Gustavo Lima e Pedro Ribeiro

A Colorado do Brás realizou no último domingo sua final de samba-enredo para escolher o hino que irá embalar a escola no Carnaval 2027. Em uma longa festa, iniciada por volta das 13h, a Arena Colorado, localizada no Canindé, recebeu um ótimo público, formado principalmente pela comunidade, que compareceu para prestigiar uma das etapas mais importantes do pré-Carnaval de uma escola de samba. Após abandonar o modelo de encomendas e retomar as eliminatórias, a Colorado do Brás se deparou, logo de cara, com uma safra de sambas de alto nível e uma disputa bastante equilibrada. A final foi uma prova disso. Ao término das apresentações, era difícil apontar um favorito. No entanto, o vencedor foi o Samba 07, último a subir ao palco. A parceria campeã é formada por Henrique do HC, Abraão Santos, André Mattos, Marcus Lopes, Hyder Oliveira, Leo Augusto, Anderson Monks e Roberto Holanda. A Colorado do Brás será a sexta escola a desfilar no sábado de carnaval, com o enredo “Ojuara: O Homem que Desafiou o Diabo”, assinado pelo carnavalesco David Eslavick. O CARNAVALESCO ouviu diversos segmentos da escola, que revelaram bastidores e opinaram sobre o que se sagrou vitorioso.

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“É um sentimento indescritível. É uma sensação que eu nunca tinha vivido, nada parecido. Peço licença a todos os compositores. Conversei com o Aquiles esta semana e mandei mensagem para o Turko. Eles são referências para mim. Só de estar disputando com eles já era uma grande vitória. Poder vencer e ser o samba da Colorado do Brás nessa retomada, depois de um grande carnaval, é uma responsabilidade gigantesca. Tenho certeza disso. Acho que é o primeiro ano de muitos. É caro, é muito caro, mas não tem como. É gostoso demais”, celebrou o compositor Henrique do HC, que encabeça os nomes da parceria.

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Disputa com referências e melodia sonhada

Segundo Henrique, a parceria é formada por pessoas de diferentes regiões e, mesmo assim, a união prevalece na hora de escrever a obra. “A nossa parceria tem pessoas do Rio de Janeiro e do interior de São Paulo. Então, nosso processo acontece muito por encontros virtuais. A gente vai se entendendo: um escreve um pouco, outro acrescenta, outro dá um pitaco, e assim vamos nos completando. Todas as pessoas da parceria participaram da composição. Não houve uma pessoa sequer que não tenha escrito no samba. De fato, somos uma parceria”, explicou.

Outro compositor vitorioso, Abraão Santos festejou a vitória, a primeira da parceria em uma disputa no Grupo Especial do Carnaval paulistano. “A nossa parceria já vem de outras disputas de samba. Fizemos sambas para carnavais de outras cidades, como Santos, e também no Rio de Janeiro. Mas esta é a primeira vez que disputamos um samba no Grupo Especial de São Paulo. Graças a Deus, ele nos honrou com essa vitória. É uma sensação inexplicável. Passa um filme na nossa cabeça, porque sabemos o quanto é difícil fazer e disputar um samba-enredo. A gente torce pela renovação do Carnaval em todos os segmentos. E, graças a Deus, a Colorado do Brás acreditou na gente e apostou em novos compositores. Agora é só comemorar”, comemorou.

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Talvez, o ápice do samba esteja no refrão do meio, que apresenta uma melodia envolvente e uma letra rica. Abraão falou sobre o processo de composição. “Eu vou contar uma coisa que não falei para ninguém: eu sonhei com a melodia desse refrão. Estava dormindo e, de repente, veio o som. Logo pensei em guardar aquilo para o refrão do meio. Mas os caras falaram: ‘O que acha de fazer na primeira?’. Eu lutei para que ficasse no refrão do meio. Lemos a sinopse e cada um foi dando uma letra em cima. Deus e os orixás nos honraram com essa melodia e com um refrão maravilhoso”, contou.

Processo respeitoso

No discurso do presidente Ka para anunciar o samba campeão no palco, o mandatário revelou à comunidade o quão acirrada havia sido a votação, com diferença de apenas um voto, e como a sensibilidade foi crucial para entender o que o povo vermelho e branco desejava. A escola ainda entoava o novo samba de 2027 quando o presidente comentou como funcionou todo o processo de eliminatória e fez uma análise sobre o resultado.

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“Na verdade, recebemos dez sambas e optamos por oito. A comunidade escutou os oito sambas. Destes, escolhemos seis, que foram à semifinal. E, nessa semifinal, a gente olhou muito a comunidade, a postura. A gente olha muito a comunidade para entender o samba que a comunidade e a diretoria abraçaram. ‘Batendo um papo’ com o próprio Léo, que vai cantar o samba, com a bateria em termos de conforto, o carnavalesco, o diretor de bateria e harmonia, cada um no seu quadrado. A gente respeita muito o que foi ouvido e apresentado. Os três sambas já estavam prontos para ir para a avenida. O processo foi muito delicado, tanto que foi cinco a quatro, a três. Foi uma coisa muito competitiva e eu fico muito feliz que os compositores que não venceram vieram me agradecer, vieram me parabenizar. Isso é muito legal e isso é muito digno. No Carnaval, está faltando essa ética e empatia. Por isso, para mim, tem muito valor eles respeitarem meu jeito de trabalhar e a qualidade da minha escola. Ganhou o que a gente escolheu e o que a escola preferiu”, afirmou.

O mandatário ainda exaltou a atitude dos componentes ao abraçarem o samba após o anúncio, além de comentar o que significa ser a sexta escola do sábado. “O pessoal rodou na quadra e está cantando o samba desde a primeira vez que escutou. O refrão é muito forte e vai ser funcional demais na avenida pelo momento. Nós somos a sexta escola no sábado, o jurado já estará meio saturado, porque vem julgando desde a sexta. Nós somos a sexta no sábado, ou seja, tínhamos que ser um sábado diferente, com um samba para frente e uma energia diferente. Graças a Deus, se Deus quiser, penso que acertamos mais uma vez”, completou.

Importância da comunidade

De acordo com o diretor de carnaval Jairo Roizen, a escolha do Samba 07 como grande campeão foi, de fato, disputadíssima. Para ele, que atua em diretorias de escolas de samba desde 2009, a decisão foi uma das mais difíceis, diante da qualidade das obras que já acompanhou.

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Diretor de carnaval Jairo Roizen

“Eu posso dizer que esse foi o processo mais intenso de uma escola de samba que eu já presenciei. Fizemos uma pré-audição antes de eles entregarem, até o desenvolvimento deles na semifinal, há 15 dias. Depois, a gente fez uma audição aqui na quadra, na voz do Léo, durante a semana passada, e agora, nesta semana da final. Cada dia era um samba que estava à frente e com a preferência. A Colorado acredita muito na energia e na comunidade. E hoje vimos, nos três sambas, que não havia nenhum erro. Os três sambas estavam corretos e prontos para irem para a avenida. E a gente viu no olhar das pessoas, no semblante das pessoas, o que elas queriam: elas queriam o Samba 07. Foi uma votação muito dividida. Mas o presidente Ka tem uma fé muito forte e, na hora em que ele viu ali, ele se arrepiou todo. Se desse empate, a gente ia ter que escolher um dos sambas, porque a gente sabia que tinha três sambas muito bons para a avenida. Se a gente juntasse um dos sambas, a gente ia ter um quarto samba que a gente não conheceria. A possibilidade de junção não existia. A gente não pensou nela em momento algum e fomos para a votação sabendo que teríamos que escolher um samba. E foi o que a gente fez”, contou.

O diretor ainda comentou a respeito da reação da comunidade ao anúncio do samba. “O resultado mostra que a escola está feliz. A comunidade da Colorado do Brás está feliz, os setores estão felizes e é isso que importa. Precisamos dessas pessoas felizes para que elas venham, a partir do dia 13 de setembro, ensaiar, porque teremos pouco tempo. Precisamos da nossa comunidade feliz para que a gente traga para a Colorado o maior resultado da sua história. Sem demagogia e sem querer dizer que a gente vai ser campeão ou não. A gente quer buscar o melhor resultado da nossa história, porque a Colorado merece. Uma escola que já passou por muita coisa e merece passar pela alegria de ter um resultado histórico”, avaliou.

Começo da preparação em cima do samba

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Brunno Mathias e Jessika Barbosa, esteve presente durante a final e falou sobre a expectativa e a preparação para o carnaval. “A gente ficou surpreso pelo samba. Mas, ao mesmo tempo, conforme a gente escutou nas eliminatórias, as histórias e mesmo no YouTube, a gente já tinha percebido que ele tinha essa pegada um pouco mais nordestina mesmo, sobretudo no modo de contar a história. A gente acabou gostando bastante. Esse é um samba ainda mais irreverente, que com certeza a escola vai abraçar. Aqui na quadra, somos nós quem montamos a coreografia juntos. Mas nós temos uma preparadora, que é Ana Paula Reis. A gente está começando um trabalho. Para o trabalho de pista, nós montamos também, e ela entra agregando, fazendo a limpeza ou acrescentando alguma coisa aos movimentos. Acaba que é um trabalho que é quase um trisal”, brincou.

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Casal de mestre-sala e porta-bandeira, Brunno Mathias e Jessika Barbosa

No caso de Brunno, o dançarino destacou a importância da adesão da comunidade ao samba-enredo. Agora, com a estrutura da música definida, a coreografia irá ganhar vida. “A gente foi estudando os três últimos sambas que foram para a final e entendíamos que os três possuíam potencial. O samba campeão foi o que a escola abraçou. Vamos passar e fazer bonito, como em todos os carnavais. Agora, com o samba campeão, não teremos uma coreografia abstrata. A gente consegue trabalhar em cima da letra. Entre a coreografia que a gente apresenta para o jurado e até o próximo jurado, vamos trabalhar em cima do samba para respirar, parar, mostrar o pavilhão para o público que estará lá para nos prestigiar. Com o samba campeão, a gente entrega para a Ana Paula, e ela vai trabalhar com a gente o que a gente pode construir para além do que já preparamos”, completou.

Felicidade em ter uma temática nordestina

O intérprete Léo do Cavaco avaliou o resultado da final, elogiou a obra escolhida e destacou o nível da disputa. “O resultado hoje foi bem difícil, porque eram três grandes sambas. Não é papo furado: a escola estava muito dividida entre os três. Tanto que todos receberam notas e a decisão foi no detalhe. Para nós, cantores, é complicado. Às vezes, tenho uma visão como compositor e, como cantor, sempre tento observar o que cada samba tem de melhor. Saio hoje de coração partido, porque gostava muito dos três sambas. Eu e muita gente estávamos em dúvida até o momento de votar. Mas fomos muito pelo que a comunidade quis. Como o presidente falou, foi uma votação apertada, inclusive dentro da comunidade. No fim, os dois sambas vencedores tiveram uma votação um pouco melhor. Agora é trabalhar. Acho que é um samba que tem um sentimento nordestino muito forte, uma letra muito boa e refrões fortes. É o que a escola precisa para o horário. Como sexta escola do sábado, precisamos de um samba com pegada. Agora é trabalhar, não tem muito para onde correr”, declarou.

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Intérprete Léo do Cavaco

Léo se destacou no Carnaval 2024 por uma grande atuação no enredo “Mandacaru”, outro tema nordestino. O cantor se diz feliz por trabalhar novamente com essa narrativa. “É uma temática de que eu gosto. Não só em 2024, mas a Colorado já tinha se destacado em 2017 com uma temática nordestina e quase subiu naquele ano. Então, a escola costuma dar sorte com esse tipo de enredo. Quando o enredista me apresentou o enredo do ‘Ojuara’, fui um dos mais apaixonados pela proposta. Sabia que iria gerar grandes sambas, e a resposta está aí hoje. Tenho que parabenizar todos os compositores, inclusive quem perdeu, porque fizeram um grande trabalho”, afirmou.

Tentativa de ousar, mas sem inserção de instrumentos

À frente da “Ritmo Responsa”, o mestre Fábio Américo recebeu com bons olhos o desafio de trabalhar um samba-enredo que, melodicamente, ultrapassa as fronteiras do samba ao se relacionar com a cultura e a musicalidade nordestinas. “Eram três grandes obras. Venceu a melhor para a escola. Tínhamos um pouquinho de cada coisa para cada samba, e agora é trabalhar muito e tentar aproveitar o máximo. É samba-enredo melodioso, ‘meio xaxado e arrasta-pé’, e vamos fazer um negócio legal para a comunidade, para a harmonia e o canto da escola. Vamos tentar fazer tudo com os instrumentos obrigatórios que a gente tem na bateria. A princípio, não adicionaremos nada e nenhum complemento, nem zabumba nem triângulo. Simplesmente com tudo que tem na bateria: chocalho, agogô, tamborim, caixa, repique e o surdo de primeira, segunda e terceira”, afirmou.

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Mestre Fábio Américo

Decisão equilibrada e aprovação da comunidade

O vice-presidente Marcelo Guedes, mais conhecido como Patchoco, enalteceu a competitividade da final e a aprovação da comunidade. “Fazia tempo que a gente não fazia uma disputa de samba, principalmente pela questão da estrutura. Como estávamos na rua, não dava para oferecer a estrutura que os compositores merecem. Os três sambas que chegaram à final, por incrível que pareça, tiveram a mesma votação na semifinal. Na soma dos votos, os três tiveram a mesma quantidade. Hoje, como o presidente falou, foi uma decisão muito apertada, por 5 a 4, mas venceu o samba que a comunidade também abraçou. Dá para perceber que a comunidade gostou mais do Samba 7 e o apoiou. Agora é trabalhar para o Carnaval e fazer o melhor desfile possível para a Colorado. O desfile deste ano foi muito elogiado por todo mundo, e queremos trabalhar para fazer cada vez melhor”, comentou.

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Vice-presidente Marcelo Guedes

Por ser a sexta escola do sábado, a Colorado do Brás será a penúltima a desfilar no Grupo Especial, e o gestor falou sobre a importância de uma obra com melodia para cima. “A gente precisa fazer um samba alegre. Se passarmos com um samba mais para baixo, a arquibancada já estará cansada depois de dois dias de desfiles. Então, precisamos vir com um samba para cima, alegre, para animar todo mundo que estiver esperando a Colorado”, disse.