A bateria Furiosa dos Mestres Guilherme e Gustavo fez uma apresentação muito boa. Uma bateria do Acadêmicos do Salgueiro pesada, com a afinação grave característica, plenamente inserida nas tradições salgueirenses. O swing envolvente dos surdos de terceira proporcionou um balanço que adicionou molho a sonoridade produzida por repiques, caixas e taróis. O complemento das peças leves se deu de modo eficaz, contribuindo com a musicalidade da bateria do Salgueiro. A ala de tamborins executou o desenho rítmico com precisão, firmeza e qualidade sonora.
O naipe de chocalhos com toque coeso e uníssono auxiliou no preenchimento da musicalidade, bem como a boa ala de cuícas. As paradinhas do Salgueiro, com boa concepção musical e grau de dificuldade de execução elevado, fluíram de forma correta durante o desfile. A bossa em que os ritmistas se ajoelham e erguem os braços em ato de “Resistência” provocou boa interação popular, sem contar a representação racial e cultural envolvida, sendo um acerto musical de muito bom gosto.
Já a bossa da primeira do samba, de musicalidade ímpar, garantiu uma sonoridade acima da média. As passagens da bateria Furiosa do Salgueiro pelos módulos de julgadores transcorreu de modo equilibrado e preciso, sem nenhum problema musical a ser relatado de dentro da pista. A melhor apresentação ocorreu na última cabine dupla da Avenida, sendo ovacionada pelo público e muito aplaudida pelos jurados. A única ressalva negativa a ser sinalizada é mais uma vez para um chapéu que prejudicou a visualização de diretores e da bateria. O chapéu tinha penas alongadas tanto para cima, quanto para o lado, dificultando a visão periférica dos ritmistas.
Terceira escola a desfilar no Grupo Especial já na madrugada deste sábado, o Salgueiro apresentou conjunto estético impecável de Alex de Souza. Fantasias luxuosas, alegorias grandes e bem acabadas se destacaram na apresentação da escola. A comissão de frente e o casal de mestre-sala e porta-bandeira também brilharam. Contudo, a escola pecou algumas vezes em evolução e a grandiosidade de alguns figurinos pode ter atrapalhado a leitura do enredo, o que pode tirar a agremiação da briga pelo título. A escola se apresentou em 70 minutos. * VEJA FOTOS DO DESFILE
No primeiro ano como coreógrafo do Salgueiro, Patrick Carvalho trouxe 15 componentes na Comissão de Frente da escola, sendo oito mulheres e sete homens. Batizada de Akikanju Ijó, que significa ‘Dança dos Heróis’, em Iorubá, a apresentação se inicia com o próprio solo do Salgueiro. Em cerca de 2m50s de apresentação, o quesito apresentou grande trabalho. Com roupas metálicas, a dança começa por alguns segundos no chão, e logo em seguida todos sobrem para exibição no tripé.
O elemento solta fumaça e os componentes que estavam em cima, descem, e surgem iaôs, que dançam sobre areia jogada ao ar. Na sequência da encenação, Mercedes Baptista, pioneira como mulher negra no balé, aparece dançando e sobe em um queijo erguido por um punho em riste. Por fim, os componentes seguem a dança com bastante sincronia e mais fumaça é liberada. O segmento teve ótima apresentação e arrancou aplausos do público durante os vários atos.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Um dos grandes casais a pisar na Sapucaí nos últimos anos, Marcella Alves e Sidclei vieram nas cores da escola, representando a tradição de ancestralidade da agremiação. As plumas brancas no figurino da Porta-Bandeira remetem a antigos carnavais, que mantém a tradição da agremiação da legitimação da festa preta. Junto a eles, os Guardiões representaram os guerreiros da escola, em vermelho e branco, com estandartes em homenagens a grandes nomes do Salgueiro, como Laíla, mestre Louro e Anescarzinho. Com a parte de cima prateada, os dois tiveram apresentação impecável em todos os módulos, com sincronia e troca de gestos e olhares. Os dois faziam movimentos difíceis parecer fáceis em cerca de 2m10s de apresentação.
Harmonia
Um dos pontos altos do desfile do Salgueiro foi o canto. A escola cantou do início ao fim, todas as alas não economizaram na voz. O samba também pegou na Avenida e foi bastante entoado pelas arquibancadas. As alas coreografadas também estavam com a obra na ponta da língua e cantou bastante junto aos movimentos. Destaque para as alas 2, ‘Quilombolas’, 9, ‘Omolokôs, 12, ‘Festa de Iemanjá’, e 23, ‘Afoxé’.
O início do desfile do Salgueiro relacionou a história da própria escola com a luta contra o preconceito racial, no qual a agremiação foi pioneira a partir da década de 1960. Os primeiros momentos do Salgueiro na Avenida tiveram bastante vermelho e branco, e alusão a grandes personagens negros da escola e do Brasil. Já no segundo setor, o Salgueiro abordou as religiões de matrizes africanas, com a presença de alas em representação de orixás, caboclos, omolokô e um grande carro com cores e esculturas de Iemanjá.
Em seguida, o Salgueiro levou para a Sapucaí as manifestações negras em seus vários campos, como a culinária, a dança, a música, a arte e o esporte. No quarto setor, a Academia do Samba reforçou a resistência negra através do canto e da dança, com alas em alusão à escolas de samba, ritmos africanos, blocos afro e gêneros oriundos das comunidades cariocas, como o samba, o charme e o funk. O Salgueiro encerrou desfile com os movimentos sociais de combate ao racismo e de resistência preta, como o AfroReggea e o Nós do Morro. A grandiosidade de algumas fantasias, no entanto, atrapalhou a leitura do enredo em determinados momentos.
Evolução
Calcanhar de Aquiles do Salgueiro nos últimos anos, a evolução foi um pouco problemática para a escola novamente. Logo no primeiro módulo, a agremiação abriu um pequeno buraco entre a ala ‘Palmares Salgueirense’ e o Abre-Alas. No setor 6, outro pequeno buraco se abriu na frente da segunda alegoria. Ao fim do desfile, algumas alas aceleraram o passo no setor 11 sem necessidade, o último carro passou rápido pela cabine, mas a bateria não imprimiu correria e se apresentou por completo.
Criticado no pré-Carnaval, o samba funcionou muito bem no Sambódromo. Alas e arquibancadas cantavam bastante a obra, que tinha como pontos alto o refrão, o refrão do meio, e de ‘Sambo pra resistir’ até ‘O povo me chama assim’. Uma leve queda de ‘Hoje, cativeiro é favela’ até ‘Lutaram por nós, contra mordaça’ foi percebida, mas sem atrapalhar o desempenho da obra. Emerson Dias e Quinho também fizeram grande trabalho no carro de som e impulsionaram a escola do início ao fim.
Fantasias
Logo na primeira ala, o Salgueiro relembrou grandes enredos pretos da escola, como em 1960, que teve tema ‘Zumbi dos Palmares’. Batizada de ‘Palmares Salgueirense’, a ala traz um estandarte com a logo dos enredos e fantasia com referências africanas em vermelho, preto e branco. A ala das baianas também chamou atenção pela riqueza de detalhes em dourado, vermelho e preto, que representavam as Camélias do Leblon, com buquês de flores nas mãos. A ala 8 também se causou impacto visual, com fantasias grandes e em dourado. Com rostos pintados, o ‘Terreiro de Candomblé’ trazia os orixás para a Sapucaí.
A mistura do prateado com o branco na ala 12, Festa de Iemanjá também foi um dos destaques do conjunto de fantasias de Alex de Souza. A ala 17, ‘O Negro e o Futebol Carioca’ fez uma referência ao futebol ao levar fantasias com alusão ao Bangu e Vasco da Gama, clubes pioneiros na luta contra o racismo nos gramados. Símbolo de resistência cultural negra no país, o bloco Cacique de Ramos foi representado pela ala 25 com fantasia grande e muito bonita nas cores da agremiação.
Apesar do luxo, e da riqueza de detalhes, algumas fantasias soltaram adereços. Muitos búzios, enfeites de palha e outros adereços foram vistos espalhados pela Sapucaí. No setor 6, um componente da ala ‘Irmandades Religiosas’ passou sem a parte da cabeça da fantasia. Durante passagem pela última cabine de jurados, uma componente da ala ‘Tias Baianas’ também passou sem a cabeça da fantasia. Ao perceber os jurados e ser alertada pelas arquibancadas, colocou rapidamente o elemento do figurino.
Alegorias
Com o nome ‘Salgueiro, o Griô do Samba’, o primeiro carro da escola reafirma a agremiação como uma das percursoras da temática negra nos desfiles. Com muito vermelho, branco e prata, trouxe também na alegoria elementos que remetem à africanidade, como zebras, elefantes, lanças e escudos. O grande destaque, além do acabamento e beleza do carro, fica por conta da escultura de Djalma Sabiá, fundador da escola, que morreu há dois anos. O ‘Griô’ ensina jovens negros sobre o legado de luta e resistência do Salgueiro.
Na sequência o Salgueiro levou dois tripés, o primeiro com o nome de ‘Pequena África e a Pedra do Sal’ e na sequência o ‘Oferendas para Iemanjá, ambos muito bonitos e bem acabados. O segundo carro mantém a cor branca como principal do início do desfile do Salgueiro. Nesta alegoria, Alex de Souza aborda as religiões de matriz africana, com vários santos sincretizados com orixás. O destaque do carro vai para as imagens de Jesus e Oxalá, maiores entidades do catolicismo e da umbanda. Alguns símbolos aparecem danificados na alegoria para explicitar a intolerância religiosa. O carro também tinha elementos giratórios, esculturas em movimento e a palavra ‘Respeito’ em dourado na parte traseira.
A terceira alegoria do Salgueiro marca os diversos atos de resistência negra, seja na dança, na arte e na música. A alegoria reproduz o Theatro Municipal com lindas esculturas que fazem alusão a Mercedes Baptista. As composições estavam caracterizadas como as representações da literatura, do teatro, e balé. Na sequência Alex de Souza trouxe a história ainda mais para o Rio de Janeiro ao reproduzir o Viaduto Negrão de Lima na quarta alegoria. No Viaduto de Madureira, a escola levou à Sapucaí a resistência através da música, com as danças do charme e do funk na ala coreografada Maculelê, de Carlinhos do Salgueiro. Este carro, no entanto, estava esteticamente abaixo dos demais.
O Salgueiro encerrou o desfile com uma grande encenação na última alegoria. O carro, chamado de ‘A Resistência Continua’, faz alusão a uma praça pública, e é envolvido por manifestantes que pedem o fim do preconceito racial. Um obelisco com a palavra ‘Racismo’, então é derrubado, para simbolizar a queda desse preconceito. A parte de trás da alegoria ainda remeteu ao Morro do Salgueiro no período de fundação da escola, em menção à favela reproduzida por Arlindo Rodrigues no Carnaval de 1984. Com riqueza de detalhes, o carro parecia mesmo uma grande praça no meio da Sapucaí, com detalhes impecáveis de acabamento. Todo conjunto alegórico do Salgueiro funcionou, causou grande impacto visual e não apresentou problemas.
Outros Destaques
De Cabocla Jurema, a rainha Viviane Araújo também estava com fantasia belíssima, com tons de vermelho e verde e uma pequena onça no ombro. Passistas como Reis e Rainhas da Rua, em alusão a Exu riscaram o chão e apresentaram lindo figurino. Bateria dos Mestres Guilherme e Gustavo apresentou três bossas, fantasia ‘Umbanda – Gira de Caboclo’, com cores em vermelho, preto e dourado, além de uma coreografia onde agachava e colocava os braços pra cima, com punho em riste.
Carregando os ramos das camélias do Leblon, as baianas do Salgueiro entraram brilhantemente na avenida. As flores que são cultivadas no Quilombo, antigas terras do comerciante José Seixas, foram vendidas a fim de angariar lucros para a causa abolicionista.
Representando as “Camélias do Leblon”, a fantasia da ala das baianas tem um significado de muita importância, pois é o orgulho de suas origens e a liberdade conquistada pelos escravizados. Na frente da ala, a Tia Glorinha representava “Camélia, a flor da Abolição”, ela trouxe o símbolo da luta pela libertação dos escravos.
Em uma entrevista muito especial dada para o site CARNAVALESCO, a responsável pela ala das baianas do Salgueiro contou o que achou do figurino e a importância dele na temática afro: “A fantasia está de acordo com o enredo, quando vi o protótipo fiquei conferindo se estava bom ou não. Procurei ajustar tudo para que tivéssemos uma evolução maravilhosa na avenida. Com esse enredo e a nossa roupa, lembrei o tempo que eu era menina e recordei todas essas coisas”.
Desfilando há 9 anos na ala das baianas do Salgueiro, a dona de casa Dina, de 77 anos, exaltou o quão satisfeita está com o enredo da escola. “O nosso figurino está impecável, consegui evoluir e sei que foi tudo bem pensado pela nossa presidente da ala. Esse enredo não é a resistência do Salgueiro, e sim de toda a nossa luta e também a minha como mulher negra”.
A ala das baianas por muitas vezes são compostas pelas senhoras que possuem mais idade, só que na do Salgueiro foi misturado o velho e o novo. Pela primeira vez desfilando na ala das baianas, a advogada Luana Peixoto, de 35 anos, relata como foi essa experiência.
“É incrível estar nessa ala, pois além disso é meu primeiro desfile também. É uma energia muito boa e sei que o Salgueiro veio para brigar pelo título. Estou muito honrada e grata de estar aqui e ano que vem estarei de volta novamente”.
Essa tradicional ala costuma ganhar bastante prêmios e Tia Glorinha expõe sua opinião sobre essas premiações: “Eu sou muito mãezona, tenho carinho e carisma por todos. Acredito que ser responsável pela ala influencia nisso, mas pego muito no pé na questão de ensaios, pois temos obrigação de ensaiar sempre. Claro que tem algumas exceções e tudo bem. A premiação é importante porque ganhamos mais reconhecimento e por isso que a ala das baianas costuma ganhar prêmios, pelo jeito que brilhamos na avenida e de tudo que acontece antes do desfile também”.
A bateria da Mangueira de Mestre Wesley fez uma boa apresentação. O surdo mor auxiliou no preenchimento da sonoridade, dando bom balanço ao ritmo mangueirense. Os marcadores do tradicional surdo de primeira foram precisos. O bom trabalho dos surdos proporcionou uma base grave sólida para que as caixas de guerra da Mangueira com sua rufada peculiar brilhassem. * OUÇA A BATERIA E ARRANCADA DO SAMBA
O acompanhamento das peças leves contou com um tamborim com bom volume, executando um desenho rítmico atrelado a cultura musical da Mangueira de maneira firme. O naipe de chocalhos da Mangueira deu uma sonoridade ímpar a cabeça da bateria. Os ganzás mangueirenses, como culturalmente são conhecidos dentro da escola foram exímios, agregando à musicalidade. Foi possível notar uma fileira de pratos, que também auxiliou na produção sonora, bem como a boa ala de cuícas.
A paradinha da bateria da Mangueira é dividida em breques. As execuções em frente aos módulos de julgadores foram realizadas corretamente, com direito a chuva de papel picado durante o refrão principal. Uma boa atuação da bateria da Mangueira, aliando um trabalho rítmico seguro e altamente identitário, baseado na potencialização das virtudes do genuíno ritmo mangueirense.
Com o enredo “Resistência”, o Salgueiro entrou na avenida reverberando a luta e a coragem da população negra para garantir a sua cultura, a fé e o seu lugar de fala. Resistir é o lema da agremiação e dos componentes para o carnaval de 2022. Na atualidade, apresentar esse tema sobre a resistência afro-brasileira é de extrema necessidade, e a escola mais uma vez trouxe um enredo representativo sobre a luta e a importância da visibilidade do protagonismo negro.
O Salgueiro foi a fundo na resistência e na sua própria raiz, fazendo uma homenagem a Djalma Sabiá, um dos fundadores e baluartes da escola. O “Griô” salgueirense veio representado já no carro abre-alas do vermelho e branco do Andaraí. Com a alegoria “Salgueiro, o Griô do samba”, que resgata a estética africana apresentada a partir de 1960.
As cores vermelho, branco e preto são predominantes por todo o carro que tem elementos como: lanças, escudos e animais representados. Além disso, ele trouxe grandes esculturas, dando destaque ao grande Djalma Sabiá como o griô, que transmite histórias e a tradição salgueirense.
A alegoria veio só com mulheres negras que cujo figurino representava a inspiração africana e raiz salgueirense. O Salgueiro foi uma das pioneiras nos enredos afros e fez nesse carro uma releitura do afro sal.
Convidada para desfilar no abre-alas da escola, a atriz Dandara Abreu, de 33 anos, expõe o que representa para ela vir na alegoria que homenageia o grande Sabiá: “Esse carro faz toda a referência ao enredo, pois nada é mais resistente que o griô”.
Ela também destaca a importância disso como salgueirense: “Foi uma honra ter sido convidada para desfilar no carro e fiquei muito emocionada do Salgueiro fazer questão de colocar só mulheres negras para compor a alegoria”.
A escola veio muito forte ao falar sobre a raiz, o carro que é o afro sal é considerado como uma força da resistência. Tendo em vista os vários casos que acontecem constantemente de preconceitos raciais, ter escolas de samba falando sobre esses enredos se torna muito importante.
Para a secretária, Stella Ribeiro, de 37 anos, os enredos afros são de extrema importância. “No tempo de hoje que o racismo é tão forte, essas temáticas que as escolas de samba estão trazendo é muito bom, pois enaltece a cultura negra e nosso povo. Para mim é uma honra como mulher negra que vive em um país que não se aceita como negro homenagear o Sabiá. Ele foi uma representação forte dentro da nossa cultura, o que torna muito importante”, relata.
Representando toda a sua história, o abre-alas do Salgueiro foi sem dúvidas um trunfo ao fazer uma homenagem para Djalma Sabiá, que infelizmente faleceu no último ano. Ele foi aquele que nos “ensinou a ser diferente”, como diz no samba-enredo. Vindo com tudo que os componentes prezam pela escola, trazendo o espírito salgueirense, nada mais justo do que iniciar o desfile com essa alegoria.
Desfilando há mais de 40 anos na instituição, a dona de casa Leda Santos, de 87 anos, conta o que sentiu ao ver o carro e a importância dessa representação: “Foi uma emoção muito grande, pois minhas duas filhas vieram nele. Algo tão lindo e de um significado incrível e por isso estou muito feliz. Sei que Sabiá nos abençoou nesse desfile, pois demos o nosso melhor”.
O carro abre-alas ‘Paraíso da Comédia Brasileira’ apresentado pela São Clemente levou para Sapucaí uma leitura do que seria o paraíso dos sonhos de Paulo Gustavo. Artista de sucesso no humor brasileiro, Paulo chega em um céu carregado de comediantes e humoristas. Neste céu há muita arte e liberdade de expressão.
Dentro deste contexto, a escola apresentou um carro branco enorme, dividido em três partes, sendo a primeira parte um pequeno palco que recebia amigos e familiares do artista. Branco, mas com muitos detalhes coloridos, o abre-alas foi trabalhado na paleta de cores referente ao arco-íris. Símbolos do imaginário infantil e do movimento LGBTQIA+, mas teve o rosa chamando atenção. Na frente do carro, além do palco que carregava os amigos e familiares, uma personagem sem gênero específico, deita sobre a lua e as nuvens. Aliás, as nuvens são encontradas por todo o carro e ornaram com os anjos drag queens encontrados nas duas laterais.
Na parte superior do carro foi vista uma homenagem aos comediantes que Paulo admirava. É uma festa de piadas, travessuras e alegria com figuras como Golias, O Grande Otelo e Derci Gonçalves. Interagindo com todos eles um enorme Paulo Gustavo com um sorriso largo. Esse sorriso também pode ser visto nos componentes que estiveram em cima do carro nesta primeira noite de desfiles do grupo especial do carnaval 2022.
“É muito emocionante estar nesse carro. Quando eu recebi a fantasia já foi forte, desfilar deixa qualquer um sem palavras. Esse carro representa também um sonho do céu que o Paulo gostaria de encontrar e poder fazer parte dessa alegria que era o céu dele, traz muita felicidade para gente”, disse Ana Dantas, no seu primeiro desfile pela São Clemente.
O enredo ‘Minha vida é uma peça’ arrecadou para escola novos componentes que eram fãs do artista. É o caso de Rubens Cleiton, que é apaixonado por carnaval, mas desfila pela primeira vez na escola que homenageia seu ídolo Paulo Gustavo.
“Eu estou com uma sensação muito louca, porque estive no carro de um cara que além de muita alegria, representava toda a militância LGBTQIA+ e estar fazendo parte dessa homenagem foi incrível. Espero que tenhamos agradado, porque não faltou alegria na avenida. Bem como ele gostaria de ver”, contou Rubens ao site CARNAVALESCO.
Rubens e Ana Dantas desfilaram usando uma fantasia toda branca, com detalhes nas cores, prata e rosa. A roupa era justa ao corpo, com grandes adereços nos ombros e na cabeça, além de um grande caimento na parte das pernas. A fantasia é inspirada no universo Drag Queen que Paulo Gustavo admirava, pega referência dos trajes de rock utilizados na época de Elvis Presley e combinou bem com as figuras citadas que compunham o carro.
Um presente para os mangueirenses, assim pode ser definido o desfile da Estação Primeira de Mangueira nesta noite, predominante verde e rosa, foi a primeira vez que o carnavalesco Leandro Vieira utilizou tanto as cores da escola nas fantasias e alegorias desde que chegou na escola. O capricho nas fantasias impressionou, foi um show de bom gosto de Leandro, com muito volume, as alas tinham acabamentos maravilhosos e leitura era fácil, o mesmo vale para as alegorias, que contaram o enredo de forma clara. A comissão de frente emocionou com homenagem a Nelson Sargento, o mesmo vale para Squel e Matheus, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira desfilou na frente da bateria e contou com umas fantasias mais bonitas que já usaram na Mangueira. * VEJA FOTOS DO DESFILE DA MANGUEIRA
Fotos de Allan Duffes e Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO
Como destaque negativo, fica a iluminação dos carros, o primeiro passou com algumas luzes apagadas e um produto de limpeza foi esquecido na parte de trás da alegoria, já o segundo carro passou com a parte superior apagada pelos setores 6 e 10. A evolução da escola foi outro ponto a ser observado, o início se mostrou um pouco travado e o final foi mais corrido, com alas passando em ritmo acelerado. No final, um espaço considerável ocorreu no momento em que a bateria se apresentava na última cabine de julgamento.
Apresentando o enredo “Angenor, José e Laurindo”, assinado pelo carnavalesco Leandro Vieira, a Mangueira homenageou três dos seus maiores baluartes e foi a segunda escola a cruzar a passarela do samba na primeira noite de desfiles do Grupo Especial. A verde e rosa terminou sua apresentação com 67 minutos.
Intitulada “Tempos Idos”, nome de uma canção de Cartola, a comissão de frente assinada pelos coreógrafos Priscilla Mota e Rodrigo Negri fez um resgate das antigas comissões, quando a velha-guarda era o centro das atenções, 15 dançarinos usavam o tripé como uma espécie de palco e três crianças representavam Cartola, Jamelão e Delegado ainda meninos. A apresentação foi uma síntese do enredo, o sambista do morro de Mangueira foi evidenciado, dando destaque para o momento em que ao vestir o verde e rosa, ele vira estrela na avenida.
A apresentação foi marcada pela emoção, e arrancou aplausos por onde passou, nenhum erro foi observado durante os módulos de julgamento. O ápice ocorreu em cima do tripé, com uma caracterização incrível, os homenageados surgiram ao lado das crianças que os representavam, posteriormente, através de uma troca de roupa impressionante, os sambistas passavam das roupas simples, para o manto verde e rosa. Na letra do samba que remetia a composição “As rosas não falam”, rosas surgiam no palco e Cartola se apresentou para os jurados. O público recebeu com muito entusiasmo a comissão, a apresentação finalizou com um tributo a Nelson Sargento, trazendo ainda mais emoção.
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Olivério e Squel Jorgea, diferentemente do habitual, não veio no início da escola, eles desfilaram na frente da bateria, no setor que homenageou Jamelão, com uma fantasia nomeada “Dinastia Verde e Rosa”, o casal personificava a própria Mangueira, as cores da escola estavam presentes e o primor da fantasia chamou atenção, uma das mais bonitas que já vestiram na escola.
Apresentando uma dança de ritmo cadenciado, sincronizada e com gestos graciosos, a dupla não cometeu falhas expressivas nos módulos de julgamento e impressionou pela garra, as terminações de movimentos estiveram perfeitas, a troca de olhares e o romance entre eles foi de emocionar. O bailado fez menção simbólica aos antigos desfiles da escola, bebendo da fonte dos casais que fizeram história na verde e rosa. Ambos cantaram o samba o tempo todo, o sorriso de Squel encantou mais uma vez todo o público, assim como a presença marcante de Matheus.
Harmonia
A harmonia da escola foi muito satisfatória, como de costume, o mangueirense cantou com muita garra o samba, que mesmo criticado no pré-carnaval, rendeu e ofereceu para escola um canto uniforme. Pode-se destacar a ala 1, “Velhas Baianas”, até mesmo as alas coreografadas cantaram com bastante empolgação, como por exemplo a ala 17, “Eu vi seu Laurindo beijando a bandeira”. No geral, os componentes cantaram com força, apesar de algumas fantasias um pouco abafadas.
Enredo
A Mangueira levou à avenida a vida e obra de Cartola – o seu maior compositor; Jamelão – seu maior cantor; e Mestre Delegado, o grande mestre-sala da escola. O enredo “Angenor, José e Laurindo”, de autoria do carnavalesco Leandro Vieira, emocionou e encantou todo o público do Sambódromo. As alegorias e fantasias conseguiram passar com clareza a história que era contada, Leandro dividiu os setores de forma clara, começou com uma homenagem a comunidade do Morro de Mangueira, local em onde os grandes homenageados do enredo cresceram e fizeram história.
Posteriormente, o carnavalesco optou por separar cada homenageado em um setor, no segundo vimos um tributo ao Mestre Cartola, algumas alas representaram músicas compostas por ele e o carro que fechou o setor trouxe “As rosas não falam”. O terceiro setor da Mangueira foi reservado a Jamelão, intitulado “A voz do meu terreiro”, o setor trouxe o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira e a bateria, ambos representando a Mangueira e os antigos carnavais da Verde e Rosa. O setor que encerrou o desfile foi destinado ao Mestre Delegado, o carro que fechou a história chamava-se “O bailarino Negro”.
Evolução
A evolução da escola foi o quesito que pode preocupar mais na apuração oficial, o início se mostrou lento e um pouco travado, mesmo com os componentes brincando e se divertindo, foi observado que a escola não foi uniforme como se espera do quesito, já a parte final da escola foi mais acelerada que o normal, na altura do setor seis, as últimas alas passaram correndo em frente a cabine de julgamento, a situação se normalizou na última cabine, porém, durante o final da apresentação da bateria, o carro que estava à frente seguiu e deixou um buraco considerável em frente ao módulo, a rainha de bateria Evelyn Bastos tentou ocupar o espaço, mas ele já havia sido observado. Vale ressaltar também, que no setor 6, uma componente da ala 19 embolou a fantasia com outra da ala 20, o carnavalesco Leandro Vieira ajudou a desembolar.
Samba-Enredo
Criticado no pré-carnaval, o samba da Mangueira foi cantado por todos os componentes e por boa parte da Sapucaí. A composição de Moacyr Luz e companhia rendeu no Sambódromo e mostrou sua força. Marquinho Art Samba também fez ótimo trabalho e a todo momento impulsionava a escola, representando o lendário Jamelão, ele conduziu o samba com brilhantismo. O destaque do samba fica para o verso ‘A voz do meu terreiro’, essa parte até o fim do refrão, foi o momento que o mangueirense cantou com mais afinco, enquanto a virada do samba apresentou leve queda.
Alegorias e Adereços
A escola optou por levar o número mínimo de carros para a avenida, ao todo, foram quatro carros, um tripé e dois elementos cenográficos. Rico em detalhes e com excelentes acabamentos, os carros eram cenográficos, mas sem perder a carnavalização. Porém, a escola deve perder pontos preciosos por conta de alguns deslizes. O desfile começou com dois elementos alegóricos representando as baianas, muito bonito, eles vieram em frente a ala de baianas, o primeiro carro, “Teu cenário é poesia”, representou o próprio morro de Mangueira, apesar de muito bonito, o carro apresentou falhas em algumas luzes e foi observado um produto de limpeza esquecido na parte de trás da alegoria, o segundo trouxe Cartola e sua música mais famosa, “As rosas não falam”, o carro soltava aroma de rosas pela avenida, entretanto, o carrossel da parte de cima da alegoria passou apagado pela avenida. O terceiro carro fez uma homenagem a Jamelão, predominantemente vermelho, o carro recriou o ambiente noturno de um antigo dancing carioca. No último carro, “O bailarino negro”, a escola trouxe a figura de mestre Delegado, o carro lembrava uma caixinha de música e a escultura em cima estava muito bem acabada.
Fantasias
Um show de Leandro Vieira, mais uma vez, o carnavalesco apresentou um conjunto de fantasias de encher os olhos, volumosas, criativas e de boa leitura, foi um dos pontos altos do desfile. Pela primeira vez, Leandro abusou do verde e rosa em toda a escola e deixou todo mangueirense orgulhoso. Como destaque, pode-se citar a primeira ala, “Velhas Baianas”, a sétima ala, que representava o sol, impressionou pelo volume apresentado, a fantasia da ala 11 mostrou uma criatividade enorme, representando a gafieira. A ala 13 trouxe estandartes com os títulos da escola e mais uma vez o bom gosto foi visto. A ala de baianas, apesar de lindas, passou com algumas matriarcas segurando a cabeça da fantasia, outro detalhe observado foi que talvez por conta do volume, um número excessivo de componentes passaram mal.
Outros Destaques
A bateria do Mestre Wesley se apresentou de forma impecável pela avenida, representando a “Saudosa Mangueira”, a fantasia impressionou pela riqueza de detalhes. A rainha da bateria, Evelyn Bastos mais uma vez encantou o público na avenida, com muito samba no pé, a rainha desfilou com as cores da escola. A frente do carro em homenagem a Jamelão, desfilaram Alcione e Rosemary, ambas foram muito aplaudidas pelo público.
No carnaval de 2022 a São Clemente passou na avenida homenageando o ator e humorista Paulo Gustavo. No coração da escola, a ‘Fiel bateria’ veio representando a mais famosa personagem de Paulo, a Dona Hermínia. Surgida nos palcos do teatro com o espetáculo ‘Minha mãe é uma peça’, a personagem caiu no gosto do público e ganhou novas dimensões ao ver sua história adaptada para as telas do cinema. Com três filmes de sucesso na bilheteria, Dona Hermínia voltou a aparecer nas telas através do programa 220 voltz do Multishow. Criado por Paulo Gustavo, o programa trazia diversos personagens de diferentes personalidades que falavam sobre temas polêmicos da sociedade com o humor leve e provocativo característico do trabalho de Paulo. O programa foi sucesso enquanto esteve no ar e a personagem fazia parte de uma das esquetes mais esperadas pelo telespectador.
O que muitos não sabem, é que Dona Hermínia nasce de uma leitura do humorista a respeito da própria mãe, a Dona Déia. Paulo sempre que podia, mencionava como a mãe era figura fundamental para a formação do ser que ele era, portanto, nada mais justo que a ‘Fiel bateria’ que nunca abandona a São Clemente e é responsável por dar o ritmo a comunidade, vir homenageando a mãe do Paulo, ou melhor, a mãe de todos os brasileiros. Lembra o mestre Caliquinho.
“Hoje o coração está batendo forte, é muito bom estar de volta na avenida e homenagear a Dona Deia, que representa a mãe de todo o Brasil. Ela é aquela mãe que grita e que dá carinho, quando conheceu nossa comunidade e nossa quadra contagiou todo mundo”.
Além da alegria que marca a figura de Dona Déia, a bateria usou uma fantasia que trazia clara referência à Dona Hermínia. Os ritmistas usavam um vestido longo na cor amarela e detalhes em preto e branco. Na parte da frente da fantasia, um avental que remetia ao avental que sempre estava “grudado” na personagem de Paulo Gustavo. Na cabeça uma peruca cheia de bobs e um lenço preto. Bonita e bem acabada, a fantasia esteve bela, porém, despertou incômodo nos ritmistas.
“Embora a fantasia esteja bonita, ela está com muito tecido. O tecido não deixou a fantasia pesada não, mas ela está bastante volumosa para uma bateria”, contou Mônica Jordão.
Ainda que a fantasia tenha causada incômodo, Mônica ressaltou para a equipe do site CARNAVALESCO que está muito feliz com o enredo e a homenagem.
“Esse ano me sinto muito feliz em vir na bateria, porque a dona Deia é a cara da mãe brasileira. Fora isso, eu sou a única mulher desfilando no repique, então eu sei a importância de você ser representado. Vai ser muito bom ver os homens sabendo como é estar de vestido”.
Sentimentos compreendidos e compartilhados pelo colega de bateria, Miguel Lino. Tocador do surdo de segunda, Miguel comentou o seguinte para o site CARNAVALESCO.
“Estou feliz de vestir uma homenagem a dona deia. Como diz no samba, ‘anunciando a mãe de todo brasileiro’. Assisti a todos os filmes do Paulo, eu era fã dele e agora da mãe dele. É uma honra participar dessa homenagem”.
“A fantasia está leve, mas está abafada. Na medida do possível eu acredito que ela esteja dentro da proposta do enredo e pela São Clemente a gente faz até o impossível”.