A bateria Sinfonia Imperial de mestre Jordan fez uma ótima apresentação. Uma afinação acima de média de surdos foi notada, dando sustentação e permitindo a fluência rítmica entre os diversos naipes. O balanço das terceiras adicionou valor sonoro a bateria do Império da Tijuca. O complemento das peças leves preencheu a musicalidade do ritmo com eficácia.
A ala de tamborins passou firme e coesa, acrescentando na sonoridade da cabeça da bateria. Tudo sincronizado com um naipe de chocalhos também de qualidade e precisão, além da bela ala de cuícas. As paradinhas possuem um apurado grau de dificuldade, tendo sido realizadas de modo satisfatório em todos os jurados.
A bossa que começa no final da segunda foi utilizada junta com outra que inicia no refrão principal, só terminando na primeira do samba. Isso construiu uma narrativa rítmica extensa na apresentação da bateria, evidenciando o bom ritmo da bateria do Império da Tijuca.
A bateria Swing Puro de Mestre Luygui fez uma boa apresentação. A afinação de surdos merece menção musical positiva, pois amparou um balanço dos surdos de terceira diferenciado. Tudo isso aliado a um bom trabalho dos repiques, além uma batida de caixas com volume, ressonante e demonstrando coesão rítmica.
O acompanhamento das peças leves foi correto. Um naipe de chocalhos tocando com firmeza e uma ala de tamborins com bom volume. Uma ala de agogôs acima da média foi notada, bem como um naipe consistente de cuícas. O arranjo musical envolvendo virada com os surdos deram swing ao ritmo, tanto na primeira quanto na segunda do samba, acrescentando valor sonoro a bateria da Vigário Geral.
As paradinhas uniram complexidade musical a um grau de dificuldade alto. As bossas foram realizadas de maneira correta nos módulos de jurados. O destaque musical ficou com a paradinha com solo de atabaques junto dos agogôs, produzindo uma inegável qualidade sonora.
Um desfile que começou promissor e terminou de forma caótica, assim pode ser definida a passagem da Acadêmicos de Vigário Geral, a comissão de frente emocionou e trouxe uma mensagem muito forte logo no início, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira também merece destaque, visualmente a escola cometeu alguns erros, porém, o quesito mais problemático da escola foi a evolução, devido uma grande dificuldade de locomoção do segundo carro ocasionou vários buracos ao longo da avenida. * VEJA FOTOS DO DESFILE
Apresentando o enredo “Pequena África – Da Escravidão ao Pertencimento, Camadas de Memórias entre o Mar e o Morro” assinado pelos carnavalescos, Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, a Vigário Geral foi sexta a cruzar a passarela do samba na segunda noite de desfiles da Série Ouro. A escola terminou sua apresentação com 52 minutos.
Comissão de Frente
Coreografada por Handerson Big, a comissão de frente era intitulada “Histórias Negras Importam”, foi um dos grandes destaques da escola neste desfile, os 15 componentes representavam os negros trazidos da África para o Brasil, a apresentação focou em mostrar como o Cais do Valongo foi a porta de entrada para que inúmeras histórias negras chegassem e se incorporassem a sociedade. As fantasias estavam bem acabadas, destaque para uma espécie de máscara que os integrantes usavam, durante a apresentação eles carregam uma espécie de saco, na frente dos jurados, cada componente retirada de dentro um instrumento musical, porém, o ápice acontecia no final, quando eles abriam esse saco e revelavam o rosto de crianças negras mortas em confronto nas comunidades Cariocas, a frase “Vidas Negras Importam” finalizava a apresentação, o público nas frisas e arquibancadas se emocionaram e aplaudiram com muito vigor.
Mestre-sala e Porta-bandeira
A fantasia do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diego Jenkis e Thainá Teixeira, representou a relação entre o Brasil e o Continente Africano, marcada pelo comércio de escravos, a roupa de Diego tinha as cores da bandeira do Brasil, e a porta-bandeira representava a África. Apresentando uma dança de ritmo cadenciado, sincronizada e com gestos graciosos, a dupla não cometeu falhas expressivas nos módulos de julgamento, durante toda a dança, eles pareciam muito à vontade com o trabalho que estavam realizando, pode-se destacar os movimentos em referência a dança de matriz africana.
Harmonia
O samba da agremiação foi um dos grandes destaques da escola e ocasionou um canto satisfatório por parte dos componentes, o carro de som conduziu com maestria a obra e ao lado da bateria impulsionou o coro da escola, porém, devido a alguns problemas de evolução, a escola ficou parada em alguns momentos, acarretando em um certa preocupação dos integrantes das alas. No geral, a escola cantou com bastante vontade, mas sem um grande momento de explosão, como destaque pode-se citar a ala 10, que representava os filhos de santo, a ala de passistas, que sambou e esbanjou carisma por toda a avenida, a ala 18, “Onde há um negro, há uma pequena África”, também apresentou um bom desempenho harmonico.
Enredo
O enredo da escola foi apresentado de forma linear pelo carnavalescos, o primeiro setor representou a chegada dos escravos ao Rio de Janeiro, mostrando toda a saga que enfrentaram, o segundo setor retratou a ocupação deles em novos territórios, mostrou a constituição da Pequena África e finalizou no carro da celebração das religiões de matizes africanas, o último setor da escola falou sobre o legado e as instituições negras presentes na atualidade. As alegorias e as fantasias conseguiram passar com clareza a história que era contada, mesmo com a simplicidade, foi possível identificar a história que estava sendo contada sem dificuldade.
Evolução
A escola apresentou graves problemas de evolução ao longo do desfile, em um primeiro momento, na primeira cabine de julgamento, a bateria se apresentou e a ala da frente seguiu, porém, o momento mais crítico ocorreu em função da quebra do segundo carro no meio da avenida, desde o primeiro módulo o carro apresentou problemas para se locomover, os empurradores tiveram muita dificuldade pra fazer o carro andar, na altura do setor seis, um grande buraco se estendeu até o início do setor 10. Com certeza foi o quesito mais crítico da escola e que vai ocasionar em perdas de pontos preciosos.
Samba-Enredo
Um dos pontos altos do desfile foi o samba, de autoria de Júnior Fionda, a obra rendeu muito bem na avenida, impulsionado por uma interpretação muito boa de Tem-Tem Jr, juntamente de todo o carro de som. Foi possível observar um canto satisfatório por parte da comunidade, uma das partes de maior destaque foi o refrão principal, o início do samba, apesar de bastante melodioso, proporcionou um canto muito bonito. Foi possível observar o público nas frisas e arquibancadas cantando junto.
Alegorias e Adereços
O conjunto alegórico da escola apresentou altos e baixos, a dificuldades financeira da escola ficou evidente em alguns momentos, porém, o primeiro carro, que representava a travessia dos negros da África para o Brasil, na parte de trás do carro foi representado um casarão antigo, feito com pintura de arte. A segunda alegoria, mostrou a celebração às religiões de matriz africana, o carro teve uma grande escultura de um preto, porém, era possível observar problemas de acabamento na cabeça da escultura, esse carro ainda apresentou problemas de locomoção durante toda a avenida. O último carro fez uma crítica a situação atual dos negros no Brasil, uma comunidade foi representada, na traseira do carro algumas roupas penduradas deram um aspecto pobre ao carro.
Fantasias
O conjunto de fantasias da escola apresentou altos e baixos, algumas fantasias tinham soluções muito simples, foi observado que uma componente da segunda ala estava sem costeiro, na ala 11 algumas penas artificiais estavam com as hastes quebradas, outro problema foi observado na ala 12 uma componente estava segurando o costeiro. No último carro, alguns componentes que estavam empinando pipas estavam apenas com a camisa do enredo, o que não configura fantasia. O destaque positivo fica para a primeira ala, “Africanos”, a ala quatro, que representava um cemitério, causou impacto, a ala de baianas estava com uma fantasia muito bonita e que proporcionou uma evolução boa das matriarcas.
Outros Destaques
A bateria do Mestre Luygui representou os Filhos de Gandhi, a fantasia tinha uma leitura muito fácil e proporcionou que os 219 se apresentassem sem dificuldades, as bossas realizadas empolgaram as frisas e arquibancadas. A rainha Egili Oliveira se destacou à frente da bateria, com uma fantasia predominantemente branca, ela representou uma saudação a Oxalá.
A bateria Guerreiros de Mestre Dinho fez um bom desfile. A boa afinação de surdos foi notada, com timbre mais grave. O swing proporcionado pelos surdos de terceira contribuíram com a musicalidade da bateria da Unidos de Padre Miguel (UPM). O acompanhamento acima da média das peças leves ajudou na equalização da bateria, além de propiciar equilíbrio ao ritmo. A ala de tamborins tocou de modo coeso, alcançando uma sonoridade uníssona, além de um volume sublime, acrescentando valor musical a bateria da UPM. O naipe de chocalhos obteve uma produção sonora que auxiliou no preenchimento musical da cabeça bateria, assim como agogôs e cuícas ajudaram de forma precisa. As paradinhas possuem elevado grau de complexidade, tendo sido executadas corretamente nos módulos de julgadores.
A bossa de destaque reúne atabaques fazendo solo remetendo ao toque da Vamunha, além de executarem a batida com duas baquetas, representando o aspecto de valor sagrado envolvendo o Aguidavi, espécie de vareta de percussão para atabaques nos rituais de Candomblé. Com o valor cultural atrelado à sua musicalidade, o desempenho da bateria de Mestre Dinho ocorreu sem eventuais transtornos sonoros diante dos jurados.
A nota musical negativa fica para o som da Avenida logo após a bateria Guerreiros sair do segundo recuo, chegando a faltar retorno sonoro de dentro da pista, além de ter sido evidenciado certo atraso. Entretanto, o problema mencionado não prejudicou a bateria na exibição do último módulo, que se apresentou cantando o samba da escola e produzindo seu ritmo mesmo diante da dificuldade.
A Unidos de Padre Miguel apresentava pelo menos a melhor abertura de uma escola na Série Ouro de 2022, juntando elemento alegórico da comissão de frente, pede passagem com a cabeça do boi vermelho, e o abre-alas trazendo a grande árvore sagrada. Mas justamente o abre-alas que compunha o conjunto que mexeu com o público desde os primeiros minutos, apresentou problemas que geraram consequências negativas para a evolução da escola. A presença de um enorme buraco entre os setores 6 e 8 deve custar preciosos décimos. O canto da escola, a comissão de frente e o casal também se destacaram na Vermelha e Branca de Padre Miguel. Com o enredo “Iroko – É tempo de Xirê”, a Unidos foi a quinta escola a desfilar na segunda noite da Série Ouro, encerrando sua apresentação com 52 minutos. * VEJA FOTOS DO DESFILE
Fotos de Allan Duffes e Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO
Comissão de Frente
O coreógrafo David Lima trouxe para a Avenida a comissão “Guardiões do tempo” que significavam o fruto de uma árvore cheia de histórias, dando continuidade ao legado como guardião das marcas do tempo. O grupo trouxe o elemento cenográfico “Poderoso Dono dos Caminhos”, um enorme ser orgânico, mistura de raiz, árvore com humano, que impressionava pelos movimentos que lhe concediam tamanha realidade. A fantasia dos bailarinos também se destacava com leds verdes no peito acendendo durante a coreografia e com capas que imitavam de forma perfeita folhagens. Na mão um bastão, e na ponta dele uma ampulheta remetendo ao orixá homenageado no enredo. Durante a apresentação na primeira e na terceira cabine em um dos momentos que os bailarinos interagiam com o elemento cenográfico, uma das capas penduradas caiu no chão. Também na terceira cabine, um dos LEDS da roupa acendeu antes da hora.
O primeiro casal, Vinicius Antunes e Jéssica Ferreira, estavam fantasiados de “sopro da criação “, significando a centelha divina de Olorum, que ganha forma e gira no compasso que se eterniza no momento da criação do universo. O casal apresentou uma coreografia irretocável com muita intensidade de movimentos. Em alguns trechos do samba, a dupla realizava terminações correlacionadas com os versos do samba, como em “Bato cabeça”, com uma reverência de cabeça e no “o vento sopra” em que eles reproduziam com os braços movimentos que remetiam a rajadas de ar. O único ponto de correção a ser citado é que no segundo módulo a bandeira poderia ter ficado mais desfraldada em alguns momentos.
A comunidade da Unidos de Padre Miguel abraçou o samba e cantou do início ao fim, mesmo com os problemas em evolução e os momentos em que foi preciso se deslocar mais rapidamente. Até os componentes da comissão de frente vieram cantando os trechos do samba, principalmente durante a coreografia de avanço. Destaque para as alas ” a água” e “o fogo” no primeiro setor, “no chamado de Iroko” e “Obaluayê”, no terceiro setor. Na abertura do desfile o carro de som apresentou um canto para o Orixá, antes de entrar no samba propriamente dito.
O enredo “Iroko – é tempo de xirê”, de autoria do carnavalesco Edson Pereira e comissão artística, apresentou na Avenida as crenças em torno do Orixá Iroko, a Árvore-Orixá de raízes fortes, que representa a dimensão do tempo e através da qual todos os demais Orixás desceram à Terra. A história se iniciou no poder da criação, na semente sagrada que deu origem à vida. Em um segundo momento deu-se destaque aos elementos vitais de transformação: a terra, o fogo, a água e o ar. Por fim, no terceiro setor, a Unidos trouxe a comunhão entre os Orixás. Ainda que um pouco denso na sua essência, a homenagem a Iroko foi entendível em sua maioria para o público, principalmente na questão visual e na presença de alguns elementos que remetiam ao tempo como as ampulhetas. Apenas algumas fantasias, tinham menos leitura.
Grande decepção do desfile, a evolução da escola começou a dar errado quando o abre-alas apresentou dificuldades já para entrar na Avenida, ameaçando a formação dos primeiros buracos. Mas, o ponto crucial se deu quando a alegoria se aproximava da segunda cabine, após a apresentação de comissão de frente, casal e pede passagem. O abre-alas gerou dificuldades para se movimentar, a escola teve que empurrar com muita dificuldade e os elementos da escola que estavam na frente seguiram em evolução abrindo um enorme buraco entre os setores 6 e 8. O problema ainda gerou uma evolução no decorrer do desfile bastante irregular e corrida em alguns momentos, até melhorar um pouco após a saída da bateria do segundo recuo. A se destacar de positivo apenas a espontaneidade de algumas alas como a “Ibís”, ala das crianças que evoluíram de forma leve.
Samba
O samba foi comandado pela dupla de intérpretes oficiais Diego Nicolau e Guto. Com bom entrosamento e sem vaidade, em alguns momentos Guto segurava mais o samba e Diego ficava livre para a realização de alguns cacos oportunos que chamavam os componentes ao canto. A bateria ” Guerreiros da Unidos”de mestre Dinho deu ao samba um andamento mais direto que equilibrou a parte melódica gerando força, impacto e intensidade na obra. Entre os trechos mais cantados estavam a cabeça com o “Tempo Misterioso tempo”, e os refrãos do meio e principal.
Fantasias
A escola trouxe um conjunto de fantasias muito luxuoso e com bom acabamento. Fantasias grandes com capricho tanto nas cabeças e esplendores como na parte de baixo, no corpo. Difícil destacar apenas algumas, mas trazendo por setores, no primeiro setor, as baianas “Iamis, grandes mães semeadoras” representavam as guardiãs do ventre do mundo e da ancestralidade feminina, relacionando tons em palha com azul escuro, se utilizando de leds. No segundo setor, as alas “Ibís”, das crianças e “A água” traziam os componentes também maquiados, apresentando um bonito efeito. Já no terceiro setor, o destaque fica para as alas “Oxumaré”,”Ossain” e “Oxalufã”, com vestimenta homenageando as religiões de matriz africana.
Alegorias
Outro ponto de destaque, o conjunto alegórico da Unidos de Padre Miguel trouxe beleza, grandiosidade, detalhismo e luxo. No “pede passagem”, o boi, símbolo da escola, bufando fumaça e trazendo elementos sonoros. O carro abre-alas “A Grande Árvore Sagrada – Orixá-Árvore, Árvore-Orixá” representou o princípio, a eternidade, a dança antiga da criação. A árvore inclusive fazia o movimento do vento. A segunda alegoria “Iroko-Árvore: Guardião da Natureza, Morada dos Orixás”, trazia roldanas no final que produziam um bonito efeito de ciclo. E por fim, no último carro “O Branco da Paz de Iroko em Comunhão com Obatalá”, uma pomba realizava movimentos com as asas em uma grande altura. Todos os carros possuíam uma iluminação de destaque.
Outros Destaques
O intérprete Guto estreou como voz oficial da escola ao lado de Diego Nicolau que já está no seu terceiro desfile. A bateria de mestre Dinho vestia “no ritmo do tempo”, apresentando a marcação do compasso do tempo, roupa de gala para o Xirê. A rainha de bateria Karine Costa era “A Beleza da Dança da Avania”. A alas de passistas “o brilho dos minerais” apresentou Iroko dos ciclos da vida e também da vida sem vida do brilho dos minerais que brotam das profundidades da terra. A velha-guarda veio como “a ancestralidade da Unidos de Padre Miguel”. O carnavalesco Edson Pereira foi muito aplaudido no final do desfile e ouviu até alguns gritos de “É campeã”.
Tituladas como “Visão Europeia”, as baianas da Acadêmicos de Vigário Geral desfilaram a obra ‘O Vendedor de Flores”, de Jean-Baptiste Debret. Em entrevista ao CARNAVALESCO, a fantasia de cor predominantemente vermelha com alguns detalhes em dourado, foi bastante elogiada pelas próprias baianas da escola.
A costureira de 70 anos também baiana, Tânia Mara, não pensou duas vezes em ceder elogios. “Nossa fantasia está ótima, muito leve e muito gostosa. Foi bom demais dançar com ela”, afirmou.
Telma das Graças, de 69 anos, partilha da mesma opinião da colega. Quando questionada quanto ao gosto sobre a fantasia, respondeu: “Achei essa fantasia linda demais, estou muito emocionada. Representar os nossos antepassados é sempre maravilhoso e necessário. É de extrema importância estar sempre reverenciando nossas raízes”, concluiu a enfermeira.
A baiana Fabíola Alves, costureira de 48 anos, aproveitou para opinar não só quanto a sua fantasia, mas também sobre todo o enredo e proposta da escola.
“A fantasia está muito bonita, mas o que mais me chamou atenção foi essa referência estar muito retratada. O enredo da escola tenta passar uma mensagem de cultura, estou muito feliz. Nosso enredo é atual, é a nossa luta de sempre. Considerando os momentos que a gente tem vivido, quanto mais algo é falado, melhor será entendido”, conclui.
Para o Carnaval 2022, a Acadêmicos de Vigário Geral escolheu o enredo sobre a “Pequena África”, enaltecendo seus valores urbanos e artísticos ao pertencimento histórico-cultural da cidade carioca.
A partir desse enredo, o primeiro casal de mestre sala e porta-bandeira da escola, Diego Jenkins e Thainá Teixeira, representaram justamente a relação entre o Brasil e o continente africano. Em entrevista ao CARNAVALESCO, o casal contou detalhes quanto a representação e significado de suas respectivas fantasias.
“Eu e o Diego viemos representando não só a África e o Brasil, como também toda essa relação que foi construída através dos séculos, especificamente aqui no Brasil. Nosso país tem muito dessa questão do amor e do ódio, além de toda essa questão de resistência negra que se fundou através da nossa colonização”.
Estreando não só com a Thainá, mas também como primeiro mestre sala da escola após 6 anos sonhando em alcançar o primeiro pavilhão da agremiação, Diego visivelmente emocionado, também falou sobre sua fantasia, alegando estar muito empolgado com o desfile.
“Eu desfilei representando o Brasil, dentro da relação entre Brasil e o continente africano, representado pela Thainá. Ainda sim, sem desconsiderar toda a passagem com ligação ao amor e a dor que havia naquela época entre os dois.”
A Acadêmicos de Santa Cruz realizou uma justa homenagem ao ator, cantor e diretor Milton Gonçalves. A Verde e Branco apresentou na avenida o enredo “Axé, Milton Gonçalves! No catupé da Santa Cruz”. A agremiação da Zona Oeste se destacou com uma bela apresentação da bateria de mestre Riquinho, da sua comissão de frente e de seu conjunto alegórico. Porém, a escola pecou em evolução e harmonia, abrindo um buraco no setor 6, em frente a última alegoria. O desfile durou 53 minutos. * VEJA FOTOS
Fotos de Allan Duffes e Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO
Comissão de Frente
A comissão de frente da Santa Cruz representou a dança do catupé e a coroação dos reis negros. O grupo foi composto por 15 integrantes, sendo um casal e 13 bailarinos, coreografados pela dupla Marcelo Chocolate e Marcelo Moragas. O bailado foi dinâmico, expressivo e vigoroso. Em certos momentos do desfile, o casal, que vestia uma roupa colorida e luxuosa, era erguido nos braços de outros componentes da comissão. Em outro trecho da dança, alguns bailarinos retiravam rapidamente um tecido de suas capas para vesti-lo do avesso no casal de reis negros, provocando um belo efeito.
No fim da apresentação, o casal se ajoelhava para receber uma coroa dos bailarinos, que se abaixavam em reverência à realeza. Nesse instante, com os integrantes de cabeça baixa, a parte superior dos chapéus formava a frase: Preto é rei. A coreografia recordou as poucas lembranças que Milton Gonçalves guardou da infância vivida em Monte Santo, cidade do interior mineiro onde ele nasceu. O catupé e a coroação dos reis é uma festa que acontecia na matriz, sob as bênçãos de Nossa Senhora do Rosário. A apresentação da comissão durou cerca de 1m55seg em frente ao módulo de julgamento dos quesitos.
O primeiro casal de Mestre-Sala e Porta Bandeira da Santa Cruz, Muskito e Roberta Freitas, desfilou com a fantasia de “Nobres africanos: Raízes ancestrais”. A família de Milton Gonçalves, por parte de pai e mãe, era descendente de negros escravizados. A roupa de Roberta era bem volumosa, com a saia toda revestida de penas de cor verde escuro, máscaras africanas, além de detalhes em laranja, marrom claro e preto.
A fantasia de Muskito veio na mesma tonalidade que a de Roberta, e contava ainda com uma capa laranja com losangos preto. Ambos traziam no costeiro um conjunto de penas marrom claro com pontas pretas.
O casal executou um bailado seguro e sem contratempos durante a passagem da escola pela avenida, apresentando com elegância o pavilhão da Santa Cruz. Sempre sorrindo, a dupla trocava olhares e se entendia a cada movimento. No trecho “Um santo, a cruz da liberdade/ A Santa Cruz é liberdade” ambos abriam os braços para enfatizar o sentimento de libertação descrito no enredo. A apresentação do casal em frente à cabine de jurados durou por volta de 1min50seg.
Harmonia
A Santa Cruz não conseguiu manter a mesma intensidade de canto em todas as suas alas. Tiveram um canto forte na passarela as alas: “A descoberta do cinema”, “Irmãos Coragem” e “O bem amado”. Já a segunda ala, “Um trem para São Paulo: Estação”, desfilou com vários componentes sem cantar a letra do samba por completo. As alas “Arena conta Zumbi” e “Paixão pelo Flamengo” também deixaram a desejar em termos de harmonia.
A Santa Cruz abriu o desfile ressaltando a ancestralidade de seu homenageado, mostrando elementos da cultura mineira, estado de origem do ator. Antes da primeira ala de enredo, desfilaram alguns componentes de camisetas, em uma ala não prevista no livro “Abre-alas”. O segundo setor da escola abordou a infância e juventude de Milton Gonçalves, quando ele foi buscar melhores condições de vida em São Paulo. Em terras paulistanas Milton chegou a fazer vários “bicos”, como guardador de frutas, por exemplo, antes de iniciar sua carreira artística.
O fascínio de Milton com os palcos foi mostrado no terceiro setor da escola. Sua estreia nos palcos de teatro, em 1956, foi lembrada pela ala “Soldado de Chocolate”. Os ritmistas da bateria estavam vestidos de metalúrgicos, em alusão a peça “Eles não usam black-tie”. O último setor da Verde e Branco fez referência à boêmia carioca. As alas deste setor retrataram o amor de Milton pela Mangueira e pelo Flamengo. A defesa pela liberdade artística diante da censura da ditadura também foi lembrada em uma ala da escola. As novelas de sucesso que Milton atuou, como “O bem amado” e “Irmãos coragem” vieram representando os personagens vividos pelo ator.
Alegorias
O carro abre-alas da Santa Cruz veio lembrando das origens mineiras de Milton Gonçalves, trazendo além das cores da escola, verde e branco, um trabalho de acabamento em laranja e dourado. A coroa, símbolo da escola, foi toda entalhada em ébano. Uma escultura de Nossa Senhora do Rosário, junto a igreja matriz de Monte Santo, onde Milton, quando criança, assistia a coroação dos reis negros. Na parte frontal da alegoria, mães de santo e pretos-velho faziam parte da composição.
A segunda alegoria, toda em lilás, simbolizou o período em que Milton trabalhou em uma livraria em São Paulo, ainda adolescente. Uma espécie de coroação do ator pela soberana do conhecimento, a energia anciã de Nanã, retratada como guardiã dos livros em uma escultura frontal. A terceira e última alegoria da escola foi denominada “Oxalá e o bem amado Milton Gonçalves”, em referência ao personagem Zelão das Asas, que tinha o desejo de voar e, no final da trama, consegue realizar. Oxalá veio como símbolo da própria liberdade buscada por Milton ao longo da vida, coroando-o como rei e celebrando a liberdade de seu povo.
Fantasias
A primeira ala da Santa Cruz trouxe para a avenida os “Catadores de café em Monte Santo”. A segunda representou a ida de Milton à cidade de São Paulo, com seus integrantes vestidos de locomotiva. A ala “A descoberta do cinema” trazia estrelas prateadas nos costeiros dos componentes, provocando um belo efeito visual. A ala relembrou o encantamento do ator pela sétima arte. Mesmo sendo constante barrado nas sessões por nao estar “vestido adequadamente”, Milton cultivou sua paixão pelos filmes.
A ala das baianas veio simbolizando a sabedoria de Nanã, com uma elegante fantasia nas cores lilás, rosa e branco. As “Senhoras do Conhecimento” remetem ao período em que o homenageado desenvolveu o hábito da leitura ao trabalhar em uma livraria. A ala de passistas deu show na avenida trajada de “A corte de Zumbi”, em referência ao Quilombo dos Palmares.
Samba-Enredo
O samba-enredo composto por Samir Trindade, Junior Fionda, Elson Ramires e Rildo Seixas teve um belo rendimento na avenida. Apesar do canto não ter sido uniforme durante todo o desfile, os componentes entoavam os refrões com bastante empolgação. “Preto é rei!” e “Obá obá, Obara ôôô” foram os trechos da letra do samba que eram cantados com mais vigor pela comunidade de Santa Cruz. O carro de som liderado pelo intérprete Roninho enfrentou um pequeno apagão no sistema de som da Sapucaí, mas não comprometeu a harmonia da escola.
Bateria
A bateria comandada por mestre Riquinho sustentou o desfile da Santa Cruz, sem deixar de lado a criatividade. As bossas do samba foram executadas com perfeição e precisão. Em uma delas, no trecho “Obá obá, Obara ôôô”, os ritmistas reverenciavam o público enquanto os repiques seguravam o ritmo e voltavam na virada de dois, dando continuidade a bossa. Sem dúvidas, a Tabajara da Zona Oeste foi um dos pontos altos do desfile da Acadêmicos. A frente dos ritmistas veio a rainha da bateria Larissa Nicolau.
Evolução
A Santa Cruz começou seu desfile evoluindo bem, com a maioria de suas alas passando compactas. Porém, quando a bateria entrou no recuo, a escola acelerou o passo para cobrir o espaço deixado na avenida e o último carro não conseguiu acompanhar. Na passagem da alegoria pelo segundo módulo, acabou abrindo um buraco, que só foi corrigido no setor seguinte. As alas “A Paixão pelo Flamengo” e “O amor pela Mangueira” embolaram em alguns momentos do desfile.
Outros destaques
A musa Paula Lacer, com a fantasia “Sacerdotisa da rainha diaba”, conquistou o público com sua simpatia e samba no pé. Ela veio a frente da ala “A rainha diaba – uma revolução”, que remete ao personagem homossexual interpretado por Milton em filme homônimo, dirigido por Antônio Carlos da Fontoura. Com este trabalho, Milton Gonçalves é definitivamente reconhecido por seu talento e capacidade de debater temas de relevância estrutural e cultural.