O terceiro e último ensaio técnico da Estrela do Terceiro Milênio no Anhembi visando o carnaval 2023 já seria mais agitado por natureza. A derradeira apresentação da Coruja antes da tão aguardada estreia no Grupo Especial teve um clima irregular – no céu e na passarela. Com chuva e garoa alternando com tempo seco, a agremiação da Zona Sul teve episódios que, até então, não tinham acontecido em apresentações da comunidade do Grajaú, que defenderá o enredo “Me Dê a Sua Tristeza Que Eu Transformo em Alegria”.

Comissão de frente

A derradeira apresentação da escola teve um início idêntico aos dois primeiros: um tripé coberto e uma comissão de frente com uma coreografia bastante curta, quase que basicamente executando danças de acordo com o verso do samba executado – as exceções se davam à frente das cabines de jurados (agora identificadas), em que alguns atos novos aconteciam.

Os destaques, portanto, seguem os mesmos. Com componentes bastante expressivos, chamando quem estava no corredor para interagir junto com eles, os componentes merecem ainda mais exaltação por conta das condições climáticas: alternando tempo seco com períodos de garoa e chuva mais intensa, não foram notados erros de execução em momento algum do bailado.

Samba-Enredo

Já conhecido do grande público e, sobretudo, dos componentes da escola, a canção teve condução bastante convincente do carro de som da Estrela do Terceiro Milênio, novamente capitaneado luxuosamente por Grazzi Brasil. Mais uma vez com destaque para o momento em que, no verso “sou o riso da criança”, ritmistas se abaixam e começam a tocar os respectivos instrumentos em volume menor tal qual os vocais do carro de som, não houve parcela de culpa dos integrantes de tal segmento em qualquer ocorrência relacionada a outro quesito.

No dia do desfile oficial, Grazzi teria a companhia de Bruno Ribas – que, mais uma vez, não participou do ensaio técnico por estar na Unidos de Padre Miguel. Ao elogiar o companheiro de microfone, ela também aproveitou para falar sobre representatividade: “Amo o Ribas. Ele não pôde estar hoje. Eu acho que uma mulher pode estar onde ela quiser, até mesmo em um carro de som. Mas ainda é um processo até conseguir de fato esse lugar. Eu sou uma pessoa que não tenho dificuldade nenhuma de dividir, até porque são todos meus amigos”, destacou.

Também é importante destacar a ótima condução do samba-enredo pela Pegada da Coruja. Comandados por Mestre Vitor, não faltaram bossas, convenções e atitudes do segmento para manter o ânimo dos ritmistas em alta. Foram registrados quatro apagões dos batuqueiros ao longo do ensaio técnico em duas partes do samba.

Carlos Pires, o Carlão, diretor de carnaval da instituição, também mostrou-se bastante satisfeito com o desempenho da escola como um todo: “Gostei do nosso ensaio! O povo veio, fiquei bem contente. Temos algumas coisas pequenas para ajeitar, mas a escola cantou bem, dançou bem. Os quesitos que estavam em julgamento também foram bem. Estamos prontos para chegar no sábado e mostrar a força do Grajaú. Estamos bem contentes. A gente veio numa crescente, a escola aprendeu a disputar no Grupo Especial. Está pronta, hoje veio a escola que eu espero. Hoje foi o Grajaú e a Estrela do Terceiro Milênio. Hoje foi o nosso ensaio para brigar pelo campeonato, com respeito a todas. Hoje foi o que eu esperava da escola”, prometeu.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O tempo bastante irregular, evidentemente, prejudicou o casal da Estrela do Terceiro Milênio em aspectos técnicos. Daniel de Vitro e Edilaine Campos, entretanto, não deixaram de surpreender, alegrar e emocionar. As condições climáticas, por sinal, foram citadas por ele ao analisar o último ensaio técnico da agremiação do Grajaú. “É horrível lidar com esse vento todo. Se você não tomar cuidado com ele, ele vai te derrubar. Do meio da pista para cá o vento está muito forte. O segredo é girar no sentido anti-horário”, comentou Edilaine. “É difícil lidar com o quão escorregadia fica a pista por conta da água. Os nossos movimentos de perna podem levar à queda, tem que ir na pontinha do pé. Um passo que se fazia grande fica mais complicado. É ensaio: no dia do desfile, pode chover. Temos que estar preparados para essa adversidade”, resignou-se Daniel.

Fantasiados de Dona Hermínia e Paulo Gustavo, em homenagem ao humorista vítima de coronavírus em 2021, ambos chamaram atenção desde o primeiro momento em que foram vistos. Na Dispersão, por sinal, diversos foliões pediram fotos com o Casal.

Até o momento do “estrelato”, entretanto, foram momentos bastante desafiadores. Girando menos que nos dois primeiros ensaios por conta das condições climáticas, Daniel e Edilaine ainda tiveram que vencer as famosas rajadas de vento do Anhembi, que se fizeram presentes nos primeiro e segundo locais de julgamento. Sem girar muito, certamente se poupando para o dia do desfile oficial, eles buscaram um ensaio seguro e sem riscos. Daniel, entretanto, hesitou ao desfraldar o pavilhão na segunda cabine de jurados – o que não se repetiu nas duas seguintes.

Também vale destacar o cuidado de Edilaine, que optou por vir com um calçado sem salto – muito provavelmente por conta das dificuldades que o clima e a passarela úmida trouxeram.

Ambos, por sinal, aprovaram a exibição. “A visão da Dona Ermínia foi de que hoje foi perfeito. Fechamos o último ensaio com chave de ouro. Foi incrível. Preciso mudar o vocabulário, falei isso de novo”, brincou Edilaine. “O ensaio, para a gente, mesmo com a chuva, foi perfeito. Conseguimos cumprir todos os critérios de balizamento. Saímos tranquilos e leves, parece que hoje conseguimos cumprir bem a missão para chegar no dia zeradinho”, pontuou Daniel, que se autodeclarou mais autocrítico que a dupla.

Os dois também aproveitaram para exaltar a comunidade da escola. “A minha comunidade é o ponto forte, sempre. Sem eles eu não existiria. Sem eles você não estaria fazendo essa pergunta e nem teria ensaio técnico. Hoje, mais uma vez, eles foram além do além”, inspirou-se Edilaine. “Mesmo diante de tanta chuva, chegar na Concentração e ter a sua comunidade gritando por você, ver essa felicidade, tomando chuva… é sempre por eles e para eles. Essa comunidade é maravilhosa”, concordou Daniel.

O mestre-sala, por sinal, aproveitou para relembrar o ator que foi homenageado por ele na fantasia do ensaio técnico de hoje: “Levamos ao pé da letra que o enredo da nossa escola nesse ano nada mais é que um tributo ao riso. E, como Paulo Gustavo, de quem eu sou fã incondicional, dizia, rir é um ato de resistência. Precisamos rir, o riso lava a nossa alma”, finalizou.

Harmonia

A escola, que nos outros ensaios técnicos viu a comunidade cantar bem o samba, notou o reflexo da chuva também no canto dos componentes. O primeiro setor teve execução do samba bastante irregular até mesmo entre componentes da própria ala, por exemplo. A ala das baianas, logo no começou da instituição, chamou atenção pela condução da canção na passarela.

O começo de apresentação explosivo da bateria também ajudou no canto da escola, já que os componentes respondiam aos apagões, convenções e bossas propostas.

Mestre Vitor Velloso, comandante da Pegada da Coruja, evitou citar o termo “apagão”: “Hoje foi o mapa real do que vai acontecer no dia. Não tivemos apagões, é como falei na outra entrevista, o apagão maior serve para ver o canto da escola, como está, mas hoje não foi feito. Fizemos os apagões normais que serão feitos realmente no dia, curtinhos. Viemos bem, acertamos o que tinha para acertar. Resolver? Resolvemos. Temos mais quatro ensaios. Vamos pegar firme para chegar no dia 18 alinhadinho”, pontuou.

O ritmista-mor aproveitou, também, para elogiar a evolução dos batuqueiros: “Bossas, andamento, desenho… enfim. Limpamos algumas coisinhas, tiramos desenho daqui, dali, modificou uma coisa ali, aqui. Hoje foi legal, perfeito. Agora é esperar o dia. Podem esperar uma batucada muito valente, que é uma característica nossa. Várias paradinhas, não economizamos. A gente faz. E é uma bateria alegre, vamos que vamos”, ratificou.

Não foi apenas o canto, entretanto, que prejudicou o ensaio no quesito. O staff da escola pedia para que, além de cantar mais o samba, a ala logo depois do segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira prestasse mais atenção ao alinhamento de cada componente.

No geral, uma apresentação entre regular e boa do quesito – mas com pontos de melhoria. A escola ficou cerca de noventa segundos parada para que os ritmistas recuassem, e o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira, também precisa do evoluir, tiveram certa morosidade ao preencher o espaço.

Ao citar o canto da Coruja, Grazzi Brasil, intérprete da escola, destacou os componentes: “A energia a gente vê que está maravilhosa. O nosso processo no carro de som estamos nos entrosando, se dedicando. Espero que dê tudo certo no dia do desfile. Estou ansiosa, mas acho que foi bonito. Está demais essa cantoria. Tem um chão que pelo amor de Deus. É acreditar nesse projeto, ter garra e muita vontade de estar no Especial. Você olha no olho e é aquela energia. Eu cheguei ano passado e era a mesma coisa. Eu só posso agradecer essa comunidade maravilhosa. Realmente é mágico”, elogiou.

Evolução

A Estrela do Terceiro Milênio teve, ao longo do ensaio técnico, andamento inconstante. A agremiação pareceu ter um começo mais moroso – fruto das condições climáticas que prejudicavam segmentos que dependem da dança, como comissão de frente, casal de mestre-sala e porta bandeira e uma ala coreografada. Tanto que o segundo carro alegórico passou pelo final do Setor D com cerca de 46 minutos. Depois de tal minutagem, por alguns minutos, a agremiação apertou o passo. Cerca de seis minutos depois, entretanto, o staff pediu para que os componentes voltassem a “ir na boa”, como dito por uma Harmonia. No fim, o ensaio técnico foi encerrado em 63 minutos – dois antes do tempo máximo permitido pelo regulamento.

Outro ponto que chamou atenção ocorreu quando a ala das baianas e o espaço destinado ao carro abre-alas passava pelo Setor C. Um espaço bastante considerável se abriu, e o staff da escola demorou alguns minutos para preenchê-lo. Foi possível ver cobrança entre integrantes da Estrela do Terceiro Milênio naquele momento.

A entrada do recuo da bateria, por sinal, também teve pontos de melhoria – embora não tenha sido a pior execução nos ensaios técnicos do Anhembi.

Carlão concordou: “Corrigimos tudo que achávamos que poderia ser melhorado nos dois primeiros ensaios. E, hoje, encontramos alguns pequenos detalhezinhos para acertar”, relembrou.

Outros destaques

– Durante o ensaio técnico da Tom Maior, escola que se apresentou antes da Estrela do Terceiro Milênio no Anhembi, componentes de pelo menos três alas da agremiação ensaiavam coreografias e cantavam na parte coberta do primeiro anel da Arquibancada Monumental.

– Ainda sobre a chuva, Carlão preferiu acreditar na força da comunidade do Grajaú: “A chuva, para nós, não influi em nada. Tem que cantar e dançar do mesmo jeito. A gente vem do Grajaú pesado para cantar e dançar muito na chuva e na tempestade. Estamos querendo vir para cima. Não tem chuva que atrapalhe”, destacou.

– Boa parte dos apagões da bateria foram feitos nos primeiros 40 minutos do ensaio técnico.

– Pouco antes do abre-alas haviam cerca de cinco componentes fantasiados com temáticas de palhaço executando coreografias arriscadas para as condições climáticas do local. Nenhum erro foi observado.

– A ala 09, bastante extensa, tem um tripé no meio dos componentes. O espaço destinado a ela é similar ao de alguns carros de outras coirmãs.

– Ao contrário dos outros ensaios técnicos, a corte de bateria teve roupa única: um collant azul. A exceção era Carla Diaz, com fantasia predominantemente branca.

Colaboraram Fábio Martins, Gustavo Lima e Lucas Sampaio