
Foi realizada na noite da última quinta-feira mais uma eliminatória para a escolha do samba-enredo da Unidos da Tijuca para o Carnaval 2027. A escola, que será a segunda a desfilar na segunda-feira, levará para a Avenida o enredo “A Cabeça do Santo”, que está sendo desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato. Foram apresentados cinco sambas concorrentes na quadra da escola, no Santo Cristo, com destaque para as parcerias de Arlindinho Cruz, Lico Monteiro e Ian Ruas. A escola vai anunciar o samba eliminado nas redes sociais nesta sexta-feira ou na segunda. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações das cinco parcerias que estão na disputa.
Parceria de Samir Trindade: O samba de Samir Trindade, Kleber Rodrigues, Sandro Nery, JP Figueira e Guilberth Castro foi cantado por Evandro Malandro e Tem-Tem Jr. A obra trouxe uma mistura do fictício com a vida real, ao falar da realidade tanto de Caridade, cenário da narrativa do livro A Cabeça do Santo, quanto do Morro do Borel, conseguindo fazer uma conexão: “Minha história é sertaneja brasileira / Feito tantas por aqui / Tipo gente do morro que pede socorro / Para o santo acudir”. Isso se faz repetir em seu refrão principal: “Ê Santo Antônio, em teu colo a esperança / Que é toda criança do sertão e do Borel / Sou Tijuca, vai ter samba e ladainha / No terreiro ou na igrejinha, lá na Rua São Miguel”. Um destaque que conquistou a todos os presentes na quadra foi o trecho “Rodeia, rodeia, rodeia, meu Santo Antônio / Rodeia”, que traz uma famosa cantiga religiosa e foi cantado em todas as passadas. Um trecho que também se destacou bastante foi “Ouvi a voz de um povo sofredor / A mesma fé que uniu destinos me envergonhou”. O samba teve uma levada moderada, mas, com os seus intérpretes, conseguiu descontrair. A obra foi cantada pelos presentes e a ala dos passistas.
Parceria de Arlindinho: O samba de Arlindinho Cruz, Fred Camacho, Bruno Dallari, Igor Leal e Diego Nicolau foi defendido por Igor Sorriso e Rodrigo Tinoco, além de Diego, que também é um dos autores. Um dos destaques da noite, o samba trouxe uma melodia com muitas variações interessantes, além de trazer um lirismo mais irreverente que conquistou a maioria do público presente. A composição traz Samuel narrando a sua própria história: é simples, porém se destaca por sua estrutura rítmica, como nos trechos “Sem sorte, sem eira nem beira / Errante, distante do quê?”, além dos coloquialismos que enriquecem os versos: “Dei com os ‘zói’ em Caridade / Nos festejos de Antônio / Achei um canto ‘bão’ pra esticar ‘os pé’ / E acordei com as ‘muié’ me pedindo matrimônio”, que ganha mais força no refrão espirituoso: “Joana queria José / Mas Zé só pensava em Maria / Maria não sabe o que quer / Nem com quem se casaria / Foi tanto causo de amor que apareceu / No fim das contas vi que o santo era eu”. O público presente se empolgou demais no trecho “Ê rodeia / Ê amansador de burro brabo do sertão / Ê rodeia / Ê faz esse conto encantar meu pavilhão”, que pegou rapidamente. Já o seu refrão central, “Êta cadência arretada / Escola danada do meu coração / Tijuca vem e me vira a cabeça / Que Santo Antônio abençoe o Pavão”, mostrou sua força em todas as passadas. A parceria encantou grande parte dos presentes.
Parceria de Ian Ruas: O samba de Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos foi defendido por Vitor Cunha e Dowglas Diniz. A composição traz uma condução mais emotiva e ganhou destaque justamente por esse aspecto, gerando uma carga maior de sentimento. A letra mostra um grande destaque lírico, pois apresenta a perspectiva de Samuel em um tom mais emocional e de uma forma mais poética, como nos trechos: “Mainha, do céu, vem me abençoar / Mainha, me guarda em teu colo / A luz da saudade vagueia no olhar / No brejo, a casinha, o sereno / Memórias que o tempo não pode apagar”. Destacou-se também uma variação da melodia que conseguiu trazer um pouco de “tensão”, como se vê no trecho: “Vá de retro, Belzebu, não me venha assombrar / Padim Ciço me proteja, São Francisco vai curar”. O refrão central, “Em terra de fé, brotou o fruto da oração / Traz viola, meu sinhô / A sanfona anunciou / Tem festança no sertão (vem sambar no meu baião)”, mostrou a sua força. A parceria conseguiu ser muito bem defendida, além de trazer a carga interpretativa que os versos pediam, valorizando a letra e a beleza harmônica de seus intérpretes.
Parceria de Lico Monteiro: O samba de Lico Monteiro, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo Augusto G. da Estiva e Juca foi defendido por Wander Pires. A obra trouxe um olhar mais criativo sobre o que a escola está se propondo em sua proposta, trazendo Samuel em uma perspectiva de contar a sua história. A composição traz um destaque no refrão “É só rezar pra Santo Antônio ouvir / Ô diacho, me esqueça! / Vou achar um cazuá / Atender a simpatia pra Toinho descansar”, que trouxe uma envolvente melodia e fez os presentes ficarem nas palmas. Nos versos “Aos pés do corpo, encontro a redenção / Chorar, chorei / Toca o sino e vem a romaria / Guardo no peito o amor de Rosário / Meu coração se fez moradia”, que empolgou boa parte dos presentes, a obra conseguiu trazer um encanto para boa parte da ala das passistas que estava presente na quadra. Sua performance teve uma defesa que valorizou melodicamente o samba e teve um bom rendimento, sendo também um dos destaques da noite.
Parceria de Leandro Gaúcho: O samba de Leandro Gaúcho, Padre Felipe, Marcelo Moraes, Ricardo Construção e Ailson Picanço foi cantado por Wantuir e Lissandra. A obra puxou muito forte a religiosidade na narrativa, que se aprofunda em uma mistura sincrética muito cheia de brasilidade, como se mostrou nos versos “Vem com Chico e Romão”, “Moganga de boiadeiro, Xetruá” e com seu ápice no refrão “Santo Antônio pequenino do sertão / Eu trouxe a luta! / Venha abrir nossos caminhos, a vitória da Tijuca / Ele é de fé! / Amansador de burro brabo / Se duvida é melhor tomar cuidado”, que, além de brincar com o sincretismo, mostra também uma alusão a uma cantiga religiosa. Um dos destaques ficou para a sua introdução, quando os seus intérpretes cantaram o trecho “Meu pai, quantas vezes te esperei ao pé da porta / Pedi todo dia, roguei sua volta e veja só. / Sempre esteve aqui! / É hora, pai. / De seguir pro meu Juazeiro / Levando um rosário, batendo no peito / Outro milagre ainda está por vir”, que foi um dos pontos mais emotivos por trazer um tom mais sensível à sua narrativa. Outro destaque ficou para o toque regional do vocabulário como recurso criativo, que pode ser visto nos trechos “Da ‘moleira’ de Antônio fez seu usucapião” e “O problema foi o ‘santo’ responder a promessa pra menina se ‘ajuntá’”, que mostram uma bossa e uma personalidade à obra. Mesmo sendo a última a se apresentar, a obra conseguiu empolgar o público que ainda estava presente, principalmente em seu refrão central, “Santo Antônio pequenino do sertão / Eu trouxe a luta…”, que reuniu o público e componentes da escola, sambando e cantando durante toda a apresentação. Sua defesa conseguiu mostrar um bom rendimento durante a noite.









