Segunda escola a desfilar no Grupo de Acesso I de 2027, a Dom Bosco realizou a final de samba-enredo da agremiação neste sábado no Circo Social Dom Bosco, um dos espaços da obra salesiana que homenageia o sacerdote católico. Para embalar o desfile de “O Auto do Boi – Morte e Ressureição da Lenda do Touro Negro no Reino de Guaré – Histórias de Resistência do Boi que Pintou a Cara de Preto, Colocou a Estrela na Testa e foi Farrear em Noite de São João”, assinado pelo carnavalesco Fábio Gouveia, a agremiação deu o bicampeonato da eliminatória para a parceria formada por Gui Cruz, Douglas Chocolate, Darlan Alves, Portuga, Imperial, Luciano Rosa, Vitor Gabriel, Reinaldo Marques, Cacá Mascarenhas e Willian Tadeu, que assinavam o Samba 10 no concurso. Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO marcou presença no evento e traz todos os detalhes do que aconteceu na festividade.

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Pega na cara do boi

Embora o samba inteiro tenha versos muito fortes e fáceis de se lembrar e cantar, o que dá nome a este intertítulo já marca a obra. Gui, antes de falar do verso, fez questão de elogiar o enredo e o carnavalesco que idealizou a temática: “Esse enredo é um enredo ancestral. O Fábio Gouveia é um carnavalesco preto, um dos únicos carnavalescos pretos do Carnaval de São Paulo, e é um cara que tem uma sensibilidade fantástica e uma ancestralidade mais fantástica ainda. Poder trazer essa lenda do touro negro do Guaré para o samba, exaltando a cultura popular, com uma sinopse incrível e com tantos loucos nessa parceria, é espetacular. A gente tem o Douglas Chocolate, que é um maluco pela cultura popular, matraqueiro maluco. Quando saiu o enredo, ele já mandou uma ideia de samba sem ler a sinopse, para você ter ideia. O ‘pega na cara do boi’ já existia antes mesmo da gente começar a fazer o samba. A gente só não sabia onde encaixar, mas ele ia estar em algum lugar. A gente deixou a ancestralidade falar junto com a sinopse incrível. A nossa parceria é uma parceria de muitas pessoas e muitos amigos, que é o mais importante de tudo. A gente gosta de estar junto, de fazer samba junto, independente do lugar e de onde for. Vai ter sempre a magia da nossa parceria, que a gente leva para todos aqueles lugares que a gente está com samba, que a gente tem a possibilidade de sentar e escrever para se divertir, para colocar o nosso sentimento e a nossa poesia para falar”, comentou.

Chocolate também foi citado por Darlan: “A Dom Bosco, desde o ano passado que nós nos juntamos, nos agraciou de várias maneiras. Quando o Chocolate mandou o ‘pega na cara do boi’, não tinha como fazer um samba técnico. Foi uma coisa que foi saindo espontaneamente, com muita alegria. Para esse desfile da Dom Bosco, encaixou demais essa métrica do samba, ter essas frases fortes, pra ajudar a comunidade a cantar. Tudo que foi compondo, tudo que foi fazendo melodicamente e na letra foi construindo essa trilha. Eu tenho certeza que vai ser um samba que as pessoas que estarão na avenida no dia vão rapidamente decorar e cantar junto com a Dom Bosco. A gente recebeu muita mensagem de compositores falando que esse samba é um barato, que esse samba é muito bacana. Todo mundo ficava falando do ‘pega na cara do boi’. Foi muito bacana isso”, comemorou.

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Gui comentou que o tom para cima do samba-enredo foi proposital: “A gente fez o samba pensando justamente nisso: no povo, no horário de desfile da Dom Bosco e na forma que esse samba poderia virar na pista. Eu tenho certeza que o samba vai ser um sucesso na pista, porque tem muitas frases fortes, tem muitos refrãos que ficam na cabeça. Vai ser um samba forte”, destacou.

Composição tranquila

De acordo com Vitor Gabriel, a parceria campeã não teve grandes dificuldades para compor: “Foi um samba relativamente fácil de se compor. Quando você trabalha com uma sinopse e com um enredo que é muito inspirador, tudo se torna mais fácil. Tem samba que a gente fica um mês inteiro batendo, são dez encontros e acaba saindo até um samba meio burocrático. Na Dom Bosco, nesse ano, foi totalmente o inverso disso. Eu acredito que em duas semanas a gente matou. Foram dois, três encontros no máximo, para a gente fazer tudo. Começamos no WhatsApp, que facilita muito, e um ou dois encontros a gente matou, porque é muito inspirador essa temática”, refletiu.

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Gui entrou para fazer uma importante observação: “Esse negócio de fazer samba no WhatsApp não é pra nós, não. Demoramos mais para definir o refrão dentro do estúdio do que pra fazer o samba. A gente tinha um outro refrão, aí o Darlan, maluco, começou a perguntar por que a gente não poderia repetir a primeira frase do refrão. Mudamos tudo no estúdio. A gente mudou o refrão e foi a melhor coisa que podia acontecer”, revelou.

Vitor confirmou e reagiu com bom humor: “Essa é uma característica da parceria. A gente gosta de passar susto! Já teve samba que a gente chegou sem refrão no estúdio. Teve samba que a gente gravou o refrão e, no outro dia, foi lá e mudou o refrão. Na Dom Bosco está dando sorte e a gente vai seguir assim”, prometeu.

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Ao serem perguntados sobre a parte favorita do samba, em uníssono, todos cantaram a mais forte em um samba potente por natureza: “Pega na cara do boi/Cuida para não escapar/Quem tem fé agarra ele/Quem não tem que vai para lá”, comemoraram.

Direção satisfeita

Carlos Shakila, diretor de Carnaval da Dom Bosco, falou um pouco sobre os motivos pelos quais a agremiação fez a escolha pelo Samba 10: “Quando nós falamos desses três sambas-enredos, falamos de três sambas fortes e extremamente competitivos, sendo que nós recebemos catorze. Os compositores foram muito agraciados em conseguir fazer cada uma dessas obras. E nós fomos mais agraciados ainda por conseguir chegar na final do samba-enredo com três grandes obras, escolhendo o vencedor por se adequar melhor ao que nós queremos. Nos últimos anos, nós viemos conquistando espaço e carisma da comunidade, e essa final de hoje tem muito a dizer sobre o que nós vamos falar na pista desse ano. A Dom Bosco vem muito mais aguerrida, muito mais preparada. Aprendemos a trabalhar, aprendemos a conquistar espaço, aprendemos a desenvolver aquilo que é nosso. E, quando eu falo que aprendemos a trabalhar, dentro desse Grupo de Acesso I que é tão grande e tão competitivo, se você não aprender, no dia a dia, a fazer o básico, que é o arroz e feijão, às vezes a gente não consegue nem caminhar com passos largos. Vamos fazer tudo com o pezinho no chão, mas com um bom trabalho. E, como sempre, fazer acontecer na pista”, destacou.

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Múltiplos projetos

Perguntado sobre as datas que os dombosquenses devem guardar, Shakila fez questão de frisar as diversas ações que a Escola do Padre está concebendo: “Nós criamos um circuito que era um sonho de anos nosso, que é o Quintal do Padre. Uma vez por mês nós nos reunimos para fazer um samba na nossa quadra. Também uma vez no mês nós fazemos grandes encontros de treinamentos, manual do julgador, treinamento, quesito a quesito. Em duas ou três semanas já vamos fazer os ensaios com as alas e já vamos para o estúdio para gravar a versão oficial da escola. E, aí, nós vamos nos preparar para o audiovisual da Liga-SP. Nossa preparação total vai ser para o audiovisual. Em novembro, nós temos uma grandiosa Festa da Bateria. Eu espero muito que a nossa escola este ano esteja muito preparada e focada para o nosso calendário. Temos um calendário fantástico, com muitas datas. Às vezes eu estou sendo até leviano de falar de uma única data específica, mas nós temos atividades quatro vezes na semana em tempos normais. Também estamos tendo escolinha de bateria, escola de aderecista, escola de cavaco. Nós estamos com cinco cursos itinerantes aos sábados. Quem quiser pode vir, a casa é nossa”, convidou.

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Nível alto

Embora obviamente tenha destacado o samba vencedor, Fábio Gouveia fez questão de valorizar a evolução da eliminatória da escola ano após ano: “Vou para o meu terceiro Carnaval com a Dom Bosco e sempre houve uma necessidade de algumas realizações aqui. Uma delas é o concurso de samba-enredo. De dois anos para cá, nós estamos fazendo um concurso realmente aberto, recebendo o maior volume possível de sambas. Nesse ano, para nossa surpresa, nós tivemos catorze sambas. Desses, nós tínhamos uns seis que a gente falou que, se der algum problema, dá pra fazer ajustes e junções. A gente conversou muito para entender. Foram trinta dias visitando os sambas-enredo, fazendo reuniões com os componentes, com as lideranças, para que todo mundo entendesse a fundo o que é o enredo da nossa escola. A gente chegou na final com três sambas extremamente competentes e com um vencedor espetacular, de compositores muito fortes, que tem um trabalho incrível no Carnaval, e que nos proporcionaram sambas que nos deram muitas alegrias hoje”, disse.

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Intérprete detalhista

Estreante na escola do Padre no ciclo do Carnaval 2027, Rodrigo Atração se ateve à intensa disputa entre os sambas que se apresentaram neste sábado: “Estou chegando agora aqui na Dom Bosco e o que eu tenho escutado que essa foi a final mais equilibrada da história da escola. O nível foi muito alto! Os três sambas abordam de forma diferente o enredo do boi, mas a nossa direção optou por escolher um samba que nos representa muito bem levando em consideração alguns fatores como ordem de desfile, o grupo que a gente está e, principalmente, o conteúdo do enredo”, comentou.

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O intérprete destacou que é possível melhorar a obra ainda mais: “Qualquer samba escolhido passa por ajustes melódicos e/ou de letra. Com o samba muito bem escolhido, eu já estou aqui pensando e vou começar a me debruçar no projeto para o Carnaval 2027”, comentou.

Festa também na bateria

Anderson Luiz, popularmente conhecido como mestre Bola, comandante da Bateria Gloriosa, elogiou o espírito animado do enredo e do samba: “É mais um enredo diferente e ainda mais bem alegre, bem festivo. Tinham três sambas em alto nível na nossa final e venceu o melhor. Agora é trabalhar para fazer ele render ainda mais”, afirmou.

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Após uma noite de descanso, o ritmista-mor da Dom Bosco afirmou que já pensará em como deixar a obra ainda melhor: “A partir de domingo a gente já senta e já vai vendo os arranjos. Nossa diretoria foi para o Maranhão, foi ver vários bois do nosso enredo, foi ver algumas batidas típicas dos bois de lá. Vamos ver se dá para encaixar alguma coisa! Também já começamos a ver o BPM da bateria, se é mais para frente ou mais para trás”, refletiu.

Defensores do pavilhão de olho nas mudanças

Primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Dom Bosco, Leonardo Henrique e Mariana Vieira foram bastante sucintos ao falar da obra escolhida para o Carnaval 2027: “A disputa foi bem acirrada, mas temos certeza que o samba escolhido foi o melhor para escola”, comentou Mari.

Léo também exaltou o alto nível das obras: “Os três sambas são incríveis! A Dom Bosco vem numa crescente muito grande em relação a sambas-enredo e eu fico muito feliz com isso. Foi feita a vontade do povo e foi escolhido o melhor para a escola”, disse.

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A porta-bandeira foi mais uma dombosquense a elogiar a temática da escola: “A cada enredo nós nos reformulamos nossa dança. E, nesse ano, vai ser bem bacana por ser um enredo bem animado, bem diferente da temática que viemos no ano passado. Temos certeza que vai ser um Carnaval bem leve e alegre, com uma coreografia bem diferente, também”, destacou.

Já o mestre-sala falou em mudanças: “O trabalho é contínuo, todos nós sabemos que o trabalho de casal de mestre-sala e porta-bandeira é o ano todo: acaba um Carnaval e a gente já inicia o trabalho para o próximo. A gente já vem, já começa a pensar nessa questão de linha e de coreografia. Eu espero que seja um ano diferente para nós, vai ser um ano que nós vamos nos reinventar. Vai ser um ano diferente para todo mundo. É dançar, ser feliz e trazer a nota para a escola”, comentou.

Evento cheio

Engana-se quem pensa que a final de samba-enredo foi o único atrativo da Dom Bosco no sábado. A tarde começou com uma apresentação da Quadrilha Junina Explosão Paulista. Após a tradicional oração (é sempre bom relembrar que a agremiação é um dos braços de uma obra social salesiana, congregação católica voltada para a Educação), o elenco dombosquense para 2027 foi apresentado para a comunidade.

Diversos segmentos da escola, como a Ala de Passistas, a Ala das Baianas e a Comissão de Frente (vencedora do Estrela do Carnaval, organizado e concedido pelo CARNAVALESCO em 2026), se apresentaram ao som de sambas antigos da agremiação. O grupo Tambor de Crioula também marcou presença antes da despedida oficial do samba-enredo de 2026, e a agremiação fez questão de já revelar os protótipos para o desfile de 2027. Por fim, o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marcos Rodrigues (que já estava na agremiação) e Mariana Silva (estreante) recebeu o novo pavilhão de enredo, que chamou atenção com as franjas multicoloridas, característica também muito presente nas fantasias apresentadas. A coirmã Acadêmicos do Tatuapé também se apresentou na festividade.

Apresentações

Os três sambas finalistas foram executados pela própria ala musical da Dom Bosco, comandada por Rodrigo Atração e com a presença de Yara Melo, Ariane Cuer e Washington Vinícius. O primeiro a se apresentar foi o Samba 11, composto por Victor Rangel, Alessandro Tigana, Herval Neto, Dom Junior, Marcello Battistta, Jonathan Tenorio, Leandro Neguinho, Jackson Silva e Renne Barbosa. A obra chamou atenção sobretudo pelos refrãos bem mais longos que o normal: o do meio tinha oito versos, enquanto o de cabeça contava com sete, mas um desses versos, o terceiro, era bem maior que os demais.

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Já o Samba 03, composto por Turko, Rafa do Cavaco, Silas Augusto, Fabio Souza, Lê Lima, João Vidal e Bruno Giannelli, deixou mais claro na letra a citação a outros bois (além do Guaré, alvo do enredo), como o interessante verso “o boi é o bicho do Brasil” deixava claro. Garantido e Caprichoso, por exemplo, eram citados. O refrão de cabeça, com dois versos bastante semelhantes, o falso refrão antes do refrão de cabeça e o contraste entre a primeira estrofe mais extensa e a segunda mais curta também deixaram boa impressão.

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Já o campeão, Samba 10, da mesma parceria que já tinha vencido o concurso para embalar o desfile de “Mariama, Mãe de todas as raças, Mãe de todas as cores, Mãe de todos os cantos da terra” em 2026, empolgou pela quantidade de trechos fortes. O supracitado ‘pega na cara do boi’ é o mais forte deles, mas o primeiro verso que se repete no refrão de cabeça (“Vaqueirada me chamou, vou bater caixa de guerra”) e o verso que encerra tal trecho (“Quero ver desafiar o meu boi solto na rua”). Por fim, os “Ê boi” do refrão do meio também causaram ótima impressão.