Por Pedro Ribeiro e Will Ferreira

O último domingo viveu a primeira final de samba-enredo de São Paulo para o Carnaval 2027. A Estrela do Terceiro Milênio fez a final da eliminatória e consagrou a obra composta por Jorge Diego, Rafa Cria, Ayr Júnior, Rapha Moreira, Willian Tadeu, Mário Presidente, André Ricardo, Rubens Gordinho, Rodolfo Minuetto e Rodrigo Minuetto para o enredo “Incrível, Fantástico, Extraordinário!”, assinado pelo carnavalesco Paulo Barros. Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO entrevistou uma série de personagens importantes não apenas para a concepção do samba-enredo, mas para o projeto da Estrela do Terceiro Milênio.

Exaltação e churrasco

milenio final27 1
Fotos: Pedro Ribeiro e Will Ferreira/CARNAVALESCO

Perguntados sobre como foi o processo criativo para compor o samba, Rodrigo Minuetto fez questão de elogiar o carnavalesco responsável pelo enredo: “Primeiro que o Paulo Barros é um gênio. Ele é fantástico. Ele que é o incrível e o extraordinário. Ele deu uma sinopse que é só pegar e botar a melodia. É fácil. E, aí, você vê o resultado do samba: uma disputa maravilhosa com um nível altíssimo dos sambas concorrentes. Nós nos consagramos campeões, mas foi uma disputa bem sadia, bem acirrada. Está aí o resultado, ou melhor, o início desse projeto. Agora, vamos continuar, e tomara que a comunidade abrace mais e mais o samba”, disse.

A obra, de acordo com ele próprio, foi construída de maneira bastante tradicional: “Reunião, churrasco… teve de tudo! Nós somos do modo tradicional: samba-enredo não dá para fazer por WhatsApp. Claro que a gente respeita as outras parcerias que fazem, mas tem que ter a magia, tem que ter esse tête-à-tête, esse pensamento, um olhar para a cara do outro e falar algo. Surge uma ideia, a gente discute e, no final, a gente sai sempre muito feliz”, comemorou.

Em tom de brincadeira, Jorge Diego, outro dos compositores, complementou: “Foram doze reuniões e dezessete churrascos”, brincou.

milenio final27 2

Ayr Junior apelou para a emoção ao falar da obra: “Deu até vontade de chorar com essa parceria. Primeira vez que nós estamos fazendo samba juntos e já chegamos com a vitória. Muito obrigado a todos, de coração. Deu um gás para nós! A gente queria parar de fazer samba e nós estamos aqui, com a rapaziada, firme e forte. Mais uma vez, foi a prova de que o amor vence sempre. Eu amei esses caras desde o primeiro dia. E o amor sempre vai vencer. A música vai vencer. A música vai transformar a gente todos os dias da nossa vida”, suspirou.

Quando a reportagem perguntou qual era a parte favorita de cada um deles, tal qual uma transmissão instantânea de pensamento, todos começaram a cantar o refrão principal da obra: “É incrível voar com você/Só quem é Milênio consegue entender/Fantástico/Extraordinário é sonhar/A nossa Estrela vai brilhar!”, declamaram.

A parceria encabeçada pelos gêmeos Rodrigo e Rodolfo Minuetto ganhou pela segunda vez o concurso da Estrela do Terceiro Milênio, a primeira delas aconteceu em 2025, em que Willian Tadeu também foi vencedor. Outros nomes importantes do grupo, como André Ricardo e Rubens Gordinho, estrearam neste ano na parceria.

milenio final27 3

A primeira canção apresentada na final foi justamente o vencedor, na eliminatória, inscrito como Samba 1000, que novamente contou com uma grande torcida e fez valer o explosivo refrão. O segundo a se apresentar, o Samba 99, que buscou mesclar partes fáceis de se cantar (como os versos antes do refrão de cabeça), teve boa adesão de um grupo de chefe de alas, que estavam cantando e evoluindo próximo da torcida contratada. Já o Samba 01, último a se apresentar, era o mais melódico, focando na poesia e na reflexão que o enredo propõe, com boa adesão das baianas, que acompanharam a apresentação e evoluíram bastante durante a execução da canção.

Panorama musical completo

Desde 2019 na Estrela do Terceiro Milênio, mestre Vitor Velloso mostra maturidade ao falar das mudanças pelas quais a escola tem passado. Uma dessas transformações é ver Raquel Tobias, que estava no carro de som da Coruja, assumir um dos microfones principais da agremiação: “A Raquel é uma querida! Já está aqui há muito tempo na escola, a gente já trabalha há um bom tempo. Todo mundo está muito feliz por ela ter chegado até aqui, pela conquista de ser nomeada como intérprete oficial da escola ao lado do Darlan. Como eu falei, o convívio é muito bom já há muito tempo. Não tem muito segredo. Agora, com ela participando de mais reuniões, a gente já tem um convívio bacana e se fala ainda mais Vai dar certo, com toda a certeza”, comemorou.

milenio final27 4

O ritmista-mor da escola garantiu que, em tempos de eliminatória de samba-enredo, costuma ficar mais avesso a contatos com os compositores: “O processo de escola de samba é sempre bem complicado. Ainda mais para mim, que também fiz parte do júri. A gente sempre tem que dar uma afastada da rapaziada, evitar ficar conversando muito – porque sempre tem alguma situação. A safra esse ano foi bem bacana, vieram alguns novos compositores que não tinham feito samba aqui ainda na escola e vieram participar nesse ano. Foram oito sambas e o processo é sempre complicadinho para escolher: tinha bastante obra legal que poderia ir. O Rodrigo Shumacker, que é o Diretor Musical da casa, ganhou em 2026 e, nessa final, não foi o samba dele. Os Gêmeos, que ganharam em 2025, ganharam novamente Tomara que a galera volte para fazer sambas em 2028 também”, convidou.

Por fim, mestre Vitor preferiu não dar spoiler sobre como virão os ritmistas na avenida: “Quando sai o enredo e quando a gente fica sabendo qual que é a nossa fantasia, a gente sempre começa a dar uma pesquisada em algumas coisas. A gente já está com alguns pensamentos e a gente, na verdade, estava esperando sair o samba. Agora, que saiu o samba, a gente vai começar a trabalhar em cima disso para poder encaixar nossas ideias dentro da melodia. Vão ter vai ter algumas surpresas aí, sim”, disse.

milenio final27 5

Trabalho adiantado

A direção de carnaval da Estrela do Terceiro Milênio, composta por Wilson Costa, popularmente conhecido como Japa, e Vinícius Freitas, destacou o motivo pelo qual a agremiação começou a realizar eventos ainda no sexto mês do ano: “Trabalhar nesse novo projeto com um novo carnavalesco é uma entrega de cem por cento em relação a tudo que esses artistas criam para na nossa escola. Para a gente, é um privilégio enorme trabalhar com mais um artista grandioso como o Paulo Barros. Tenho certeza que a comunidade e a nossa direção estão abraçando da melhor forma possível esse projeto, e, com certeza, no que depender da nossa equipe, esse projeto será um sucesso”, comentou Vinícius.

Alinhado com a dupla, Japa também citou outros quesitos: “A Terceiro Milênio começou um pouco cedo porque a gente teve essa troca de carnavalesco. O Paulo Barros já chegou apresentando um enredo para nós. Em reunião com toda a nossa diretoria, a gente decidiu antecipar tudo. Hoje, em pleno começo de junho, já estamos com o nosso samba para poder começar mais cedo o trabalho com a nossa comunidade de Harmonia e de Evolução. A gente acredita que o trabalho que a gente vem fazendo em todo o processo, desde quando nós iniciamos, vai dar tudo certo e a gente vai colher bons frutos”, prometeu.

milenio final27 6

Vinícius, pouco depois, falou sobre o exemplo e sobre a união da comunidade em prol do que está sendo preparado pela escola: “Além desse lado profissional, além do trabalho, a gente costuma falar que começamos cedo. Isso é muito benéfico, é um ponto positivo para o nosso trabalho, de Evolução e de Harmonia. Dessa maneira, a gente fala para a nossa comunidade que a gente não vai aceitar ninguém trabalhando mais que a gente no Carnaval. Lógico, sempre respeitando todas as coirmãs, mas a gente não vai aceitar ninguém trabalhando mais que a gente. Tem outro lado que a gente pensa em relação a uma escola de samba: as pessoas têm que frequentar o ano inteiro a quadra, tem que ser um prazer além de trabalho. Isso está nos ajudando também na escolha do samba mais cedo, para que as pessoas possam usufruir e desfrutar da quadra da escola”, comentou.

O ciclo do Carnaval de 2026 foi utilizado por Japa para falar sobre a antecipação das datas da escola: “Ter o seu samba antecipado é maravilhoso, porque você consegue trabalhar mais a sua comunidade. O carnaval vai ser no começo de fevereiro e, no ano passado, nós escolhemos o samba em setembro. A gente perdeu quase dois ou três meses de ensaios com a nossa comunidade. Lógico que a gente já vem fazendo um trabalho junto com a nossa comunidade antes da escolha do samba – mas, para nós, iniciar esse trabalho com o samba vai ser maravilhoso. A gente vai conseguir fazer com que a comunidade cante e consiga pegar o samba mais rápido e consiga fazer essa evolução com o samba mais rápido. A gente vai conseguir, com certeza, fazer um grande trabalho”, relembrou.

Tradições mantidas

Presidente da agremiação, Gilberto Rodrigues, popularmente conhecido como Giba, contou como são feitas as votações para definir o samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio: “Nos trancamos na salinha e são onze votos. Toda a nossa diretoria executiva tem direito a voto e eu deixo o pau quebrar. Se for necessário, caso tenha um empate, o último voto é o meu. Mas, nos últimos anos, a gente vem em um consenso. Não me lembro de ter tido algum tipo de problema, de ter que desempatar. Sempre a maioria, quando a gente senta, já tem o voto. O processo é esse, é muito simples. A gente já vinha analisando esses três sambas há alguns dias, conversamos bastante e ouvimos o povo, eles deram o Norte para a gente e a gente leva muito em conta a comunidade. Agora, é completar com esse grande projeto de Carnaval que nós temos para 2027”, explicou.

milenio final27 7

Paulo Barros é conhecido por não ser muito fã de apresentar as fantasias com antecedência para a comunidade, mas Giba deixou claro que a Milênio seguirá com o evento já tradicional na Coruja: “Nós vamos seguir a nossa tradição de fazer Festa de Protótipos. A nossa comunidade pede isso. Nós vamos fazer uma grande Festa de Pilotos. Estamos só ajustando o nosso calendário. Eu imagino que, no final de julho, no começo de agosto, no máximo na segunda quinzena de agosto, a gente deve estar fazendo essa grande festa. Todo mundo está muito ansioso por esse grande projeto”, anunciou.

milenio final27 8

Por fim, o mandatário contou como foi o processo para convidar Raquel Tobias para ser uma das intérpretes principais da agremiação: “Foi muito tranquilo chamar a Raquel para ser intérprete oficial. Ela já está com a gente há sete carnavais, salvo engano, e, pouco depois de quando eu saí da presidência da escola, tive uma conversa informal com ela e disse que a hora dela iria chegar. Ela olhou pra mim e perguntou se eu esperaria. Retornei à presidência da escola e, quando decidimos pela saída da Grazzi, foi o primeiro nome que me veio na minha cabeça, a primeira pessoa que me veio na minha mente. Logo que eu falei o nome, foi unânime. Todo mundo olhou pra mim e falou que era ela. Quando eu fiz o convite, ela lembrou exatamente daquele papo anterior que tivemos. Ela se emocionou e lembrou exatamente das palavras. Chegou a hora dela agora. Já está cantando na noite há muito tempo, já tem uma carneira consolidada, já vem buscando o espaço dela… é muitíssimo merecido e é cria da casa, é da comunidade. Eu prezo muito por isso, por dar oportunidade para quem é da casa. E eu não tenho dúvida nenhuma que ela vai realizar um grande trabalho”, comentou.

Cantores alinhados

Novos parceiros no comando do carro de som da Estrela do Terceiro Milênio, Raquel Tobias e Darlan Alves tiveram discursos bastante próximos ao falar com a reportagem. A cantora não deixou de falar sobre o sentimento por chegar a tal posto: “Para mim é emocionante! Estou na Ala Musical faz sete anos, enquanto a Grazzi Brasil estava na escola. Para mim, é muito importante. Estou nesse mundo e nessa ancestralidade para deixar legado. É muito emocionante a escola ter escolhido outra mulher para representar. Já fiz outros carnavais em Minas Gerais, alguns da UESP como Ala Musical, estou nessa carreira há quinze anos e, para mim, é uma responsabilidade e uma gigante alegria estar aqui. É uma emoção defender o pavilhão, eu sempre defendi como Ala Musical e eu vou defender com unhas, dentes e com a minha alma a Terceiro Milênio”, comentou.

milenio final27 9

Darlan elogiou o olhar para a própria comunidade ao nomear Raquel para o posto: “Foi um processo feito pela direção da escola. Depois que a escola tem uma habitual preferência por dois intérpretes, pensamos em quem trazer. Foi ótimo ver essa valorização de alguém da casa, alguém que já estava aqui. A Raquel já está há muito tempo na Terceira Milênio, salvo engano ela tem dez anos aqui como minha parceira de time de canto. A Milênio, o Silvão e o presidente Giba dão muito valor para valorizar as pessoas do Grajaú e da escola. Eles têm muito essa visão de, sempre que possível, buscar alguém daqui do Grajaú. É muito bacana ver isso e é mais uma grande cantora do nosso Carnaval. Tenho certeza que ela vai arrebentar. A gente está bem feliz com essa chegada dela ao microfone, ainda há pouco estava ajustando o grito, como que ia ser, tudo sendo lapidando para o início da sua carreira como intérprete de samba-enredo. Ela já tem uma carreira consolidada fora do Carnaval – e com certeza vai ter sucesso aqui também”, comemorou.

milenio final27 10

Raquel relembrou outras intérpretes femininas marcantes do Carnaval paulistano: “Tem mulheres que são intérpretes e que já desceram sozinhas – como a Grazzi Brasil, como a Samantha Santos no Águia de Ouro, Bernardete, Eliana de Lima. Casar junto com uma voz masculina dá aquele molho, também. É bacana essa junção, porque vem essa potência de voz de homens e também de mulheres bem potentes, também. Gosto muito desse casamento de vozes. Eu e o Darlan conversamos muito, é tudo falado, tudo é conversado, tem que ficar um pelo outro: está todo mundo no mesmo nível. As mulheres estão na linha de frente!”, exaltou.

Já Darlan destacou a afinação não apenas nos microfones, mas também no trabalho com a nova parceira de profissão: “A escolha de samba-enredo define muito o trabalho durante o ano. Cantar com intérprete de voz feminina não tem o problema de casar ou se não vai, porque a gente sempre encontra um meio termo para que fique à vontade para os cantores. Geralmente, tecnicamente falando, as cantoras atingem umas extensões vocais muito mais agudas, muito mais altas do que os homens. Mas, geralmente, os sambas-enredos são feitos num tom que, na maioria das vezes, são para vozes masculinas. Isso, muitas vezes, dificulta para as cantoras. A gente ajusta, sobe mais uma nota ou um tom: entramos no meio-termo e está tudo certo”, destacou.