
A última segunda-feira foi de frio e chuva em São Paulo, mas o clima na sede da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP) era de acolhimento e carinho. Na data, dois espaços seriam batizados com nomes de grandes baluartes do Carnaval paulistano. A Sala de Comunicação ganhou o nome de Fernanda Santos, produtora da Rede Globo vítima de um acidente automobilístico (que também foi homenageada no Estrela do Carnaval 2026), enquanto a Sala da Velha-Guarda foi batizada com o nome de Raimundo Pereira da Silva, apelido de Mercadoria, histórico Diretor de Harmonia da folia paulistana. Sempre presente em eventos que homenageiam grandes nomes da história do Carnaval de São Paulo, o CARNAVALESCO entrevistou personagens importantes que fizeram parte da noite especial.
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Sorriso que deixou saudade
A primeira homenagem revelada ao mundo do samba foi a que envolveu a produtora Fernanda Santos. Vítima de um acidente automobilístico no dia 18 de março, a profissional sempre buscou a visibilidade das escolas de samba na Rede Globo – onde trabalhava desde 2005. Renato Remondini, popularmente conhecido como Tomate, fez um breve discurso antes de chamar Dalton Ferreira, companheiro de Fernanda na emissora, para puxar o tecido que cobria a homenagem – ato seguido de aplausos, lágrimas e sorrisos por todos os presentes.

Flávio Santos, um dos irmãos de Fernanda, foi sucinto ao falar do evento: “Receber essa homenagem na sede da Liga-SP é muito especial. Isso é reflexo e fruto do trabalho que ela realizou. É uma homenagem merecida e nós ficamos muito felizes por isso”, comentou. Célia Santos, também irmã da produtora, continuou: “Completando o que o Flávio falou, também acho que é uma homenagem merecida. Ela era muito dedicada, o Carnaval a representava de uma forma muito expressiva em termos profissionais e ela sempre repassou para a gente o que o Carnaval representava para ela”, disse.

Ambos também comentaram sobre uma característica marcante da irmã – que, inclusive, está presente nas duas fotos utilizadas pela Liga-SP para eternizar Fernanda: “Nós temos um lema na nossa família: sorrir. O meu pai sempre sorriu muito e a minha mãe também. A gente consegue sorrir até no que não tem graça, mas a gente sorri porque a gente tem que buscar forças para continuar lutando – e o sorriso nos contempla”, registrou Célia. Flávio foi além nas lembranças: “O sorriso da Fernanda me remonta ao início da vida dela, quando ela tinha dois ou três anos, quando eu chegava em casa do trabalho e ela me abraçava sorrindo. Isso me marcou bastante. E ela trouxe isso por toda a vida que ela esteve aqui conosco”, recordou.
Diretor eternizado
Talvez você não conheça Raimundo Pereira da Silva pelo nome, mas, ao citar o apelido Mercadoria, a importância de um dos Diretores de Harmonia mais conhecidos da história do Carnaval paulistano fica evidente. Ele, agora, é o nome oficial da Sala da Velha-Guarda na Liga-SP – e reuniu diversos integrantes de tais alas na sede da instituição.

Logo depois do tecido, puxado por Renato Gomes da Silva (popularmente conhecido como Fuskão, mestre da Só Quem É, bateria da Imperador do Ipiranga, em dois carnavais; e diretor da Bateria Com Identidade, do Rosas de Ouro), filho de Mercadoria, cair, o eterno Diretor de Harmonia chorou em ação repetida por muitos presentes no momento. Com muitas brincadeiras e descontração, os sambistas logo se reuniram e começaram a entoar alguns sambas em plena sede da Liga-SP.

Em entrevista, Mercadoria fez questão de exaltar os bambas que são homenageados na sala que, agora, tem o nome dele: “Eu não tenho palavras para explicar isso, eu te juro. Tudo na minha vida, de uns anos para cá, está sendo homenagens. A participação no desfile de escolas de sambas de São Paulo com a Velha Guarda, que não tinha voz antigamente… nós, os velhos, não tínhamos voz nas escolas de samba. Agora nós temos. Tem que respeitar nossa cultura, tem que respeitar nossa velhice. Nós chegamos primeiro, nós construímos isso aqui. Quem chegou agora só está aqui, só é presidente de escola de samba, porque nós, sambistas da Velha Guarda, construímos o caminho para eles estarem aqui hoje”, comentou.

Além de Fuskão, Mercadoria também é pai de Adriana Gomes, histórica porta-bandeira do Carnaval paulistano, com passagens premiadas e laureada por títulos na Mocidade Alegre e na Mancha Verde. Ambos, filhos do casamento com Maria Gilsa, igualmente histórica porta-bandeira da cidade de São Paulo, foram citados pelo baluarte: “Hoje eu vejo que tudo valeu a pena. Se eu tivesse que fazer tudo de novo, eu faria. Com certeza. É a coisa que eu sei fazer e faço de coração. Está aqui a prova, esses dois. É de coração, eles são o meu esteio, são a minha segurança! São eles que me ajudam a fazer isso aqui”, comentou.

Atualmente na Mocidade Unida da Mooca, Mercadoria é muito lembrado pela passagem como diretor de Harmonia do Rosas de Ouro na década de 1980, também passando por coirmãs como Unidos de Vila Maria e Estrela do Terceiro Milênio. Ele próprio deu o recado: “Ame a tua escola de samba. A sua escola de samba vai ensinar a você ser uma pessoa melhor na vida. O samba ensina a gente a ser uma pessoa melhor. Por isso eu digo: ame”, suspirou.

Respeito à história
Tomate destacou que as homenagens a Fernanda e Mercadoria são mais do que justas e comentou que outras já foram feitas: “Nós só estamos fazendo algumas obrigações que a Liga-SP já deveria ter feito há algum tempo. Tudo tem a sua hora e tem o seu momento. Infelizmente, a Fernanda a gente gostaria de fazer um outro tipo de homenagem, mas nada mais justo do que vocês, apaixonados pela imprensa, que sabem do carinho dela, sabem do amor que ela sempre teve, e obviamente de tantas pessoas também importantes da imprensa que já nos deixaram, nós escolhemos fazer essa lembrança com o nome dela – embora obviamente ela seja extensiva a todo mundo da imprensa, sobretudo a quem. Já tiveram tantas participações importantes para a gente vindas da imprensa! E falar do Mercadoria é falar de gratidão. Falar de um cara que a vida dele é o Carnaval, a vida dele é o samba, a vida dele é lutar pela nossa cultura. É muito justo fazer uma homenagem em vida. Nós tivemos a oportunidade, no ano passado, de já fazer homenagens para o seo Jamil e para o presidente Sidnei Carriuolo. É a Liga-SP fazendo o seu o seu papel de reconhecimento e respeito às pessoas que tanto fizeram e fazem por nós”, disse.

Quando perguntado sobre o aniversário da Liga-SP, que completará quarenta anos no dia 19 de julho de 2026, Tomate buscou valorizar ações cotidianas e igualmente importantes: “O mais importante sempre é que o sambista se sinta respeitado. Eu sempre volto nesse tema em todas as entrevistas e a gente sabe que é difícil, tem muita para a gente melhorar, tem muita coisa para a gente se atualizar. Mas o mais importante é ter a certeza que, seja nessa minha gestão, que termina no próximo ano, e nas próximas gestões, que a gente não perca essa essência. A essência do reconhecimento, da gratidão e que o sambista, de uma forma ou de outra, se sinta respeitado. A gente não vai conseguir agradar todo mundo, não tem jeito: não há o que fazer porque as pessoas pensam diferente, a gente vive numa democracia – graças a Deus. Você pode concordar ou discordar, faz parte: se você não se sentir desrespeitado por uma opinião, nós chegamos ao nosso grande objetivo”, finalizou.









