Toda escola de samba tem uma forma única de escolher os sambas-enredo com os quais desfilarão no ano seguinte. Excetuando as agremiações que preferem encomendas ou reedições, as que optam pelas tradicionalíssimas eliminatórias possuem as mais diversas maneiras para realizar tal seleção. As particularidades da Estrela do Terceiro Milênio, por exemplo, envolvem uma execução das obras candidatas na semana anterior à final. A reportagem do CARNAVALESCO esteve presente na etapa e conversou com compositores que estavam nas parcerias finalistas do concurso de samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio para 2027 e nomes importantes da agremiação a respeito do processo. * VEJA AQUI COMO FOI A FINAL
Para entender mais da eliminatória, a reportagem conversou com Wilson Costa, popularmente conhecido como Japa, diretor de carnaval e de harmonia da agremiação: “Já tem mais ou menos uns três anos que a gente faz eliminatórias dessa maneira: a gente recebe os sambas via CD e elimina alguns sambas pelo próprio CD. Normalmente, os sambas finalistas a gente primeiro faz um laboratório com a comunidade e a bateria para a gente poder sentir da nossa comunidade o canto da comunidade junto com o ritmo da bateria. Hoje, especificamente, foi a apresentação oficial de cada time com a sua ala musical porque a gente também precisa sentir a nossa bateria junto com a ala musical. A gente procura fazer um trabalho em que a gente consiga ouvir a comunidade, consiga ouvir o samba com a ala musical e também com a nossa bateria. São esses os pontos nos quais um samba enredo se torna vitorioso: a bateria, a comunidade cantando, a aula musical cantando. Cada samba a gente consegue ver se ele está numa constância legal e, através disso, a gente consegue estruturar um pouco melhor o nosso trabalho. Nisso a gente consegue escolher o que é melhor para a nossa escola”, explicou.

Motivo
Japa também comentou o motivo pelo qual a agremiação utiliza tal forma para escolher o próprio samba-enredo: “Quando nós conversamos sobre esse tipo de formato, a gente tem um pouco de dificuldade de trazer os compositores para o Grajaú: eles falam que é muito longe. Quanto mais eles vêm, mais eles têm gastos com tudo. A nossa opção foi por tentar trazer mais compositores de uma forma com que eles venham menos vezes e a gente consiga tirar o melhor de cada um. Por isso que a gente teve essa ideia de fazer no CD, depois com a nossa comunidade (sem necessariamente os compositores) e esses dois finais de semana, cada parceria junto com a sua ala musical. A gente teve um grande ganho com os compositores vindo aqui só duas vezes, junto com a sua torcida e com toda a sua ala musical. Os compositores com quem a gente tem conversando falam muito bem do que nós fizemos e eu acredito que eles estão gostando de como a gente está conduzindo esse processo”, destacou.
Visão dos poetas

Os três finalistas da eliminatória do samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio para 2027 veem muitos pontos positivos em tal fórmula de escolha. André Ricardo, compositor da parceria do Samba 1000 (juntamente com Jorge Diego, Rafa Cria, Ayr Júnior, Rapha Moreira, Willian Tadeu, Mário Presidente, Rubens Gordinho, Rodolfo Minuetto e Rodrigo Minuetto), valorizou a troca com a comunidade: “O ponto positivo desse formato de eliminatória da Milênio é ver a obra ser cantada pela escola, porque, geralmente, nas eliminatórias, as torcidas vêm e cantam o samba na quadra. E na Milênio é diferente, os setores cantam o samba, todos os setores estão cantando o samba”, comemorou.

Fredy Vianna, compositor do Samba 99, juntamente com Rodrigo Shumacker, Thiago Meiners, Pitty de Menezes, Claudio Mattos, Morganti Tubino, Ítalo Pires, Herval Neto, Wilson Mineiro, Daniel e Anderson Lemos, foi na mesma linha do concorrente: “O compositor se beneficia com esse formato porque a comunidade já sabe o samba, a comunidade já escuta o samba antes dele vir para a quadra. Isso é muito importante até mesmo para cada um escolher para si próprio o samba que quiser. Isso é legal diretamente para a escola e, para o compositor, a gente gosta desse maremoto, essa coisa de torcida, o povo cantando junto. Mesmo que seja alguma coisa artificial, a gente gosta de ouvir o samba como um termômetro pela torcida. O esquema aqui pode ser diferente, mas, ao mesmo tempo, eu gostei porque isso aconteceu no ano passado e deu certo para a gente – e pode ser que aconteça de novo”, afirmou.

Integrante da parceria do Samba 01, Márcio Biju foi mais específico ao falar sobre o formato: “Eu acho legal você ter duas passadas podendo cantar junto o samba sem bateria e três com bateria depois. Às vezes eu sou o cara que estou escolhendo samba, onde eu faço Direção Musical. Cada escola tem o seu formato de trabalho e a obra tem que ser sempre, o que vai prevalecer. É lógico que a torcida conta para a gente sentir se o samba vai ter corpo, se vai aguentar. Mas, no final das contas, é bom ouvido e letra bem feita. Tem escola que faz a eliminatória no CD e escolhe bem para caramba. Tem escola que faz aqui como a Milênio e que escolhe bem para caramba. É muito de jeito ao escolher – mas, no final das contas, é quem vota; e quem vota vai ouvir a semana inteira no carro, vai ouvir, vai pensar, que mudaria algo aqui ou faria de outro jeito. A escola tem o seu jeito de pensar, a gente respeita e constrói. Não tem um formato que é o certo, porque tem ano que ganha um baita samba que foi escolhido no CD e tem ano que ganha um samba que foi escolhido com a final”, refletiu.
Presidência focada

Miriângela Moura, vice-presidente da Estrela do Terceiro Milênio, utilizou a eliminatória de samba-enredo de 2027 para falar sobre o processo já tradicional da agremiação do Grajaú como um todo: “A gente leva em consideração vários critérios. A gente tem que pensar na proposta, no projeto em si, se o samba vem de acordo com o projeto. A gente queria um samba que fosse muito positivo, embora o começo do enredo do processo traga uma mensagem que parece negativa; mas o enredo traz uma visão de melhora para o mundo e para a sociedade. Teria que ser um samba positivo do começo ao fim. A gente pensa em letras que tenham envolvimento com a comunidade, na potência de música que a gente tem. A gente também pensa nos nossos cantores. São vários setores que levam a gente a pensar em determinados sambas que são os ‘mais ideais’, digamos assim. A gente pensa naquele que se enquadra mais dentro do perfil da nossa comunidade e dentro do nosso projeto”, disse.
Exceção
O processo para escolha do samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio em 2026 teve uma etapa diferente em relação ao que normalmente é feito no Extremo Sul graças ao enredo da agremiação, no caso, o compositor Paulo César Pinheiro. Japa explica: “No ano passado a gente fez algo diferente: a gente fez uma roda de samba no meio da quadra e os sambas foram cantados como se fosse um samba de mesa mesmo, um pagodinho, um samba de roda. E, nesse ano, a gente decidiu voltar nesse formato em que a gente consegue, de uma certa forma, ouvir a nossa comunidade cantando melhor. No ano passado a gente fez semifinal e final, nesse ano a gente fez só a apresentação dos finalistas para a gente poder entender o samba. Acredito que a gente conseguiu fazer um trabalho legal junto com a comunidade, com as alas musicais e com a nossa bateria. Tenho certeza que a gente vai fazer a melhor escolha aí. Foi muito satisfatório a gente poder ouvir cada samba na voz dos seus intérpretes, com a nossa bateria. Foi de grande evolução”, finalizou.









