexo do Lins, ponto de interseção entre Antônio Carlos Bernardes, o Mussum, e a Lins Imperial. Também a segunda alegoria “TV, circo e cinema – O astro Mussum” que trazia imagens das produções de Mussum em espetáculos da dramaturgia e até cenas de bastidores. Como destaque negativo o tripé “Carlinhos do Reco-Reco e o sucesso dos Originais do Samba”, tinha pouca iluminação e teve problemas com o plástico que em um momento ficou solto representando perigo de queda para um componente. O último carro com o rosto de Mussum virado para cima, era coerente com a proposta de celebrar o artista eternizado nos corações e nas redes, por meio de memes e emojis. Mas esteticamente, o artifício não produziu um bom efeito.
Outros destaques
A bateria de mestre Átila realizou uma bossa no trecho do samba “ No quintal de folhas secas, tocou surdo de Primeira” fazendo alusão ao toque consagrado dos surdos da bateria Tem Que Respeitar meu Tamborim. Neste momento os ritmistas também faziam coreografia, seguindo o balanço da bossa, se movimentando de uma lado para o outro, posicionados de frente para o público. A rainha de bateria Danny Fox e o rei Johnathan Avellino chamaram bastante atenção do público pela simpatia e pela fantasia “Mangueira teu cenário é uma beleza”. O ator Hélio de La Peña, amigo do humorista homenageado, também participou do desfile.
Após dois anos de carnaval paralisado devido à pandemia do Covid-19, que impossibilitou o encontro entre os seres, a festa está de volta e neste ano de 2022, passou pela avenida no segundo dia de desfiles, a Inocentes de Belford Roxo e seu enredo que promoveu um encontro de humanidades. A escola entregou uma aula de ancestralidade na Sapucaí por meio do enredo ‘A meia-noite dos Tambores Silenciosos’.
Trata-se de um ritual que trabalha com o encontro e a troca de energias entre òrunàiyé (òrun – reino espiritual e àiyé reino da matéria). É momento sagrado para os povos de origem Banto e é òrunàiyé que o primeiro casal representou na avenida na sua apresentação no segundo dia de desfiles na Marquês de Sapucaí.
Após muita superação através de harmonia e garra, o casal formado pelo mestre-sala Douglas Valle e a porta-bandeira Jaçanã Ribeiro apresentou lindo espetáculo na avenida. Em entrevista para a equipe do site CARNAVALESCO, falaram da importância da temática.
“É uma honra estar dentro desse enredo e essa fantasia traz a lembrança de que meia noite é o começo do ritual, então hoje estamos representando o início de tudo. Muito feliz” disse Douglas.
“Essa penumbra significa todo o nosso enredo. Significa a lembrança de que a meia noite os Tambores Silenciosos fazem homenagem aos seus mortos que sofreram no trajeto dos navios negreiros que desembarcaram no Brasil”, contou Jaçanã.
Fora a coreografia do casal, a representativa veio de forma luxuosa na fantasia de ambos. Predominantemente negras, as duas fantasias vieram com detalhes nas cores prata e azul. Também receberam um colorido especial nas abundantes penas que formavam a saia da porta-bandeira e as costas do mestre-sala. Na cabeças, os dois usaram um adereço que remetia ao fogo de uma vela . Outro destaque da fantasia está no grande relógio prateado, branco e preto que envolvia a cintura de Jaçanã. A hora registrada era a meia-noite.
Com o enredo ‘Noite dos Tambores Silenciosos’, a Inocentes de Belford Roxo apresenta na avenida um desfile que aborda distintas ancestralidades pretas vindas do continente africano. Chama atenção a quinta ala da escola, pois é inspirada e apresenta uma tradição distante do cotidiano carioca. Trata-se da Coroação dos Reis Negros.
É sabido que entre os séculos XVI e XIX povos pretos de todos os pontos da África foram escravizados e comercializados para Europa e Américas, os povos de origem Banto estão dentro do conjunto de cativos transportados ao Brasil.
Ocorre que os Banto, diferentemente de outros, não foram catequizados pela igreja católica em solo brasileiro, pois já traziam do Centro-Ocidental da África a relação com o catolicismo. Isso ocorreu, porque o antigo reino do Congo, famoso por sua fortuna e relações comerciais, buscava estreitar laços com novos povos. Portugal, em 1483, foi um dos interessados e elaborou uma visita diplomática ao Congo e por meio de Diogo Cão, enviou um navio para estudo de caso.
Constatada a riqueza e influência congolesa na região Centro-Ocidental do continente, Portugal tenta iniciar conversas para um novo acordo comercial. A ideia era expandir o comércio de cativos e o antigo Congo era uma das nações mais fortes desse mercado, porém, por alguma razão que não se sabe ao certo o encontro acabou de forma conflituosa e com parte dos portugueses presos no Congo. Enquanto por sua vez, os portugueses fugidos do reino levavam alguns presos congoleses. Em solo português, os congoleses foram tratados muito bem, receberam aulas de português e foram inseridos na sociedade. Deste modo, importaram novos hábitos, como o catolicismo.
Após uma temporada, Portugal tentou nova investida no reino mani Congo, mas dessa vez levava nos navios os congoleses aportuguesados junto a tripulação. Com os novos diplomatas entrando no diálogo entre os povos, o laço político-comercial foi consolidado. Os congoleses estavam tão satisfeitos com o acordo conquistado, que o mani Congo (o rei) da época solicitou formalmente um pedido para ser convertido ao catolicismo.
Como na visão congolesa o mundo era divido em dois, uma parte visível e outra invisível. O lado visível é vivo através do povo (preto) e o invisível pelos ancestrais que já se foram e moram do outro lado do mar. Ocorre que com a chegada dos portugueses, eles vieram a descobrir um povo vindo do outro lado do mar e assim a chegada dos brancos foi interpretada como um encontro com os ancestrais que eram mais sábios e generosos, portanto, cabia aos que ainda estavam em vida o respeito e subserviência.
Com um desenrolar da relação de imposição entre Portugal e Congo, a religião católica acaba sendo imposta no reino africano, todavia, não é o mesmo catolicismo encontrado em Portugal e Europa, porque os povos Banto mantiveram vivos muitos traços de sua religiosidade local. Surge aí o catolicismo negro. Por outro lado, o estreitamento de laços também trouxe traços portugueses a ritos congoleses e é aí que entra a ala 5 da Inocentes de Belford Roxo.
A ala que leva o nome de ‘irmandade dos homens pretos’, faz referência a irmandade nascida em salvador, na Bahia. Essa irmandade ficou marcada na história como sendo uma confraria católica criada para receber os pretos que queriam cultuar sua fé, mas eram impedidos pelos seus senhores de frequentar as mesmas igrejas que eles.
A história é representada na ala através de uma fantasia predominantemente branca, com acessórios negros na cabeça e uma peça que cobre peitoral e ombros dos componentes. A fantasia também é rica em detalhes dourados. Seus componentes carregaram um estandarte que levava a imagem de Santo Antônio de Categeró, ex-escravo muçulmano que se converteu ao cristianismo e tornou-se nome forte da peregrinação em nome de Jesus.
A memória resgatada pela ala traz alegria e orgulho aos componentes dela. Como conta a equipe do site CARNAVALESCO, Adriano dos Santos Silva e Edna Conceição de Oliveira.
“Me sinto muito feliz de estar representando nosso povo. Seja do nosso bairro ou não, a gente já sofreu muito, então hoje é uma data feliz”, falou Adriano.
“Não é só essa ala que é importante. Nosso enredo é importante para defender nossa cor. Nosso país tem muito preconceito com a gente, então fico feliz da nossa escola defender a gente e eu estar desfilando nessa ala”, contou Edna Conceição.