
O enredo “Reconto Minha Fé: O Conto de um Ponto Catimbozeiro”, do Morro da Casa Verde, agora tem letra, melodia e pavilhão. A Festa Julina da escola, realizada durante o último sábado, foi a ocasião escolhida para apresentar à comunidade da Zona Norte o samba-enredo que que será levado ao Anhembi no Carnaval 2027. O samba assinado por André Ricardo, Celsinho Mody, Douglas Chocolate, Juninho FPA, Márcia Macedo, Rubens Godinho e Thiago SP, repete o modelo adotado pela agremiação nos últimos anos, em que os compositores possuem autonomia criativa e melódica para a construção do samba a partir da sinopse. Presente no lançamento do samba-enredo, Rubens Godinho, um dos compositores da obra, comentou com o CARNAVALESCO como tem sido a parceria, tanto com o Morro, quanto com o time de compositores.
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“É muito legal. Já é o quarto ano que eu faço aqui no Morro e a rapaziada, o Celso, o Chocolate, a Márcia que é aqui da casa, todos os parceiros, o Thiago SP, todo mundo. A gente está muito entrosado porque nesses quatro últimos anos, a gente vem fazendo samba junto. No processo aqui do Morro, fazemos o samba muito em cima da sinopse, mas temos uma liberdade maior de criar em cima. Depois, a gente amarra a sinopse com o samba. É um processo muito legal! Foi muito fácil com essa rapaziada fera! Todo mundo que está aí conhece do riscado. Foi muito bom e muito simples; estou muito feliz de ter feito esse samba”, explicou.
O experiente compositor, referência do carnaval brasileiro, ainda a respeito da parceria com o Morro da Casa Verde, aproveitou para fazer uma análise mais teórica, filosófica e cultural do momento que a composição de samba-enredo vive e enfrenta. Para ele, o “pulo do gato” no trabalho desenvolvido entre ele (s) e a agremiação não está em nenhum tipo de inovação, mas sim na defesa, reflexão e resgate daquilo que o samba é.

“Sobretudo a questão melódica. Eu faço samba em São Paulo desde os anos 1990. Eu tenho percebido que o pessoal tem ousado muito pouco nas melodias, então o morro tem se destacado porque tem essa liberdade em ousar na melodia. E não há novidade nenhuma. Essa melodia é de samba de caboclo, de umbanda e de roda. Não inventamos nada. Sempre esteve lá. Nós só pegamos, buscamos. Às vezes, em busca de inovar, acabam esquecendo a essência do samba. A essência do samba é a macumba. Está aí! Isso é como um ponto de macumba bem cantado, que chama energia. Essa melodia está no samba é macumba, e como todo mundo fala, macumba é samba, como já disseram os poetas. A célula melódica é muito calcada em cima do samba de roda, em cima do samba de terreiro, em cima dos pontos de macumba. Não tem e não existe novidade nenhuma. É só a gente pegar isso e adaptar o enredo, mas fazer isso com alma e sentimento, entendendo qual é a proposta da escola, que é uma escola tradicional também. De repente, esse tipo de samba em uma escola que não fosse tão aberta a isso, não funcionaria. Mas no morro, graças a Deus, tem dado certo. Ninguém está inventando a roda. É o samba de roda, é o samba de terreiro, é o samba de macumba! É o resgate disso. Eles se se afastaram tanto do samba, que quando eles ouvem um samba, às vezes não conseguem reconhecer. Quando a gente tem uma escola disposta a fazer isso, parece que é novidade, mas é um resgate! É preciso que a gente resgate isto e coloque isso de forma muito clara”, comentou.
Outro bamba que marcou presença no lançamento do samba-enredo foi Celsinho Mody. O intérprete é um dos que assinam a obra catimbozeira para 2027 e, além de reverenciar a tradição do Morro da Casa Verde, elaborou sobre a construção do samba, os elementos antropológicos e a força que o enredo possibilita para a composição.

“Primeiro, compor um samba, ganhar de presente um samba em uma escola de samba como o Morro da Casa Verde, uma escola tão tradicional, é uma honra. A maior honra que o compositor pode receber é ganhar um samba de presente. O Morro da Casa Verde tem um processo que resgata o que acontecia antigamente, onde o carnavalesco traz a proposta do enredo, a gente pesquisa, os compositores apresentam uma música dentro do roteiro que está dentro e depois é escrita a sinopse definitiva. Temos a liberdade de trazer novos elementos, liberdade para colocar melodia onde o povo gosta mais de cantar. E para esse carnaval, depois do samba do Santo Antônio, a gente identificou que as pessoas têm saudade daqueles carnavais antigos, de melodias mais simples. Letras que conversem com o dia a dia das pessoas, e que levem uma mensagem positiva para dentro da casa das pessoas. Para que o enredo da escola de samba não pare no CARNAVAL, e que seja um hino de vitória para a vida. Através desse enredo de 2027 do Morro, a gente traz um hino de vitória; um hino de superação. Não importa de onde a pessoa vem! Importa onde ela quer chegar e como ela constrói o seu caminho. Com amor, respeito e justiça. Esse é o enredo e a mensagem que a gente traz com esse samba, através da voz e narrativa do seu Zé Catimbó”, declarou.
Para um enredo tão intrínseco ao fundamento do samba, a escolha melódica dos compositores corrobora com essa resistência cultural e conceitual que a escola se propõe. Sobre estes aspectos neste samba-enredo, Celsinho argumentou que, no limite, devem-se cumprir as balizas do regulamento, sem se esquecer para quem o samba é composto, no caso, a comunidade verde-rosa da Zona Norte paulistana.
“É uma vontade que a gente sempre teve. E o Morro da Casa Verde, através da gestão do Diego e do Careca, nos deu a chance de colocar esse coração para fora. Tudo é estudado muito tecnicamente. A gente estuda o que os jurados precisam, todos os balizamentos e tudo o que existe dentro do quesito de julgamento de Samba-enredo. E buscamos dentro disso fazer o povo feliz! A gente busca refrões com palavras e com melodias que sejam fáceis para o povo cantar e guardar, para a criança de 5 anos, por exemplo. Para que a criança que aprendeu a falar, até a pessoa mais experiente da avenida, possa cantar com alegria. O andamento é mais cadenciado para que a vovó que é baiana, respire e cante com tranquilidade; para que a passista sambe com tranquilidade, e que a criança possa brincar no desfile. Desfile de escola de samba é avaliado individualmente. O Morro da Casa Verde leva uma proposta de escola de samba para a avenida. Vamos desfilar com responsabilidade e respeito, mas sem esquecer que temos que brincar o carnaval. O samba tem que ser gostoso. O ano passado a gente trouxe o Santo Antônio brincando com Exu e aquela brincadeira toda. Esse ano a gente traz uma história muito séria que é da Jurema, que é o seu Zé do Catimbó, e para alguns o primitivo do seu Zé Pilintra. Uma entidade muito séria, mas que ao mesmo tempo, está no cotidiano do povo brasileiro. Trazemos essa delícia de viver para a avenida, e a gente tem o sonho e a vontade de alcançar o coração de todo mundo de novo. O Morro vai fazer um carnaval histórico para que o povo seja feliz”, garantiu.
O novo samba-enredo, que navega entre Jurema, fumaça e o Rei do Catimbó, nasce com uma proposta rítmica mais cadenciada. O CARNAVALESCO também escutou o mestre de bateria, Léo Bonfim, que trouxe um panorama sobre suas expectativas, os principais desafios e o que se pode esperar do soar da bateria do Morro em 2027.

“Estamos analisando o samba há algum tempo. Dia 07 do início do mês, lançamos esse baita enredo. Eu gosto muito dessa parte, então eu sempre peço para estar presente, para ler a sinopse, para de fato trabalhar em conjunto com a escola. A Bateria da escola, em conjunto com a sinopse que o carnavalesco pensou, e o que a Diretoria Executiva pensou, trabalha nessa linha. Vamos trabalhar definitivamente pelo enredo e para o enredo. A gente já tem quatro bossas desenhadas, e vamos começar a trabalhar a partir do dia 11, porque dia 11 de agosto é nosso primeiro ensaio de bateria. As quatro bossas já foram pensadas e elaboradas de acordo com o enredo. São bossas características; Claves de catimbó, um pouco da parte nortista, um pouco do Nordeste, que é a parte da própria Jurema, até que ela se torna o Seu Zé, porque é um enredo muito amplo. A gente está com uma expectativa muito legal. A primeira coisa que a gente conversou foi a respeito do andamento, que é um detalhe importante que tomaremos cuidado. É um andamento que vai trazer a bateria mais para trás do que fizemos esse ano. Por conta da métrica do samba, pelas divisões silábicas do samba. Faremos dessa forma para casar ala musical e bateria. A gente vai abusar da ala de tambor, assim como foi esse ano que passou. Vamos praticamente duplicar a quantidade de tambores, e trabalhar as bossas da bateria em cima disso, por conta do enredo mesmo”, salientou.
Com a letra e a melodia sintonizadas com a batucada, coube ao Intérprete oficial da escola, Wantuir Oliveira, revelar os versos para a comunidade. Sua potência vocal deu vida a mais um samba-enredo da agremiação e, após o encerramento do evento, o cantor confidenciou sua expectativa para mais um ano a frente do microfone da escola, e o trabalho entre ala musical e bateria para encontrar o equilíbrio sonoro entre andamento, tonalidade e execução conjunta.

“Depois que o samba é escolhido, nós cantores, vamos aprender a trabalhar com ele. Quer dizer, depende da respiração, quantidade de palavras, muitas palavras coladas. A gente precisa aprender a respirar nos locais certos do samba. Em relação ao andamento da bateria, ainda vai oscilar bastante até a gente achar o ponto, porque para mim, o grande segredo do samba-enredo é o bom entendimento com a bateria. o ponto certo, o tom certo e o andamento certo para poder botar ele na avenida. Mesmo lento, ele já é um samba muito alegre e que puxa a bateria. Eu sei que o Mestre Léo tem sabedoria e vai cuidar exatamente disso. A gente vai achar o ponto certo para fazer um maravilhoso desfile no domingo de carnaval. Vai ser a continuação dos sambas maravilhosos desses três anos que eu canto aqui no Morro da Casa Verde. São sambas realmente sensacionais! A escola está no caminho certo e o samba, com toda a certeza, vai ser um outro sucesso do Morro da Casa Verde. Falta a gente apurar as coisas, um jeito de cantar, de respirar, isso assim. A impressão já foi muito boa na gravação. Ficou muito bom; o clipe está maravilhoso. E vamos esperar a hora. Ensaiar e aperfeiçoar as arestas, e vamos para a avenida para brigar de novo, com toda certeza”, sintetizou.
São muitos passos entre a noite de escuta da comunidade com sua nova canção e o dia do desfile. Mas, se existem passos que requerem cuidado, desenvolvimento e excelência, são os passos dos responsáveis por levarem o pavilhão no Sambódromo. Melodia, letra e enredo mexem diretamente com o trabalho, ano após ano, dos primeiros casais de mestre-sala e porta-bandeira. Atentos ao novo samba do Morro, o primeiro casal, João Lucas e Juliana Souza, comentou os impactos que o samba-enredo cria para a especificidade do segmento.
“Todo ano a gente quer trazer um tempero diferente, mas assim, os elementos obrigatórios que a gente precisa fazer na avenida no regulamento não muda, mas aí a gente sempre traz um tempero, alguma coisa voltada para dentro do enredo e todo ano a gente gosta de trazer essa inovação”, revelou João.

Para Juliana, a força dos sambas-enredo que a escola tem apresentado nos últimos anos favorece e fortalece a responsabilidade de ser a porta-bandeira.
“vocês vão se surpreender, porque é mais um ‘sambão’. O Morro vem apresentando muitos sambas icônicos nos últimos anos e a gente com certeza vem com mais um samba muito forte para trabalharmos no nosso quesito. Aguardem”, complementou.
Por trás de cada linha, seja verso ou costura do pavilhão, está o presidente. Os processos decisórios de uma escola de samba quase sempre são complexos. Por isso, um samba-enredo, eleito ou encomendado, passa obrigatoriamente pela estruturação, visão e entendimento cultural de cada presidente executivo. O novo samba-enredo do Morro da Casa Verde apoia-se na experiência do que está funcionando para a agremiação. O presidente Diego Campos elencou os motivos da manutenção do grupo de compositores responsáveis pelo samba.

“É um processo que está no quarto ano seguido. Os compositores são um time bem consistente e experiente. Graças a Deus, eles seguem apresentando grandes trabalhos aqui no Morro da Casa Verde. A gente só tem a agradecer para esse próximo carnaval. Eu sou suspeito para falar, mas a cada ano, a gente se supera e se surpreende. É um samba com uma leitura totalmente diferente. É um samba que vai cair na boca da ‘galera’, eu tenho certeza. Vai ser mais uma ‘pedrada’!”, encerrou.
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