
No último sábado, terceiro dia da CONASAMBA, foi realizado o encontro “Ouvindo quem nos ouve: a imprensa, os ativistas e os pesquisadores”, reunindo profissionais da comunicação, pesquisadores e personalidades influentes na cultura e na economia do Carnaval. Entre os participantes da mesa esteve o editor-chefe do CARNAVALESCO, Alberto João, que apresentou um panorama da trajetória do portal e compartilhou sua visão sobre os rumos do Carnaval na atualidade. Também participaram do debate a jornalista do Grupo Bandeirantes, Thaís Dantas; a tesoureira da ESA (Escolas de Samba Associadas), Aline Vieira; e o babalorixá Rodney William, que abordaram temas relacionados à comunicação, cultura, ancestralidade e desenvolvimento do setor carnavalesco. O encontro foi marcado por reflexões relevantes e pela participação do público, que fez perguntas aos convidados e contribuiu para um debate tão produtivo que ultrapassou o tempo previsto pela organização da Fenasamba. A equipe do CARNAVALESCO acompanhou a atividade e reúne, a seguir, os principais destaques das falas dos participantes.
Portal referência no carnaval
Alberto João destacou sua trajetória e a importância do CARNAVALESCO, além do crescimento do carnaval carioca. O jornalista enfatizou sua preferência pelo modelo de jornalismo baseado em texto, apesar do enfraquecimento desse formato nos últimos anos.
“De 2018 para cá, é impressionante o que o CARNAVALESCO se tornou. Estamos em tudo, principalmente no Instagram. Só que, para mim, isso não é uma cobertura essencialmente jornalística, mas de entretenimento. Apesar de muita gente não gostar, eu sou do modelo de texto. Acredito que ele deixa marcas. Uma grande entrevista em formato de ‘pingue-pongue’ fica registrada. Claro que um vídeo com a Selminha Sorriso, por exemplo, será muito legal, mas acaba sumindo no feed. A busca nas redes sociais é muito ruim. Temos uma equipe de cerca de 30 pessoas no Rio de Janeiro, mas já chegamos a ter 150. Nosso objetivo é formar profissionais com o olhar do CARNAVALESCO, pensando nos nove quesitos. Ninguém é dono da verdade. Erramos e acertamos, mas essa é a nossa essência”, disse.
Ao exaltar a CONASAMBA, o editor-chefe ressaltou a importância da troca de conhecimentos sobre o Carnaval entre diferentes cidades, mas foi firme ao comentar a ausência da Liesa nos quatro dias de evento promovidos pela FENASAMBA.
“Quero parabenizar a FENASAMBA por realizar um evento como este. Não é fácil. Minha mensagem hoje é que nós, sambistas, somos muito pessimistas. A galera que lutou lá no início sofreu por nós. O Carnaval chegou à classe média e à classe alta, mas não podemos esquecer de onde ele veio. Essas pessoas precisam ser enaltecidas. Eu lamento que a Liesa não esteja aqui. Ela tem que participar. É a mãe de todas as escolas de samba. Não estar aqui é soberba, é achar que está acima de todos. Ela precisa ser querida por todos os sambistas. Também temos que parabenizar o carnaval do Sul do país. Estou impressionado com a quantidade de desfiles na região. Podem contar sempre com o CARNAVALESCO”, declarou.
Questionado sobre as verbas destinadas ao Carnaval pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, Alberto João foi enfático ao afirmar que é fundamental que o Carnaval carioca esteja vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, e não à Riotur.
“O Carnaval deveria estar na Secretaria de Cultura, e não na Riotur. Na questão dos blocos, São Paulo tomou de assalto o Rio de Janeiro; até Belo Horizonte parece que ficou maior. Tem que ter ambulância, só pode aquela cerveja… Aquele carnaval de rua que era livre acabou”, completou.
História dentro do audiovisual
Thaís Dantas contou sua trajetória como jornalista, especialmente no Carnaval. Ela afirmou ter participado de iniciativas importantes, como a transmissão dos desfiles do Grupo de Acesso e do Desfile das Campeãs pela TV Cultura, em parceria com a TV Globo, em 2004. Além disso, revelou ter contribuído para o recente acordo entre a Band e a Liga-SP para a transmissão do Grupo de Acesso.
“A minha história com o Carnaval começou ainda na infância. Meu pai foi diretor de produção da TV Globo por 32 anos e também atuou em projetos especiais no estado de São Paulo, entre eles o Carnaval. Admirando o trabalho dele, formei-me em Jornalismo em 2001 e passei a acompanhar de perto diversas personalidades do Carnaval paulistano. Seu Basílio, Zulu e tantos outros frequentavam a minha casa. Lembro da construção do Sambódromo do Anhembi e de grandes acontecimentos que a mídia tradicional não acompanhava. Nós começamos a participar desse processo e a levar grandes marcas para o Carnaval. A partir daí, passei a enxergá-lo com profissionalismo, e não apenas como um evento social”, explicou.

Atuante na televisão, a jornalista revelou ter coordenado a transmissão da TV Cultura dos desfiles do Grupo de Acesso e do Desfile das Campeãs, fruto de um acordo firmado com a TV Globo.
“Foi feito um acordo entre a TV Cultura e a Globo para a transmissão do Carnaval de 2004. A Globo ficou com o Grupo Especial, enquanto a Cultura transmitiu o Grupo de Acesso e o Desfile das Campeãs. Como eu já trabalhava na Cultura e conhecia o Carnaval, prontifiquei-me a coordenar a transmissão. Naquele ano, São Paulo comemorava seus 450 anos, o que tornava ainda mais simbólica a exibição pela TV Cultura. Foi uma parceria muito bacana e que se repetiu por alguns anos. Quando a TV Globo percebeu que a iniciativa poderia gerar concorrência, a parceria foi encerrada e eu voltei aos bastidores”, contou.
Thaís revelou que, apesar de morar longe atualmente, nunca deixou de pensar no Carnaval paulistano. Segundo ela, teve papel importante na aproximação entre a Band e a Liga-SP para a transmissão do Grupo de Acesso neste último Carnaval.
“Hoje estou na TV Bandeirantes, em São José dos Campos, mas, mesmo distante, queria ajudar o Carnaval de alguma forma. Sempre incentivei as pessoas a valorizarem o Carnaval de São Paulo. Insisti para que houvesse uma conversa e reuni representantes da Liga-SP e da Band para discutir a transmissão do Grupo de Acesso I. Eu imaginava um contrato inicial de apenas um ano, mas o Seu Johnny sugeriu um acordo de três anos. Depois disso, surgiu o desafio de desfilar em todas as escolas e nasceu o projeto ‘No Ritmo Delas’, que foi abraçado pela Bandeirantes”, concluiu.
Respeito aos idosos
Rodney William, babalorixá e integrante da mesa de debates, ressaltou a importância das velhas guardas e dos idosos dentro do Carnaval. Segundo ele, os componentes dessa ala precisam ser mais valorizados e melhor tratados dentro do espetáculo.
“Tenho trabalhado com idosos em territórios ligados ao candomblé e encontrei a possibilidade de mostrar que a velha guarda não representa apenas a resistência de uma escola de samba, mas também o núcleo de preservação da ancestralidade. A partir daí, iniciamos uma pesquisa para entender se o samba promove o respeito a essas pessoas e de que maneira isso acontece. Talvez as escolas de samba ainda não tenham dimensão de que possuem a responsabilidade de transformar a sociedade. Esses corpos que estão ali, sambando e resistindo, precisam de bem-estar. Pensando especialmente nos idosos, nas velhas guardas e nas baianas, reunimos profissionais de diferentes áreas, incluindo a comunicação, para produzir reflexões e dados sobre o tema”, disse.

O babalorixá também afirmou sentir falta da valorização que as velhas guardas recebiam antigamente, quando tinham papel de destaque na abertura dos desfiles.
“A velha guarda apresentava as escolas de samba como guardiã da ancestralidade. Com o tempo, e muito por conta da lógica financeira, que acaba destruindo coisas belas, passamos a ter um Carnaval em que tudo precisa obedecer a cronogramas e critérios que descaracterizam parte da tradição. Hoje parece natural que a velha guarda desfile no último carro alegórico, porque tudo é muito acelerado. Se estivéssemos no ritmo dos anos 1970, isso não seria um problema”, afirmou.
Suporte à cultura
Entre os participantes da mesa, Aline Vieira foi uma das mais críticas. Ela questionou a forma como as escolas de samba são vistas pela sociedade, muitas vezes apenas como entretenimento.
“O que fazemos dentro das comunidades muitas vezes não é reconhecido pelo poder público. O Carnaval não pode ser visto apenas como entretenimento. Ele não começa em janeiro, mas logo após o término do desfile anterior. Pensar o Carnaval é muito mais do que pensar no desfile. Às vezes, os mais novos têm dificuldade para ouvir os mais velhos, e vice-versa. Acho que parte do problema está aí. Há um samba de Paulo César Pinheiro que fala da saudade do samba de antigamente, aquele que deixava uma vaga tristeza no peito. Será que o samba é apenas uma cerveja no fim de semana? Não. A escola de samba não é apenas aquele barracão efervescente que vemos próximo ao desfile.”
Tesoureira da ESA (Escolas de Samba Associadas), de Belém, Aline explicou sua função dentro do Carnaval.
“Qual é o meu papel no Carnaval e na minha cidade? Trabalho há mais de dez anos com política cultural. Atuo com leis de incentivo, artesãos, compositores e pessoas que muitas vezes não enxergam seu talento artístico como profissão, embora ele seja. Quem produz adereços, artesanato ou composições para o Carnaval é um artista. Minha principal habilidade é oferecer suporte a essas pessoas por meio da cultura”, declarou.
Aline também criticou a comunicação do Carnaval, especialmente os efeitos dos algoritmos das redes sociais. Segundo ela, há muitas iniciativas acontecendo pelo Brasil que permanecem desconhecidas do grande público. A dirigente revelou ainda que está desenvolvendo um trabalho inovador em Belém.
“Percebi que existe muita coisa acontecendo no Carnaval brasileiro, mas nós não nos conhecemos e não dialogamos o suficiente. Temos as redes sociais, mas há um algoritmo que limita esse alcance. Em Belém, estamos construindo uma virada de chave. Nosso presidente, Guga, vem do audiovisual e também do meio empresarial. A comunicação de hoje é muito intuitiva. Nós decidimos parar de falar sobre Carnaval apenas para quem faz samba e passamos a dialogar também com recepcionistas de hotéis, motoristas de aplicativo e outros profissionais. Precisamos aprender a levar essas informações de forma correta para toda a população”, finalizou.









