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Foto: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

A Mocidade Alegre lançou o enredo para o Carnaval 2027. De forma inédita, a agremiação do bairro do Limão levará para a avenida um tema de vertente nordestina, desafiando-se a contar novas histórias. O título do enredo é “Sete Anos de Mar, Sete Léguas de Encanto: A Nau que venceu o Diabo sob a bênção do sagrado manto”, assinado pelo carnavalesco Caio Araújo e pelo enredista Léo Antan. O anúncio ocorreu durante a Festa da Vitória, realizada na Arena Morada, no último domingo. A noite também contou com as campeãs dos grupos de Acesso 1 e 2 (Morro da Casa Verde e Tucuruvi), além de intérpretes convidados do Rio de Janeiro. O cantor Igor Sorriso demonstrou grande conhecimento do repertório da Morada do Samba e, para comemorar o título, cantou quase todos os sambas dos carnavais vencedores da escola. O carnavalesco Caio Araújo e o enredista Léo Antan concederam entrevista ao CARNAVALESCO e falaram sobre o enredo da Mocidade Alegre para o Carnaval 2027.

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Surgimento do enredo

De acordo com Caio, o desejo da presidente foi um dos motivos para a temática nordestina entrar em cena na Mocidade Alegre no próximo carnaval.

“Neste ano, eu e o Léo queríamos testar algo diferente na Mocidade. Esse também era um desejo da nossa presidente: desenvolver um enredo de temática nordestina. Começamos a refletir sobre qual Nordeste queríamos retratar. O Léo iniciou uma pesquisa em busca de histórias que ainda não conhecíamos e acabamos encontrando a Nau Catarineta”, contou.

O enredista Léo Antan disse que o tema surgiu em uma troca de ideias com Allan Barbosa, membro da equipe de criação do Salgueiro.

“A ideia surgiu em uma conversa com o Allan Barbosa, que também integra a equipe do Salgueiro. Na verdade, era uma história que eu já conhecia. Esse enredo nasce um pouco do universo de Mário de Andrade. Para buscar um bicampeonato, fomos atrás de outro Mário. Durante suas viagens pelo Nordeste, Mário de Andrade registrou a Nau Catarineta, uma manifestação popular ligada ao fandango e à marujada, especialmente na cidade de Cabedelo, na Paraíba. A história é inspirada em um poema ibérico de origem popular, anônimo, e não se sabe ao certo se os fatos realmente aconteceram”, revelou.

Explicando o enredo, Léo resumiu a história da Nau Catarineta, fio condutor do tema. “A lenda fala sobre uma embarcação que se perdeu durante uma viagem de Pernambuco para Portugal. A tripulação passou sete anos e um dia à deriva no oceano, até que já não havia mais alimento. Nesse momento, o capitão decide sortear uma pessoa para servir de alimento aos demais tripulantes. É então que o diabo aparece para tentar a tripulação, oferecendo a chegada em terra firme em troca das almas de todos. O capitão resiste à tentação e se lança ao mar. No instante em que ele pula, um anjo e Nossa Senhora o salvam e, finalmente, a embarcação consegue chegar a Portugal. Essa história se transforma em marujada, chegança e fandango, recebendo diferentes nomes pelo país. É um enredo extremamente popular e festivo, como a Mocidade Alegre aprecia. Queremos abordar esse universo de forma popular, mas sem cair em estereótipos”, explicou.

Nordeste diferente

Segundo Léo Antan, o objetivo da escola é mostrar um Nordeste diferente, sem recorrer a estereótipos, como o mandacaru e o cangaço.

“Temos uma musicalidade e uma origem diferentes para este enredo. Toda a apresentação foi pensada a partir dessa ideia. Vamos utilizar a rabeca, instrumento semelhante ao violino. Estamos olhando para esse universo porque 2027 marca o centenário de Ariano Suassuna, um dos autores que escreveram sobre a Nau Catarineta. A história aparece citada em A Pedra do Reino, uma das obras mais importantes de Suassuna. Estamos explorando elementos do Nordeste que fogem da estética tradicional do cangaço”, declarou.

Seguindo a mesma linha, Caio Araújo valorizou as raízes nordestinas, mas ressaltou que a região deve ser explorada de outras maneiras.

“O enredo já é muito diferente porque toda a narrativa acontece no mar. Não temos a figura do sertão, da seca ou do calor intenso. Estamos desbravando novos caminhos e descobrindo esse universo juntos. Era muito importante para nós não apresentar mais um Nordeste reduzido a estereótipos. Isso também se reflete nas escolhas visuais do projeto. Vamos apresentar um Nordeste facilmente reconhecível pelo público do Anhembi, mas a partir de novas referências e novas formas de retratar as manifestações culturais desse povo. Aqui no Sudeste, pouca gente conhece a Nau Catarineta. O Nordeste é forró e xaxado, mas não se resume a isso. Existe uma riqueza muito maior, e a Mocidade Alegre quer mostrar justamente essa diversidade”, afirmou.

Emoção com o tema e o ineditismo na Mocidade

De acordo com Léo, vários enredos foram discutidos, pois, para definir um tema na Mocidade Alegre, é necessário emocionar a todos, além de apresentar uma narrativa muito bem construída.

“Trabalhamos em várias ideias antes de chegar a esta. Foi um ano difícil, porque, depois de uma vitória, o nível de exigência aumenta muito. Vivemos isso também no ano do enredo sobre Mário de Andrade. Perdemos a conta de quantos temas discutimos. Em nossas conversas, a presidente manifestou o desejo de falar sobre algo ligado ao Nordeste, e esta será a primeira vez que a Mocidade apresentará um tema totalmente nordestino. É algo inédito na história da escola. Conversei com Allan Barbosa, que tem uma verdadeira coleção de enredos, e ele sugeriu a Nau Catarineta. Lembrei imediatamente de Mário de Andrade. A partir daí, aprofundamos a pesquisa e percebemos que a história possuía uma riqueza visual muito grande, o que conquistou toda a diretoria”, contou.

Caio disse que se apaixonou rapidamente pela proposta, assim como a diretoria da agremiação, e ressaltou que o enredo traz algo inédito para a história da Mocidade Alegre.

“No momento em que o Léo me enviou a proposta do enredo, ela já me emocionou, assim como emocionou toda a diretoria. Ali percebemos que era a escolha certa para a busca do bicampeonato. Também acredito que este seja um momento importante para a Mocidade ousar e tentar algo diferente dentro de suas características. A religiosidade da escola e a resiliência da comunidade continuam presentes, mas agora abordadas de outra maneira. Este era o momento ideal para tentar fazer algo novo”, disse.

Espera por um grande samba

Com uma das melhores discografias do século, o sarrafo dos sambas da Mocidade Alegre está alto. A responsabilidade dos compositores que participam do concurso é enorme, e vencer representa uma conquista inesquecível.

Léo Antan espera que os autores saiam do óbvio e usou como exemplo a melodia do samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense de 2023.

“Queremos criatividade e pedimos, com todo respeito, que os compositores evitem recorrer automaticamente à palavra ‘retado’. Nossa intenção é transmitir a imagem de um Nordeste alegre e festivo, fugindo também dos estereótipos nas letras dos sambas. Existem expressões muito associadas ao Nordeste que não precisam ser totalmente evitadas, mas devem ser usadas com inteligência. É impossível não lembrar do carnaval desenvolvido pelo Leandro na Imperatriz. Mesmo tratando do cangaço, um tema amplamente conhecido, o samba apresentava uma grande riqueza melódica e poética. Esperamos seguir um pouco desse caminho e acredito que a sinopse que estou preparando possa inspirar os compositores nesse sentido”, declarou.

Caio também quer um samba que fuja dos estereótipos e que seja alegre, elemento fundamental para mergulhar no enredo.

“Esperamos um samba alegre, que apresente bem a narrativa do enredo e tenha força. Também queremos explorar caminhos diferentes dentro do universo nordestino. Nosso grande objetivo é encontrar um samba que conte a nossa história de forma marcante, mas que consiga escapar dos clichês mais comuns”, concluiu.