Por Gustavo Lima e Pedro Andrade
A Mocidade Alegre realizou seu segundo ensaio de rua visando ao Carnaval 2027. O treinamento contou com participação mediana da comunidade, algo incomum na agremiação, que costuma reunir seus componentes em grande número. O ensaio também foi realizado sem o carro de som, o que ocasionou dificuldades de sincronia no canto entre as alas no início do percurso. Entretanto, o principal destaque ficou por conta do casal de mestre-sala e porta-bandeira Emerson Ramires e Graci Araújo, que demonstrou intensidade durante todo o treinamento. Do primeiro ao último minuto, os dois bailaram, executando a coreografia e os movimentos obrigatórios, inclusive com pesos presos ao corpo para simular a gravidade da fantasia do próximo desfile. A comissão de frente, liderada pelo coreógrafo Jhean Allex, também merece destaque positivo, embora tenha interrompido sua evolução durante determinado período do percurso. Ao todo, a Mocidade Alegre realizou um ensaio com pontos de atenção, sobretudo em relação ao contingente apresentado.
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COMISSÃO DE FRENTE
Comandada pelo coreógrafo Jhean Allex, a comissão de frente da Mocidade Alegre iniciou o percurso realizando a coreografia preparada especificamente para os ensaios de rua e de quadra. De acordo com o próprio coreógrafo, alguns elementos só poderão ser vistos no dia do desfile oficial. Sendo assim, a apresentação priorizou a evolução junto à escola, com passos no ritmo do samba-enredo e bastante interação entre os bailarinos. Outro ponto importante a ser observado é a coreografia apresentada aos jurados, cuja encenação foi dividida em dois atos durante as passagens do samba. Vale destacar a atuação do personagem que representava um anjo. Quando os versos “Clareia a redenção, de um anjo a proteção, a flutuar pra encontrar um novo cais desembarcar” eram cantados, o componente era erguido pelos demais bailarinos. Agora, fica a expectativa para observar como essa proposta será desenvolvida nos ensaios técnicos, com a utilização do tripé, e, naturalmente, no dia do desfile. Vale ressaltar também que a comissão de frente permaneceu parada por um período. O grupo começou a evoluir no início do percurso, mas interrompeu a apresentação por um bom tempo ao entrar na Avenida Engenheiro Caetano Álvares. Após alguns minutos, a ala voltou a colocar sua coreografia em prática.
O coreógrafo Jhean Allex revelou que está trabalhando com um grupo formado por novos bailarinos e demonstrou satisfação com a renovação. Ele também destacou a importância dos ensaios de rua semanais.
“A comissão já vem se preparando há muito tempo. É um grupo que se renova a cada ano, com a chegada de novos integrantes. Acho muito interessante porque estamos formando bailarinos que desejam vivenciar essa experiência no Carnaval. É algo histórico, pois, na área da dança, é muito difícil encontrar oportunidades como essa. Quando podemos abrir as portas e proporcionar essa vivência aos bailarinos, é incrível. Eles chegam com dedicação total. A Mocidade Alegre é uma das poucas escolas que realizam ensaios de rua semanalmente, sempre às sextas-feiras. Isso é fundamental, porque a escola depende de vários fatores, como o canto, o andamento e a maneira como a energia se desenvolve. É um treinamento, assim como acontece em uma apresentação de uma companhia de dança. Precisamos ensaiar para chegar ao grande dia e fazer bonito. O ensaio de rua proporciona justamente isso: fortalece o canto, a força da escola e mostra como a comunidade abraça o trabalho. É 100% importante”, declarou.

Jhean também explicou a dinâmica da coreografia trabalhada com os bailarinos para o próximo desfile. “Todos os anos, costumo dividir a apresentação da comissão de frente em duas passadas do samba. Em cada uma, conto uma parte diferente da história. Neste ano, teremos uma pequena mudança nessa dinâmica. Vamos apresentar uma comissão muito ativa na dança, mas também na interpretação. Até aqui consigo adiantar. Será algo bastante diferente, com uma proposta muito lúdica, mas, ao mesmo tempo, com movimentos muito viscerais”, disse.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Sem dúvidas, foi o quesito de maior destaque da noite. O mestre-sala Emerson Ramires e a porta-bandeira Graci Araújo estão no início da parceria, mas já é notória a sincronia entre eles. Pelo visto, a Mocidade Alegre acertou em cheio ao resgatar seu antigo dançarino após muitos anos. A contratação de Graci também foi certeira, já que a porta-bandeira brilhou nos últimos anos pelas agremiações por onde passou. Se, no primeiro ensaio de rua, o casal evoluiu com a fantasia do Carnaval 2026, neste treinamento a dupla utilizou pesos nas regiões do tórax e das costas para simular a gravidade da vestimenta que será utilizada no próximo desfile. É nítido que os ensaios particulares estão caminhando de maneira positiva. Vale destacar que, entre todos os quesitos de dança, o casal foi o único que manteve a intensidade durante todo o percurso. Do início ao fim, os dois levaram o treinamento à risca, realizando a coreografia dentro do samba e executando corretamente os giros nos sentidos horário e anti-horário.

“O primeiro ensaio foi marcado pela chuva, e estávamos tentando simular a apresentação diante dos jurados pela primeira vez. Neste segundo ensaio, conseguimos demarcar melhor o circuito e entender seu percurso. Para mim, que sou novata na escola, é um trajeto diferente, com muitas curvas e trechos mais estreitos. Hoje, também realizamos a simulação com o peso da fantasia da Avenida. Acredito que o ensaio foi muito mais produtivo. Conseguimos passar pelos quatro jurados com mais precisão e limpeza. Além disso, sincronizamos nossa apresentação com os guardiões. Foi muito legal, porque já começamos a dar uma cara de desfile ao ensaio. Inclusive, depois do ensaio de rua anterior, decidimos reduzir a coreografia. Retiramos 15 segundos, pois ela estava muito extensa”, contou a porta-bandeira.
“Estamos em uma crescente, mas ainda temos muita coisa para melhorar, o que é normal. Precisamos intensificar os ensaios para chegar ao nosso objetivo, que é alcançar o êxito no dia do desfile. Tudo precisa ser feito com calma. Não podemos colocar a carroça na frente dos bois, porque isso pode comprometer o trabalho. Estamos avançando com tranquilidade, entendendo as questões relacionadas aos jurados e identificando o que podemos ou não fazer, além dos pontos que precisam de ajustes. Os pequenos detalhes farão a diferença na Avenida. Por isso, estamos evoluindo e o trabalho está fluindo. Queremos ir muito além do que já construímos até aqui”, completou o mestre-sala.
HARMONIA
Este é um quesito em que a Mocidade Alegre costuma apresentar bons resultados. O samba-enredo já está na boca do povo, mas, durante este ensaio de rua, houve uma situação que demorou a ser corrigida pelas lideranças. Sem a presença do carro de som, as alas da frente não estavam em sintonia com as que ocupavam o fundo da formação. O problema aconteceu logo no início, após o apagão realizado pela bateria Ritmo Puro. Integrantes do departamento de harmonia precisaram percorrer diferentes pontos da formação da escola para corrigir o canto. O ajuste foi realizado com sucesso, mas a situação merece atenção, pois nem todos os ensaios de rua da Mocidade Alegre contam com a presença do carro de som. Também é preciso considerar as situações que podem ocorrer no Sambódromo. Caso o sistema de som apresente alguma falha, a harmonia ainda precisará manter a sintonia com a bateria. Nesse sentido, sem dúvidas, o episódio serviu como um importante ponto de observação para a Mocidade Alegre. Apesar disso, os componentes que estiveram presentes cantaram com força a letra do samba-enredo para o Carnaval 2027.

Membro da direção de carnaval da Mocidade Alegre, Dudu Teixeira apresentou sua avaliação sobre o treinamento e destacou a importância dos ensaios para o desenvolvimento do canto. “Ensaiar com o carro de som é importante para sentirmos o canto e avaliarmos como a escola está assimilando o samba. É natural que existam variações. Na Rua Madalena Madureira, geralmente o ensaio tem mais vigor, porque é o início do percurso e o momento em que realmente simulamos o desfile, com recuo, parada, apresentação do casal e outros elementos. Quando viramos na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, procuramos fortalecer o canto, a escola se acomoda um pouco mais, fica mais próxima e seguimos em um cortejo com a bateria. Gostei do ensaio. Acho que estamos no caminho certo”, avaliou.
De acordo com o diretor, os desencontros no canto entre as alas podem acontecer, mas o ensaio serve justamente para identificar e corrigir essas situações. “Quando o Sombra realizou o paradão da bateria e fizemos uma passagem inteira do samba, na rua, sem uma referência sonora, sem o carro de som, é natural que aconteçam atrasos. Isso ocorre principalmente porque existem setores em que há um espaço maior entre os componentes, como na região do casal e das baianas, onde poucas pessoas acabam cantando. Cada pessoa tem um tempo de resposta diferente ao samba, e isso faz parte do processo. O ensaio serve justamente para identificar e corrigir essas situações”, afirmou.
Dudu também explicou o motivo de a escola não ter comparecido com um contingente tão expressivo quanto o do primeiro ensaio. “Na verdade, a escola acabou se dividindo. Estamos tendo o concurso da rainha, e muitas pessoas foram acompanhar e torcer pela nossa candidata, que também tem ligação com o Miss de Anápolis. Por isso, tivemos um contingente um pouco menor neste ensaio”, contou.

Por fim, o diretor afirmou que novas reuniões serão realizadas para aprimorar o trabalho da agremiação. “As reuniões acontecem constantemente. A direção de Carnaval da Mocidade Alegre tem encontros periódicos, com ou sem a proximidade do Carnaval, todas as terças-feiras. Nos reunimos na sala da presidência e certamente vamos conversar sobre o ensaio. Os próximos encontros fazem parte de um processo natural de evolução, que se repete todos os anos. Começamos de uma maneira, chegamos ao primeiro ensaio técnico com aproximadamente 60% do trabalho, ao segundo com 90% e, na Avenida, buscamos alcançar os 100%. Geralmente, esse é o caminho. Quando a Mocidade Alegre coloca a fantasia, o resultado costuma ser muito bom, como você sabe”, concluiu.
EVOLUÇÃO

Neste ensaio, a Mocidade Alegre acelerou bastante o ritmo dos passos. Em alguns momentos, ficou a impressão de que a escola pretendia chegar logo ao fim do percurso para cumprir o treinamento previsto na agenda. Outra possibilidade é que isso tenha ocorrido em razão do contingente atípico de componentes presentes. A maior dificuldade dos harmonias durante o ensaio de rua da Mocidade Alegre está na manobra de entrada dos componentes na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, uma vez que eles próprios precisam cuidar tanto do trânsito quanto da organização dos integrantes. O mais impressionante é que a escola consegue manter o alinhamento durante a movimentação. É claro que se trata de um procedimento realizado há muitos anos, mas o resultado merece ser ressaltado. As alas presentes souberam ocupar seus espaços entre as fileiras e evoluir corretamente, preenchendo também os espaços da pista e evitando a formação de buracos. Entretanto, o ensaio não pode ser utilizado como parâmetro definitivo, já que o contingente habitual da escola não esteve presente.
SAMBA
Como citado anteriormente, o carro de som, liderado pelo intérprete Igor Sorriso, não esteve presente. Talvez essa ausência tenha dificultado a sincronia do canto entre as alas, situação que deverá ser corrigida com o passar do tempo. Vale destacar, porém, que, nos demais momentos do ensaio, a harmonia da escola conseguiu se alinhar com a bateria e o canto apresentou uma evolução positiva. Tanto é que um segundo apagão foi realizado, e a retomada do samba aconteceu de maneira mais organizada.
OUTROS DESTAQUES

A bateria “Ritmo Puro”, comandada pelo mestre Sombra, conseguiu imprimir sua identidade musical e realizou bossas durante o percurso. A orquestra contou com o mesmo número de ritmistas do ensaio anterior. Vale destacar também a ala das baianas, que apresentou saiotes coloridos. As mães do samba cantaram o samba-enredo durante todo o percurso. Neste ensaio, a Mocidade Alegre também contou com duas alas coreografadas, uma no início e outra no final da formação da escola.
Questionado se a forte chuva do primeiro ensaio havia prejudicado o trabalho, o mestre Sombra afirmou que as condições climáticas não devem interferir na seriedade da preparação. “Não muda nada. Temos que ensaiar de acordo com o tempo e seguir em frente. Não podemos nos preocupar com a chuva. É lógico que um tempo seco oferece condições melhores, mas precisamos encarar tudo com seriedade. Esse é o resumo: trabalhar com muita seriedade e procurar executar aquilo que ensaiamos durante toda a semana e o mês, para chegar à rua e apresentar um bom trabalho”, afirmou.
Sombra também explicou que não existe uma avaliação imediata sobre o desempenho da bateria, mas, sim, um processo de observação e análise para identificar os pontos que precisam de ajustes. “Não existe uma avaliação imediata do ensaio. O que fazemos é uma observação, uma análise. Precisamos prestar atenção ao desenrolar para identificar os pontos importantes. Depois, reunimos todos para conversar e avaliar qual foi o saldo. Sem criar expectativas, sempre com os pés no chão. Afinal, é um ensaio. É o momento de errar e corrigir. É mais ou menos assim que funciona”, completou.










