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Fotos: Pedro Ribeiro/CARNAVALESCO

O enredo “Reconto Minha Fé: O Conto de um Ponto Catimbozeiro”, do Morro da Casa Verde, agora tem letra, melodia e pavilhão. A Festa Julina da escola, realizada durante o último sábado, foi a ocasião escolhida para apresentar à comunidade da Zona Norte o samba-enredo que que será levado ao Anhembi no Carnaval 2027. O samba assinado por André Ricardo, Celsinho Mody, Douglas Chocolate, Juninho FPA, Márcia Macedo, Rubens Godinho e Thiago SP, repete o modelo adotado pela agremiação nos últimos anos, em que os compositores possuem autonomia criativa e melódica para a construção do samba a partir da sinopse. Presente no lançamento do samba-enredo, Rubens Godinho, um dos compositores da obra, comentou com o CARNAVALESCO como tem sido a parceria, tanto com o Morro, quanto com o time de compositores.

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“É muito legal. Já é o quarto ano que eu faço aqui no Morro e a rapaziada, o Celso, o Chocolate, a Márcia que é aqui da casa, todos os parceiros, o Thiago SP, todo mundo. A gente está muito entrosado porque nesses quatro últimos anos, a gente vem fazendo samba junto. No processo aqui do Morro, fazemos o samba muito em cima da sinopse, mas temos uma liberdade maior de criar em cima. Depois, a gente amarra a sinopse com o samba. É um processo muito legal! Foi muito fácil com essa rapaziada fera! Todo mundo que está aí conhece do riscado. Foi muito bom e muito simples; estou muito feliz de ter feito esse samba”, explicou.

O experiente compositor, referência do carnaval brasileiro, ainda a respeito da parceria com o Morro da Casa Verde, aproveitou para fazer uma análise mais teórica, filosófica e cultural do momento que a composição de samba-enredo vive e enfrenta. Para ele, o “pulo do gato” no trabalho desenvolvido entre ele (s) e a agremiação não está em nenhum tipo de inovação, mas sim na defesa, reflexão e resgate daquilo que o samba é.

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Rubens Godinho, um dos compositores da obra

“Sobretudo a questão melódica. Eu faço samba em São Paulo desde os anos 1990. Eu tenho percebido que o pessoal tem ousado muito pouco nas melodias, então o morro tem se destacado porque tem essa liberdade em ousar na melodia. E não há novidade nenhuma. Essa melodia é de samba de caboclo, de umbanda e de roda. Não inventamos nada. Sempre esteve lá. Nós só pegamos, buscamos. Às vezes, em busca de inovar, acabam esquecendo a essência do samba. A essência do samba é a macumba. Está aí! Isso é como um ponto de macumba bem cantado, que chama energia. Essa melodia está no samba é macumba, e como todo mundo fala, macumba é samba, como já disseram os poetas. A célula melódica é muito calcada em cima do samba de roda, em cima do samba de terreiro, em cima dos pontos de macumba. Não tem e não existe novidade nenhuma. É só a gente pegar isso e adaptar o enredo, mas fazer isso com alma e sentimento, entendendo qual é a proposta da escola, que é uma escola tradicional também. De repente, esse tipo de samba em uma escola que não fosse tão aberta a isso, não funcionaria. Mas no morro, graças a Deus, tem dado certo. Ninguém está inventando a roda. É o samba de roda, é o samba de terreiro, é o samba de macumba! É o resgate disso. Eles se se afastaram tanto do samba, que quando eles ouvem um samba, às vezes não conseguem reconhecer. Quando a gente tem uma escola disposta a fazer isso, parece que é novidade, mas é um resgate! É preciso que a gente resgate isto e coloque isso de forma muito clara”, comentou.

Outro bamba que marcou presença no lançamento do samba-enredo foi Celsinho Mody. O intérprete é um dos que assinam a obra catimbozeira para 2027 e, além de reverenciar a tradição do Morro da Casa Verde, elaborou sobre a construção do samba, os elementos antropológicos e a força que o enredo possibilita para a composição.

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Intérprete e compositor Celsinho Mody

“Primeiro, compor um samba, ganhar de presente um samba em uma escola de samba como o Morro da Casa Verde, uma escola tão tradicional, é uma honra. A maior honra que o compositor pode receber é ganhar um samba de presente. O Morro da Casa Verde tem um processo que resgata o que acontecia antigamente, onde o carnavalesco traz a proposta do enredo, a gente pesquisa, os compositores apresentam uma música dentro do roteiro que está dentro e depois é escrita a sinopse definitiva. Temos a liberdade de trazer novos elementos, liberdade para colocar melodia onde o povo gosta mais de cantar. E para esse carnaval, depois do samba do Santo Antônio, a gente identificou que as pessoas têm saudade daqueles carnavais antigos, de melodias mais simples. Letras que conversem com o dia a dia das pessoas, e que levem uma mensagem positiva para dentro da casa das pessoas. Para que o enredo da escola de samba não pare no CARNAVAL, e que seja um hino de vitória para a vida. Através desse enredo de 2027 do Morro, a gente traz um hino de vitória; um hino de superação. Não importa de onde a pessoa vem! Importa onde ela quer chegar e como ela constrói o seu caminho. Com amor, respeito e justiça. Esse é o enredo e a mensagem que a gente traz com esse samba, através da voz e narrativa do seu Zé Catimbó”, declarou.

Para um enredo tão intrínseco ao fundamento do samba, a escolha melódica dos compositores corrobora com essa resistência cultural e conceitual que a escola se propõe. Sobre estes aspectos neste samba-enredo, Celsinho argumentou que, no limite, devem-se cumprir as balizas do regulamento, sem se esquecer para quem o samba é composto, no caso, a comunidade verde-rosa da Zona Norte paulistana.

“É uma vontade que a gente sempre teve. E o Morro da Casa Verde, através da gestão do Diego e do Careca, nos deu a chance de colocar esse coração para fora. Tudo é estudado muito tecnicamente. A gente estuda o que os jurados precisam, todos os balizamentos e tudo o que existe dentro do quesito de julgamento de Samba-enredo. E buscamos dentro disso fazer o povo feliz! A gente busca refrões com palavras e com melodias que sejam fáceis para o povo cantar e guardar, para a criança de 5 anos, por exemplo. Para que a criança que aprendeu a falar, até a pessoa mais experiente da avenida, possa cantar com alegria. O andamento é mais cadenciado para que a vovó que é baiana, respire e cante com tranquilidade; para que a passista sambe com tranquilidade, e que a criança possa brincar no desfile. Desfile de escola de samba é avaliado individualmente. O Morro da Casa Verde leva uma proposta de escola de samba para a avenida. Vamos desfilar com responsabilidade e respeito, mas sem esquecer que temos que brincar o carnaval. O samba tem que ser gostoso. O ano passado a gente trouxe o Santo Antônio brincando com Exu e aquela brincadeira toda. Esse ano a gente traz uma história muito séria que é da Jurema, que é o seu Zé do Catimbó, e para alguns o primitivo do seu Zé Pilintra. Uma entidade muito séria, mas que ao mesmo tempo, está no cotidiano do povo brasileiro. Trazemos essa delícia de viver para a avenida, e a gente tem o sonho e a vontade de alcançar o coração de todo mundo de novo. O Morro vai fazer um carnaval histórico para que o povo seja feliz”, garantiu.

O novo samba-enredo, que navega entre Jurema, fumaça e o Rei do Catimbó, nasce com uma proposta rítmica mais cadenciada. O CARNAVALESCO também escutou o mestre de bateria, Léo Bonfim, que trouxe um panorama sobre suas expectativas, os principais desafios e o que se pode esperar do soar da bateria do Morro em 2027.

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Mestre de bateria, Léo Bonfim

“Estamos analisando o samba há algum tempo. Dia 07 do início do mês, lançamos esse baita enredo. Eu gosto muito dessa parte, então eu sempre peço para estar presente, para ler a sinopse, para de fato trabalhar em conjunto com a escola. A Bateria da escola, em conjunto com a sinopse que o carnavalesco pensou, e o que a Diretoria Executiva pensou, trabalha nessa linha. Vamos trabalhar definitivamente pelo enredo e para o enredo. A gente já tem quatro bossas desenhadas, e vamos começar a trabalhar a partir do dia 11, porque dia 11 de agosto é nosso primeiro ensaio de bateria. As quatro bossas já foram pensadas e elaboradas de acordo com o enredo. São bossas características; Claves de catimbó, um pouco da parte nortista, um pouco do Nordeste, que é a parte da própria Jurema, até que ela se torna o Seu Zé, porque é um enredo muito amplo. A gente está com uma expectativa muito legal. A primeira coisa que a gente conversou foi a respeito do andamento, que é um detalhe importante que tomaremos cuidado. É um andamento que vai trazer a bateria mais para trás do que fizemos esse ano. Por conta da métrica do samba, pelas divisões silábicas do samba. Faremos dessa forma para casar ala musical e bateria. A gente vai abusar da ala de tambor, assim como foi esse ano que passou. Vamos praticamente duplicar a quantidade de tambores, e trabalhar as bossas da bateria em cima disso, por conta do enredo mesmo”, salientou.

Com a letra e a melodia sintonizadas com a batucada, coube ao Intérprete oficial da escola, Wantuir Oliveira, revelar os versos para a comunidade. Sua potência vocal deu vida a mais um samba-enredo da agremiação e, após o encerramento do evento, o cantor confidenciou sua expectativa para mais um ano a frente do microfone da escola, e o trabalho entre ala musical e bateria para encontrar o equilíbrio sonoro entre andamento, tonalidade e execução conjunta.

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Intérprete Wantuir

“Depois que o samba é escolhido, nós cantores, vamos aprender a trabalhar com ele. Quer dizer, depende da respiração, quantidade de palavras, muitas palavras coladas. A gente precisa aprender a respirar nos locais certos do samba. Em relação ao andamento da bateria, ainda vai oscilar bastante até a gente achar o ponto, porque para mim, o grande segredo do samba-enredo é o bom entendimento com a bateria. o ponto certo, o tom certo e o andamento certo para poder botar ele na avenida. Mesmo lento, ele já é um samba muito alegre e que puxa a bateria. Eu sei que o Mestre Léo tem sabedoria e vai cuidar exatamente disso. A gente vai achar o ponto certo para fazer um maravilhoso desfile no domingo de carnaval. Vai ser a continuação dos sambas maravilhosos desses três anos que eu canto aqui no Morro da Casa Verde. São sambas realmente sensacionais! A escola está no caminho certo e o samba, com toda a certeza, vai ser um outro sucesso do Morro da Casa Verde. Falta a gente apurar as coisas, um jeito de cantar, de respirar, isso assim. A impressão já foi muito boa na gravação. Ficou muito bom; o clipe está maravilhoso. E vamos esperar a hora. Ensaiar e aperfeiçoar as arestas, e vamos para a avenida para brigar de novo, com toda certeza”, sintetizou.

São muitos passos entre a noite de escuta da comunidade com sua nova canção e o dia do desfile. Mas, se existem passos que requerem cuidado, desenvolvimento e excelência, são os passos dos responsáveis por levarem o pavilhão no Sambódromo. Melodia, letra e enredo mexem diretamente com o trabalho, ano após ano, dos primeiros casais de mestre-sala e porta-bandeira. Atentos ao novo samba do Morro, o primeiro casal, João Lucas e Juliana Souza, comentou os impactos que o samba-enredo cria para a especificidade do segmento.

“Todo ano a gente quer trazer um tempero diferente, mas assim, os elementos obrigatórios que a gente precisa fazer na avenida no regulamento não muda, mas aí a gente sempre traz um tempero, alguma coisa voltada para dentro do enredo e todo ano a gente gosta de trazer essa inovação”, revelou João.

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Primeiro casal, João Lucas e Juliana Souza

Para Juliana, a força dos sambas-enredo que a escola tem apresentado nos últimos anos favorece e fortalece a responsabilidade de ser a porta-bandeira.

“vocês vão se surpreender, porque é mais um ‘sambão’. O Morro vem apresentando muitos sambas icônicos nos últimos anos e a gente com certeza vem com mais um samba muito forte para trabalharmos no nosso quesito. Aguardem”, complementou.

Por trás de cada linha, seja verso ou costura do pavilhão, está o presidente. Os processos decisórios de uma escola de samba quase sempre são complexos. Por isso, um samba-enredo, eleito ou encomendado, passa obrigatoriamente pela estruturação, visão e entendimento cultural de cada presidente executivo. O novo samba-enredo do Morro da Casa Verde apoia-se na experiência do que está funcionando para a agremiação. O presidente Diego Campos elencou os motivos da manutenção do grupo de compositores responsáveis pelo samba.

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Presidente Diego Campos

“É um processo que está no quarto ano seguido. Os compositores são um time bem consistente e experiente. Graças a Deus, eles seguem apresentando grandes trabalhos aqui no Morro da Casa Verde. A gente só tem a agradecer para esse próximo carnaval. Eu sou suspeito para falar, mas a cada ano, a gente se supera e se surpreende. É um samba com uma leitura totalmente diferente. É um samba que vai cair na boca da ‘galera’, eu tenho certeza. Vai ser mais uma ‘pedrada’!”, encerrou.

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