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Fotos: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

Na madrugada deste sábado para domingo, a Mancha Verde definiu o samba-enredo que irá embalar o ciclo do Carnaval 2027. Como já é tradição, a escolha aconteceu durante a última Festa Julina promovida pela agremiação, que mais uma vez reuniu a comunidade em um grande contingente. O evento contou com uma verdadeira imersão no universo do samba, com o “Terreirão da Mancha”, atração que reuniu alguns sambistas e promoveu uma viagem pela história da escola, relembrando obras antigas. Intérpretes como Vaguinho, responsável por defender sambas históricos da agremiação, e Lucas Donato participaram da programação. Ao longo da apresentação, foram apresentados sambas de diferentes escolas, com destaque para obras marcantes da própria Mancha Verde, em uma homenagem à trajetória da verde e branca. Já na madrugada, a disputa pelo samba-enredo começou oficialmente com a apresentação dos três finalistas. Cada parceria teve 20 minutos para subir ao palco e apresentar sua obra, buscando conquistar a preferência da diretoria e da comunidade.

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Primeira a se apresentar, a parceria de número 4 foi a grande vencedora da noite. O samba campeão foi composto por Pedroca, Aquiles da Vila, Gui Cruz, Fabiano Sorriso, Lucas Donato, Marcos Vinicius, Fábio Gonçalves, Cabide e Chico Maia.

“Tenho um carinho enorme pela Mancha Verde e sou muito grato ao Paulinho. Já tive a felicidade de vencer em 2018, 2019, no primeiro título da escola, e também em 2020. Depois, participei de todas as disputas seguintes, mas não consegui vencer. Voltar a ganhar neste ano me deixa realizado e muito feliz”, afirmou Gui Cruz, um dos compositores da parceria campeã.

Importância de toda a comunidade na decisão final

O presidente Paulo Serdan revelou que a participação da comunidade na escolha do samba-enredo reforçou o trabalho realizado ao longo das semanas de avaliação. “Neste ano, a comunidade também participou da escolha. Todos que fizeram a inscrição na ala da comunidade tiveram direito ao voto, e recebemos mais de 200 participações. O mais importante é que o resultado da comunidade confirmou o trabalho que realizamos ao longo de quase 50 dias de avaliações. Isso nos deu ainda mais tranquilidade, porque mostrou que estávamos no caminho certo”.

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Ao comentar o samba vencedor, o dirigente afirmou que a obra atendeu exatamente ao que a escola buscava para o desfile. “É um samba que emociona. Claro que alguns trechos, principalmente os que falam da educação, mexem comigo. Havia outras obras com momentos marcantes, mas essa parceria conseguiu traduzir exatamente o que pedimos desde a apresentação do enredo: um samba leve, com uma harmonia aguerrida e que proporcionasse uma evolução solta, levando a escola para a frente. Eles foram muito felizes. A melodia é muito agradável e acredito que fará a Mancha desfilar de forma leve e envolvente. Tenho certeza de que esse samba vai funcionar muito bem na Avenida”.

O presidente também detalhou como foi conduzido o processo de escolha até a definição do campeão. “Mantivemos o mesmo método que utilizamos há vários anos. Primeiro, fazemos uma avaliação técnica, eliminando alguns sambas ainda pela gravação. Depois, iniciamos os testes de canto. Fizemos avaliações dentro da sala e também no palco, onde o som é mais limpo e permite uma análise melhor. Neste ano, decidimos chegar mais rapidamente aos três finalistas para concentrar todo o trabalho apenas neles. Foi exatamente o que aconteceu. Passamos bastante tempo avaliando esses três sambas porque chega um momento em que já não há mais evolução. Nessa fase, a votação é fechada e todos os votos ficam sob minha responsabilidade. Vou acompanhando diariamente e, quando percebo que o cenário se estabilizou e que as oscilações naturais já não alteram o resultado, entendemos que é o momento da definição”.

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Sobre a participação da comunidade, explicou como foi organizado o processo. “Como começamos as inscrições durante a Festa Julina, prometemos que a comunidade teria direito a votar na decisão final. Os três sambas finalistas foram divulgados apenas no domingo anterior à final, para que todos tivessem a semana inteira para ouvi-los e chegassem preparados para votar”.

Falando sobre os preparativos para o Carnaval 2027, o dirigente revelou que a produção das fantasias e alegorias já está em pleno andamento. “Na segunda-feira, vamos fotografar todas as fantasias no espaço do Itaú Cultural, onde acontece a ocupação dedicada à Ruth Rocha. Também pretendo conversar com a família dela para organizar uma apresentação dos pilotos das fantasias aos convidados da escritora, possivelmente na Academia Paulista de Letras, onde ela ocupa uma cadeira. Nosso objetivo é ampliar o alcance desse enredo. Queremos aproximar do carnaval pessoas ligadas à educação, professores e admiradores da obra da Ruth Rocha. Fizemos isso no lançamento do enredo e queremos dar mais um passo nesse processo”.

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Sobre a produção do desfile, o presidente disse que o cronograma foi antecipado por causa do Carnaval mais cedo em 2027. “Os ateliês já estão definidos, os materiais começaram a chegar e, na segunda-feira, iniciaremos a compra de tudo o que será utilizado nas alas. O Rodrigo já concluiu todas as fichas técnicas. Nas alegorias, começamos pelo segundo carro. Como o Carnaval será mais cedo, pedi ajuda ao Troy, que hoje trabalha com cenografia. Antes mesmo da chegada da equipe de Parintins, todas as esculturas desse carro já estavam prontas. Agora, elas estão na fase de pintura. O Robertinho e a equipe dele já estão em São Paulo trabalhando na estrutura, enquanto iniciamos também a montagem do abre-alas. Fizemos alguns ajustes no projeto, principalmente na parte frontal, e o resultado ficou ainda melhor. Hoje também recebi o projeto do terceiro carro, que está fantástico. Será um carnaval leve, colorido e com uma leitura que certamente vai emocionar quem conhece e admira a obra da Ruth Rocha”.

Vencendo o primeiro samba-enredo na escola certa

Pedroca, compositor campeão da Mancha Verde, celebrou a conquista do primeiro samba-enredo vencedor de sua trajetória e falou sobre a emoção de ver a comunidade abraçando a obra. “É uma sensação completamente diferente. Comecei a escrever samba-enredo sozinho em 2024, e meu primeiro samba foi justamente aqui na Mancha. Ganhar um samba que vai para o Anhembi é algo inexplicável. É uma sensação maravilhosa. Mais do que vencer, o que me marcou foi ver o Pepe (locutor do palco) perguntando para a comunidade qual samba merecia ganhar e ouvir o povo cantando o nosso. Isso não tem preço. Espero que seja o primeiro de muitos. A gente vem trabalhando, se esforçando e tratando o samba com todo o cuidado. Graças a Deus, minha primeira vitória aconteceu justamente na escola onde escrevi meu primeiro samba-enredo. É indescritível”.

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O autor da trilha sonora também relembrou que, em 2024, chegou a cogitar deixar as disputas por conta dos altos custos, mas explicou o que o motivou a seguir. “Escrever samba-enredo é muito caro. Hoje vejo muitos compositores começando, mas sem uma direção. Quero continuar justamente para mostrar que, apesar das dificuldades, vale a pena se estruturar e acreditar. Hoje tenho parceiros e não estou mais naquela loucura de fazer samba sozinho. Também quero mostrar que não são apenas os medalhões que podem chegar. Quem tem sonho, competência e força de vontade também pode conquistar espaço. Espero que apareçam muitos outros ‘Pedrocas’ no Carnaval de São Paulo. E tomara que as escolas encontrem um formato que permita a novos compositores disputarem, mesmo sem grandes condições financeiras”.

Integrando uma parceria formada por nomes consagrados, como Aquiles da Vila, Gui Cruz, Lucas Donato e Fabiano Sorriso, o compositor destacou a forma democrática como o samba foi construído. De acordo com ele, foi totalmente abraçado. “É incrível compor com esses caras. Quando você olha de fora, imagina que vai apenas sentar e assinar o samba. Mas é justamente o contrário. Eles dão espaço para apresentar ideias. Na nossa primeira reunião, cheguei com uma proposta pronta e todos ouviram. Algumas coisas entraram no samba, outras foram debatidas e mudaram naturalmente. Só o fato de terem escutado minhas ideias já foi algo especial para mim. Compor com eles é mágico. Eu tinha até receio de trabalhar nesse formato, mas foi uma experiência fantástica. São compositores extremamente competentes, cada um com um talento único. Eles se completam. São multicampeões porque têm muito talento, e não apenas por contatos, como muita gente costuma dizer”.

Ao falar sobre o trecho preferido do samba, Pedroca apontou a parte final da obra. “O final do samba é um absurdo. Acho lindo e emocionante. É um trecho que ganha ainda mais força quando a comunidade canta. Tenho certeza de que, quando todos ouvirem no Sambódromo ou no CD, vão entender do que estou falando:

‘Mancha, como é lindo ser criança
Sou Rocha da educação
Rute coroada nesse chão
Verde sempre foi a cor da esperança
A Norma da superação
Herança do meu pavilhão'”

Dia radiante

Gui Cruz, que venceu samba em outra agremiação, destacou a emoção desse feito e também aproveitou para elogiar a parceria que venceu com ele na Mancha Verde. “Acho que hoje foi um dia emocionante, de diversas formas. Este ano consegui me realizar fazendo os sambas que eu queria, nos quais acreditava e que realmente representavam o que eu penso. Foi meu primeiro ano compondo com essa parceria, além da que eu já mantinha na Mocidade. São pessoas que fazem samba com o coração, emoção e sensibilidade. Aprendi muito trabalhando ao lado deles e dividindo esse processo. Estou feliz demais”.

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Ao falar da composição da obra, o compositor exaltou o parceiro Pedroca, que foi fundamental para a vitória na escola. “Sobre o processo de composição, a chegada do Pedroca foi fundamental. Ele é um cara inteligente, apaixonado pelo samba e que acredita verdadeiramente no que faz. Muitas vezes, acabamos ficando calejados por tudo o que acontece nas disputas, mas precisamos de pessoas como ele para nos lembrar por que amamos fazer samba. O Pedroca me fez recordar o motivo de eu gostar tanto de compor. Esta foi a primeira disputa dele, e foi muito especial viver esse momento ao lado dele. Ver o entusiasmo dele me fez reencontrar a essência do que me move dentro do samba. Isso foi marcante”.

Casamento perfeito com o trabalho

O carnavalesco Rodrigo Meiners disse que seu receio era de que os compositores não entendessem a proposta do tema, mas todos foram felizes. “Quando escolhemos esse enredo, uma das nossas principais preocupações era que os compositores entendessem a leveza da proposta do nosso desfile e conseguissem criar um samba-enredo com temática infantil. O samba não poderia ser excessivamente sério, porque o desfile será muito divertido. Ao mesmo tempo, precisava manter as características de um verdadeiro samba-enredo, pensando não apenas no julgamento do quesito samba-enredo, mas também em outros quesitos, como bateria. Também não queríamos que o samba parecesse uma música de desenho animado ou de personagem infantil. Felizmente, essa preocupação desapareceu assim que recebemos as obras. Os compositores foram muito felizes, e tivemos grandes sambas na disputa, especialmente os três finalistas”.

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Falando sobre a parceria vencedora, o artista destacou os refrões do samba-enredo e disse que a obra combina de maneira perfeita com o que ele planeja para o desfile da Mancha Verde em 2027. “Desde o início, o samba 4 se destacou pelos dois refrões. Ele tem momentos que, principalmente nos refrões, nos permitem ousar um pouco mais no desfile. O impacto dessa escolha no meu trabalho de criação para o Carnaval 2027 é justamente incorporar a mensagem, as brincadeiras e a leveza desses refrões, transformando tudo isso em elementos visuais, alegorias e fantasias. Fiquei muito feliz com a escolha. Quando olhamos para o nosso projeto, para os pilotos das fantasias, para os desenhos dos carros alegóricos e ouvimos esse samba, percebemos que ele combina perfeitamente com o clima e o espírito que queremos transmitir no desfile. Acho que isso já serve como um grande spoiler do que estamos planejando para o Carnaval, agora que o samba 4 foi escolhido como o samba-enredo vencedor”.

Samba fácil de cantar, mas é preciso trabalhar com os componentes

Um dos diretores de harmonia, Danilo Duarte, contou que a escolha foi difícil, mas o samba 4 teve grande destaque por estar completo. O diretor ainda ressaltou que vai trabalhar forte o canto com a comunidade. “Foi difícil. Tínhamos muitos sambas, cada um com uma característica diferente: um se destacava pela melodia, outro tinha uma letra mais elaborada. Então, não foi uma escolha fácil. Mas, dentro de tudo o que precisávamos, tanto de letra quanto de melodia, venceu o samba que estava mais completo nesse sentido. Como diretor de harmonia, vou trabalhar essa melodia junto com a escola e a comunidade. Não é um samba difícil. O samba 4 é fácil, e o povo já está cantando, o que ajuda muito o nosso trabalho na harmonia. É um samba com uma melodia muito boa. Para mim, era o melhor em termos de melodia entre os que concorreram, e isso também vai contribuir para a nossa evolução”.

Convocando a comunidade, Danilo diz que não é um samba difícil e promete levar o melhor projeto para o Anhembi. “Agora é a comunidade chegar para fazermos os ensaios e levarmos esse trabalho para a avenida. Não é um samba que vai dar muito trabalho para a gente. Vamos levar um samba muito bom para o desfile”, completou.

Análise da obra

Dá para afirmar que o título conquistado pelos autores foi completamente justo, pois o samba conseguiu transmitir ao público uma emoção completa. A letra também apresenta facilidade de compreensão e canto, tornando-se acessível para a comunidade. É uma obra relativamente curta, que concentra sua narrativa nas principais características de Ruth Rocha, conectando esses elementos ao refrão central.

Na segunda parte do samba, diversas sacadas chamam atenção. Um dos principais exemplos está no verso “Sou Rocha da educação”, que faz uma alusão ao sobrenome da homenageada e, ao mesmo tempo, utiliza a simbologia de uma rocha como algo forte, resistente e presente nos ensinamentos deixados por Ruth Rocha.

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Outro trecho de destaque é “A Norma da superação”. O verso aborda a capacidade da Mancha Verde de se reinventar e superar adversidades ao longo de sua história, mas também presta uma homenagem especial à mãe do presidente Paulo Serdan, Dona Norma. Enquanto esteve viva, ela teve uma participação muito ativa dentro da agremiação e deixou uma marca importante na trajetória da escola. “Verde sempre foi a cor da esperança” também é outra frase que se destaca.

Já o verso “Vem voar e voltar a sorrir” apresenta uma beleza singular e permite diferentes interpretações. Pode ser entendido como um convite para retornar à infância e reencontrar a magia presente nas obras de Ruth Rocha, mas também carrega uma simbologia ligada à própria Mancha Verde, como um desejo de voltar a voar alto e alcançar novamente os grandes momentos da escola.

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O samba começa justamente com essa mensagem de leveza, traduzindo a essência do universo infantil e dialogando diretamente com a obra da homenageada. A apresentação foi conduzida pelos intérpretes Gui Cruz e Lucas Donato, que também integram a parceria de compositores da obra. A participação da torcida foi um dos grandes destaques da noite, com a comunidade cantando em uma só voz, em meio a balões e efeitos de pirotecnia.