enredistas tucuruvi
Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

A Acadêmicos do Tucuruvi detalhou a construção de “Ogbodirin Ogboni”, enredo que levará ao Sambódromo do Anhembi no Carnaval 2027. Durante explanação realizada na Fábrica do Samba, o carnavalesco Nicolas Gonçalves e o enredista Cleiton Almeida apresentaram os principais conceitos da narrativa, explicaram a divisão do desfile em quatro setores e falaram sobre os desafios de transformar a tradição da sociedade Ògbóni em um enredo de escola de samba. O CARNAVALESCO acompanhou a explanação e reúne os principais pontos apresentados pela equipe responsável pelo desenvolvimento do tema.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Informações prévias

Entrevistado no PodCarnavalesco SP #13, Nicolas já tinha informado ao mundo do samba alguns detalhes sobre o enredo. Um deles foi um panorama geral de temática tão densa: “A sociedade Ògbóni é milenar, veio da Nigéria e vai se modificando a cada dia por ser algo vivo. É um enredo encantador, e eu lembro que, logo de cara, quando o Delduque me propôs esse enredo, eu não queria: é muita responsabilidade e muito difícil. Mas ele sabe mexer comigo e me desafiar – nós somos motivados pelo desafio. Vai ser muito desafiador e muito interessante. Primeiro você se inicia em Ifá para, depois, se iniciar em Ògbóni. A Tucuruvi já se iniciou em Ifá e, agora, vai se iniciar em Ògbóni. Tudo está se encaixando. A gente sabe o que foi Ifá e Ògbóni vai ser tão especial quanto”, destacou.

nicolas tucuruvi

Ao falar sobre como tal temática foi aparecer na escola, ele respondeu com bom humor e franqueza: “Ògbóni é um enredo que já existia na escola. Eu chego na escola e ele está lá. Quando a escola desenvolveu Assojaba, pensávamos que não era o momento de Ògbóni – assim como, no Grupo de Acesso I, não era a hora. Quando retornamos ao Grupo Especial e o Delduque me faz o pedido para desenvolver Ògbóni, dou o braço a torcer e percebi que era o momento de realizar esse enredo. Apesar de ter similaridades, é claro, a gente não parte da premissa que vamos continuar Ifá”, destacou.

🔍 Adicione o CARNAVALESCO nas suas fontes favoritas do Google

O marcante desfile de 2024 da Acadêmicos do Tucuruvi, por sinal, se fará presente na apresentação de 2027 – mas não tão explicitamente quanto muitos podem pensar: “Ifá está em Ògbóni, é uma parte do enredo de fato. Vai ter uma ala que é Ifá, por exemplo. Na sinopse, contamos como o Edan é trazida através de Ifá para a Terra. Está tudo interligado, apesar de serem histórias distintas e essa vai ser uma das magias desse enredo. Não é uma parte dois, é um spin-off”, brincou.

Na prática

A explanação do enredo para os compositores trouxe, de maneira mais concreta, como será o desenvolvimento do enredo na avenida. Cleiton explica: “A gente foi pela divisão dos setores que a gente tem no desfile, naturalmente – no Grupo Especial, precisa ali de quatro. Dentro dessas quatro principais temáticas que a gente teria que abordar, a gente escolheu aquelas que são princípios muito fundamentais pra Ògbóni. A gente começa com a Terra, que é a principal divindade, o principal culto. Depois, vai para o segundo setor, que é o princípio da fundação, o motivo pelo qual que Ògbóni existe – algo que é fundamental abordar. O terceiro são esses mistérios, outros espíritos que fazem parte e que estão muito englobados nesse lugar do segredo – o segredo também é sagrado para Ògbóni. E, por fim, esse pilar da sabedoria que está na própria palavra e que a gente escolhe trazer no final por ser essa mensagem que a gente quer espalhar, do que a gente aprende com Ògbóni e do que que a gente pretende ensinar como escola de samba”, comentou.

enredistas tucuruvisinopse

A sinopse consiste, basicamente, em quatro saudações, o que torna a setorização bastante óbvia:
– Saudação a Ilè
– Saudação ao Fundamento
– Saudação ao Mistério
– Saudação à Sabedoria

Toda a sinopse, por sinal, foi escrita em oriki, espécie de poesia oralizada muito comum no Oeste da África.

O carnavalesco resgatou a sequência citada pelo enredista e aproveitou para falar um pouco sobre a dinâmica de trabalho entre eles: “O meu processo e o do Cleiton é um casamento antigo. A gente vai criando essas divisões e vou passando para ele, assim como ele vai pesquisando e vai passando para mim. A gente foi pensando numa linearidade histórica que não é tão explícita para a gente poder abrir esse leque. Mas, se a gente for entender que, para Ògbóni, o Ilê é importante e é o princípio de tudo, não à toa que a gente começa com o Ilê. No segundo setor a gente explica o surgimento de Ògbóni. A gente sempre vai estar voltando ao Ilê, porque surge Ògbóni e tem esse Edan – que também é filha de Ilê. É quase que uma linha explicativa. Quando a gente está no segundo setor, como surge Ògbóni, a gente vai para o terceiro falando um pouco sobre eles, explicando sobre alguns ritos, alguns funcionamentos, como é que eles faziam. E chega no último setor saudando esses princípios que seguem até hoje. Se a gente for pensar, é quase uma linha cronológica – mas a gente vai com recortes diferentes para, também, não ser algo muito histórico”, refletiu.

Recortes

O terceiro setor, que terá entidades ligadas à sociedade Ògbóni, chamou atenção da reportagem – e, quando indagados, a dupla destacou que tal momento trouxe uma série de desafios. Nicolas começou: “O terceiro setor foi o que a gente mais demorou, foi o último setor que a gente conseguiu fechar de fato. Até no processo que a gente já está de desenvolvimento, foi um setor que a gente mexeu até poucos dias atrás. É o setor que não atua, é um mistério. Foi o que a gente mais teve dificuldade de pesquisa porque, normalmente, colocam Ògbóni como uma sociedade secreta, mas não é nesse sentido: é uma proteção deles. Como eles têm essas decisões, eles tinham que fazê-las num ambiente fechado. As tradições também ficam difíceis de ser acessadas por isso. Fora que, claro, por ser uma associação tão antiga, foi mais difícil entender esses mistérios – mas foi muito interessante a gente acessar algumas coisas e selecionar algumas delas. Foi o que a gente faz nesse setor. A gente selecionou as que a gente julgou principais para o entendimento de toda essa complexidade deles. É um setor que realmente foi o nosso calcanhar de Aquiles, mas tenho certeza que, como o próprio Tucuruvi tem essa mania, de quanto mais difícil para a gente, mais a gente gosta, vai ser ótimo. A gente estava até folheando visualmente, já com o projeto desenhado, e a gente falou que esse setor vai ser muito bonito”, comentou.

Cleiton confirmou: “É um setor muito forte. A gente aborda energias muito poderosas. Também tivemos essa questão na escrita, de como trazer essas divindades, esses espíritos que são tão poderosos e misteriosos. Algumas não podem nem ser vistas por quem não é de Ògbóni. Como que a gente escreve sobre isso? Teve que ter muito respeito na hora de pensar esse terceiro setor. Ele é muito poderoso”, comentou.

Unidade

Quando perguntado qual é o grande trunfo do desfile de “Ogbodirin Ogboni”, Nicolas respondeu pela dupla: “O nosso grande ponto forte é o conjunto. Foi um pouco do que a gente conversou no PodCarnavalesco SP: hoje, o Tucuruvi é uma escola muito alinhada em todos os seus setores – e isso tem sido um diferencial. Não à toa a gente percebe a quantidade de pessoas da comunidade que vieram hoje pra querer entender o enredo. Isso é muito legal! É uma escola que está muito alinhada com seus enredos, as escolhas são muito conscientes do que as pessoas querem ouvir e é um trabalho nosso, também: entender o que a comunidade quer cantar, o que a comunidade quer ouvir. Quando a gente pega Ifá, que foi tão importante para a escola; e, nesse retorno ao Grupo Especial, ter Ògbóni, ter essa potência e esse saudosismo é ótimo. Quando a gente se torna a última escola a desfilar, é quase que um ciclo espiritual se fechando. A gente vem com uma escola mais forte, mais organizada e eu tenho certeza que vai ser esse conjunto que vai nos levar longe. Se tudo der certo, eu tenho certeza que vai dar um bom samba. Hoje, a gente tem quadros fortes de quesito na escola – e, novamente, eu estou preparando, junto com a equipe, um estilo muito diferente de se apresentar. A gente brinca que é um enredo afro, com muitos parênteses, mas é um enredo afro diferenciado: Ògbóni não foi explorado ainda. A gente traz alguns elementos (como as iyamis) que já estiveram presentes, mas o próprio Ògbóni é algo muito novo no Carnaval. Está sendo muito especial conseguir trazer essa novidade. E é o que a gente gosta, também. O Tucuruvi abraçou esse lema de ser a diferentona e vamos, novamente, fazer esse enredo de forma diferente, que vai despertar essa curiosidade pra fazer o público ficar até o amanhecer com a gente no Anhembi”, encerrou.

Palavra do gestor

presidente tucuruvi

Rodrigo Delduque, presidente da Acadêmicos do Tucuruvi, sintetizou o enredo e também destacou o quanto ele se liga a Ifá: “Ògbóni é uma sociedade de matriz africana religiosa, vamos dizer assim. Ifá é o começo de tudo, Orunmilá é quando, para nós, se forma o universo – e, logicamente, Ògbóni vem na sequência, dando essa pitada de energia, de ancestralidade e de irmandade para esse enredo”, comentou.

A profundidade da pesquisa feita por Nicolas e Cleiton também foi comemorada pelo gestor: “Nós, desde a iniciação em Ifá, temos trazido bastante ancestralidade para dentro do Tucuruvi. Graças a Exu, o Nicolas rapidamente atendeu nosso pedido e se aprofundou bastante na pesquisa – que não é uma pesquisa tão fácil. É uma sinopse totalmente bem estruturada, bem feita por eles porque, se tratando de Ògbóni não tem em qualquer Google. E deu certo! Graças a Deus, tenho certeza que todo mundo vai gostar do que está escrito. O compositor, de uma certa forma, vai nos ajudar a trazer, em forma de samba, essa sociedade e todo o povo do Carnaval vai conhecer e ver melhor o que é Ògbóni”, finalizou.